As Ruínas
1 The Ruins
Notas iniciais
Era uma manhã ensolarada, aproximadamente umas 09:00 horas. Talvez terrivelmente ensolarada, embora o calor excessivo não fosse novidade ou questão de alerta naquela área. A Floresta já estava acostumada a ser banhada no sol. Assim como a única tribo relativamente próxima ao local, que mora num vilarejo até bem arrumadinho e de aparência convidativa. A Mata, não muito longe das praias paradisíacas de Cancún era de um verde forte de doer os olhos. Quer dizer, "Não muito longe" seria um exagero, pelo menos naquele trecho específico dava-se uma distância gigantesca da qual nenhum turista bronzeado na beira da piscina dos hotéis, que enchem a cara nas Raves e depois vomitam no Lobbie gostariam de visitar. Estamos ao oeste de Cobá, que por sua vez é uma terra abandonada e esquecida pelos Maias que há centenas de anos povoavam esse lugar, no Estado de Quintana Roo, Península de Iucatã no México. Lugar onde já foi palco de inúmeros documentários do Discovery Channel, e cercado de mitos e superstições. Há um piada entre os arqueólogos que de vez em quando visitam o local. Eles dizem "Quem não cava Cobá, nenhum progresso terá". Apenas uma forma medíocre e talvez arrogante que alguns nomes mais experientes da arqueologia usavam como desculpa para exibir mais uma de suas viagens pelo mundo, se achando grandes conhecedores do planeta enquanto ficam embaixo do sol, torrando suas nucas tirando terra de um pedaço quebrado de estátua com um pincel.
Era bem ali, que elas observavam e desejavam tudo ao seu redor. As Ruínas. Um templo da civilização maia escondido e propositalmente esquecido com o tempo. Sua existência ainda desconhecida no meio da arqueologia, fazia dela uma bela adormecida, maltratada com o tempo. O Templo, uma espécie de pirâmide de pedra residia sereno. Era de uma forma quadrada, tinha quatro lados e não três. Sua arquitetura era até bem parecida com a de uma pirâmide, se não fosse sua superfície reta e grande. Não continha uma ponta superior, seu topo era como o terraço de um prédio. Plano e também com formato quadrado. O Templo, era coberto por uma vegetação que cresceu em abundância por fora, decorando todas as suas paredes laterais e parte de seus degraus com um verde fortíssimo. Era a natureza retomando o que era seu de direito? Talvez. O estranho, era o seu cenário em volta. O Chão ao redor da estrutura era de uma terra morta e sem cor, muito diferente do marrom vivo que entrava em contraste com o resto da vegetação em volta. Era como se o templo tivesse clamado uma grande clareira para si. No sopé, nada havia além do chão morto. As árvores em volta, formavam um círculo em volta do templo, como se dessem as mãos o guardando de visitantes. E Nenhum outro pedaço da floresta ousava tocá-lo. As árvores, eram capazes de crescer tortas, inclinadas para trás, tocando umas nas outras, tudo para não terem contato com aquele solo. Era como se o templo tivesse expulsado a floresta, afastando-a a alguns metros de si, ou seria o contrário? Por outro lado, a vegetação que o cobria quase que por completo, uma espécie de trepadeira por assim dizer, que se instalou nas entranhas e camadas da estrutura, parecia muito bem. Viva, sem danos. E as flores belíssimas de um vermelho forte que cresciam sobre alguns de seus caules, eram igualmente saudáveis, aparentemente.
