As Três Faces do Medo.
28 Capítulo 27: Mente fragmentada e coração de titânio
Notas iniciais
No capítulo anterior:
Mikoto e Madara narram a história de Izuna, assim como a morte dele e dos pais de Madara. Certas semelhanças entre Izuna, Naruto e Sasuke são deixadas em evidência. Madara agride Sasuke, enquanto Naruto permanece inconsciente.
Kisame é executado diante de Shisui, quando ambos estavam em uma lanchonete próxima ao hospital onde Itachi e Minato estão internados. Kabuto tenta aplicar algo em Minato e Itachi, mas Jiraiya aparece e o impede. Fugaku consegue a lista de todas as propriedades Uchiha e repassa parte delas para Obito.
Agora:
Após toda a comoção na lanchonete ao lado do Hospital e também da tentativa de assassinato por parte de Kabuto, a segurança foi reforçada, sendo que Yahiko assumiu a responsabilidade de supervisionar a segurança. No entanto, isso não acalmou minimamente as famílias.
Fugaku repassou a lista das propriedades Uchiha para Ibiki, assim como Obito repassou para Kira A, que havia enviado alguns de seus agentes para ajudar na busca dos dois rapazes e, principalmente, para capturar Madara.
As fotos de Madara, Sasuke e Naruto foram encaminhadas para todos os aeroportos, rodoviárias, postos de pedágio e etc. Os helicópteros e jatinhos pertencentes à família Uchiha foram, momentaneamente, tirados de circulação e os heliportos foram fechados.
As buscas continuaram incessantemente, até que não havia mais onde procurar dentro da área de busca traçada. Tudo que a polícia conseguiu em uma semana de busca dentro de Konoha e nos arredores dela foi prender alguns capangas de Madara e reunir pistas suficientes para prendê-lo.
Mas não conseguiram nem uma única pista sobre onde o homem poderia estar. Madara parecia ter virado poeira e tinha levado junto dele dois dos herdeiros mais importantes do País do Fogo.
Fugaku acompanhava de perto toda a investigação e se recusou a ser deixado no escuro, passava o dia auxiliando a polícia nas buscas. A noite ia ao hospital para ficar junto da esposa e visitar Itachi, que já estava com o quadro clínico estabilizado e podia receber visitas regularmente, assim como Minato. No entanto, eles ainda não tinham acordado.
As duas famílias se recusavam a sair do hospital e, devido a isso, Gaara se comprometeu a levar para eles tudo que eles precisavam e, inclusive, levou alguns presentes que os colegas de Naruto quiseram dar as duas famílias, como demonstração de apoio.
A primeira semana de buscas passou e as famílias entraram em desespero. Ofereceram recompensas a quem tivesse alguma pista sobre Madara e, com isso, várias pessoas entraram em contato com a polícia passando informações sobre ele.
Mas todas as informações foram frias.
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Fugaku estava sentado ao lado da cama de Itachi, observava em silêncio o rosto doentiamente pálido do filho e sentia o coração pesar de remorso. Porque não o tinha escutado quando teve chance? Porque tinha que ser tão cego?
Tocou uma das mãos do mais jovem e agradeceu internamente por sentir a pele quente. Precisava disso para reafirmar que seu filho estava vivo e para renovar a ansiedade de vê-lo saudável e acordado.
Sentiu o celular vibrar e levantou-se da cadeira desconfortável em que estava acomodado. Afastou-se de seu primogênito a passos rápidos, porém silenciosos, e atendeu o celular.
— Alô?
— O soldado lhe alugou seu antigo lar — a voz jovem e fria soou, logo sendo seguida pelo som de chamada encerrada.
Fugaku encarou o aparelho e percebeu que o número estava bloqueado e, provavelmente, nem a polícia iria conseguir rastrear aquela pessoa. Com certeza era alguém passando algum trote.
— Malditos sádicos — murmurou irritado. — O soldado lhe alugou seu antigo lar? O que ele estava pensan… — se interrompeu e arregalou os olhos.
Virou-se para Itachi e voltou a se aproximar; levou uma mão pálida aos cabelos do filho e abriu um mínimo sorriso.
— Eu voltarei com seu irmão — sussurrou e olhou para o outro ocupante do quarto. — E com seu filho, Minato — afirmou baixo, porém com convicção e saiu do quarto.
