Notas iniciais
A Noite cai, mais preocupações se abatem.

Foi quando a noite se instalou que as fichas finalmente começaram a cair. Os Maias, aparentemente não iriam a lugar algum. Famílias inteiras se aglomeraram em volta do templo, porém, sem se aproximar dele. Já se dava para notar as fogueiras lá embaixo, o povo Maia aproveitava seu jantar, sentados sobre tangas e cobertores. Havia um homem de pé em cada canto do templo, mantendo certa distância, é claro. Mas à espreita para com os possíveis fugitivos. Nosso grupo se mantinha num círculo, em volta de sua própria fogueira cercada pelas pedras que Stephen juntara hoje a tarde. Assavam os marshmallows completamente apavorados. Não era assim que imaginaram a noite de acampamento. Cercados, sem saída, uma pessoa morta. Como poderia ficar pior? Essa era uma pergunta que ninguém se atreveu a fazer.

Amber fitava a tela de seu celular, decepcionada com as barrinhas de sinal que não existiam.

—Sem sinal... -Ela dizia com os olhos inchados, já cansados de chorar. De olhar vago, levou o Marshmallow até a boca. Provavelmente nem sentira o gosto.

Houve um silêncio mórbido por alguns instantes. Meredith fingiu que não ouviu o que Amber dissera, continuou a comer esperando que alguém dissesse algo que ela julgava ser útil. Alexandre por sua vez, mantinha a cabeça abaixada, se perguntando sobre seu próprio caráter. Em como não voltou para ajudar Henrich novamente. Em como correu sem nem fazer nada por ele. E o que mais lhe perturbava, não sentia nada pela morte dele. Nenhum luto, nenhum grande choque. Um rapaz foi morto, e isso é aterrorizante claro, mas Alex se perguntava se estaria sendo uma boa pessoa em não estar devidamente triste pelo Alemão. Não eram amigos próximos, se conheceram durante as bebedeiras das férias. Havia uma camaradagem comum entre homens festeiros mas nada além disso. Raven só conseguia pensar em sua mãe, em como ela devia estar morrendo de preocupação por ela não ter ligado. Por outro lado, Raven costumava sair sem dar satisfação, aparecia de ressaca no dia seguinte sem ao menos ter dito aonde foi. E Agora, de viagem, sua mãe com certeza estava no conforto de sua cama, preocupada como sempre, mas sabendo que a filha doidinha voltaria qualquer dia. Será? "Será que eu vou voltar pra casa?"... era desesperador. Abigail ainda morria de culpa. Se culpava por tudo o que acontecera, e por uma morte de um inocente. A Morena podia imaginar suas mãos sujas com o sangue de todos à sua volta, sendo condenada a uma eternidade de tormento. Não poderia suportar. Stephen, ainda esperava uma boa ação de Meredith, que de repente ela pudesse vir com um plano brilhante, algo que os fizesse escapar. Mas olhando para ela, ela só comia. Mastigava apenas. Seu olhar sério que evitava todos os outros rostos quando esses se viraram a ela, não mostrava nenhuma ideia brilhante. Stephen não conseguiu segurar, ele teve de falar:

—A Mochila. -As cabeças de todos se ergueram, voltando-se a ele. -Temos que pegar a mochila.
—Achei que isso estava fora de questão, Stephen. -Alex lhe respondeu com sarcasmo.
—A questão é, lá tem um celular, que podemos usar para pedir ajuda.

Raven passou a mão no cabelo, como num tique nervoso, suspirando para falar:

—Mas e se quando um de nós descer, eles atirarem flechas?... Vamos acabar do mesmo jeito que aquele moço...
—Meredith disse que os tiros eram só para nos fazer recuar. -Stephen disse olhando diretamente para a loirinha, que lhe fitou indiferentemente.
—Não olhe para mim. -Disse ela. -Foi o que pareceu. Mas se está disposto a descer esse escadão para descobrir, vá em frente. -Voltou a comer friamente.
—Não podemos ficar aqui. -Stephen continuava. -Tem que ter... alguma saída. Tem que ter.
—Como o quê? -Raven perguntou mostrando interesse.
—Ah.. não sei.. Amber, Meredith, vocês não viram nada lá embaixo? Nenhum túnel ou coisa do tipo? Algo que desse a entender que houvesse uma saída?

