As Teias de Chawon
2 Amnésia
Ele escolheu o qual parecia ser o mais lerdo. Lukas sabia que não era bom confiar nas aparências, mas após tantas viagens pelo tempo nas terras de Chawon, ele era capaz de ver um padrão em todos os lugares que visitava. Por isso, quando escolheu a quem fazer uma certa pergunta, ele não estava contando apenas com seu instinto. Sua experiência valia muito nesse quesito.
— Você. — Ele cutucou o braço de um dos piratas na proa do navio. O homem devia ter uns trinta anos e era muito gordo. Sua roupa de couro precisara ser costurada várias vezes ao longo do corpo por causa do excesso de banha.
— Que é?
Mal educado. Da maneira que ele esperava. Ótimo.
— Sabe me dizer que dia é hoje? — Quase deu uma desculpa esfarrapada qualquer, só que se estivesse correto, não seria necessário.
— Claro que sei, moleque. Posso até dizer que horas são, a não ser que você queira adivinhar sozinho. — O pirata gorducho lhe passou as informações e gargalhou quando Lukas perguntou qual ano era. — Alguém andou bebendo e não fui eu! É o ano das festas!
Lukas não entendeu o que o pirata quisera dizer com aquilo. Ficou desapontado ao vê-lo ir para o convés, esquecendo-se completamente de sua presença e contagiando alguns piratas ao redor com sua gargalhada alta.
Aquele ano não podia ser muito distante da data em que estava antes. Ele não conseguiu viajar para tão longe assim, no máximo dez anos. Não de uma vez só, pelo menos. Várias viagens consecutivas até explicariam a anormal amnésia.
Enquanto tentava entender o que significava “ano das festas”, uma pessoa sentou-se ao seu lado no chão sem fazer barulho. Lukas levou um susto ao ouvir a voz de Diana tão perto. Não tinha notado sua chegada.
— Aquele velho me parece familiar...
— Que sus... — Ele sentou-se também e apoiou as costas na parede de madeira. — Eu consegui descobrir em que dia estamos.
— Você podia ter me perguntado. Antes de viajarmos para cá, você ao menos me contou isso.
Lukas a observou. Graças ao vento, os cabelos dela já estavam quase secos e ele descobriu que ela possuía lindos cachos. Estavam presos, mas eram compridos o suficiente para alcançar a cintura. O rosto era fino. Os olhos castanhos claros brilhavam naturalmente. Como ele fora capaz de esquecer um ser tão bonito como aquele? Lukas queria insistir na pergunta sobre quem ela era, o que ele era para ela, o que ela era para ele, porém ficou com medo de ela se afastar novamente.
— Desculpa. É que... Eu não consigo me lembrar. E...
— Você não consegue confiar em mim. — Os olhos castanhos encararam os olhos azuis. O momento se esticou, desafiando um dos dois a falar alguma coisa.
— É...
Era muito fácil esquecer de onde estavam. Se aqueles olhos lhe pedissem qualquer coisa, ele obedeceria rapidamente. Jogaria-se no mar por eles. Enfrentaria um exército. Sua pulsação se acelerou; estaria ele lembrando? Estaria a amnésia começando a sumir? Da onde vinha toda aquela certeza, aquele frio na barriga?
Um balde caiu em algum lugar perto deles e os xingamentos que se seguiram despertaram Lukas. Ele desviou o olhar automaticamente. A sensação desapareceu e ele se sentiu vazio.
Uma mão agarrou a sua, na mesma intensidade de quando eles estavam perdidos no lar dos peixes.
— Você sempre pode confiar em mim.
Quem era ela?
— Que ano é esse?
Antes que Diana pudesse contar-lhe, um barulho de algo caindo subitamente na água, em algum lugar próximo ao navio, chamou a atenção de todos os tripulantes. A correria começou e os dois foram obrigados a levantarem-se do chão, desviando das pernas agitadas. Eles se aproximaram da beirada e olharam ao redor; um extenso círculo de água recém agitada estava a alguns metros dali.