Ali, naquela terra morta, é que os pézinhos descalços saltitavam. Um garotinho de pele marrom clara, brincava sozinho ao redor do templo. Carequinha, de roupas leves, usando uma bermuda simples já um pouco suja de terra e uma camiseta regata de tecido barato, ele saltitava percorrendo o sopé do templo, já era a terceira vez que o contornava. Não devia ter mais de 6 ou 7 anos. Sorridente, queria apostar corrida com o vento, ou simplesmente sentir aquela espécie de areia finíssima sobre seus pés. O Sol, que já começava a ficar escaldante, logo transformaria aquele solo numa verdadeira chapa quente. O menininho continuava seus saltos, cantarolando uma cantiga de ninar em Iucateco, seu idioma de berço, ensinada por sua mãe. Todos os membros da tribo não conversavam de outro modo. Até mesmo o comum espanhol era rejeitado no cotidiano. Segurando um pequeno galho nas mãos, do qual pertencia a uma daquelas trepadeiras que cresciam sobre o templo, que achara jogado ali próximo do escadão de pedra que dava acesso ao topo. Mas aquele galho seco e morto há muito tempo, não era um simples galho, não! Era sua espada! A imaginação do menino que quase acreditava enfrentar seus inimigos invisíveis entre a mata era tão fértil quando a própria natureza em volta. Despreocupado e inocente, não tinha noção alguma do alvoroço que causara.
—Hatchiki! -Em outro ponto não muito distante, a voz de um homem gordo de bigode ecoava pela mata. Ele e seus dois companheiros procuravam pelo garotinho Hatchiki desde as 7 da manhã. A Busca cansativa e tensa já estava passando dos limites. O Homem em questão é o próprio pai do garoto. Uma figura respeitada entre os membros da tribo, que sempre é quem ficava de olho nos encrenqueiros, uma espécie de Xerife Maia moderno. Usava botas pesadas, calças de tecido fino devido ao calor e uma camisa polo branca, que já estava ficando amarelada devido ao suor embaixo de suas axilas. Era exaustivo.
Seus dois companheiros, um magrelo armado com uma espingarda e o outro de chapéu com um arco e flecha o seguiam fazendo sinal com a cabeça um para o outro apontando as direções a serem seguidas. O Homem gordo parou, limpando o suor da testa com as costas da mão, secando-a na blusa já grudenta. Seus companheiros cochichavam atrás dele. Ele reagiu aos comentários se virando para eles com extremo ódio, gritando em sua língua de forma intraduzível. Seja o que for que os dois moços conversavam, não era agradável para o Gorducho, que berrava contra eles em sua língua intraduzível. Parecia repreendê-los de alguma forma. Apontava o dedo furioso para seus rostos já avermelhados do calor, que aquiesciam não mostrando nenhuma atitude que fosse contra ele. Durante sua gritaria descontrolada, foi interrompido por um deles, o mais alto de chapéu, que levantou o indicador, demonstrando que ouvia algo. O Gorducho calou a boca, como se tentasse entender porque o colega lhe pedira silêncio. O Sujeito apontou a direção com a mão trêmula, falando algo, sua voz não transmitia rebeldia ou sarcasmo, mas sim medo.
O Gorducho, interrompido, arregalou os olhos, se virando na direção que o colega apontara, colocando a mão sobre a testa para ver se conseguia enxergar mais a frente, já que as árvores ali naquele exato ponto não davam conta do serviço de fazer uma sombra. Essa é a consequência de parar uma caminhada justo onde elas não fazem sombra. À frente, uma visão gelou seu coração. Era o canto de Hatchiki, que saltitava percorrendo o sopé do templo. A Vista, mesmo um pouco encoberta por algumas árvores e arbustos, não podia ser mais clara. O Homem gorducho ao perceber aquilo ameaçou despencar no chão de desmaio, revirando os olhos como se soltasse um último suspiro para a morte, sendo segurado pelos dois companheiros que correram feito loucos o segurando. Sua respiração temerosa e ofegante, era demais de assistir. O Gorducho passava as mãos no rosto, tentando esconder as lágrimas, ainda ameaçando se deitar totalmente caso os colegas não fossem fortes o suficiente para contê-lo. Puxou todo o fôlego que fora capaz, seus olhos arregalados, apontados naquela direção que o colega indicara lhe mostravam ao fundo, o tal templo. Por trás das moitas altas e das enormes árvores que cercavam aquela clareira intocável, era possível ver o garotinho, Hatchiki saltitando todo contente de um lado para o outro. O Homem não foi capaz de suportar, despencando enfim no chão inconsciente. Seus parceiros não tinham força física ou disposição para segurá-lo. Qualquer tentativa seria em vão.