Amber pensou por uns instantes mordendo os lábios:

—Mas, saída pra onde? Se o templo tem uma saída, vai dar na clareira eu acho. E eu não quero levar tiro.
—Tá, mas, quando você e a Meredith estavam lá embaixo, não viram nada? Nenhuma passagem?
—Bem... -A Menina subiu os olhos tentando se lembrar. -Tinha uma... eu acho.
—Acha?
—É. Estava muito escuro. Eu ia entrar lá. Mas eu caí, e me machuquei. Aí nós voltamos.
—Mas o que você notou?
—Ahm.. parecia uma passagem mesmo. Eu não sei pra onde leva, porque eu realmente não consegui ver muito, a lamparina não ilumina tanto assim. Mas parecia não ter fim. E fazia um pouco de frio lá embaixo.
—Frio? -Raven questionou. -Como assim frio? Hoje estava fazendo mais de 30 Graus.
—Então, fazia um pouco de frio por causa da.... -Amber parou. Seus olhos se dirigiram em várias direções. Ela parecia ter tido uma ideia absurda.
—Por causa de quê?! -Stephen a cutucou querendo saber.
—Por causa da... corrente de ar...

Todos se entre olharam de modo esperançoso.

—Corrente de ar? -Raven mostrou uma surpresa positiva. -Isso pode significar que há uma saída!
—Exato. -Stephen concordou. -E se estava frio, é mais um motivo para acreditar nessa possibilidade. A Passagem deve ser subterrânea! Talvez não vai dar na clareira. Talvez pode nos levar até um outro lugar.
—Isso... -Raven estalou os dedos. -Amber, eu te amo!
—Espera! -Amber levantou a mão pedindo silêncio. -Eu entendo. Mas, eu não vou descer lá agora a noite. Se durante o dia a lamparina já não fazia milagres, quem dirá a essa hora! E outra, eu e a Meredith ouvimos coisas lá embaixo.
—Que coisas? -Alex perguntou saindo de seu transe emocional.
—Tinha alguma coisa lá embaixo. Eu não sei se era um morcego ou uma cobra. Mas com certeza tinha um bicho se arrastando ali. E desculpem mas vai saber que tipo de cascavel pode ter lá embaixo. Se seu for, não vou sozinha. E não de noite.

Abigail mostrou um leve desespero:

—E você quer esperar até de manhã? Você ficou louca? Não podemos passar mais nenhum segundo aqui!
—Abby, calma. -Raven passava o braço em volta da amiga. -Calma, respira. Entrar em pânico não vai ajudar. -Ela fitou a turma passando a mão de leve nas costas de Abigail. -Mas.. vamos pensar o seguinte. Se não tiver uma saída lá embaixo... como saímos daqui?...

Ninguém respondeu. Ninguém fazia a mínima ideia. Seus olhos pensantes logo eram tomados pela expressão de desesperança. Raven não admitiu:

—Não... sem essa.. alguém vai ter vir nos resgatar! Somos sete... quer dizer, seis! Vão notar que não aparecemos no hotel. O Hotel vai chamar a polícia!
—Não vão não. -Meredith disse ainda com a boca cheia de Marshmallow, atraindo os olhares silenciosos para ela. -Hum.. nosso voo é daqui a seis dias. O Hotel só vai tomar providência no nosso último dia de estadia. Quando nenhum de nós aparecer para fazer o check out, é aí que vão fazer alguma coisa.
—Puta que o pariu... -Stephen suspirou desapontado.
—Está dizendo que nós podemos passar seis dias aqui se não conseguirmos escapar?! -Raven exaltou a voz.
—Até mais na verdade. Em seis dias ele começam a procura. Mas não quer dizer que em seis dias eles vão nos achar.
—Ah meu Deus... -A Menina tampou a boca fechando os olhos. Não podia imaginar o pesadelo de ficar uma semana ou mais ali naquele lugar. Sem ter como pedir ajuda. -Eu quero sair daqui.... -Ela dizia entre o choro que ameaçava lhe tomar conta.