— Que diabos?
E então Lukas sentiu. As memórias começaram a voltar e ele as sentiu, porém quando fechou os olhos, elas se foram. Gritou, frustrado. Apertou a cabeça com as mãos e tentou trazê-las de volta. As memórias estavam ali perto, escondidas em algum canto, ele conseguia sentir isso. Estavam na ponta da língua! A solução para todos os problemas era tímida e Lukas sentiu-se extremamente angustiado. Ele precisava delas.
Ninguém parecia perceber a crise na mente nebulosa de Lukas. Nem mesmo a jovem Diana. Sua acompanhante concentrara-se em entender o motivo da agitação nervosa dos piratas e esquecera-se temporariamente de Lukas ao seu lado.
O fenômeno ocorreu mais uma vez, do outro lado do convés. Os piratas gritaram alguma coisa sobre estarem sendo bombardeados. Corriam loucamente, procurando por armas de fogo e proteção. Diana gritou alguma coisa incompreensível. Ela viu que Lukas estava distraído demais e puxou as mãos dele. Seus olhos se abriram e encararam a jovem.
— Tem algo estranho acontecendo.
— Sim, tem. — murmurou ele, alheio ao que ocorria de verdade.
— Nós precisamos sair daqui. — Ela sacudiu os ombros dele, numa tentativa de despertá-lo. — Lukas, rápido!
— Vocês dois! — chamou o pirata velho e Diana virou-se irritada.
— O que é?!
O velho a encarou atentamente. Os olhos pretos sem emoção nenhuma examinaram os olhos ansiosos da jovem por um momento. Ela o encarou de volta. A sensação de que o conhecia de algum lugar era forte, mas de onde? Diana respirou fundo e refez a pergunta.
O velho nunca teve a chance de responder. O barulho retornou pela terceira vez e, dessa vez, a bomba atingiu com sucesso a grande embarcação. O caos contaminou todo o lugar. Pedaços de madeira em chamas voaram para todos os lados. Gritos e pedidos de ajuda espalharam-se perdidos pelo ar. Vários dos piratas foram arremessados ao mar, alguns inconscientes, outros aterrorizados.
Os três se separaram no meio da confusão. O velho correu pelos destroços do navio que começava a afundar, gritando ordens para quem ainda estava vivo. Lukas lutou contra a maldita sensação das lembranças quase voltando e se viu caído no chão ao lado das chamas que rápido se espalhavam. Diana tirou as luvas vermelhas e guardou-as no bolso. Ela olhou a situação ao seu redor e tentou pensar. Precisava da ajuda de Lukas. Ele era a mente, ela era a arma. Só esperava que aquela estúpida amnésia não os atrapalhasse de agir juntos.
Lukas ficou em pé, cambaleando. Sangue escorria no seu braço, mas ele não tinha tempo para pensar na origem daquilo ou se pertencia mesmo a ele. A explosão jogara-o para longe da única pessoa que ele sentia conhecer. Não, ele a conhecia. Sentia que podia confiar nela e aquele maldito efeito colateral não iria impedi-lo.
Afastou-se das chamas e tropeçou nos destroços do convés quase totalmente destruído. Escutou o barulho terrível da água ganhando espaço na embarcação. Tentou pensar. Os gritos não cooperavam. Ele correu, apoiando-se no mastro derrubado a fim de não tropeçar novamente. Onde estava ela? Será que tinha caído no mar? Ele alcançou a beirada semi despedaçada e olhou para a água, à procura de um corpo conhecido.
Os dois tinham estado juntos poucos segundos atrás. Ela não podia estar tão longe.
— Lukas!