Os dois homens tamparam suas bocas, com olhos tristes se entre olhando significativamente. Foram alguns segundos tensos sem nenhum movimento ou ação tomada. O Magrelo, levantou sua espingarda sinalizando se teria a permissão do de chapéu, que aquiesceu concordando com a cabeça, junto com toda toda tristeza e desapontamento que seus olhos tinham a oferecer.
Hatchiki segurava aquele galho seco sem nenhuma folha, não tendo nenhuma desconfiança do que se aproximava de sua brincadeira feliz. Uma criança hiperativa que não soube ouvir os pais. Um garotinho sonhador e sem limites. Terminou de cantar olhando para o céu azul e quase sem nuvens, tentando bloquear a claridade excessiva com o braço. Seus olhos doeram, o que fez com que ele os fechasse rapidamente, abaixando a cabeça. Deu as costas ao templo mirando sua visão na trilha por onde tinha vindo, quando para sua surpresa, o homem magrelo o espreitava parado.
O Menininho se assustou, dando um passo rápido para trás. Qualquer criança saberia que estava encrencada. Desrespeitar ordens tão explícitas apavoraria qualquer coração infantil ao ser pego no flagra. Com expressão desesperada, o garotinho abaixou a cabeça, pronto para levar uma boa bronca do amigo de seu pai. Agora a sola de seus pés sentiam o verdadeiro calor infernal que o sol causava sobre aquele solo, o que fez com que seus passos fossem ligeiramente mais rápidos. Mas o que aquela criança Maia havia desrespeitado? O Menininho se aproximava, ainda cabisbaixo acelerando o passo. No meio do caminho, o garotinho parou ao ouvir um alto clique. Levantou a cabeça comprimindo os olhos. O Sujeito magrelo lhe apontava a arma tendo um olho fechado para ter mira precisa.
A Criança levantou as mãos, gritando em seu idioma nativo não compreendendo o porque de uma atitude tão devastadora. Berrava tremendo as mãozinhas. O Homem movimentou rapidamente a arma como se apontasse uma direção com ela, repetiu o movimento fazendo a mesma coisa com a cabeça e os olhos, que se direcionavam a uma das mãos de Hatchiki. O Garotinho fitou sua mão trêmula que segurava o galho seco, deixando-o cair por entre seus dedos gritando novamente em seu idioma fazendo sinal de "Não" com a cabeça. O Homem respondeu gritando ainda mais alto, repreendendo o garoto que, impotente levantou os braços ao máximo que podia, obedecendo a ordem completamente assustado. O sujeito terminou de berrar enquanto chacoalhava a arma e a cabeça proferindo palavras duras e intimidadoras.
Quando sua ira cessou, ele fez sinal para o garoto fechar os olhos, colocando uma das mãos na frente do rosto, sinalizando para a criança fazer o mesmo. O menininho, aos prantos, se urinando todo deixando se formar uma mancha amarela de mijo naquele chão morto, começou a cantarolar aquela mesma musiquinha, desta vez entre prantos e lágrimas, levando as duas mãos até o rosto cobrindo os olhos. Uma lágrima se via escorrer do rosto do homem, que respirou fundo deixando seu dedo percorrer o gatilho... um alto estouro se deu. O Tiro foi proferido. A Bala entrou bem no meio da testa do garoto, cuja cabeça se lançou para trás fazendo surgir um buraco aberto na parte de trás da cabeça, junto com um jato espesso de sangue se arqueou no ar. O Corpo da criança caiu sem vida atingindo o chão num estalar de dedos, no momento em que um bando de pássaros se dispersaram do topo de uma árvore, assustados com o barulho do tiro piando aos montes sobre a paisagem bela.