Iria primeiro confirmar pessoalmente se o lugar ainda existia e depois entregaria o endereço à polícia. Também não poderia contar a ninguém sobre a dica do desconhecido ao telefone, só uma pessoa deveria saber no momento.
Caminhou até a sala de espera, onde seus familiares e os familiares de Namikaze estavam praticamente acampados e avistou quem precisava:
— Kagami, precisamos ir.
O mais velho o encarou com cenho franzido, mas assentiu e foi até ele.
— Pra onde vão? — Mikoto se aproximou e lançou um olhar desconfiado ao marido, afinal ele havia acabado de chegar.
Fugaku sentiu uma estranha necessidade de abraçá-la, mas se limitou a apenas tocar levemente seu rosto.
— Pediram minha ajuda no clã com urgência, mas voltarei em breve.
— Certo, tome cuidado — aconselhou e deu um leve beijo nos lábios do marido. — Até mais tarde.
— Até, Mikoto — despediu-se dela e acenou aos outros presentes na sala, depois saiu rapidamente, sendo seguido por Kagami.
— Aonde vamos? — Kagami indagou seriamente, sabia que o clã não ligaria para Fugaku, pois o homem havia sido categórico nessa ordem.
— Eu te mostro o caminho quando chegarmos ao carro — disse enfaticamente.
Kagami assentiu em silêncio e seguiu o amigo.
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Alguns minutos depois da saída de Fugaku, Kushina caminhou lentamente até o quarto onde estavam Minato e Itachi, sua mente estava em um caos ainda maior devido a notícia que havia recebido no dia anterior. Após sentir um forte enjoo seguido de uma vertigem que quase a fez ir ao chão ela foi intimada por uma enfermeira a realizar um exame de sangue.
Tsunade e Jiraiya ficaram preocupados com a saúde da nora, mas esta afirmou que deveria ser apenas o estresse causado por todos os acontecimentos, no entanto, ainda realizou o exame e algumas horas depois recebeu a notícia que a deixou em choque por alguns minutos.
Não havia contado o resultado do exame a ninguém, havia decidido que Minato deveria ser o primeiro a saber e por isso, após digerir a notícia, estava indo até ele para contar; mesmo sabendo que não receberia resposta alguma.
Entrou no quarto e, como de costume, saudou Itachi educadamente para depois seguir ao leito de seu marido, ao lado deste havia uma poltrona onde Kushina se acomodou após beijar carinhosamente a testa de Minato.
— Olá, meu amor — sussurrou carinhosamente e segurou uma das mãos do loiro. — Não acha que já passou da hora de acordar? — sorriu levemente, um sorriso triste e vazio. — Você precisa estar acordado quando Naruto chegar, Minato. Sabe que ele vai ficar triste se encontrá-lo dormindo — repreendeu suavemente e recebeu em resposta o característico “bip” do monitor cardíaco.
Kushina fitou o rosto sereno de seu marido e desejou com todas as forças que ele abrisse os olhos naquele instante. Ela queria ver outra vez os diversos tons de azul-claro que compunham os olhos daquele que amava, daquele que lhe dava forças nos momentos difíceis. Deus, como ela precisava de força naquele momento!
Apertou um pouco mais a mão dele e sentiu os olhos enxerem de lágrimas.
— Você precisa acordar, meu amor, pois… — se levantou da poltrona e inclinou-se para aproximar os lábios da orelha dele, ainda sem soltar sua mão, e sussurrou a notícia que estava fazendo sua mente pesar mais ainda. Breve voltou a sentar na poltrona e permitiu-se chorar; chorar as lágrimas que achava nem existir mais.
O monitor cardíaco começou a apitar mais alto e Kushina se assustou ao sentir sua mão ser apertada levemente. Arregalou os olhos e voltou a fitar o rosto de Minato, deparando-se com um par de olhos azuis claríssimos.
— Minato — choramingou e em seguida foi afastada dele.
A emoção de vê-lo desperto foi tanta que nem havia percebido quando a equipe médica havia entrado no quarto. Tudo que importava eram aqueles olhos e apenas eles a fizeram sentir com forças e esperanças renovadas.
