As Rosas e o Vazio

1 Um outro sentido na vida



Mais um dia em que o céu era de um azul límpido, sem nuvens e o sol despontava em seu meio, com seus raios benfazejos iluminando tudo o que pudessem tocar.

“Ao menos, contento-me em os ver quase todos os dias... Ninguém vai roubar-lhes a paz, nem mesmo esta ameaça que nos assola.”

Por onde quer que caminhasse, olhares de admiração e reverências eram dirigidos a ele. Poucas pessoas arriscavam se aproximar e quando o faziam, o cavaleiro agia da mesma forma, apressava o passo ou ia para o outro lado do calçamento. Ao seu redor, todos viviam uma vida pacata. Agradava-lhe ver que as pessoas se tratavam com respeito, e a organização da Vila Rodorio era perfeita até mesmo em meio ao pequeno comércio que se estendia por algumas ruas. Rapidamente, parou em uma ruela e viu uma menina e seu pai fazendo com que diversas flores se transformassem em lindos buquês.
Ela tocava os lírios que tinha em suas mãos pequeninas como se os estivesse acariciando e em seguida, um sorriso solar sem motivo aparente surgiu em sua face meiga. Era sempre o mesmo sorriso, no âmago, ele a invejava. Há anos cuidava daquele vilarejo e a filha do florista, Agatha, era uma de suas motivações para continuar trilhando firme pelo árduo caminho que escolheu.

“Vi esta criatura crescer...”

Antes que pudesse se virar para seguir o caminho rumo ao Santuário, notou que rapidamente o florista se aproximou dele, fazendo-o parar. Albafica olhou para as mãos do homem, nelas estava um ramalhete de lírios brancos com uma rosa amarela em seu centro. Sem dizer uma só palavra, o florista ofereceu o presente, prestou uma mesura e saiu tão rápido quanto surgiu. Ao elevar aquelas flores às narinas, sentiu um olor agradável, muito diferente do perfume que ele próprio exalava. A beleza dos lírios era evidente, contudo, a rosa amarela foi a que mais lhe chamou a atenção. Era tão formosa que emitia até um brilho natural, seu significado lembrava a felicidade e a amizade. Sabia quem havia feito aquele buquê e nisso talvez se desse a sua inveja, ao passo em que Agatha enxergava beleza e significados naquilo que cultivava com tanto amor e dedicação, o santo dourado via em sua criação somente mais um artifício, tão mortal quanto tudo o que vinha dele. Alguns minutos depois, já seguia seu caminho por um lugar montanhoso nas proximidades do Santuário, falava consigo mesmo enquanto enxergava cada uma daquelas flores murchando por conta do contato com suas mãos. Antes que a rosa definhasse, o cavaleiro a apertou por entre a mão direita e lançou as suas pétalas ao vento.

– Apenas com o toque de minha mão... Não acredito que este tenha sido o propósito para o qual aquela criança as cultivou. De qualquer forma, sempre demonstrarei a minha gratidão, protegendo-os e cuidando de Rodorio, conforme prometi.

Salão do Grande Mestre

A grande porta que dava entrada ao salão rangeu ao abrir-se, logo, alguns passos ecoaram e esta fechou-se com força. Sage encontrava-se sentado, já sabia que a sua presença seria requisitada para aquela reunião informal. Não usava o elmo na cabeça, seus serenos olhos azuis demonstravam que ele estava aberto ao diálogo. Após ser reverenciado, o mestre fez um gesto com a mão para que o cavaleiro diante dele se levantasse.

– Eu sei o que lhe traz aqui... Hoje é um dia importante para ti.

– Bem, por mais que eu saiba que Lugonis vive dentro de mim, sempre quero ter a honra de prestar a ele minha homenagem.

Albafica de Peixes deu alguns passos comedidos para trás, querendo afastar-se do mestre e parou a alguns metros, fitando-lhe. Deixava transparecer através de seus olhos o que estava sentido naquele momento, apesar da expressão rígida no rosto. O fardo que carregava em suas costas era pesado demais, contudo, a sua promessa precisava ser mantida. Aquele era o dia de mais um aniversário de morte de Lugonis de Peixes, antecessor de Albafica.
Sage apoiou-se nas braçadeiras do trono e levantou-se, assim que colocou as mãos para trás de seu corpo e uniu os dedos, estudou o rosto do cavaleiro por poucos segundos. A morte de Lugonis também significava muito para ele, afinal, este havia sido seu companheiro de batalha. Albafica não precisava de fato de sua permissão para sair do Santuário, entretanto, ainda assim estava lá para aquilo. O mestre caminhou até o cavaleiro e diante dele, esboçou um sorriso. Aquele era o mesmo sorriso que um pai dirigiria a um filho em sinal de compreensão.

