As Raízes de Yggdrasil

7 Capítulo 7 – Um recomeço


Conseguiu afastar as dores momentaneamente, forçando o corpo a obedecer num singelo mover das pálpebras para o fecho dos olhos, buscando o sono há muito perdido, mas este não veio. Tudo se tornou escuro, a decepção invadiu novamente sua mente, lembrando-se uma vez mais de quando era criança, e viu que a Ala Norte não passava de mentiras dos adultos. Mas quando por fim abriu os olhos, sua mente estava em outro lugar, como se estivesse sonhando com outros episódios passados. O que viu, não foi seu sangue escarlate escorrendo e pingando sem parar. Não sentiu aquele frio que abraçava seu corpo, como se a qualquer momento a alma fosse partir, mas não o fazia. O que viu, foi totalmente diferente.

A refrescante brisa trouxe o alívio em seus músculos tensos. Os ombros aparentaram imensamente pesados perante tanta pressão, e seu coração estava agitado com uma adrenalina inexplicável. O cenário era unicamente verde, e vasto, se estendendo num tapete de gramado médio, que ondulava juntamente ao vento de Verão, encontrando seu fim num cercado de árvores tendo suas copas chacoalhadas pelo vento. Era possível ver algumas maçãs vermelhas presas em suas ramificações, o que geralmente atraía algumas criaturas peculiares. As nuvens num branco extremo, sobrevoavam o céu com a velocidade moderada e tranquila, ostentando de formas volumosas em curvas sinuosas que formavam figuras reconhecíveis a olhos mais astutos, e criativos. Por baixo de si, a sombra que seguia, percorrendo em instantes o campo aberto, e com uma colina em seu centro, o que cerrava a visão para onde seriam as enormes muralhas da capital de Midgard, Prontera. Era possível ouvir, além do vento, as vozes de milhares de pessoas dialogando. Talvez, não fosse diferente de Morroc, onde mercadores negociavam seus produtos.
Fora as grandes muralhas que o pequeno tanto cobiçava, restavam apenas alguns acampamentos com aventureiros e cavaleiros aqui e ali, o mais próximo, com não mais do que duas pessoas neste momento.

— Nero! – Uma voz feminina entoou em seus ouvidos, ensurdecendo num eco distante, como se o despertasse de um sono profundo. Obviamente, o rapaz se assustava, desviando a atenção que prestara nas aves ao longe, aglomeradas nas copas das árvores, voando por entre os galhos em uma dança solene, enquanto seu chilrear podia ser ouvido dali.

Era Cenia. Uma garota de cabelos azuis e da mesma altura que Nero teria naquele momento. Também seriam da mesma idade, tendo agora doze anos, e próximos de por fim se formarem como espadachins para servirem a Prontera, em nome da academia de Izlude. Eram formandos, e ambos estavam ataviados pelo uniforme clássico dos aprendizes de alguma classe. Os homens usavam calças largas, marrons e remendadas, já que eram passadas de aprendiz para aprendiz, uma camisa verde, protegida por uma única placa de armadura em seu peitoral. Seus braços eram expostos, e os acessórios das mãos podiam ser escolhidos à parte. As botas eram maleáveis, e até bem tratadas, por serem o símbolo da mobilidade naquele mundo, altamente prezada contra criaturas mais rápidas e fortes que os próprios humanos. Já nas mulheres, a única diferença seria na parte de baixo, usando calções largos levemente acima dos joelhos. Além de claro, a mochila em suas costas, portando poções de cura, com sua tonalidade rubra, e várias outras ferramentas atribuídas pelos mestres em suas missões. Mas tinha algo em Cenia, que o diferenciava das outras crianças. Claro, portava de um sobrenome, o tão falado nobre Egnigem, uma das linhagens de mestres espadachins em Prontera, assim como os Windsor. Nero não seria nada equiparado à garota quando se tratava de destreza com uma arma branca, mas possuía força para acabar facilmente com seus problemas.
No susto, acabou levando os olhos que tinham sua pupila findando numa única fresta negra na vertical, de encontro aos azuis intensos da garota, a qual com um sorriso tenro, levou ambas as mãos às próprias costas, e tombou a cabeça para o lado. Os cabelos finos e longos, tombavam de suas costas por cima do ombro, e a mesma moveu alguns fios com a canhota, para trás da orelha respetiva, na tentativa desesperada de não parecer tão desajeitada.

