Sua pele queimava ao toque do que pareciam ser mil ferrões de abelha. As agulhas da máquina de tatuagem perfuravam seus dedos freneticamente, embora o mundo à sua volta girasse em câmera lenta. Era sua sexagésima primeira tatuagem, e a última. Completaria dezoito anos no dia seguinte. As mãos agora não tinham espaços livres de tinta preta.

Os desenhos nas mãos significavam que seus pais carregavam os títulos de Sir e Lady. No caso da família de Endi, isso só foi possível antes dos seus treze anos, quando seu pai recebera uma promoção no governo. Não sabia muito bem do que se tratava, não lhe era permitido fazer perguntas. Também achava que não gostaria muito de saber. Não lhe importava muito, afinal amanhã iria embora de sua casa, só veria os pais uma vez por ano.

O objetivo era que a cada menstruação da mulher, até os dezoito anos, algum desenho fosse marcado em sua pele. Daquela forma todos saberiam como tratá-la nas ruas (não que Endi saísse de casa muito frequentemente). Lady Endi fora criada para manter um papel: o de intelectual, virgem e cética. Criada por um pai cientista e uma mãe moralista, aquilo teria sido facilmente atingido através de confinamento (ao que ela regularmente se referia como cárcere privado) educacional, condicionamento por medo, sessões intermináveis de terapia cognitiva comportamental e aulas particulares de música, português, inglês, francês, lógica computacional e matemática. Excedia-se nas duas últimas.

De acordo com suas características, seus pais decidiriam em qual Academia ela se inscreveria. Poderiam ser a de Produção, que incluia matérias como manejamento doméstico, economia e oratória; a de Ciências Naturais, que abrangia tópicos básicos e elementares (normalmente não ensinados durante a adolescência) e cujas especializações requeriam oito anos inteiros para a compleção dos estudos e que normalmente era a última opção de todas as crianças de sua idade; e finalmente a de Ciências e Segurança.

Havia três semanas que fora aceita na Academia de Ciências e Segurança da província. Era quase uma cidade, dado o seu tamanho. Seus alunos eram contabilizados em quase cem mil. Visto que havia mais de sete milhões de estudantes na província toda, podia vangloriar-se de estar na nata estudantil. Não que tivesse para quem se vangloriar. Fora ensinada e tutorada em casa até receber sua carta. Sabia que os maiores cientistas da sua província se especializaram na ACS e que os grandes campos da computação se concentravam lá: Inteligência Artificial e Redes. Ambos eram bases da economia e política nacionais. O que a lembrava de que teria, também, várias aulas de política. Isso a animava: não fora permitida sequer a encostar nos livros de geografia e história do pai na biblioteca. O máximo que conseguia espiar eram os jornais na casa do vizinho Louis, quando o visitava ocasionalmente e secretamente.

- Já terminou? — uma voz feminina firme veio da porta. Era sua mãe. — Que coisa horrorosa é essa?

Uma lua e uma loba — respondeu Endi, tomando a voz do tatuador, que pareceu assustado com a reação da mulher. Talvez estivesse acostumada com sua mãe colocando a culpa nos servos.

É incomum ter tatuagens assimétricas nas mãos — ela reclamou, cruzando os braços. Talvez fosse um mecanismo de defesa para esconder suas mãos morenas limpas e lisas de desenhos. Só quem podia tatuar as mãos eram as mulheres que menstruaram pela primeira vez em famílias ricas e importantes. Sabia que sua mãe não fora rica durante toda sua vida. Tinha uma vaga noção de que seu pai a resgatara em alguma comunidade de fora da província, onde ela vivia sem luxos e em meio a animais selvagens. A ideia a deslumbrava: sua mãe fora salva de uma civilização primitiva pelo seu príncipe.

- Não sou comum — disse, novamente, com desdém. Estava acostumada a responder sua mãe de mau jeito. Embora ambas soubessem que Endi não planejava dizer tais palavras, ela não podia deixar de sentir um misto de culpa e de orgulho logo em seguida.

- Comporte-se — ela resmungou antes de fechar a porta num estrondo.

Endi Grantham era filha única de John Grantham e Janaína Grantham. Foi investido um milhão de notas novas apenas em sua educação. Sua pele era branca, porém se bronzeava facilmente no verão, seus cabelos eram pretos, lisos e grossos, uma franja reta contornava suas sobrancelhas rasas. Seus olhos pretos puxados e nariz achatado eram herança de sua mãe, mas todos imaginavam que ela era oriental, e não de fora da metrópole. Ouvira de sua mãe, em uma noite em que a escutou chorar sozinha na cama, que não aguentava mais ser chamada de “índia” pelos outros por causa de seu nariz, seus olhos, seus cabelos e cor da pele. Não sabia o que aquilo significava. Índia. Mas imaginou que fosse uma também, já que carregava tantas características similares às descritas.