– Vá em paz, Albafica... Nada acontecerá na tua ausência. E eu espero que o encerramento de outro ciclo tenha lhe trazido um pouco mais de paz de espírito. Tu tens muito ainda para aprender e para isso, deves descobrir que dentro de ti não existe somente veneno. Quando tu conseguires enxergar a verdade, vai descobrir a tua real capacidade, teu próprio olhar sobre as coisas e encontrará o teu potencial. Lugonis entregou a ti o que havia de melhor nele e não foi somente uma maldição.

– Mestre... Eu...

– Este vazio que existe dentro de ti não é exatamente o que parece ser. Agora, vá.

– Sim. Peço licença para me retirar.

O santo dourado há muito não se sentia vacilante, quase não conseguia caminhar. De casa em casa, ele foi pedindo permissão para passar e ao chegar à primeira, ficou aliviado por Shion não estar por perto. Não gostaria de ser questionado naquele dia, ainda mais quando o amigo era tão insistente quanto a certas coisas.
Albafica seguiu por uma trilha que levava ao topo de uma colina, lá, podia sentir o calor do sol em seu rosto. Havia uma sensação de liberdade quando o vento soprava forte contra ele, ainda mais sabendo que ninguém estaria por perto para preocupá-lo. Assim que ele chegou onde queria, seus olhos voltaram-se para o local em que seu mestre havia sido sepultado. Ele sibilou com força, não acreditava no que estava vendo, nem com todo o seu cuidado, “elas” o deixavam em paz.

– Por que vocês teimam em brotar? Eu já as arranquei uma vez... Vocês zombam de mim como se tivessem vontade própria! Ou...

Albafica ajoelhou-se perante a lápide e ao redor dela, dezenas de rosas de um vermelho vibrante haviam brotado e cresciam livres. O perfume delas exalava fortemente, trazendo lembranças ao cavaleiro. As rosas pareciam as mesmas que ele era capaz de conjurar, entretanto, havia algo diferente nelas. Possuíam uma beleza ímpar e o perfume era diferente... Aquelas eram as mesmas rosas que Lugonis cultivava em seu jardim. Como ele não havia reparado antes?

– São as tuas rosas, mestre... Esta é a tua vontade? Eu fui o teu companheiro por tantos anos, mas... Elas te acompanham até mesmo após a morte. O que queres me mostrar? Agora, eu lembro que o mestre Sage falou sobre “vazio”.

Desde a morte de Lugonis, Albafica vivia em conflito consigo mesmo. Seu único bálsamo era pensar que o mestre estava sempre com ele, porém, a sensação de que havia um vazio dentro dele contrastava com isto. Não conseguia enxergar as rosas como companheiras, eram traiçoeiras e até então, não via a real beleza delas. Para ele, ainda eram um ardil singular, em que aqueles que são envolvidos por sua fragrância e as subestimam por tão inocente e aparente “beleza”, caem sem que saibam o que lhes aconteceu. Ainda possuía muitas dúvidas, e as lembranças que todos os dias vinham à tona eram o único paraíso do qual ele não podia ser expulso.

– Eu começo a aceitar este vazio... Sinto-me dentro dele, é como se ele começasse a florir e ser preenchido aos poucos. Será que estou entendendo?

Ele arrancou uma das rosas e acariciou as suas pétalas. Após erguer o corpo, fez uma reverência ao túmulo do mestre e sorriu. Uma lágrima cristalina rolou livremente por seu rosto, seguida por outra... Conseguia respirar de forma aliviada, como se estivesse com as energias renovadas. Pela primeira vez saiu daquele lugar sem culpa ou remorso, tanto que apressou o passo para voltar à sua casa e ocupar seu posto com orgulho.
No caminho, pôde ver alguns garotos treinando nos arredores do Santuário. Reconheceu um homem que estava vestido com trajes simples recostado em uma pilastra, à sombra. Sequer parecia um cavaleiro de Athena, quanto mais, um dos doze Cavaleiros de Ouro.

