As Regras e o Diário
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Tinha acabado de chegar em casa, finalmente sai daquela tortura que chamam de colégio. Assim que cheguei, fui direto pro meu quarto e pulei na cama, fiquei lá por alguns minutos, ate que ouvi uma voz que estragou o meu momento de paz.
– Não se esqueça de que é você quem faz o almoço hoje! — Disse Mikuo da sala. Essa frase me irritou, simplesmente odeio cozinhar. Não cozinhava muito bem, mas vendo pelo lado bom... Mikuo cozinha pior ainda.
Criei coragem e me levantei, tirei meu uniforme, e tomei banho, quando sai, coloquei uma blusa branca e um short solto depois fui para a cozinha.
–Muito bem fogão, eu não gosto de você, e nem você de mim, mas ou sou eu, ou meu irmão faz você de churrasquinho. — Depois de falar isso, comecei a fazer o almoço.
Uns 10 minutos depois, adivinha quem aparece sentado na mesa?
– Entre mortos e feridos, quem venceu essa batalha? — Falou ele em tom irônico.
Coloquei o almoço na mesa: miojo com bolinhos de arroz. Sentei-me e começamos a comer, a casa estava um pouco silenciosa, eu gosto disso, a rua pra qual nós mudamos é bem calma... Dava pra relaxar.
– Eu vi você no intervalo com um menino e uma menina... Já conseguiu se enturmar? — Perguntou Mikuo, ele não gostava de ficar tanto tempo em silêncio.
– Eu meio que não tive opção, aquela garota estava me puxando, queria me mostrar o colégio porque a amiga dela pediu. Uma tal de... Gumi — Falei, depois tomei um gole de suco.
– A sei, uma de cabelo verde não é? Ela foi à minha sala ,me entregou os horários e foi embora. Mas acho ate bom você conhecer mais gente, pra finalmente fazer ami...- E antes que ele completasse a frase, cuspi o suco que estava bebendo quase na cara dele, quase. Como eu queria ser boa de mira naquela hora... Mesmo que tenha sido sem querer ele bem que merecia.
– Já te falei o porquê de eu ser contra isso, não sou que nem você, que faz e se desfaz dos amigos com tanta facilidade.
– É que eu já me acostumei a essa rotina, sempre mudando e conhecendo pessoas novas, aproveito enquanto eu posso até ter que disser adeus.
– É dessa palavra que eu mais tenho medo... — Falei enquanto abaixava a cabeça. Pois é... Odiava despedidas.
– Mas é que eu estou cansado de ser o irmão da "antissocial" ou da "garota arrogante", já não basta o ano passado todo sendo zoado por sua causa? — Ele falou com um tom mais alto, o que me fez ficar com muita raiva.
– Eu não estou nem ai pra suas preocupações, ninguém mandou dizer pra eles que era meu irmão! — Com isso me levantei e levei meu prato pra cozinha, irritada e ao ponto de explodir.
– Sabia que existe e-mail? Se não quer se despedir é só procurar na internet, sabia que pessoas normais fazem isso?
– E por acaso alguns dos seus "amigos" ainda falam com você pela internet? — Não ouve nenhuma resposta, mesmo assim parecia que ele não se importava...
"Tanto faz se eles se esquecem de você, existem outra pessoas lá fora.”
Foi essa frase que ele deu em resposta logo depois, e foi essa mesma frase que ele disse há um ano.
Memórias me voltavam à mente.
Paris, a cidade luz! Cheia de artistas e turistas. Já se passaram oito meses que nós três nos mudamos pra cá.
Comecei a colocar em pratica as regras que eu tinha criado pra mim mesma. Mas isso ate soa estranho, pra que criar barreiras que impedem a minha liberdade? É estranho, mas... Com elas me sinto segura, mesmo que as mesmas me afastem das pessoas ao meu redor, me tornando a invisível, ou quase já que um ou outro garoto "tenta" me paquerar, ou uma ou outra garota "tenta" me irritar. Uma delas é a IA, ela é a pior, tai alguém que nunca sentiria falta.
Volta e meia ela vinha com mais duas garotas, de que não sei o nome -E nem quero, seria perda de tempo tentar lembrar-se de coisas sem importância- elas vinham e me perturbavam, zombando da minha cara, me humilhando... Na verdade eu nem sei o porquê de elas fazerem isso, ou era pela falta do que fazer -já que elas viviam faltando aula- ou pelo fato ou "milagre" de eu chamar a atenção de alguns garotos, é... Deu pra perceber que isso as irritava.