Não era comum uma índia carregar tatuagens nas mãos. Não era comum uma mulher entrar para Teoria Computacional na melhor universidade da província. Não era comum que Endi já não fosse virgem desde os catorze. A combinação de todas as suas características não era comum. E Janaína sabia disso muito bem, já que seu marido a proibia e à filha de comparecerem a eventos sociais do governo. Para John Grantham, sua vida fora de casa não dizia respeito às mulheres de dentro, o que a enfurecia. Mas mais borbulhante que isso, em seu peito, era a falta de vontade que sua mãe tinha de contestá-lo. Aceitava as convenções sociais cegamente, mudamente. E Endi não gostava disso, embora não soubesse colocar em palavras.

- Nervosa? — perguntou o tatuador, guardando os instrumentos numa caixinha.

- Hm — resmungou, suspirando. — Não sei. Acho que estou mais ansiosa do que qualquer outra coisa.

- Amanhã é o grande dia, certo? — ele disse, sorrindo, enquanto buscava um trapo limpo e limpava o sangue dos seus dedos. A lua e a loba, uma tatuagem em cada indicador, sangravam sem parar. Nunca fora muito eficiente em cicatrização.

- Viajo às seis — respondeu, devolvendo o sorriso, apesar da dor nas mãos. — Você já saiu da costa leste, Cain?

- Nunca, milady — ele disse, enrolando papel-filme nos seus dedos.

- Não me chame disso.

- Dizem que o inverno chega mais rápido no centro da província — ele continuou, ignorando-a.

- Isso é impossível, estamos distribuídos na linha do equador, não tem como o inverno chegar mais rápido no centro, é tudo uma questão de ângulo entre o sol e a terra — respondeu monotonamente.

- A ciência só vai até certo ponto, milady — ele disse, puxando as mãos de Endi para um último checkup.

Cain tinha um misto entre pele bronzeada e negra. Seus olhos eram quase claros, de um tom âmbar. Sabia que ele vivia na praia e sempre que possível, lhe trazia tokens como conchas e estrelas-do-mar mortas. Todos eles foram jogados fora imediatamente, é claro. Ninguém poderia saber do seu apreço pela jovem Endi.

Ela gostou de seu toque desde o primeiro dia em que o conheceu. Na época era muito jovem, não tinha mais do que treze anos. Havia acabado de menstruar, sua cólica estava em um grau insuportável, e ainda por cima teria de ser perfurada com mil agulhas por um homem estranho, que nunca vira antes. Naturalmente, ele a observava como um adulto a uma criança. Encontraram-se seis vezes, uma em cada mês, antes de Endi perder sua virgindade com seu vizinho de dezesseis anos, Louis. De alguma forma, seu corpo se esculpiu depois do evento. E Cain percebeu.

Ele provavelmente julgava o contato como inapropriado, em primeiro lugar por causa da idade (ele com vinte e três, ela com catorze) e em segundo havia o fator da classe social. Sofreria muito mais do que prisão se investisse na filha adolescente de John Grantham.

Endi não pretendia colocá-lo em situação difícil, mas já havia muito tempo desde de que dormira com um homem pela última vez. E a eletricidade transparente entre os dois se aflorou mais uma vez naquele toque gentil e bruto ao mesmo tempo. Agora ela tinha dezessete, ele vinte e oito. Suspirou e fechou os olhos, numa tentativa de frear o seu desejo. A cadeira de repente ficou desconfortável.

Ele percebeu sua expressão óbvia de prazer.

- Nunca mais vou te ver — ele disse, deslisando suas mãos pulso abaixo. — Vou?

- Não — ela respondeu, suspirando mais uma vez, abrindo seus olhos puxados e encarando-o com seriedade. Aquela pausa poderia ter durado vinte minutos e nenhum dos dois perceberia. Endi sentia um formigamento na garganta, seus olhos ficaram secos e pontadas agudas de vontade surgiam entre suas pernas.

- Posso te perguntar uma coisa? — disse ele, respirando um pouco mais rapidamente. Ela fez que sim, e ele continuou. — Desde quando… você…

- Desde sempre — ela respondeu exasperadamente. Ela não queria conversar. E ele entendeu.

As mãos de Cain escorregaram dos cotovelos de Endi para suas coxas. Ele estava ajoelhado em sua frente. Sua pele morena e calejada buscou a barra de sua saia e entrou em contato direto com seu corpo. Suas mãos avançaram e se retraíram com urgência através de suas pernas.

Endi não poderia acreditar no que estava acontecendo. Sorriu com vontade antes de puxá-lo para um beijo entusiasmado, o que fez com que os dois se levantassem. Ela era uma cabeça mais baixa que ele. Seu corpo forte a levantou pelas pernas e a carregou para a parede mais próxima.

- Isso é errado — ele resmungou, no caminho. — Estamos quebrando quantas regras?

- Umas mil — ela respondeu, com um gemido, ao ser pressionada contra o papel de parede azul-chato.

Ele mordeu o lóbulo de sua orelha antes de descer seus lábios pelo pescoço e voltar a procurar sua boca. Seus lábios eram macios, a asperez de sua barba mal-feita só aumentava o calor em sua virilha. Conseguia sentir o volume dentro das suas calças encostando em suas partes íntimas, o que a fazia apertá-lo a cintura cada vez mais forte.