— Alô! Nero! Estão nos esperando no acampamento. Vai continuar dormindo? – Seu sotaque era nobre, entoando bem cada palavra, cada sílaba, assim mostrando que estava separada por uma linha bem larga entre a plebe e uma linhagem de mestres. Assim como a voz era agradável, e sempre deixava o rapaz perdido em devaneios distantes.

A garota voltou costas, ainda mantendo as mãos atadas uma à outra pelos dedos entrelaçados, e começou uma caminhada lenta, fazendo questão de erguer bem as pernas antes de as descer novamente, numa marcha divertida e relaxada. Já o garoto de cabelos cada dia mais ruivos, encarou as próprias mãos. Eram bem maiores do que quando tinha sete anos, ostentando de uma estrutura óssea larga, composta por dedos grossos, cobertos de cicatrizes como sua mão num todo, e também, calos que deixavam arrepios até nos mais dedicados fazendeiros. Eram as mãos de quem tinha cravado pela própria vida manejando armas da forma que precisava para sobreviver. Não tinha a técnica de um cavaleiro, mas sim a valentia de um, juntamente ao instinto de sobrevivência que carregava juntamente a várias outras cicatrizes ocultas por suas vestes, mas que estavam lá, só não doíam tanto como a inocência que lhe havia sido tirada de forma precoce.

— Nero! – A voz ecoou pelo campo agora. Cenia estaria distante, a meio do caminho até o acampamento mais próximo.

Deu uma última olhada em seu corpo, percebendo que em si, nada havia mudado cinco anos. Continuava pequeno comparado com outros rapazes da sua idade, assim como não tinha a força de um, mas já era mais forte do que as garotas, o que era um sinal positivo para seu teste de admissão. Também usufruía da agilidade, e habilidade em sobreviver.

— Estou indo. – Algo que havia mudado bastante, era sua voz. Não mais parecia a de uma garota de sete anos, e sim a de um garoto em sua adolescência. Se caso fossem cegos, poderiam confundi-lo facilmente por um rapaz de dezassete anos. E desatou em uma corrida a eito, mas até alcançar a moça, ambos já estavam no acampamento.

— Comandante Poya! – Disse Cenia, batendo as botas numa continência, com o corpo ereto e exemplar, e olhos focados não diretamente na comandante, mas sim em frente, almejando um futuro melhor e promissor, que certamente seria tudo, menos desafiar a mulher.

Poya era comandante das forças da cavalaria de Prontera. Ostentava do título “Lorde”, que também se traduz para um cavaleiro de alta patente, a mais alta até o momento. Tinha longos cabelos numa tonalidade ardente como o fogo, refletindo com seu laranja intenso, o brilho do grande fruto de Yggdrasil. Olhos azuis como os de Cenia, e uma tez alva, a tornando uma mulher bela, senão pelo semblante austero e pesado. E claro, não podia faltar o seu uniforme. Obviamente pertencente ao time de proteção e treinamento de aventureiros, Eden, com placas metálicas prateadas em seus ombros, braços e pernas, deixando o tronco exposto por uma túnica escarlate, decotando seus peitos fartos e chamativos para uma criança da idade do ruivo. Um sobretudo descia suas costas, chegando até mesmo a roçar levemente no gramado. Sua destra repousava calmamente no pomo da espada prateada, com seu cume cravado na terra, para servir de apoio ao peso da mulher, enquanto que a mão canhota segurava um amontoado de papéis que lhe eram entregues pelo homem ao seu lado. Conseguia ser tão alto quanto a mulher, mas não parecia ser nada mais do que um mensageiro, já que usava as vestes costumeiras da plebe.
Por momentos, Nero e Cenia se viram ignorados, mantendo aquela formação quase parecendo estátuas ao vento que levava seus cabelos em uma dança harmoniosa, até que por fim, Poya suspirou, entregando o amontoado de papéis ao homem, que os recebeu em silêncio.