– Olha só se não é a Miss Nariz em Pé andando pelo corredor, resolveu não ficar se escondendo o tempo todo? — Falava IA, tinha acabado de tocar para o intervalo, essa é a única hora que ela dava o "ar de sua graça".
Não respondi, tinha que ir direto pra biblioteca pra fazer uma pesquisa pra compensar um trabalho em grupo que eu não fiz. Quando dava eu fazia sozinha, ou os professores me empurravam pra algum grupo com gente faltando, geralmente eram dos grupinhos do fundo da sala, mas em um caso ou no outro eu acabava fazendo tudo sozinha.
Mas antes que eu pudesse seguir meu caminho, as duas garotas que estavam com IA me empurraram.
– Ei a onde você pensa que vai? — Falou uma delas, então começaram a me empurrar pra parede, já sabia o que iria acontecer. Apenas fechei os olhos esperando o pior, mas uma voz mudou o inevitável.
– Porque vocês não a deixam em paz? — Falou um garoto, de cabelo roxo e bem longo, pelo menos um dois anos mais velho que eu.
Elas ficam surpresas com alguém me defendendo e foram embora, na verdade nem eu esperava isso de... Qualquer um! Eu fazia de tudo pra ser o mais arrogante possível, ai ninguém tentaria fazer contato, tudo bem que eu não sou a miss simpatia, mesmo assim...
– Ei você está bem? — O garoto perguntava, apenas fiz que sim com a cabeça enquanto olhava o corredor totalmente vazio, como ele me achou aqui?
– Meu nome é Gakupo, sou da sala do seu irmão, ele me pediu pra te chamar porque ele queria falar com você.
– Mas... Para que ele quer falar comigo?
– Alguma coisa sobre seu pai querer falar com vocês... — Quando ouvi isso, corri o mais rápido que podia pra sala onde Mikuo estudava. O encontrei com um celular na mão, com uma cara meio seria.
– Ele quer falar com você — Nisso ele me deu o celular, fiquei por um tempo conversando com meu pai, sabia exatamente do que se tratava quando o vi com aquela cara...
Desliguei e olhei pra Mikuo, sabíamos que esse dia iria chegar de qualquer jeito mesmo, e que seria no final do ano, ou ate antes.
– Só temos mais dois meses aqui... — Falou ele, mantendo a expressão seria.
– Uma hora ou outra isso iria acontecer não é? Já devíamos estar acostumados... Não é? — Falei com uma expressão calma no rosto, estava aprendendo a esconder minhas emoções.
Mas ele era esperto, sabia que eu estava preste a desabar, afinal ele convive comigo todo o tempo, ele é meu irmão. Só não esperava que ele fizesse o que fez.
Toda vez que eu saia para o intervalo, e alguém me perturbava simplesmente por eu fica na minha, aquele cara o Gakupo vinha ao meu encontro e me defendia. Ele explicou que Mikuo o pediu pra quando ele não estivesse por perto me ajudasse a lidar com aquelas... Prefiro nem disser de como eu as chamava.
Passou os dois meses, acabou que viramos colegas, não amigos, ate porque eu não me permitiria ter um amigo. Mas ai chegou o dia em que eu teria que ir embora, sem amigos nem ninguém pra me despedir... Missão comprida? Não, pois antes que eu entrasse no carro pra poder ir ao aeroporto, veio Gakupo e falou comigo.
– Mkuo disse que estão indo pra Tóquio, o bairro para onde vocês vão é o mesmo que o da minha namorada, não vejo ela a 1 ano e meio, e queria que você entregasse essa carta pra ela — Ele me deu a carta e me descreveu como era a garota: Branca, usava óculos e tinha o cabelo rosa, e o nome era Luka. Provavelmente estudaríamos no mesmo colégio, então não seria problema.
Nisso eu parti, com ele dizendo adeus pra Mikuo e pra mim...
Sai daquele pequeno transe, aquelas memórias.
Lembrando-me disso, fui pro meu quarto, abri uma gaveta e peguei aquela carta.
– Bem... Eu prometi que iria entregar isso pra essa Luka, ele foi um colega que me ajudou muito.
"E eu vou encontra-la, custe o que custar!"
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