– Tenma! Não pare, seu molenga... Se parar, vai ter que recomeçar a contagem de voltas!

Dohko de Libra não sabia ser tão sério para dar uma ordem, sobretudo quando estava tão acomodado e seu ar era de brincadeira. Tenma estava correndo em círculos ao redor da arena, enquanto outros jovens digladiavam-se.
Albafica se descobriu sorrindo, mais lembranças surgiam. Lugonis havia sido um bom mestre, assim como Dohko estava sendo à sua maneira. Quase que involuntariamente, o cavaleiro foi se aproximando da arena. Todos os garotos apontavam, não era comum verem outros cavaleiros de ouro, quanto mais, o de Peixes. Tenma havia completado a última volta e parado diante de Albafica. Estava exausto, curvado com as mãos apoiadas nos joelhos. Ele demorou alguns instantes para perceber quem era o homem diante dele.

– Desculpe... Eu...

– Então, tu és o discípulo de Dohko. Continue te esforçando, Tenma, para ser o melhor sempre.

Ele afastou-se do garoto, não poderia permitir que qualquer tipo de contato fosse feito. Tenma entendeu aquela atitude, tanto que reverenciou Albafica e saiu correndo, reiniciando a corrida com um sorriso estampado no rosto. O cavaleiro sentiu uma grande força emanando de Tenma, um poder armazenado... Algo que desafiava descrições. Uma emoção misturada a fé e algo que ele não compreendia, pois era maior que a ambição, maior que a confiança e a determinação, maior que a visão e o limite... O que poderia ser aquilo que Tenma irradiava? O rosto dele ficaria gravado na memória de Albafica.

“Este garoto...”

Albafica recomeçou a sua caminhada, as Doze Casas não estavam muito distantes dali, porém, era quase impossível fugir de Dohko. Como imaginou, o libriano não contentou-se em acenar e veio conversar com ele. O pisciano sabia que o velho discurso não funcionaria, por isto, esperou até que Dohko se aproximasse.

– Finalmente tu não repetiste aquilo tudo sobre aproximações, Albafica...

– Contigo e Shion? Já entendi que não tem mais jeito... Vocês são teimosos demais.

– Somos teus amigos, não se esqueça

– É, eu sei disso... A propósito, por que ele não está na Casa de Áries?

– Shion está treinando, mas não te fie... Ele jamais vai estar fora de alerta quanto à sua casa. Ah, é a primeira vez que não o vejo melancólico nesta data, Albafica.

– Sempre temos algo para aprender, não é mesmo Dohko? Muitas coisas ainda não fazem sentido e talvez, só no dia de minha morte farão... Outras, jamais farão. Porém, hoje... Eu encontrei mais um sentido em minha vida. A última vez em que isso aconteceu, foi quanto derrotei Luco de Dryads.

– Todos os dias eu aprendo algo também, até mesmo com os garotos. Aprender não tem fim, estás correto, Albafica.

– Fico feliz com isto e em ver o progresso do teu discípulo... Tenha um bom dia, Dohko.

Albafica era tão jovem quanto Dohko, contudo, as suas personalidades se chocavam visivelmente. Há anos ouvia Shion e Dohko falando sobre amizade e companheirismo. Ambos nunca fugiram do pisciano, como outros faziam sempre que ele cruzava o seu caminho. Era estranho não temerem o seu veneno.
Enquanto subia as escadarias de sua casa, Albafica foi percebendo que nunca o vazio que habitava o seu interior estivera tão vivo. Aos poucos, viu que de alguma forma, aquele vazio estava se enchendo de vida, de poder e do amor que tinha por Lugonis e que sempre fora recíproco. Agora também entendia que dentro dele estava a amizade que há muito seus companheiros tentavam demonstrar que tinham por ele. Então, aquele era o sentido de ter um “vazio”... Para poder ser preenchido por tudo o que de melhor existia.
Naquele dia, o cavaleiro de Peixes não se sentiu sozinho em seu mundo... Será que seria o suficiente para que ele continuasse a sua jornada?

Notas finais
Espero que tenham gostado! ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!