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Despertou em uma sala completamente branca. Ele não conseguia identificar delimitações como: chão, parede ou teto. E isso dava a impressão de ser um espaço infinito. Sentou-se lentamente, buscando lembrar-se do que havia acontecido e de repente as lembranças vieram-lhe a mente, parecendo formar um redemoinho diante de seus olhos.
Parque. Sasuke. Madara. Galpão. Dor. Laceração. Hospital. Internato. Gaara. Juugo. Madara. Pai. Mãe. Instituto. Sasuke. Itachi. Sasuke. Colação. Sasuke. Tiro. Pai. Sangue… Seu corpo estremeceu e ele sentiu um súbito enjoo.
— Não! — levou as mãos à cabeça e seus joelhos cederam. Lágrimas vieram-lhe aos olhos e as imagens continuaram lhe rondando. — Pai… — sussurrou em meio a soluços.
— Acalme-se, Naruto — uma voz rouca soou e as imagens desapareceram, as más sensações foram cedendo aos poucos. — Acalme-se.
— Quem está aí? – Naruto olhou para um ponto qualquer e logo uma silhueta foi surgindo a sua frente, como se tivesse se materializando aos poucos, até tornar-se concreta. — Você?
— Olá, pirralho — a pessoa saudou com um sorriso sarcástico nos lábios medianos. Sua pele era bronzeada, os cabelos eram loiros, repicados e iam até os ombros, os olhos eram azuis índigo e isso lhe dava um aspecto amedrontador, mesmo que no geral eles se parecessem muito. Parecia, na verdade, sua versão adulta.
— Quem é você? — indagou em um sussurro.
— Não me reconhece? Tem certeza? — arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, adotando uma postura ameaçadora.
— Kyuubi?
— Ponto pra você — piscou maroto e se aproximou, até estar cara a cara com Naruto, evidenciando ainda mais a semelhança e também os centímetros de diferença entre eles.
— O que você está fazendo aqui? Que lugar é esse?
— A gente tá dentro de você, dattebayo! — o tom empolgado fez o adolescente olhar para o lado e se deparar com um garoto loiro de olhos azuis muito claros e sorriso radiante. Parecia não ter mais que doze anos.
— Naru...
— Eu mesmo! — fez um sinal de positivo com o polegar. Ele caminhou até parar ao lado de Kyuubi, bem a sua frente.
— Estamos dentro de mim? Como assim? O que tá acontecendo?
— Você está desacordado, na verdade, eu acho que você não quer acordar! — Kyuubi respondeu calmo.
— Não quero acordar? — Naruto fez uma expressão de pura confusão.
— Exato. Você deve saber que estamos nas mãos de Madara e, provavelmente, uma parte de você sabe que ele não irá fazer nada com você até você acordar. É mais uma das excentricidades dele.
— E porque vocês estão aqui? Não conseguem despertar também?
— É o medo, dattebayo — a voz mais infantil das três soou tremula. — O medo não deixa seu corpo acordar.
— Seu inconsciente reconhece o perigo e impede qualquer um de nós de despertar, mas isso não impede de sabermos o que acontece fora daqui — Kyuubi disse e suspirou em seguida.
Inicialmente Naruto não entendeu, mas logo escutou uma voz distante e quase irreal, mas ele a conhecia muito bem...
— Porque você não acorda?
Olhou ao redor assustado, mas naquele lugar não havia ninguém mais além deles três. As batidas de seu coração aceleraram e ele sentiu suor começar a surgir nas palmas de suas mãos.
–— Sasuke! O que aconteceu com ele? Onde ele está? — indagou em tom esganiçado.
Naru lhe lançou um olhar triste e encolheu-se ao lado de Kyuubi, enquanto este adotou uma expressão ainda mais obscura e seu corpo pareceu ficar tenso.
— Respondam! — Naruto praticamente berrou.
— Ele está com você; Madara fez questão de deixá-los no mesmo ambiente e — Kyuubi pareceu hesitar momentaneamente, mas continuou — está brincando com ele.
— Brincando? — balbuciou em horror, sua mente ficou momentaneamente em branco, até que varias memórias pareceram cair sobre ele. Naruto sentiu-se esmagado por toneladas e toneladas de detalhes vindos de um passado do qual que ele não queria lembrar.