Amber se pôs a dizer:

—Matthias!
—Matthias? Quem é Matthias? -Stephen questionou.
—O Irmão do Henrich. -Alex respondeu. -Henrich fez uma cópia do mapa para ele. Ele viria nos encontrar.
—Quando? -Stephen tornou a perguntar.
—Não sei cara. Pode ser amanhã... ou.. depois de amanhã. Eu não sei quando eles iriam partir.
—Mas de que adianta? -Meredith voltava com seu tom frio. -Se o garoto chegar aqui, vai levar chumbo. Isso não nos ajuda em absolutamente nada.
—Credo! -Stephen se mostrava perplexo diante da indiferença de Meredith para com a situação, recebendo de volta dela um simples dar de ombros com sua boca faminta que só engolia o Marshmallow, não parecendo ter nenhuma empatia com os outros. -Tudo isso, essa birra que você está fazendo é por qual motivo? Por que você perdeu, é isso? Por que não está mais no controle?

A Loirinha cerrou os olhos parando de mexer a boca.

—Bem... -Disse ela. -Se eu tiver alguma ideia útil, eu falo. Se algum de vocês tiver, fale. Até lá. Acho melhor prestarem atenção em quanta comida temos.

Meredith se levantou tacando seu espeto vazio e lambido no chão. Deu as costas à todos indo em direção a barraca.

—Ela só está puta porque sabe que está por baixo. -Stephen tornava a falar com o grupo.

As chamas da pequena fogueira dançavam com o vento, ameaçando se apagar. Alex se levantou encarando aquelas chamas fracas:

—Ahm.. Stephen, vamos ver se aquela lâmpada ali funciona?
—Pode ser. -O Rapaz se levantou, ajeitando a camisa largando seu espeto, acompanhando o Grego até a pilastra ao lado do poço, para se certificarem de que a pequena manivela geraria energia para que a luz se acendesse.

As meninas, Amber, Abigail e Raven, se arrastaram ainda sentadas, ficando mais próximas umas das outras. Amber agora tomava cuidado para não encostar a mão no chão.

—Ai... -Gemeu baixinho.
—Como está sua mão? -Raven tirava a franja morena da testa da amiga.
—Está péssima. Eu ainda não tive coragem de olhar desde a hora que enfaixei.
—Está dolorido ou a dor é latejante?
—Um pouco dos dois. Se eu encosto em alguma coisa é terrível. Na hora que eu estava subindo os degraus.. meu Deus.. foi uma agonia tremenda.
—Deixa eu ver. -Raven puxou o pulso de Amber até si. Desenrolando a faixa devagar notando a mancha vermelha de sangue impregnada na mesma. -Já troca a faixa já, essa está suja.
—Tá bom.

A Faixa saiu por completo, acompanhada da cara de espanto de Raven que puxou o ar para dentro dando um suspiro de susto:

—Ham!... Amber...
—O quê?... Eu não quero olhar! -A menina virou o rosto fechando os olhos.
—Amiga... Está muito inchado.
—Mas é normal, não é?... não é?!
—É... assim... parece que sim. É que desse tamanho eu ainda não tinha visto, mas como você foi espetada, acho que é normal... -Raven mentia para a garota e para si mesma. Não havia nada de normal naquilo. O Tenar estava com um protuberância fora do normal, alta, como se tivesse algo por baixo da pele. Parecia um tubinho, como uma veia saltada. Raven aproximou seu dedo indicador. -Me fala se doer..
—Okey..

Raven passou o dedo de leve sobre a protuberância, deslizava a ponta do dedo para cima e para baixo naquela região, sentindo o que parecia ser uma veia dura, como se estivesse cheia de sangue preso, pronta para estourar. E logo abaixo, na divisória com o pulso, o buraquinho do ferimento.

—Dói?..
—Não muito...
—Amiga, está duro isso...
—Não aperta, não aperta!
—Tá bem! Tá bem!... Deixa só eu ver...