Ele olhou para trás. Diana estava a alguns metros de distância, do outro lado do mastro caído. Do outro lado das chamas. Ele conseguiu ver que ela havia tirado as luvas. Uma fração de segundo depois, enxergou algo inacreditável: duas pequenas estátuas de argila tentavam apagar o fogo com suas mãozinhas marrons. Eram estátuas de duas pessoinhas sem gênero do tamanho de sua perna. No momento em que ouviram Diana chamar o nome de Lukas, elas deram meia volta e saltitaram até o menino, liberando o caminho.
Os dois se aproximaram e ele deu uma risada meio histérica, chocado por ver estátuas dançando ao seu redor.
— Você é uma feiticeira ou algo do tipo?
O canto esquerdo da boca de Diana abriu-se num sorriso torto.
— Algo do tipo.
Antes que ele pudesse responder, o fenômeno explosivo atacou mais uma vez, errando o alvo por centímetros. Os dois subiram correndo uma escada ainda inteira e Lukas procurou a origem das bombas no horizonte. As estátuas de argila os seguiram, exalando alegria. Não havia nenhum pirata na proa.
— Tem uma...
— Sim, acabei de ver. — A cerca de cem metros, havia uma pequena ilha. Ele conseguiu contar vinte pessoas só na praia. Com certeza várias escondiam-se atrás das gigantescas árvores. — Por que eles estão atacando esse navio?
— Eles são pira... — Os olhos dela se arregalaram e ela bateu no braço de Lukas, subitamente empolgada. — Lembrei! Lembrei!
— Ai. Você tem uma mania muito chata de bater nos outros, sabia?
— É, é, já me falaram isso. — Ela revirou os olhos e bateu nele de novo, não conseguindo conter a animação.
— O que foi? — Ele resmungou e até mesmo esqueceu-se da ilha homicida não muito longe deles.
— Eu lembrei porque aquele velho me parece conhecido! Quer dizer... É bastante bizarro pensar que ele ainda tá vivo, mas não é impossível, já que ele tem aquela coisa sinistra lá. A mesma coisa que a gente tem, sabe, só que a dele é diferen... — Diana bateu a mão na testa, sentindo-se estúpida. As estátuas imitaram o gesto. — É claro que você também não tinha lembrado dele. Com essa sua amnésia chata... Ai, isso tem que passar logo!
Ele interrompeu a tagarelice dela, rindo.
— É, é, concordo, mas voltando... Você disse que lembrou quem ele era...
— Sim, é o I...
Mais uma explosão atingiu o navio. O instinto de Diana a fez olhar na direção da ilha segundos antes da bomba atingir a proa. Estilhaços de madeira voaram assustadoramente e os dois sentiram-se leves. As estátuas de argila transformaram-se em bolhas e perderam-se em meio ao caos de três dos quatro elementos. A fumaça negra tomou conta do ambiente em chamas.
Lukas abriu os olhos. Seus braços e rosto estavam sujos de fuligem. Ele sentou-se, esfregando a cabeça. O que diabos havia acabado de acontecer? Percebeu que a maior parte do navio fora invadido pela água salgada e ele encontrava-se em um dos pequenos pedaços ainda intactos.
Ele olhou ao redor. Encontrou um pé ao lado de onde sua cabeça repousara. Ajoelhou-se e encontrou outro pé. Numa posição estranha e parecendo estar muito longe do primeiro. Ele balançou a cabeça. Não, era só seu pânico falando mais alto. Engatinhou até a perna do primeiro pé e perdeu o fôlego. Uma das pernas sangrava muito. Na ponta. Ele sentiu vontade de vomitar e desviou olhar do toco sangrento e sujo de fuligem.
Os olhos de Lukas encontraram a cabeça de Diana sem querer. Os olhos ainda abertos. Não possuíam mais brilho. Lukas forçou-se a continuar engatinhando e apoiou a cabeça no peito dela. Sem sinal de vida no coração. Sem pulmões expirando e inspirando o péssimo oxigênio do ambiente.
A única pessoa que o fizera sentir a necessidade absurda de ter as memórias resgatadas não estava mais naquele mundo.
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