—-----------------------------------------------------------------------------
No dia seguinte, de manhã bem cedo, o quarteto saiu do hotel deixando Amber e seu ficante para trás. Eles avisaram que se ela não acordasse cedo, iriam sem ela. Decidiram sair só de sacanagem, porém, deixando uma cópia do mapa para ela. Os quatro tiveram uma noite pesada, tomada por drinks na praia próximo ao Hotel. Amber que era sempre a mais sortuda ficou com o Alemão que todas as outras colegas estavam de olho. Agora completamente cansados, Todos menos Amber combatiam a ressaca fazendo a trilha planejada, o passeio pelo qual estavam ansiosos em fazer desde que chegaram ao México na semana passada. A Mocinha, Meredith, andava sorrindo por entre as árvores arrumando seu chapéu mexicano na cabeça.
—Gente, já estamos chegando.
—É, você disse isso a uns 20 minutos atrás. -Stephen reclamou dando um tapa na parte de trás do próprio pescoço, por conta dos mosquitos. -Enquanto isso, estou sendo devorado, que ótimo! Valeu mesmo, Meredith. Valeu mesmo...
—Ah para de ser chato cara. -Ela dizia tirando sarro do rapaz.
—Porra, o ônibus demorou uma eternidade para sair. Depois, nenhum maldito taxista queria trazer a gente, quanto foi que você pagou aquele cara mesmo?
—50 Dólares.
—Puta que o pariu, 50 dólares? Você é louca?! Tudo isso pra ele deixar a gente a uma eternidade de distância desse tal lugar?
—Ué, queria vir do quê? De helicóptero ricão?
—Não seria má ideia. -Stephen Expressava sua raiva dando mais um tapa violento na nuca, os mosquitos parecem ter achado que seu sangue era de primeira. Algo que, se fosse dito a Stephen, o deixaria até feliz e um pouco mais convencido com certeza.
Os quatro percorriam uma trilha bem estreita, tendo desviado do caminho comum de trilhas para turistas, andando um atrás do outro. Era de fato uma mata fechada, e essa trilha parecia tão improvisada que certamente não era para turistas. Não havia placas indicando direções, nem mesmo guias turísticos que levassem as pessoas por ali. Disso Meredith sabia muito bem, mas foi um fato que decidira omitir do resto da turma. Abigail andava em última, a jovem abanava as mãos frente ao rosto tentando espantar os mosquitos. Raven, a moça magrinha com cabelos de trancinha vinha logo atrás ajeitando seus óculos escuros dizendo:
—Gente, fala sério. O que é pior... ficar de óculos e sentir o suor grudento entre os olhos e o nariz, ou ficar sem óculos e ter que caminhar com os olhos apertadinhos por causa do sol, parecendo uma Chinesa?
Abigail, ria com o comentário mascando seu chiclete respondendo a colega:
—Pensa pelo lado bom, não é você quem está carregando todo o peso. Meredith é quem cuida dessa parte, porque... não temos um "Homem" aqui para ajudar as senhoritas, não é mesmo Stephen?
—O quê? -Perguntou ele andando na frente, avoado se enchendo de repelente. Apertando o botão do Spray como se sua vida dependesse disso.
—Nada garoto, esquece que eu disse alguma coisa. -Abigail ria se divertindo em ver como o mocinho era um pouco frouxo. -Então, Meredith, quem te falou desse lugar?
—Um colega da faculdade. -A Loira respondeu à frente do grupo, sempre pose de liderança como gostava.
—Hum.. e onde ele está?
—Eu acho que ele já foi embora. Voltou para os E.U.A. há algumas semanas.
—Você falou com ele depois disso?
—Não.
—Ué, então como sabe que ele não te passou informação errada? Porque eu detesto ser chata mas você realmente disse que estávamos chegando há vinte minutos atrás.
Meredih riu:
—É, eu disse isso aquela hora pra vocês não encherem o saco... sabia que iam reclamar da caminhada.
—Ah, caralho Meredith! Fala sério! -Stephen recobrava o fôlego dando passos mais lentos. A Mochila pesada nas costas não ajudava.
—Ai gente, o que tem de mais? Olha só a natureza, é linda. Aproveitem.
—Tá, agora é sério, Meredith... -Abigail tirava a garrafa d'água do bolsinho da mochila. -Quanto tempo até chegarmos?
Meredith olhou debochada:
—Estamos chegando....