A menina de trancinha inclinou a cabeça mais para frente, tentando olhar mais de perto e posicionando a mão da garota para mais perto da fogueira, ouvindo um tipo de sirene estranha que estava sendo emitido conforme os meninos giravam a manivela e a lâmpada de acendia iluminando melhor o local.

—Agora está melhor. Obrigada rapazes!

Eles não responderam, mas Raven continuava. Com a ponta de sua unha, ela raspava de leve a sujeirinha em volta do machucado de Amber, dando pequenos cutuques sentindo que de fato, havia algo sob seu machucado. Talvez uma pedrinha tenha entrado? Um pedaço de espinho?

—Você disse que sentiu uma espetada, não é?
—Foi.
—Então, onde que sua mão encostou?
—Nas plantas que estavam no chão.
—Pois é.. acho que um espinho entrou amiga. Ou pedacinho de algum galho.
—Ai..
—É, pode infeccionar, mas eu vou tentar tirar, se eu não conseguir, depois a gente joga um pouquinho de álcool, tá bom? E aí eu tento tirar com a minha pinça.
—Tá... -Ela dizia desconfiada, temendo que Raven pudesse machucá-la sem querer.

Raven colocou o indicador e o dedão em cima do que estava ali embaixo do tenar de Amber, ameaçando espremer a coisa para fora.

—Não, não, não não faz isso! -Amber fechava os olhos com força implorando.
—Calma, eu só quero ver se está muito fundo..
—Ai...

De leve, Raven cutucou o ferimento fazendo a contagem:

—Pronta? Um... Dois.. Três...
—Não!

Foi tarde demais, o protesto de Amber de nada serviu. Raven espremeu aquela protuberância, achando que a possível lasca de madeira de um galho, ou espinho fosse sair, mas ao invés disso, o ferimento se abriu. E Como num pequeno e silencioso estouro de uma bolha, liberou um líquido amarelado e pegajoso em pequena quantidade, num esguicho curto, que depois passou a escorrer pelo pulso da garota.

—Era pus amiga!
—Ahh!!! -Amber deu um grito agudo, já o cessando na hora, tentando tomar fôlego.
—Aliviou?!
—Ai... acho que sim.. Ardeu muito, não faz isso de novo.
—Fica com a mão parada.

A Menina respirava pesadamente contorcendo os dedos da outra mão, e puxando os lábios para dentro.

—Não está aliviando?
—Não sei...

Amber sentiu uma fisgada, como se seus nervos estivessem mudando de lugar dentro de sua mão. Deus dedos se moveram para frente e para trás involuntariamente como se levasse um choque, a garota arregalou os olhos em estranhamento, Vendo a protuberância baixar, estava sumindo enquanto um pouco mais daquela substância amarelada escorreu pelo ferimento. Ainda a sensação de que suas veias mudavam de lugar. Era muito esquisito e agoniante. A dor deu uma bela diminuída enquanto sua mão voltara a ficar mole novamente, tendo ela mexido os dedos por vontade própria dessa vez, vendo o pus escorrer, se é que aquilo era de fato pus.

—Pega uma toalhinha, vai limpar e enfaixar de novo..
—Ah... ah... -A morena suspirava. -Obrigada... credo, que sensação horrível.
—Eu sei.