Finalmente, ele a abandonou no chão para conseguir tirar as próprias calças. Endi arrancou a própria blusa o mais rápido que pôde, mas antes que finalizasse o ato, Cain alcançou suas calcinhas e as puxou para baixo, de forma que agora estava vestida apenas com a saia. Seu membro ereto apontava para o teto.

- Faça rápido — ela disse em um sussurro, enquanto ele a levantava contra a parede uma segunda vez. — A porta está destran… — Antes que pudesse terminar a fala, sentiu-o dentro de si em um delírio. Cada investida a fazia gemer mais alto. Ao mesmo tempo que tentava explorar seu peitoral, encontrava dificuldades em tirar as mãos dos próprios seios. Apertava os mamilos com os indicadores e os polegares, enquanto sentia a respiração acelerada de Cain na sua têmpora. Seus grunhidos primitivos a excitavam cada vez mais e os arrepios ficavam cada vez mais frequentes.

Uma queimação a surpreendeu, vinda do seu ventre, percorreu seu estômago e atingiu seus olhos, em um flash de luz e prazer. Cain a comia de forma frenética, e ela contraiu cada músculo de seu corpo, soltando um gemido muito agudo. Ele finalizou em três fortes estocadas, mordendo o lábio inferior de Endi.

Ela caiu, imóvel no chão, ao seu lado. Ainda sentia as consequências do orgasmo. Sabia que aquilo foi um orgasmo porque nunca sentira algo parecido antes. Não havia transado com poucos homens, mas ninguém nunca conseguira tal efeito nela.

- É melhor você ir embora — ela sussurrou, enquanto recuperava as roupas perdidas pelo chão. — Ainda preciso jantar com meus pais.

Ele retirava o sangue da sua menstruação do pênis, suspirando. A maioria dos homens sente desgosto ao sequer imaginar o contato com os fluidos vaginais, mas Cain parecia não ligar muito. Não o julgaria muito se ligasse, só a faria pensar que seu desejo foi maior que sua vontade de evitá-la. Seria aquilo algo bom?

- Queria te ver mais uma vez — ele resmungou, finalmente vestindo as calças. — Te ver uma vez por mês sempre me fez muito bem.

- Você sabe que isso é impossível — respondeu, enfiando a camisa por dentro da saia. — E mesmo se fosse… eu não acho que gostaria de voltar para cá algum dia no meu futuro.

Os dois terminaram de se trocar durante um silêncio constrangedor. Ela checou sua aparência no espelho, para verificar se algo estava fora do lugar. Suas vestes pretas e brancas pareciam impecáveis. Antes que pudesse sugerir que ele fosse embora, escutou sua voz indagadora:

- Por que odeia seus pais?

- Não odeio meus pais, eu odeio meu pai. Singularmente — ela respondeu, um tanto incomodada com a pergunta. E também com a sua resposta totalmente sincera, o que a causou culpa. Por que diminuía a imagem do pai a um completo estranho?

- Ele fez tudo para te proteger — ele retrucou, arrumando a sua mala com o equipamento de tatuador. — Só quis seu bem.

- E talvez seja por isso que nós dois não daríamos certo — Endi disse, sorrindo, ficando à sua frente. Sentiu a verdade escorregando pelos lábios novamente. Acrescentou, acariciando-o no rosto: — Eu sou frágil, vulnerável, fraca. Sou. Mas poderia ter sido forte, não fosse meu pai. Nada vai me fazer perdoá-lo, nem mesmo as milhões de notas novas que ele gasta comigo todo ano.

- Parece um pouco ingrato da sua parte — Cain disse, mas antes que Endi pudesse protestar, sua mãe entrou novamente no cômodo, num estrondo. Ela não disse nada, apenas ficou lá, com os braços pendurados ao lado do corpo.

Endi pôde perceber a infelicidade de Cain. Ele não poderia se despedir dela apropriadamente. Suspirou e sorriu.

- Boa sorte amanhã, milady — disse, pegando as ferramentas e passando por Janaína, sem olhar para trás. Talvez ele pensasse que Endi lhe mandaria cartas. Ou ligaria para ele.

Sentou-se no divã branco e esperou alguma palavra de sua mãe. A decoração do cômodo não condizia em nada com a sua época. Seus livros de história nunca mostravam imagens, e muito menos se importavam com a trajetória arquitetônica e decorativa das populações de antigamente.

- Torça para o seu pai não saber disso — Janaína disse, fechando os olhos e cerrando os punhos. Endi não a via, estava de costas para a mãe.

- Disso o quê? — perguntou, cinicamente.

Ela bufou discretamente.

- Não vamos jantar juntos hoje. É tradicional que você não nos veja até amanhã na partida imediata. Por favor vá para o seu quarto.

Com essa última fala, deixou-a só no que seus pais chamavam de Sala de Reflexão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.