As Relíquias Perdidas
1 Introdução
Ao sair de casa naquela noite, não esperava que minha vida pudesse mudar tanto de uma hora para outra. Meu nome é Silver, e atualmente os humanos vivem colônias subterrâneas, já que a parte posterior do nosso planeta foi devastada há muitos séculos pela guerra e hoje restam apenas ruínas de uma cidade, agora, cercada por uma floresta. Bom; até onde sabíamos.
Passo a maior parte do tempo com meus dois melhores amigos; Aira (o ‘A’ é pronunciado com mais força – ‘Áira’, e Dárius. Nós nos empenhávamos em escapar despercebidos durante a noite, para matar o tempo na superfície e incomodar os guardas.
Saíamos a céu aberto procurando algo para nos entreter. Já era quase enjoativo, pois tiraram de uma vez a ronda dos guardas na superfície e não tínhamos mais o nosso pega-pega noturno com nossos “amigos” de farda. Mas naquela noite, as ruas estavam mais sombrias e frias do que de costume, tudo parecia encolhido de medo, devastado de forma agoniante.
-Sou só eu, ou hoje as ruínas estão diferentes? — Dárius perguntou, enquanto começávamos a entrar na cidade, vendo a nossa frente, as ruas silenciosas; longas e escuras.
-Também achei — disse, com calafrios só de olhar o caminho a nossa frente.
-Acho deveríamos voltar — falou Dárius.
-Eu não. Tivemos muito trabalho para sair do subsolo hoje, não vou voltar até que estejam prestes a fechar as entradas. — Bufou Aira, e começou a adentrar nas ruínas.
-Se me lembro bem, quase nos deixaram para fora da última vez... — pensou Dárius, indo acompanhá-lo e eu logo atrás.
-Estou pouco me lixando se eles nos deixam para fora ou não, – falou Aira – e vocês também não deveriam.
Quanto mais longe íamos mais frio ficava, os postes de sinalização da entrada para o subsolo ficavam cada vez mais distantes. Os prédios meio destruídos e a sucata para todo lado deixavam o cenário mais fantasmagórico do que de costume.
Diziam, que com a guerra, monstros passaram a habitar a superfície e a vida havia se tornado impropria para os seres humanos. Mas todos sabiam que essa era só a desculpa do governo para não terem que reconstruir o mundo aqui em cima. Os adultos inventaram as histórias dos monstros, para que as crianças tivessem medo de descobrir o mundo no exterior. Nunca acreditei nesse tipo de coisa, mas confesso que as vezes, enquanto estamos na superfície, sinto algo nos observando, como olhos sedentos escondidos nas sombras, vendo qual o momento certo de atacar. Geralmente era só um pressentimento, mas naquela noite, era quase uma certeza.
—Ei, Aira – falei, já com arrependimento de ter saído naquela noite. – vamos voltar. Estou com um mal pressentimento disso aqui.
—Está com medinho Silv? — disse ele, com sua cara de deboche – se começar a chorar, eu te empresto meu casaco para secar suas lágrimas.
Me contendo para não pular no pescoço dele, respondi:
—Sim, estou com medo! Estou com medo de que algo aconteça conosco, seu idiota!
Estava pronta pra estrangulá-lo se fizesse mais uma gracinha. Após alguns segundos, Aira desfez a 'pose' e desculpou-se:
—Tudo bem, desculpe. Mas por que você está com medo? É o mesmo lugar que sempre viemos.
Dárius interviu:
—Silv está certa. Hoje está diferente – falou – é melhor voltarmos.
—Concordo — disse já me virando para Aira — desculpe, mas é a vontade da maioria. -Ele ergueu os braços em sinal de rendição, e declarou:
—Está bem; fazer o que. Vocês não aguentam o tranco — e virou-se, apoiando as mãos na parte de trás da cabeça, indo em direção a entrada para o subsolo.
Naquele momento vimos algo despencar do céu. Uma esfera de luz ofuscante, que aterrissou dentro de um edifício semidestruído. No momento em que tocou o solo, uma rajada de vento nos atingiu como uma pancada fazendo-nos voar para trás.
Senti algo como uma onda magnética percorrendo todo meu corpo, antes de aterrissar novamente no cimento desgastado da velha cidade.
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