Raven não aguentou, caindo na gargalhada jogando um pouco de água na amiga demonstrando o quanto ela estava sendo mala. Na outra mão, Raven carregava uma pequena gaiola com um periquito que comprou na rua, de um homem que vendia um monte de bugigangas para turistas perto da praia. O Passarinho não calava o bico. Abigail fitou a gaiola, pensativa:
—Raven...
—Oi... -Respondeu a menina.
—Isso não é meio cruel?
—O Quê?
—Carregar um passarinho, numa gaiola. No meio de uma floresta tão grande? Olha só o bichinho deve estar morrendo de inveja. Deve estar pensando "Até os mosquitos são livres e eu não".
—Eu vou soltar ele, não se preocupe. Só quero ficar com ele um tempinho. Quando a gente começar as escavações eu solto ele, prometo.
—Que escavações? -Pergunto Stephen num tom sarcástico. -Até onde sabemos estamos seguindo coordenadas falsas, de um amigo falso da Meredith que deve estar rolando de rir em casa só de imaginar ela andando nesse mato feito uma idiota. Pior, nós também somos esses idiotas!
—Stephen. -Raven lhe chamou a atenção.
—Fala!
—Não quer ir se foder, não?
Meredith caiu na gargalhada. Abigail sorriu de lado agradecendo por alguém ter tirado as palavras de sua boca, ela passava os dedos entre seus cabelos encaracolados e poderosos, tentando dar a si uma falsa sensação de frescor com o vento leve que agora acariciava seus rostos quentes. Abigail, A Morena de pele chocolate era conhecida por ser a mais divertida do grupo, e também a mais desatenta. Era recém formada em arqueologia, assim como todos os seus companheiros agora que a acompanhavam. Meredith, que se achava a líder da expedição, andava na frente mostrando sua pose de entusiasmo. Só de pensar em achar aquele templo, seu coração já ameaçava saltar do peito.
—Então... -Raven puxou assunto ajeitando a pesada mochila. -Como aquele seu colega descobriu esse templo?
—Google Earth, acredita?
—Mentira!
—Sério. Ele achou no Google Earth. Quando ele veio há umas semanas atrás pra cá, por causa das apresentações que o DJ Fedde Le Grand ia fazer, ele tirou um tempinho e veio vasculhar por aqui. Ele me passou todas as informações enquanto ainda estava lá, disse que eu ia adorar.
—E ele veio sozinho?
—Não. Ele veio com outros dois colegas mais velhos.
—Ou seja, -Completou Stephen. -Arqueólogos de verdade. E Não recém formados como nós.
—Não é só porque somos recém formados que isso queira dizer que não somos arqueólogos.
—Até parece. -O garoto respondeu em deboche.
—E Por que ninguém mais aqui? Você disse nós somos exclusivos, mas amiga eu não acredito muito nisso não. -Raven questionava entre risos.
—Ah, é que é uma história complicada. É que ele disse "Tô contando só pra você hein Meredith". Esse meu colega que achou esse lugar, mas tipo, não é conhecido sabe. Não muita gente sabe sobre ele.
—E quando foi a última vez que você falou com ele?
—Quando ele estava aqui ainda.
—Ué mas você falou que ele voltou pros E.U.A.
—Sim, é porque ele já tinha me dito o dia que ia voltar.
—Ah tá. E o que tem de tão interessante nesse lugar? Algum tesouro? Algo de valor?
—Não, aparentemente não. É só que... ele "nunca" foi visitado. -Meredith levantou as sobrancelhas querendo implicar um mistério.
—Como assim?
—Hahaha... sabia que você ia ficar curiosa, Raven. Espera aí, você vai ver. -Disse ela apressando os passos, passando na frente de Stephen que quase lhe tomara a liderança na caminhada.
Diante dela, estava um pequeno barranco, não muito íngreme porém um pouco escorregadio. Se segurou nos finos troncos de pequenas árvores que preenchiam a minúscula descida, tentando firmar bem o pé para não dar um escorregão e cair sentada sendo alvo de risadas e piadas.
—Gente, cuidado aqui...
