As Sete Despedidas
8 Capítulo oito: Little Hangleton
Notas iniciais
E em cada ocasião eu estarei pronto para o funeral
E cada ocasião é mais uma vez chamada de funeral
Pov: Tom Marvolo Riddle
– Vamos trocar – disse ela. – Você nunca iria querer um carro amarelo.
– Nem pensar – disse eu. – Eu posso não gostar de amarelo, mas pelo menos aquele carro anda.
– Mas eu gostei daquele carro – olhou para trás, vendo o veículo que desaparecia da nossa visão. – Ele é diferente.
– Que seja – disse eu, por fim.
Depois de longas horas de estrada, Luna teve a ideia de iniciarmos uma brincadeira com os carros que vinham na direção oposta: A cada dois veículos, um “pertenceria” a ela, e o outro a mim. Confesso que até que era divertido, e ajudava a passar o tempo. O céu já começava a adquirir uma cor alaranjada, devido ao por do sol. Logo teríamos de parar para jantar. No porta-copos, a terceira lata de Red Bull que bebia naquela tarde repousava, ainda com metade do seu conteúdo.
Àquela altura, as rodovias encontravam-se quase vazias, o que permitia que eu ultrapassasse o limite de velocidade sem dificuldades, bem, ao menos até chegarmos à uma cidade, a qual mudara bastante desde a última vez em que eu passara por ali. Luna sorriu e seus olhos brilharam quando avistamos as decorações natalinas presentes em quase todos os lugares. Ela abriu o vidro e enfiou a cabeça para fora. Os cabelos loiros balançaram com o vento, e, pelo retrovisor, pude ver seu sorriso alargando-se. Era como uma daquelas cenas de filmes, nas quais ela se encaixava perfeitamente. A única coisa que consegui fazer foi encará-la, sem dizer nada. Eu parecia muito bem um idiota naquele momento.
– Você foi ao Baile de Inverno no ano retrasado? – Inquiriu, depois de já ter se acomodado no banco novamente.
– Fui – confirmei. – Você não foi?
– Ah, não – disse, um tanto decepcionada. – Eu tinha só 13 anos, e tem que ter pelo menos 14 pra participar. Mas eu ouvi que o professor Binns dançou bastante – ri.
– Claro – disse eu. – Como um macaco muito mal treinado.
Ela caiu numa gargalhada divertida, o que me fez rir ainda mais, ainda lembrando da cena terrível do professor de história tentando convencer a professora McGonagall a dançar com ele. Balancei a cabeça, tentando voltar a prestar atenção nos sinais de trânsito.
– Achava que ele tinha se saído bem – comentou num tom sonhador. – Por tantos comentários que ouvi. As pessoas costumam falar mais das outras quando fazem algo ruim do que quando fazem algo bom, ao contrário do que eu pensava.
– Vamos jantar? Acho que irá demorar muito até encontrarmos outro lugar onde seja possível fazê-lo.
– Claro – disse ela.
Dirigi por uma das principais ruas do centro da cidade. Pelo que eu lembrava, havia um bom restaurante em algum lugar por ali – isto é, se ainda não tivesse fechado. Luna continuava encarando tudo ao seu redor, como se nunca tivesse visto nada do tipo antes. Até chegava a ser engraçado. Encontrei o lugar, o que me deixou satisfeito. Haviam alguns carros estacionados em frente, e deixei o de Avery um pouco afastado.
Desembarquei e dei a volta ao redor do carro, até chegar à frente da porta do outro lado. Abri-a e estendi a mão, a qual a loira segurou delicadamente enquanto saía do veículo. Ela olhou ao redor por um instante e, em seguida, voltou a olhar para mim.
– Esse lugar é bonito – disse ela.
– Sabia que iria gostar – sorri. – Vamos? – Convidei.
Ela assentiu e entramos no restaurante. Havia uma música calma de fundo, deixando o ambiente agradável. Assim que nos avistou, uma mulher, trajando um uniforme onde ao lado esquerdo do blazer o nome do local havia sido bordado, veio nos receber.
– Os senhores gostariam de uma das mesas daqui de dentro, ou uma ao lado de fora? – Inquiriu ela. Olhei para Luna, que parecia indiferente como sempre.
– Próxima da janela, ao lado de dentro – disse por fim.
– Por aqui – disse a mulher.
Ela entregou-nos o cardápio, e Luna sequer olhou direito e logo anunciou que queria um Summer Pudding. Ela era provavelmente uma das únicas pessoas a pedir algo que normalmente comemos no verão em pleno inverno. Pelo visto, a mulher que nos atendia também achou meio estranho. Mais fora do comum ainda seria se realmente tivessem frutas vermelhas naquela época do ano, mas tinham, por incrível que parecesse, pois o prato chegou logo, acompanhado de scones que eu havia pedido.
– Você já comeu isso? – Perguntei, enquanto ela analisava cautelosamente o conteúdo em seu prato.
– Nunca comi, mas já ouvi falar – disse ela. – De qualquer forma, tem pudim no nome, então deve ser bom.
Dei de ombros. Não fazia sentido tentar contrariar a lógica da loira, então fiquei calado e concentrei-me em comer logo. Não demoraria muito para chegarmos ao nosso destino, e queria apressar-me para percorrer o restante do caminho o mais rápido que pudesse. Estava cansado e com sono – ela certamente deveria estar também –, e mal podia esperar para jogar-me em uma cama e dormir.
– Finalmente – disse eu. – Estamos quase chegando. Não vou tocar nesse volante por pelo menos dois dias.
– Como é lá? – Inquiriu ela. A voz arrastada deixava claro que estava com sono.
– Não é um lugar onde as pessoas normalmente morariam – disse eu. – Quer dizer, depois de tanta desgraça que aconteceu por lá, suponho que ninguém em sã consciência iria morar ali.
– Hm – murmurou. – Mas não tem coisas como fantasmas, tem?
– Quê? Claro que não – afirmei. – Essas coisas nem existe, Luna.
– Existem sim – disse ela. – Meu pai disse que eles estão até em Hogwarts. – Ela falava sério, por incrível que parecesse.
– São apenas lendas – disse eu. – Ah, chegamos.
Bem à frente, pude avistar um vilarejo situado entre dois morros, e sua igreja e cemitério eram claramente visíveis. Mais ao fundo, estava a casa que pertencera aos meus avós. Era uma casa grande, cercada por uma vasta extensão de gramado verde e aveludado. Luna correu os olhos pelo lugar. Eu não a culparia se achasse tudo medonho, até porque chegar ali no meio da noite, com a neblina cobrindo boa parte do que havia, não era lá uma das melhores coisas a se fazer, mas ela não disse nada.
Segui com o carro até perto do casarão e estacionei-o próximo de uma árvore. Luna não demorou-se em abrir a porta e sair, coisa que eu fiz logo em seguida. Ela pendurou a bolsa no ombro, enquanto eu segurava uma mala não muito grande nas mãos. Tomei a frente para me aproximar da porta, mas não sem antes olhar tudo ao redor. Aquele lugar parecia com uma cidade fantasma, e as coisas que aconteceram ali no passado não contribuíam muito para uma melhor impressão.
– Bem vinda, Luna – disse eu, quando ela parou ao meu lado. –, à Little Hangleton.
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