As imagens pareceram ocupar toda a sala em branco, os ecos do silêncio foram substituídos por frases agourentas, lamentos de dor e promessas vazias. Naruto caiu de joelhos e, por mais bizarro que pudesse parecer, sentiu seu corpo estremecer perigosamente, como se estivesse prestes a colapsar. Será que se aquele corpo colapsasse, seu corpo verdadeiro iria ter uma reação semelhante? Talvez aquele fosse o melhor futuro possível. Se ele morresse, talvez Madara deixasse Sasuke ir.
— Você não pode ser tão idiota assim — o tom debochado o atingiu como um açoite.
— Madara não vai libertar o teme, Naruto. Não vai! — a voz infantil atingiu as paredes, como uma onda de choque e as lembranças assustadoras foram transformadas em cacos que pareceram voar ao redor dele.
— Não vai — sussurrou pra si mesmo e seu corpo parou de tremer. — Madara vai matá-lo — constatou de maneira fraca e franziu as sobrancelhas. — Isso não vai acontecer — sibilou e tudo ao redor estremeceu. — Eu não vou deixar acontecer! — gritou e todo o caos feito de lembranças estilhaçadas pareceu ser engolido por um vórtice.
Naruto colocou-se de pé e novamente estava em frente a Kyuubi e Naru, que lhe fitavam com certa expectativa.
— Precisamos tirar o Sasuke daqui!
— E como vamos fazer? — Naru indagou com uma quase euforia.
Naruto encarou o loiro mais alto e este automaticamente entendeu.
— Você não acha que o nosso medo vai acabar me impedindo? — Kyuubi questionou com seriedade. — Admito que Madara ainda me causa certo… receio.
— Madara me causa tanto medo que cheguei a pensar que iria sufocar — Naruto admitiu e levou uma mão ao peito. — Mas só a ideia de deixar Sasuke morrer, me faz realmente sufocar. Eu não pude fazer nada por ninguém até agora, tudo que eu fiz foi me encolher, chorar e fugir. Chega disso! Tudo irá acabar aqui!
— Ótimo! Era isso que eu queria ouvir — Kyuubi deu um sorriso ladino. — Madara morre hoje!
— Nem que tenhamos que ir junto dele! — Naruto afirmou convicto.
— Isso não deveria me deixar empolgado, dattebayo! — Naru gargalhou e estralou os dedos.
Naruto encarou os dois loiros que o ladeavam e sentiu-se estranhamente completo pela primeira vez em anos. Eles eram o tripé que sustentavam um único indivíduo, aquele que deveria erradicar a existência de Madara. Por seus familiares, por seus amigos, por Sasuke e, principalmente, por si mesmo.
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Sasuke estava semideitado, com as costas nuas encostadas à parede fria; tinha a respiração fraca, sentia todo o corpo dormente e seus olhos negros estavam fixos no individuo deitado a sua frente. Fitava os cabelos loiros que estavam oleosos, os lábios secos e rachados, a pele pálida, o peito que subia e descia de maneira quase imperceptível. Na verdade, até o dia anterior, Sasuke achava que o loiro não respirava mais. Madara havia trazido um homem de longos cabelos negros e pele doentiamente pálida para examinar Naruto e este disse que o outro estava apenas inconsciente devido ao choque e que logo iria acordar.
— Por que você não acorda? — sussurrou.
Quanto demoraria esse “logo”? Quanto tempo mais Naruto ficaria naquele estado e quanto tempo alguém poderia sobreviver sem comer? Ao menos ele tinha visto o tal Orochimaru, nome do ser de cabelos sebosos e negros, aplicar soro em Naruto; ordens do louco do Madara. Sasuke tinha desistido de tentar entender o homem.
Durante aquele tempo em que estava preso, Madara tinha vindo até ele quatro vezes, sendo que na última, ocorrida logo após Orochimaru examinar e medicar Naruto, ele parecia completamente consternado e furioso. Sasuke achou que iria morrer de tanto apanhar, mas tudo que conseguiu foi desmaiar e acordar já sozinho, naquela posição em que estava e sem a mínima vontade de se mexer, pois não queria sentir dor.
O que será que perturbava Madara? Raiva por Naruto não acordar? Frustração por Sasuke não ser o que ele esperava? Não. Com certeza o abalo não era por algo interno, mas sim externo. Será que o resgate estava próximo?