Ela se apoiava de um tronco ao outro. A Superfície de pedra do chão estava próxima, esticou o pé pousando-o com firmeza na rocha, saindo finalmente do pequeno barranco. Atrás dela, os outros três se ajudavam a descer. Stephen finalmente mostrou cavalheirismo dando as mãos para as meninas segurarem firme, uma a uma, a tarefa seria cumprida. Mas Meredith não tinha tempo para prestar atenção neles no momento. O Som da água correndo bem ali ao lado deles era maravilhoso. Uma água límpida e cristalina a poucos metros, deslizando sobre algumas pedras. À Direita, dava-se para notar uma pequena descida, era para onde a água escorria. Ela vinha da esquerda, passando por um buraco bem embaixo deles, saindo do outro lado. Aquela área era incrivelmente mais fresca do que a que antes estavam percorrendo, havia sombra. Meredith tirou do bolso traseiro, o mapa.
—Obrigada. -Abigail agradecia Stephen pela força ao ajudá-la descer. -Ufa.. e agora, pra onde vamos?...
Não houve resposta. Um pequeno silêncio tomou conta.
—Meredith? -A garota tornou a chamar a atenção da loira de cabelos cacheados. Mas ela sequer respondia.
Meredith permanecia de costas para o grupo, imóvel de cabeça erguida olhando para frente. Olhava para a mata fechada diante de si, e descia os olhos até o mapa. Seus olhos subiam e desciam, subiam e desciam.
—Terra chamando cachinhos dourados! -Stephen estalou os dedos. E Nada, a mocinha não respondia.
Raven suspirou colocando uma das mãos na cintura:
—Pronto, entrou em transe de novo.
—Alguém acorda ela gente. -Abigail brincou.
Os três, já um pouco cansados parados logo atrás de Meredith, esperavam um sinal dela para prosseguir ou voltar por onde vieram. Se estavam na direção certa? Só "Cachinhos Dourados" saberia. A Garota se inclinou para frente, tentando olhar através da mata fechada que parecia uma parede bloqueando a visão do quarteto. Ela se inclinou um pouco mais, folhas enormes de bananeira pareciam estranhamente colocadas propositalmente para formar um bloqueio. As folhas gigantes estavam amarradas com um tipo de barbante nos troncos de duas bananeiras, eram 8 ao total, todas intercaladas. Meredith sorriu esbanjando orgulho, como sempre fazia ao descobrir algo novo. Esticou os braços, puxando aquelas folhas para si, tirando-as do caminho. Jogou uma por uma para trás.
—Hey! Cuidado com a gente. -Stephen desviava das folhas que a loira atirava.
Ela não disse uma palavra, continuou sua tarefa até que a última folha de bananeira fosse retirada do caminho. Acabou. Ela passou a língua entre os lábios se virando para os três, lançando um olhar convencido apontando para frente.
—Viu?... Eu sei onde estamos.
Atrás da Loira, os três puderam ver uma estreita trilha que andava em linha reta.
—Tá no mapa? -Raven perguntou duvidando.
—Tá no mapa sim. -Merdith respondeu convicta. -Vamos?
—Se forem mais 30 minutos de caminhada, posso te bater?
—Vem logo, chatinho.
A cachinhos deu as costas aos três, andando na frente sendo seguida por Stephen, Raven e por último, Abigail que cuspia seu chiclete fora. Raven, uma amante dos animais e do meio ambiente, não estava se importando tanto com a longa caminhada mas estava tremendamente ansiosa para chegar logo ao templo. Imaginava todas as fotos que ia tirar, as lembranças que seriam feitas. Essa era a primeira grande aventura da garota, que acompanhou os colegas nessa comemoração do término da faculdade para finalmente tentar fazer proveito de seus conhecimentos. Ela se imaginava como uma Indiana Jones, entrando com sua turma num templo Maia enorme e lindo onde fariam descobertas incríveis, mesmo sabendo que no fim, tudo poderia se resumir a pedras, poeira e insetos. Mas otimista como sempre foi, nem mesmo algumas baratas poderiam desanimá-la.