Amber se levantou, sentindo uma irritação pequena com aquele líquido que lhe escorrera pelo pulso. Era como se aquilo fosse o responsável pela ardência que sentia. E ter aquilo escorrendo sobre a pele agora lhe dava uma vontade incontrolável de coçar. Realmente era irritante e de sensação ácida. Corria para a barraca doida para se limpar e esfregar o pulso numa toalha, desde que mantinha o braço um pouco afastado do corpo para não sujar a roupa com aquilo.
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Stephen tentava pegar no sono deitado no cantinho da barraca, dividindo-a com Meredith, que estava ao seu lado, e Abigail na outra ponta, deitada de costas para os dois. Ele podia ouvir o choro baixinho da menina, e suas puxadas de catarro na tentativa de não deixar o nariz escorrer. Estava calor, e o fato de ele não poder estar tomando um banho o incomodava profundamente. Estava com o corpo repleto de suor seco, ainda com as roupas da caminhada. Tinha até medo de tirar os sapatos e exalar um cheiro horrível. Dormir não estava nada fácil. Imaginava como estava atraente o bastante para todos os mosquitos do mundo, que no entanto, pareciam não existir. Alex e Amber foram se deitar na barraca azul na outra ponta. Já se passara quase uma hora desde que todos se deitaram. Exceto Raven, que sem sono permaneceu sentada na ponta do escadão, observando os Maias nas bordas da clareira e suas fogueiras. Eles eram mais silenciosos do que o esperado, ou talvez a altura do templo não lhes permitisse ouvi-los muito bem. Eles pareciam conversar entre si lá embaixo. Mas não dava para ouvir quase nada. E também, para que ouvi-los? Não entenderia uma única palavra do que diziam.

Stephen se preocupava com uma saída que podia não existir, e com a possibilidade de passarem dias e até pouco mais de uma semana ali. Passar fome, calor.. sede. Quantas garrafas de água ele tinha? Em sua conta mental, conseguiu contar apenas três. Uma já havia acabado, consumida hoje a tarde. Era muito desconfortável dormir ali. Impossível. Fechou os olhos mesmo assim. "Preciso dormir para ter forças para fugir amanhã, preciso dormir para ter forças para fugir amanhã". Enquanto se martelava mentalmente com essa frase desesperada, um ruído do lado de fora da barraca o fez abrir os olhos imediatamente. Era um raspar. Era um ruído parecido com a das solas dos tênis da turma que passavam se arrastando sobre aquele chão areoso. Fora um raspar curto e rápido. Manteve os olhos abertos e os ouvidos atentos. Silêncio... Silêncio... E o ruído surgiu de novo, dessa vez mais longo e mais forte!

—Ah... saco... -Ele esfregou as mãos no rosto, sentindo a ardência embaixo dos olhos por conta do dia que passara embaixo do sol sem colocar protetor solar. Com cuidado para não acordar as meninas, se ergueu, indo para frente lentamente. Ficou de quatro engatinhando para fora da barraca, primeiro, colocou a cabeça para fora. Não havia nada lá além do silêncio, nem mesmo grilos. Olhou para um lado, e para o outro. O que estaria fazendo aquele som? De repente, o pio do passarinho lhe deu um pequeno susto, fazendo-o levar seu olhar até a ponta do escadão, onde de costas estava Raven sentada ao lado da gaiola. O Rapaz foi em frente, se levantou coçando o pescoço todo queimado de sol.

—Insônia? -Raven perguntou baixinho, sem se virar para ele.
—É... Como alguém consegue dormir nessa situação?... A Abby não pára de chorar.
—Ela está muito assustada.
—Todos estamos. -Ele foi se aproximando da menina notando a fumaça que exalava de frente a seu rosto. -Está fumando?
—Aham.
—Me dá um?
—Não sabia que você fumava.
—Hora de pânico, minha cara. -Disse ele se sentando ao lado dela.

Raven lhe esticou a mão lhe entregando um cigarro com o isqueiro.

—Obrigado.
—De nada.

Stephen acendeu o cigarro, de modo desajeitado, era óbvio que ele mal sabia como se fazia aquilo. Raven riu de lado, voltando sua atenção aos membros da tribo.