Foi arrancado de seus pensamentos quando a porta rangeu ao ser aberta com brutalidade, logo o som da respiração furiosa de Madara dominou o ambiente, assim como seus passos pesados. Sasuke, momentaneamente, deixou de fitar Naruto para encarar a expressão fria e os olhos cruéis Madara.
— Como está, Sasu? — indagou e abriu um sorriso torto. — Já cansou de brincar de boneca de pano?
Sasuke permaneceu em silêncio, pois era o que vinha fazendo desde a primeira agressão. Aquela era sua forma de não ceder. Madara chegava, o tocava, agredia, falava, sussurrava, mas Sasuke permanecia estoico e em silencio; que só era quebrado por leves e incontroláveis gemidos ou grunhidos de dor. O adolescente nunca pensou que poderia ser tão resistente a dor ou talvez o medo o tenha deixado entorpecido. Sentiu parte de sua franja ser agarrada com força e seu corpo foi puxado pra cima, aquilo doía, mas isso não o fez mudar de atitude.
— Você é bem mais rebelde do que eu esperava — Madara constatou em tom irritado. — Mas eu não estou de bom-humor e cansei de ser bonzinho. Hoje você aprende a ter boas maneiras — golpeou a cabeça de Sasuke contra a parede e depois o soltou, sentindo prazer em ver o olhar desfocado do jovem, enquanto este voltava a posição anterior.
Sasuke sentiu o terror crescer em si ao ver Madara levar as mãos a própria calça, desafivelar e retirar seu cinto, mantendo-o preso a uma das mãos, e depois desabotoar a calça social que vestia. Os olhos cruéis fixos em Sasuke e um meio-sorriso atroz preso aos lábios finos. Era a primeira vez que ele tomava aquela atitude, tudo que havia feito até aquele momento era agredi-lo ou, no máximo, tentar beijá-lo.
— Ora, ora — Madara comentou em quase deboche e se aproximou, fazendo Sasuke, inconscientemente, se encolher contra a parede. — Acho que consegui ao menos uma reação — arqueou uma sobrancelha e voltou a segurar o jovem pelo cabelo.
Sasuke sentiu-se ser içado com brutalidade e tentou se soltar do agarre, mas em troca escutou um zunido seguido de um estalo alto e um ardor na lateral de seu dorso. Madara o havia açoitado com o cinto e pareceu ter gostado do resultado, pois o primeiro golpe foi acompanhado de vários outros, acertando diversos lugares e com cada vez mais força.
A pele antes pálida, que já estava com várias marcas escuras, agora ganhava listras vermelhas e gotículas de sangue começavam a colorir os locais onde a fivela do cinto acertava. Sasuke tentava ao máximo conter os sons de agonia que nasciam em sua garganta, mas algumas vezes era impossível e em outras ele não tinha fôlego suficiente para soltá-los.
Quando Madara deu-se por satisfeito, largou novamente o adolescente, que despencou fazendo um som oco, e jogou o cinto em um lugar qualquer da pequena sala fétida. Observou bem o resultado de seu feito e sorriu ao ver os olhos de Sasuke lacrimejarem de dor, pois ele havia caído sobre o ombro fraturado.
— Eu tentei esperar Naruto acordar, mas parece que ele não esta com mínima vontade de despertar — falou com certo desagrado e lançou um olhar repreensivo para o jovem loiro que estava deitado ao lado deles; já não havia mais cordas prendendo seus braços. — Então, enquanto ele não acorda, vou lhe ensinar boas maneiras.
Madara abaixou-se ao lado de Sasuke e observou, satisfeito, os olhos negros se arregalarem e o corpo magro tentar se arrastar para longe. Segurou o adolescente pelos quadris e o puxou pra si, com o intuito de tirar a calça social puída que este vestia.
Sasuke ofegou assustado ao sentir os dedos gélidos resvalarem em sua pele, quando o outro os infiltrou pelo cós de sua calça e fez menção de puxar a vestimenta para baixo. Não podia deixar aquilo acontecer! Não podia! Não queria!
— Me solta — Sasuke falou rouco e tentou mais uma vez se afastar.
