Eu adoraria dizer que nesta história, há a mocinha indefesa. A bruxa má e o príncipe encantado... Adoraria, mas ambos sabemos que essa não é a verdade. Não existe donzelas, apenas a mais perversa e insensível das bruxas.

Linda como o diabo, se ele fosse uma loira escultural de intensos olhos verdes. Eva Sabatelle nunca foi conhecida por sua misericórdia e compaixão, apesar de aparentar ser isso quando os repórteres da Poison Magazine e Forbes surgem para entrevistá-la. Com seus 1,72 e lábios tingidos por um batom tão vermelho como o fogo, é a principal razão para 90% dos suicídios em New Eden, Chicago.

Dizem as más línguas que ela é desprezível porque teve seu coração partido no passado. Alguns atrevem-se a dizer que ela foi abandonada no altar e há aqueles que supõem que a mesma perdeu os pais muito cedo e coisa e tal. Estão todos enganados. Eva não sofreu traumas parecidos para se tornar o monstro que é hoje...

Aliás, eu sou Eva e essa é a minha história. Peço que mantenham-se atentos aos detalhes, são eles os divisores de água da minha trágica – nem tão trágica assim – história de vida. Não exagero quando digo que existem milhões de boatos ao meu respeito, é só você ir procurar no Google e mais de 900.000 resultados apareceram automaticamente. Minha biografia no Wikipédia está em branco, o que particularmente acho hilário.

– Srta. Macgognall. – comecei, parando em frente a sua mesa. Sydnéia Macgognall é uma senhora insuportavelmente dengosa e eficiente, que está no auge dos 62 anos e insiste em se dizer capaz de continuar seus serviços como minha secretaria. Mas cá entre nós, a velha pode morrer a qualquer momento devido os estresses da empresa.

– S-Sim Srta Sabatelle? – respondeu, cautelosamente. Uma das coisas que eu sempre admirei em Sydnéia é que ao contrário dos demais funcionários ela não me aporrinha a paciência e nem faz com que eu queira estrangulá-la pelo pescoço. Por isso sentirei muito a falta dela.

– Está demitida. – exclamei firmemente, crispando os lábios rigidamente e a encarando. Pude perceber os demais ao nosso lado, agitarem-se, como pingüins retornando ao seu habitat natural.

Ela encarou-me perplexa, com os olhos dóceis bem arregalados.

– O-o que? – eu juro que por alguns segundos, quase pude ver o coração dela parando debaixo daquelas roupas cafonas.

– Exatamente o que você ouviu. – prossegui, lançando um olhar de soslaio para os pedaços de estrume que Albert insistia em chamar de empregados e estagiários. – Não se preocupe, saíra com todos os seus direitos. – garanti.

Não é como se eu me importasse com ela, nem nada. É só que odiaria esquentar minha cabeça com um problema tão imbecil e extremamente fácil de se lidar.

Assim que eu informei sobre sua demissão, fofocas e burburinhos ecoaram as espreitas pelo lugar. Franzi belamente minhas sobrancelhas, incrédula.

– Vocês – gritei alto o suficiente para que todas as amebas do 19º andar me ouvissem. – Voltem imediatamente ao trabalho, se não quiserem ser demitidos também. – e sem mais uma palavra, marchei em direção a minha sala. Estando ciente de que alguns desejariam mortalmente poder me lançar um crucio.

– Sabatelle! – minha porta havia sido aberta abruptamente. Enquanto me acomodava confortavelmente em minha poltrona, estreitei os olhos para o intruso. – O que pensa que está fazendo? Não pode demitir Macgognall! Ela é uma das funcionarias mais eficientes e queridas daqui. – era Heitor.

Revirei meus olhos e suspirei fundo.

– Ela também é antiga como uma múmia. Acredite ou não, a demissão foi a melhor coisa que já aconteceu a ela... desde a admissão. – sorri irônica. Ele tinha fogo nos olhos e os punhos cerrados em punhos.

Nunca pensei que ele fosse ficar assim tão abalado com a saída de um funcionário. Pior ainda: com a demissão de Sydnéia! Tamborilei, agitadamente, os dedos na mesa.

– Isso é inqualificável! Inadmissível! Não pode demiti-la. Ela é uma das peças fundamentais da empresa.

Sorri com escárnio, reprimindo a vontade de gargalhar.

– Inqualificável é manter uma múmia de sessenta e dois anos na empresa. – direcionei meu olhar para o notebook, ligando-o. – A peça fundamental da empresa é o meu dinheiro, que financia seus acordos absurdos e arriscados. – senti uma pontada de irritação crescer dentro de mim. – A peça fundamental dessa empresa sou eu! E não uma velha diabética. E se você está assim, tão ofendido por eu demiti-la. Deveria pegar o bonde e pedir demissão.

Ele emudeceu-se, mas eu podia sentir seus olhos sob mim. E arrisco dizer que até sei os pensamentos dele. Nada agradáveis. Mas quem se importa? Ele não seria o primeiro e nem o ultimo a desejar loucamente pela minha morte.

– Você é uma cadela oxigenada! – explodiu, antes de sair da sala. Arqueei a sobrancelha, sentindo um sorriso maroto surgir em meus lábios.

E essa foi a ofensa em que ele pensou durante cinco minutos? Não pude deixar de rir, tão patético quanto desnecessário.