O vento batia em meu rosto varrendo aos poucos a sensação de cansaço que havia em mim. Dei uma tragada no cigarro e logo após soprei a fumaça, deixando-a sair livremente por uma pequena brecha dos lábios que estava quase todos comprimidos. Duff dormia tranquilamente na cama, estava exausto com a noite ontem. Minha memória afetada pelo consumo de algumas drogas não lembrava bem do que aconteceu, fazer força para lembrar faria minha cabeça doer. Era melhor deixar para lá. Acredito que não foi muito diferente da noite em que nos conhecemos. Sentei ao seu lado na cama, num pequeno espaço que ele deixava do seu lado da cama. A respiração fazia levantar e abaixar seu peito devagar, bem calmamente. Afastei alguns fios do cabelo loiro que cobria seu rosto, dei um leve beijo na testa dele antes de me levantar.

Por sorte, era meu dia de folga, sem pressa poderia descobrir o lugar onde estava.

Usei a camiseta que ele usava na noite passada com minha calça e fui para a sala do que parecia ser aquele apartamento. Era até grande e possuía paredes pintadas num tom de branco, não havia nada no pequeno corredor. Atrás do caminho onde seguia, havia mais duas portas. Segui um rumo onde encontrei de um lado uma pequena cozinha dividida por um balcão e do outro a sala. Slash, que me foi apresentado como o guitarrista da banda, dormia no sofá abraçado com uma garrafa de Jack Daniel’s. Fui até ele e peguei uma almofada, coloquei sua cabeça sobre a mesma.

— Obrigado. – Murmurou sonolento se aconchegando no chão.

- Não tem de quê. – Ri e tentei tirar a garrafa, mas ele prendeu. – Seu ursinho de pelúcia?

- Cada um tem os seus.

- Claro. – Abanei a cabeça negativamente e deixei-o ali, dormindo. – Bons sonhos?

Procurei qualquer coisa na cozinha que pudesse comer, acabei achando algumas coisas como mel, algumas poucas coisas a mais. No mínimo dava para fazer algumas panquecas. Cozinhar não era bem o meu forte, mas com algumas coisas pelo menos de fome não morria. Era justamente por isso que a maioria das coisas de comida na minha casa era pronta, como as pizzas e hambúrgueres congelados. Dei uma boa olhada para as panquecas e mordi um pedaço das mesmas para ter certeza, derramei um pouco de mel sobre e voilá, estava feito o café da manhã.

- Bom dia. – A voz atrás de mim era meio desconhecida, mas associei logo ao mesmo homem te ontem.

Axl estava encostado a parede de braços cruzados. Seu cabelo ruivo estava com uma bandana sobre a cabeça. A camisa branca com uma estampa centra e uma apertada calça de couro, junto com as botas caubói. Sentou-se a mesa, fiz o mesmo á frente dele e deixei um prato sobre a mesa um para mim e outro para ele.

- Onde está aquela moça? – Perguntei, quebrando o silêncio. – Erin, certo?

- É, ela foi para casa, acho que vai para o ensaio hoje. – Respondeu, dando uma garfada nas panquecas. – Você vai?

- Não sei.

Silêncio novamente.

- Você é o quê da Anna?

- Amiga. – Disse. – E você?

- Eu não sabia bem que porra tínhamos ao certo e acho que ela também não.

- Por quê?

- Ela deu pro Steven, disse ela que porque eu tinha saído com a Adriana, ficou com pena dele. – Axl parecia meio irritado a medida que ia falando. – Bom, foda-se o que aconteceu ou não, esqueci ela, tenho a Erin agora.

- Ok, essa parte de estar transando por consolo, ela não me falou.

Axl riu relaxado.

- Bom, se o Duff não o fez, eu estou convidando você para o ensaio.

- Obrigada, Axl.

Coloquei os pratos na pia e fui até o quarto onde Duff estava acordado, deitado ainda olhando para o teto. Sentei em seu colo, embora ele ainda estivesse deitado. Inclinei-me sobre seu rosto, pondo dois braços ao redor de sua cabeça e me inclinando a sua frente, meus cabelos vieram junto para frente. Fiquei encarando-o por alguns minutos, até que ele sorrisse.

- Onde estava? – perguntou, afastando uma mecha do meu cabelo.

- Tentando bolar algo para servir de café da manhã nessa casa.

- Tarefa difícil, certo? – sorriu, cruzou os braços atrás da cabeça. – Não vai trabalhar?