Madara arqueou uma sobrancelha e sorriu ladino. Suas mãos ainda estavam pousadas nos quadris dele e os dedos estavam enganchados no cós da calça escura; ele havia parado de avançar ao perceber a respiração acelerada do jovem, assim como o olhar demonstrando o mais puro desespero. Precisava apreciar isso lentamente.
— Resolveu falar? — indagou com escárnio. — Isso é excelente — sorriu satisfeito e voltou ao que fazia antes. Deslizou lentamente os dedos pelo cós, até chegar ao botão.
Sasuke arregalou os olhos e um urro animalesco nasceu em sua garganta, quando sentiu a calça sendo aberta. Sem raciocinar sobre as consequências de sua atitude, ele reuniu o que restava de sua força e chutou Madara, depois se voltou para a parede, buscando apoio para colocar-se em pé. Madara nunca trancava a porta quando estava lá dentro, então se fosse rápido o suficiente ele conseguiria sair.
Madara, que havia sido derrubado pelo chute que o acertou no rosto, calmamente voltou a sentar-se e ficou observando a batalha que Sasuke travava contra as próprias limitações para conseguir colocar-se em pé. Era aquilo que ele buscava: a última fagulha de esperança, a derradeira vontade de sobreviver e lutar. O instinto final do animal acuado.
Sasuke, com esforço, colocou-se em pé e foi se arrastando até a porta. Não era longe, apenas quatro passos e poderia sair daquela sala e conseguir ajuda. Isso! Sairia dali e conseguiria chamar ajuda para Naruto e ele. Porque não tinha pensado nisso antes? O que o tinha impedido de fugir?
Madara se levantou e foi até o adolescente machucado, os olhos obervaram atentamente a expressão determinada dele e os olhos um tanto febris; ele parecia não estar ciente de sua aproximação. Oh sim! Tanta vida e tanta vontade de viver. Deixou que ele avançasse tropegamente até a porta, o viu levantar o braço sadio e esticá-lo até a maçaneta. Sorriu quando os dedos sujos tocaram o metal e quando viu a esperança cintilar nos olhos escuros decidiu que era sua hora de agir.
Sasuke gritou quando se corpo foi agarrado e jogado no chão com força, se debateu desesperado ao ser colocado de bruços e ter a cabeça fortemente prensada contra o chão. Tentou se arrastar pra longe usando toda sua força e sua angustia aumentou ao escutar a risada de seu algoz.
— Isso Sasuke, lute! — Madara incentivou com empolgação. Embrenhou os dedos pelos cabelos sujos do mais novo, agarrou-os com força, puxou afastando o rosto dele do chão e se inclinou até sussurrar próximo de sua orelha. — Lute com todas as suas forças, antes de entender que não existe esperança.
— Me larga! — Sasuke gritou e se jogou pra trás, mas Madara antecipou o golpe; segurou com mais força os fios escuros do jovem e colidiu seu rosto contra o chão.
Sasuke primeiro escutou um “creck” e em seguida seu mundo se dissolveu em dor, ao longe escutou um barulho esganiçado e não conseguiu identificar que aquele foi seu próprio urro de agonia.
— Isso, grite com todas as suas forças. Grite até cansar e finalmente alcançar a submissão silenciosa, Izuna — Madara falou de maneira tranquilizadora, enquanto deslizava a mão livre pelas costas laceradas até chegar novamente a calça.
Sasuke levantou ligeiramente a cabeça e encostou a testa no chão, evitando deixar o nariz fraturado tocar em qualquer lugar. Ao redor de sua cabeça uma poça de sangue começava a se formar e lágrimas corriam incessantemente de seus olhos. Escutou o barulho de pano sendo afastado e depois estremeceu quando sua calça e cueca foram puxadas com brutalidade. Um lamento escapou de seus lábios e ele novamente tentou se afastar, mas sua cabeça foi empurrada e o nariz bateu no chão, fazendo-o ficar zonzo de dor.
Uma mão fria tocava todas as partes expostas de seu corpo e deixava em sua pele um rastro invisível de humilhação e desesperança. Aquele seria o inicio do fim de Sasuke Uchiha, pois duvidava que conseguiria seguir em frente depois daquilo. E se ele cedesse? Não! Jamais cederia!
A mão fria tocou uma de suas coxas e subiu lentamente até chegar a sua nádega, o corpo de Madara se aproximou do seu e a respiração descompassada dele tocou sua nuca de maneira agonizante.