Ao contrário de Stephen, já infeliz com a situação. Na faculdade e nas festas, ele é sempre o cara que protege as meninas dos tarados, as respeita, é um rapaz bom e esperto. Porém, sua preguiça e constante irritação com os insetos mostravam um lado seu não muito agradável, como uma criança birrenta que reclama de tudo, dentro de sua mente a frase "Por que eu saí do Hotel?" se repetia constantemente. Um cara bonito, simpático, infelizmente pego num dia de ressaca numa mata interminável. Meredith sentia uma atração por ele fortíssima. Não se podia chamar de amor, longe disso, mas só de olhar o garoto pelo mínimo que fosse, já a fazia ter calafrios de desejo.
—E A Amber? Acha que ela vai vim mesmo? -Abigail perguntou ao fundo, os quatro caminhavam quase que em fila indiana pela estreita trilha, tendo muita sombra das árvores. Naquele ponto mal se dava para sentir o sol.
—Tenho certeza. Ela está louca pra ver isso! -Meredith dizia empolgada.
—É, estava. Mas aí ela conheceu aquele alemão gatíssimo. Gente, como os Gringos aqui são lindos! Sério, eu acho que nunca mais quero ficar com caras Americanos de novo. Vou atrás de um Russo... de um Sueco.. de um Australiano.. ou quem sabe um Brasileiro... -Abigail se divertia falando besteira e descontraindo a galera. Ainda que tudo fosse na base da brincadeira, ela não se segurava em abrir assuntos descontraídos ou explícitos.
—Ah safada! Mas você é gatona, se vira até em deserto. -Brincou Meredith.
—Pois é amiga.
Raven tentava manter o ritmo da caminhada, quando seu pulso se sacudiu devido ao movimento frenético dentro gaiola, o passarinho parecia desesperado, voando de um lado para o outro loucamente:
—Calma bebê!!! Calma.
—Nossa ele vai entender tudo o que você tá falando. -Stephen debochava.
O Bicho ficou inquieto, principalmente quando o canto de outros pássaros ao redor ecoaram sobre suas cabeças, parecia até pedir socorro para eles, ou tentar uma conversa. Uma gracinha, porém era realmente de cortar o coração.
—Ai, já tá chegando essa porcaria? -Stephen tornou a perguntar se cobrindo de repelente em Spray.
—Stephen eu juro que se você me fizer essa pergunta de novo.... -Meredith interrompeu ao si mesma, vendo a grande luminosidade do sol que vinha a apenas alguns metros. Era ali! Ela tinha certeza! Era a clareira! -Gente, vem!! -Exclamou ela abanando as mãos, querendo apressá-los.
Ela se lançou para frente, usando as duas mãos para abrir caminho pelo mato que os separava da clareira, seu rosto surgiu por dentre as folhas mostrando admiração e espanto. Ela deu passos à frente deixando que os outros também passassem por onde ela entrou, deixando o caminho livre. Stephen Emergiu olhando para cima, seus olhos foram até o topo do templo:
—Oh.. meu Deus... -Ele disse pausadamente perplexo.
—Uhull!!! -Meredith deu pulos de alegria exclamando sua felicidade para quem quisesse ouvir. Seu grito ecoou pela floresta, seguida por suas gargalhadas eufóricas. -Não acredito! Gente!
Raven e Abigail surgiam logo atrás de Stephen, a morena divertida suspirou:
—É Lindo!
—Estou chocada... — Raven concordou. -Como ninguém nunca visitou isso antes?
—É... -Meredith coçou a cabeça. -Digamos que está fora do alcance de civis...
—Como assim? -A Menina de trancinha perguntou.
—Meredith... -Stephen a fitou desconfiado. -Vai me dizer que vir aqui é ilegal?
—Quase isso...
—Ah não acredito! -O Rapaz bufou, dando as costas a ela.
—Não! Calma. É que não é aberto ao público ainda! Só isso. Somente a equipe do meu colega veio aqui até agora. Ninguém mais. Para o templo ser aberto a visitação, precisa de todo um cuidado, um estudo sobre o local, para saber se é seguro aos visitantes... se o chão não vai desabar nem nada disso, entende? Tem todo um protocolo de segurança. E depois as agências de turismo fazem o que querem.