- Não, é meu dia de folga hoje.

- Muito bom saber. – Levantou um pouco a cabeça para alcançar minha boca.

Um beijo forte, intenso. Deixei que ele abraçasse minha cintura com os braços que tirou de trás da cabeça. Havia força, havia paixão, não pensava em parar tão cedo. Apertei seus cabelos entre meus dedos. Duff puxou minha blusa, ou melhor, sua blusa de mim e jogou do outro lado do quarto. Tinha urgência em seus lábios, o gosto de álcool ainda permanecia em sua boca, não me importei,era bom.

- Olá casal, sem querer atrapalhar. – A voz de Steven apareceu na porta. — Duff,tem toalha aqui?

- Jura que você não queria atrapalhar? – Duff berrou, pegando um dos travesseiros da cama nele, que desviou. – Sinceramente, vai ver se tem toalha na casa do cacete!

- Calma. – Ele disse, inocentemente. – É que a Adriana queria tomar banho e não tem toalha no meu quarto.

- Foda-se se não tem toalha no seu quarto.

- Calma. – Disse saindo de cima dele. – Ok, onde tem toalhas aqui?

- Sei lá.

- Mas você mora aqui. – Insisti, ele bufou e apontou uma gaveta no pequeno guarda-roupa. – Ok.

Peguei uma toalha que tinha lá e joguei para Steven.

- Obrigada, Lilly. – Ele disse com uma voz meio infantil. – Posso abraçar você?

- Não, você não pode. – Duff me abraçou por trás. – Não tem espaço pra você aqui.

Steven fez uma careta para ele e depois sorriu para mim, indo embora logo após. Dei um rápido beijo em Duff e me levantei para ir pegar minha própria blusa. Ainda o ouvi resmungando algo antes de levantar e ir tomar um banho. Antes de para o ensaio teria que ir até minha casa tomar um bom banho e trocar de roupa.

- Axl me chamou para ir ao ensaio, tudo bem? – Perguntei enquanto escovava meu cabelo.

- Axl? – olhou desconfiado para mim. – Bom por mim tudo bem, mas eu ia te chamar.

- Desculpe, da próxima vez eu aviso para ele que você tem prioridade. – Toquei meus lábios nos dele. – Vou ter que ir na minha casa,trocar de roupa.

- Sabe onde vamos ensaiar?

- Não faço a menor idéia.

Fomos juntos até a sala onde Axl assistia televisão enquanto Slash ainda dormia, abraçado a garrafa de Jack Daniel’s. Ele olhou para nós e apontou o guitarrista dormindo, fazendo nós dois rirmos. Steven apareceu na sala com uma garota que ainda tinha cara de sono. Seu rosto era até bonito e de aparência doce, tinha os cabelos ruivos e meio curtos, lisos e finos. Seu corpo era bem feito até. O que tirava o aspecto doce, eram as roupas no mínimo promiscuas.

- Você briga com a sua namorada, por causa dela e ainda passa a noite com ela? – Conclui Axl, dando um sorrisinho seco. – Melhor tirar ela daqui rápido, liguei para a casa do Izzy e Angie atendeu dizendo que estava vindo com a Grace para cá. – Olhou as unhas, com uma irônica vaidade.

- Sério? – Perguntou alarmado. – Adriana, é bom você ir embora rápido.

- Eu preciso falar com o Axl. – Argumentou ela, mas teve como resposta um bufar de Axl que se afundou no sofá.

- É, mas eu não quero falar com você.

- Mas é que...

- Deixe sua mensagem e aguarde a resposta, se estiver com saco eu te respondo. – disse Axl, mandando um olhar debochado para Duff e eu na cozinha.

- Sério, se tiver amor a vida, é melhor sair daqui antes que a Grace chegue. – Duff intrometeu-se, sendo acompanhado por o “Aham” sonolento de Slash que ainda dormia.

Steven acompanhou a moça até a porta e depois voltou em direção ao quarto.

- Espera aí. – Duff pareceu lembrar-se de algo importante. – O Izzy e a Angie disseram que encontrariam a gente no estúdio, ontem a noite mesmo, eu estava chapado, mas lembro quando ela me disse isso.

- É verdade, eu também lembro quando ela disse isso. – anunciou Slash, com a cara enfiada na almofada.

- Cala a boca, Slash. – Axl repreendeu. – Você não lembra nem o que comeu no almoço.