Ele não iria ceder! Quando reuniu forças para se empurrar pra cima, na esperança de acertar o rosto de Madara com a cabeça, sentiu o corpo maior se afastar do seu bruscamente e escutou uma exclamação de espanto seguida de um grunhido. Virou lentamente o rosto naquela direção e quase não acreditou na cena registrada por seus olhos.
As costas nuas e marcadas de Naruto estavam diante de si, o loiro estava entre Madara e ele. Em uma das mãos segurava o cinto que o mais velho tinha deixado de lado e a outra estava prendendo firmemente um tufo do longo cabelo deste.
— Vamos ver se você gosta de ficar do outro lado, filho da puta — a voz saiu rouca e recheada de ódio.
Madara soltou um riso pelo nariz.
— Aproveite a chance, Naruto, vai ser a única — olhou desafiadoramente para o loiro.
Quando o garoto loiro levantou o braço e o abaixou velozmente, açoitando o rosto pálido do homem, a mente embaçada de Sasuke registrou que aquele era Kyuubi.
Os olhos negros de Madara brilharam em ira, mas esta não chegava a um terço da que brilhava nos olhos azuis do loiro a sua frente. Kyuubi havia despertado aos poucos, demorou para que o corpo respondesse a seus comandos e, devido a isso, acompanhou todos os acontecimentos desde a chegada de Madara até a asquerosa cena do corpo nojento daquele desgraçado ondulando contra Sasuke.
Nunca mais deixaria aquilo acontecer! Sentia os outros dentro dele compartilhando avidamente daquela opinião e era essa convicção conjunta que o mantinha forte o suficiente para golpear Madara até que o sangue deste começasse a manchá-lo.
Iria destruí-lo! Por cada marca feita no corpo e alma de Sasuke; por cada noite em claro de Minato e Kushina; por cada olhar de culpa de Tsunade e Jiraiya; por cada lágrima derramada; por cada vontade sufocada; por cada ato de violência; por Naru, por Naruto, por ele.
Madara, no primeiro golpe, nem ao menos se mexeu. Os olhos estavam atentos as ações do adolescente loiro, nunca havia presenciado aquele tipo de descontrole e nem aquele ódio praticamente palpável. Naruto parecia completamente louco e suas ações estavam distantes do que se lembrava; aquilo o abalou.
Aquela sede de sangue não era o que procurava, nem aqueles olhos azuis e gelados ou o sorriso ladino e cruel. Os golpes acertaram seu pescoço e o ferro frio da fivela o cortou, fazendo-o trincar os dentes de dor, mas ainda não tinha desviado sua atenção do rosto transfigurado pela ira.
As feições lhe lembraram outra pessoa, trouxeram a ele a visão de outro rosto, um que era tão desfigurado quanto àquele e, por isso, Madara quase sentiu vontade de encolher-se em si mesmo. Aquele não era Izuna, aquele era ele. O assassino que deveria ter sido queimado! Que deveria ser queimado e purificado!
— Você deveria ter ficado em seu lugar, seu inútil! — A voz grave, porém pastosa ecoou dentro de sua cabeça. Madara chegou a sentir o aroma da bebida. — Agora vou ter que te ensinar a não se meter onde não deve! — O estalo do cinto reverberou.
O ferro da fivela acertou um de seus olhos e uma lamúria de dor escapou de seus lábios inchados e melados de sangue. Sentia o gosto férreo na língua e a dor dos golpes não era tão grande quanto a vontade de se esconder dele.
— Você nunca mais vai machucá-lo, seu desgraçado! — Madara quase pôde sentir a ira em cada palavra e tentou focar o rosto a sua frente. Olhos escuros, inchados, vermelhos pelo álcool. — Eu sou o dono dele e faço dele o que eu quiser, entendeu seu merda? — Sentiu dedos frios envolverem seu pescoço.
Sasuke sentia sua consciência titubear, mas quando viu Kyuubi envolver o pescoço de Madara com o cinto e estrangulá-lo enquanto sorria cruelmente, despertou completamente. Madara estava acuado demais e Kyuubi irado demais. Aquilo o deixou estranhamente desesperado, não por Madara, mas por Kyuubi, já que ele não parecia muito consciente de suas ações. Viu Madara gemer dolorosamente quando foi acertado por um soco que o fez quase despencar e arregalou os olhos. O que estava acontecendo?