—Tá, mas se a polícia Mexicana vir dar uma passada aqui, não conheço vocês. -Stephen falou com sarcasmo.
—Tonto. -Raven passou por ele dando passos à frente, admirando a estrutura. -Bizarro.
—O que é bizarro? -Meredith questionou sem nem mesmo tirar os olhos do templo. Estava encantada e nada movia sua atenção daquela vista.
—Ahm... bizarro, tipo... a floresta só cresce até ali. Como se fosse um limite, uma barreira.
Abigail olhou para o solo, raspando a sola da bota. O Chão era incrivelmente duro e um tipo de areia rasa o tornava áspero, pelo menos ali, além é claro da bem clara que o solo tinha. Percebeu que mal dava para ver a terra marrom, se é que existisse alguma ali embaixo de seus pés. Observou mais uma vez dizendo:
—Acho que é porque o terreno aqui é infértil.
—Por quê? -Raven questionou.
—Não faço ideia.
—Ai! -Raven se lembrou. -Quem está com meu Doritos?
—Eu! -Stephen levantou a mão. -Está entre as coisas na mochila, por quê? Quer agora?
—Não, Deus me livre. Estou com a boca super seca. Vou é me entupir de água mesmo. Calor da porra. Só queria saber com quem estava.
—Vem cá, e que horas são agora? -Abigail perguntou preocupada.
—Linda, são 11:10. -Stephen fitava seu relógio.
—Ah, Amber deve estar acordando agora com aqueles dois gatos.
—Dois? -Raven pareceu perplexa.
—É minha filha. Aquela ali não perde tempo não.
—Achei que fosse só o Alemão.
—Não, tem um Grego também!
—Gente... que menina doida! Eu não sabia que ela era assim não.
—Hum... viu nada ainda.
—Sei lá, essa coisa toda não tá certa. Meredith, o que faremos agora, vossa alteza? -Stephen brincou.
A loirinha se colocou a frente do grupo, dando passos vagarosos, sem abaixar a cabeça. Seu olhar agora servia para cima, apenas. Abigail olhou em volta, e balançou a mão próxima a orelha:
—Gente... cadê os mosquitos?...
—É mesmo. Sumiram. -Raven dava um giro lento contemplando tudo à sua volta, admirada.
—Graças à Deus... -Stephen agradecia pelo sumiço dos insetos. -E então, "Chefe"? O que fazemos?
Meredith lhes lançou um olhar radiante, com um sorriso de orelha a orelha:
—O que acha?... vamos subir.
Os quatro fitaram o grande e intocado templo Maia. O Abandono talvez fizesse sua figura se tornar mais atrativa. Mais misteriosa. No momento, não importava o calor, o cansaço, o fedor que eles passariam a ter se continuassem andando debaixo daquele sol, ou as roupas que já grudavam em seus corpos. Aquilo era definitivamente uma conquista. Quem diria, que com seus 22 e 23 anos, esse grupo de colegas tão unidos da faculdade fariam sozinhos uma viagem dos sonhos, com direito a uma aventura. Ao pensar em todas as boas histórias engraçadas e absurdas que poderiam sair dessa viagem, os quatro se entre olhavam orgulhosos de si mesmos. A Caminhada longa, as mochilas pesadas, a grana gasta em quantidades absurdas com bobeiras, salgadinhos e Tequila, finalmente estava valendo a pena. Não fora somente os palcos das baladas de Cancún que os atraíram, mas sim, a oportunidade de compartilharem uma experiência única: Acampar por uma noite no topo de ruínas ainda inéditas para o mundo. Quem sabe isso se tornaria a nova moda na faculdade? Meredith já se imaginava sendo a grande razão da nova e por enquanto imaginária tradição dos estudantes de arqueologia. Queria que seu nome fosse sinônimo de boas histórias. E Se os formandos começassem a visitar o templo como uma tradição, queria levar todo esse crédito com certeza!
Eles fitavam as ruínas, e elas pareciam os fitar de volta.
Fale com o autor