- Não lembro mesmo.

- Mas eu também me lembro quando ela disse isso. – Falei, concordando com Duff.

- Eu também me lembro. – Axl disse como se fosse óbvio. – Só falei isso para assustar o Steven e expulsar a Adriana daqui. – ele riu, acompanhado por nós dois.

- Cara, você não presta. – Concluiu Duff, passando o braço no meu ombro e rindo.

- Algo que eu não saiba, por favor? – pediu, gentilmente.

Depois daquilo. Axl me deu a idéia de esperar sua namorada chegar para ir comigo até minha casa, ela sabia onde ficava o estúdio onde ensaiariam, poderiam me levar até lá. Não demorou muito até a moça sorridente aparecer na casa. Erin era o estilo perfeito de garota que parava o trânsito nos anos oitenta. Sempre sorridente e com seus olhos azuis celestiais não muito diferentes dos meus, estavam sempre brilhantes. Os cabelos cacheados estavam soltos como ontem, bem brilhantes e castanhos. Acenou para nós e olhou assustada para Slash que dormia ainda.

- Meu Deus.

- Pessoas normais dormem com ursos de pelúcia, astros do rock dormem com garrafas de uísque, original, não acha? – Brinquei, arrancando um sorriso dela.

- Erin. – Axl chamou. – A Lilly vai precisar ir em casa e ela não sabe aonde é o estúdio,pode ir com ela?

- Claro. – Ela sorriu. – Agora?

- Sim. – Peguei minha bolsa na sala e dei um rápido beijo em Duff. – Nos vemos lá?

- Ok.

Erin me acompanhou até minha casa sorridente como sempre. Fomos o caminho inteiro conversando sobre coisas comuns. Ela era modelo de comercial e seu pai, era Don Everly, um músico que lembrava ter ouvido algumas músicas, mas não lembrava aonde. Contou que havia conhecido Axl desde 1985 em uma festa, pouco tempo depois começaram a namorar. Em cerca 1986 já estava morando juntos, mas depois de uma briga séria, acabaram se separando e foi quando Axl conheceu Anna, não era bem um namoro, mas ele passou um bom tempo sem vê-la. Anna e Erin haviam se visto algumas vezes, pelo que ela me falou, as duas tiveram uma antipatia a primeira vista. Agora, que ele separou-se dela pela recente briga por causa de Steven, os dois acabaram voltando.

- Ela nunca tinha falado do Axl para você? – Erin indagou enquanto entravamos no meu apartamento.

- Os pais dela são meio moralistas, ela só me falou que tinha um namorado e que não podia apresentá-los para eles, não estava afim que causar uma síncope nos velhos. –Respondi. – Ela nunca me deu muitos detalhes dele.

Ela sorriu e foi até a estante onde havia muitos porta-retratos, alguns que nem costumava olhar muito. Eram lembranças da minha família que preferia não voltar. Fui até meu quarto e tomei um banho, procurei uma roupa para ir. Definitivamente não era muito bem ligada em moda. Uma camiseta preta do Sex Pistols que era bem longa e uma calça jeans azul, com minha bota preta sem salto. Coloquei um pequeno colete vermelho de pano por cima e passei um pouco de brilho nos lábios , não era uma grandiosa fã de maquiagem, tinha verdadeiro horror a lápis de olho e via o curvex como um instrumento de tortura.

- Erin, vamos. – Anunciei aparecendo na sala. – O que foi?

Ela olhava uma foto muito contente.

- Você é irmã da Chrissie Garland! – Disse quase saltitante. – Fizemos uma campanha juntas, faz um tempão que eu não a vejo. – Contou, com certa saudade na voz. — Bem que te achei parecida com ela,pode me dar noticias?

Ao ouvir o nome da minha irmã veio a tona uma avalanche de sentimentos e lembranças que não me faziam bem. Aquele dia. O dia em que perdi tudo, por minha própria culpa. Minha irmã tinha tudo e perdeu tudo por minha culpa. Só minha. Senti minhas mãos tremerem e transpirarem um pouco, bela hora para me lembrar de tudo que aconteceu. Mudar para Los Angeles foi exatamente a única saída para que não enlouquecesse ou cometesse suicídio em São Francisco. Era como se todas as lembranças tivessem sido bloqueadas e voltassem como uma onda forte na minha cabeça, então todo o trabalho que tive para esquecer ou pensar que o fiz. Todo o meu esforço foi pelos ares.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.