—Foi você que estava andando ali perto da barraca agora a pouco? -Perguntou ele.
—Não.
—Ah... achei que tinha alguém ali. Já estava difícil dormir com os gemidos. E com os ruídos então...
—Está ouvindo coisas? Mas já? -Ela dizia sarcástica.
—Pra você ver.... -Ele inclinou a cabeça um pouco para frente, tentando ver se conseguiria enxergar o corpo de Henrich entre os arbustos, mas era quase impossível. A Vista não colaborava.
—O que está fazendo?
—Nada. -Respondeu ele recuando.
—Eu ainda estou com fome sabia? Eu pensei em abrir o meu pacote de biscoito. Mas depois do que a Meredith falou..
—Eu sei.
—Esperava que fosse sentar aqui, e que a qualquer momento eu ia vê-los ir embora. Mas eles não se mexem. Continuam lá.
—Vai entender esse povo.
—Eu vi uma mulher hoje mais cedo.. e eu podia jurar que ela estava aflita. Quando viu eu e a Abby aqui em cima, a moça saiu correndo.. você tinha que ver. Ela parecia muito assustada. E depois esse povo todo apareceu..
—Acha que eles tem medo desse lugar?
—Ah.. sei lá. Já vi alguns documentários. Eles são um povo supersticioso. Acreditam em maldições e essas coisas.
—Mas, acha que... eles pensam que o templo é amaldiçoado?
—Ou isso ou é sagrado. Eles não se aproximam. As antigas culturas tinham essa coisa de, não querer que coisas sagradas fossem tocadas. Talvez estejam putos por estarmos aqui. Por estarmos invadindo.. ou sei lá, é um local que é sagrado para eles, eu não sei...
—E depois? Eles atacam para punir os invasores? Isso não faz sentido. Se quisessem a gente fora daqui teriam nos empurrado para fora até a força. Mas não nos deixam sair.
—Por isso mesmo, eu estou muito confusa.
—Achar uma saída é mais importante do que ficar tentando adivinhar coisas.
—Tem razão. Estou muito, muito preocupada com a Meredith. Eu nunca vi ela assim.
—Eu também. Acho que é só estresse. Ela vai ficar bem assim que sairmos daqui.
—Eu não queria falar nada, mas...
—O quê?..
—Ela não acha que vamos sair daqui. Eu ouvi ela falando sozinha na barraca antes de você e a Abby entrarem lá pra deitar. Ela tava falando "Pronto, agora vou morrer aqui, puta que o pariu".
—Sério?
—Aham. Ela está muito nervosa. Não é bom deixar ela encarregada das coisas. Numa hora dessas, ela é capaz de fugir e deixar a gente para trás se puder.
—Não diga isso.
—É verdade, Stephen. Meredith sempre foi muito convencida. Muito de olhar para o próprio umbigo. Ela nunca admitiu o que sente por você, por puro orgulho, porque ela acha que você é burro demais para ela.
—O quê? Ela tem sentimentos por mim?
—Oh... você não ouviu de mim!
—Tudo bem.. não vou falar nada.
—Mas é isso. Amanhã eu vou descer naquele poço. E vou achar uma saída daqui.
—Mas como vai funcionar esse esquema? Porque, precisa que uma pessoa esteja na manivela para descer as outras. E depois? A pessoa na manivela vai fazer o quê? Se jogar no buraco?
—Não tinha pensado nisso.
—Pois é.
—Talvez, um ou dois de nós pudesse descer.. e.. seguir a passagem que a Amber mencionou o máximo o possível até encontrar uma saída. E aí essas pessoas podem pedir ajuda.
—E Como vamos ser tirados daqui? Só se for de Helicóptero. Porque esse povo parece que não tem planos de sair da frente do templo. E Atirando feito loucos como vimos hoje..
—Meu Deus... estamos mais fodidos do que eu pensei. -A Garota abaixou a cabeça apoiando-a nas mãos.
—Calma... -Stephen pousou a mão em suas costas. -Amanhã será um novo dia. Com novas possibilidades. Vamos nos manter firmes.
—Amanhã... vamos e precisar de sorte. Muita sorte...

Um ruído se deu novamente, parecia vir de trás deles. Algo estava se arrastando pelo solo. Uma serpente? Ou alguém acordou? Stephen e Raven torceram os pescoços para trás, observando cautelosamente enquanto o som parou repentinamente. Nada parecia ter causado aquilo. O Passarinho piou agitado por um segundo, já ficando quieto andando de um lado para o outro na gaiola, contido.

—Você também ouviu? -Stephen perguntou sem tirar os olhos de trás.
—Aham... -Raven fitava a região curiosa. O que teria causado o ruído?

Notas finais
Espero que tenham gostado! Por favor comente o que achou! E prepare-se.. as coisas vão ficar cada vez piores... até o fim de semana que vem galera!