— Você ‘tá sentindo essa agonia? Eu lembro quando você nos fez sentir o mesmo. O ar faltando aos pouco — Kyuubi sibilou aproximando o rosto do outro.
Madara sentiu o coração disparar ao ver aquele rosto tão próximo. Era ele e estava fazendo aquilo outra vez, tentando destruí-lo para ter Izuna para si, mas Madara não deixaria. Lembrou-se da mesma coisa que fez há anos, relaxou todos os seus músculos e fechou o olho. Não poderia deixar o terror dominá-lo, não poderia deixar Izuna morrer outra vez.
— Kyuubi — Sasuke chamou quando viu Madara desfalecer. Então Kyuubi piscou atordoado e arregalou os olhos ao encarar o rosto desfigurado que estava a sua frente. — Já ‘tá bom, acho que ele nem ‘tá mais respirando.
Kyuubi largou o corpo inerte de Madara, que caiu no chão fazendo um barulho seco, e reparou no estrago que havia feito. Rosto, pescoço e um olho parecia ter sido perfurado. Nunca imaginou que um simples cinto, e sua fivela, pudessem fazer tanto estrago. Riu de lado de maneira presunçosa e fez o que queria ter feito há tempos: cuspiu no rosto do homem e chutou com força seu abdômen. Não houve nenhuma reação dele.
— Nos encontramos no inferno, desgraçado — afirmou com um sorriso atroz e virou-se para Sasuke, que havia conseguido se arrastar até encostar a parede.
O moreno o encarava meio entorpecido, mas não parecia minimamente assustado. Aproximou-se dele e o ajudou a ajeitar as calças, cobrindo parte do corpo machucado. Sasuke gemeu de dor quando Kyuubi o levantou sem muita delicadeza e, só naquele instante, o loiro percebeu o ângulo estranho de seu ombro esquerdo.
— Droga, moleque — Kyuubi murmurou com verdadeiro pesar, buscando acomodá-lo de maneira a não machucar o braço. — Você ‘tá realmente péssimo.
— Obrigado — Sasuke respondeu de maneira torpe e fanha, tentando focar o rosto do outro, mas logo tudo escureceu.
Kyuubi soltou um ofego de susto quando o peso de Sasuke caiu todo sobre ele, porém continuou firme na ideia de sair daquele local e torcia para não haver nenhum capanga rondando o lugar.
Pouco depois dos dois adolescentes deixarem a sala, com passos arrastados, Madara abriu o olho são e se sentou lentamente. Sentia uma intensa dor, mas não conseguia definir onde esta começava e onde terminava, sua cabeça parecia estar envolta nela. Tentou mexer a mandíbula e a dor aumentou, estava deslocada. Respirou fundo e, com destreza, colocou-a no lugar, contendo-se ao máximo para não urrar devido a dor que sentiu.
Olhou para a porta aberta e colocou-se em pé. Não havia mais ninguém na casa; grande parte de seus capangas estavam presos e a outra parte ele mesmo matou, afinal estava cansando de tantos questionamentos à sua autoridade. Ao menos matar Hidan havia sido uma experiência diferente, já que o homem não pareceu minimamente temeroso diante da perspectiva de morrer.
Arrastou-se lentamente para fora daquele local fétido, deparando com um corredor extenso. Conhecia aquela casa com a palma de sua mão, afinal havia passado uma boa parte de sua vida ali, convivendo com uma das poucas pessoas que confiava: Mikoto. A única mulher que chegou a admirar, mas que acabou tornando-se a sombra de um homem, assim como sua mãe.
Caminhou até o final do corredor, seguindo um rastro de sangue, até chegar a outro corredor que seguida para dois lados. O rastro de sangue continuava pelo caminho da esquerda, mas Madara seguiu o caminho da direita, afinal ele não conseguiria fugir tão facilmente levando seu Izuna, pois não havia saída para aquele lado. Estava com sorte, pois assim teria tempo de fazer o que devia fazer; desta vez não haveria erro e o fogo destruiria aquele rosto e o purificaria antes dele cogitar maltratar seu Izuna.
Daquela vez ninguém o atrapalharia.
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