— Veja, garoto. – Disse a mulher num tom calmo, calmo demais para combinar com seu semblante. – Não é a primeira vez que Ray pede ajuda dos cavaleiros para assuntos relacionados a arcanistas, o que é bastante… Incômodo. – O homem engoliu em seco, quando os olhos de ambos se cruzaram, e obviamente, a mulher se mostrou bem mais dominante do que o outro. – Cavaleiros não podem enfiar seus narizes em tudo, muito menos quando é algo com que não conseguiremos lidar, ou que não temos tempo para lidar.

O silêncio se fez presente por um tempo, aumentando a tensão entre o homem, e a mulher cavaleiro. O vento fez esvoaçar os pesados panos brancos que formavam duas tendas exatas, ambas com uma mesa em seu interior, e papéis pisados por pedras pesadas suficiente para os manter no local. Também era possível ver em apenas uma delas, uma pena, e um frasco médio de tinta. Em volta das tendas, caixas e caixas amontoadas de recursos para a sobrevivência dos aprendizes em formação por Izlude e Prontera, desde armas, a poções de cura, ou até mesmo, itens que auxiliariam no término de tarefas mais simples.

— Por isso enviarei meus aprendizes para ajudar! – E um sorriso se formou nos lábios da mulher, algo costumeiro de sua parte, já que era de tudo, menos um sorriso gentil. Voltou-se por fim para os dois aprendizes, com Nero, tendo a audácia de lhe cruzar os olhos. – Quanta determinação em seus olhos. – Disse a mulher, levando ambas as mãos à própria cintura e desfazendo o sorriso, com o intuito de intimidar, mas não surtiu efeito. – Olhos fortes, não é? Bem. Vocês ouviram o suficiente da conversa. Peguem vossas armas e vão de imediato resolver a questão de Ray. Só voltem para mim quando esta… Mulher, não tiver mais assuntos a tratar com os cavaleiros, e pensarei sobre vossa nomeação para espadachim.

Ambos assentiram num silêncio profundo, quebrando as posturas e se voltando ao homem, que suspirou e levou o indicador da canhota à própria gola, a sacudindo para deixar o ar refrescante entrar.

— Vamos! Do que estão esperando?! – Questionou a olhar, relutando em virar costas para os aprendizes antes que partissem além da montanha, que servia de centro ao local, e com um aglomerado de árvores em seu topo.

Nero e Cenia correram, mas não de medo, e sim com a pressa de cumprir seu último dever. Aproximaram-se do porta-armas, e agarraram os gladius característicos de sua classe. As lâminas não eram nada atraentes, largas e pesadas como tudo, mas Nero gostava daquela característica, já que havia lutado os últimos anos, usando nada mais e nada menos, do que uma única espada de madeira, que terminou virando um único graveto ao fim de intermináveis lutas. Por fim, voltaram para perto do homem, com suas armas em mãos, e costas voltadas ao acampamento, começando uma caminhada calma.

— Já sabe quem será seu tutor, Nero? – A garota quebrou o silêncio formado apenas pelo vento, e pelas passadas leves ao pisarem no gramado e na terra, com o ruivo chutando vez ou outra uma única pedra, que quase fazia questão de procurar no meio das plantas.

— Não. – Respondeu, sério e impassível, quase num tom ríspido, enquanto mantinha as mãos atrás das costas, com a destra segurando o pulso da canhota.

— Ah, vai… Sendo mesquinho assim, nunca vai arrumar uma namorada! – A garota se aproximou do ruivo, inclinando o tronco para ocupar seu campo de visão baixo, enquanto caminhava feito caranguejo, já que a chance de tropeçar era quase nula.

Nero a encarou, enrubescendo levemente ao ter seus olhos cruzando com os da mesma de forma repentina, assim como sua inclinação. Dali, sentia sua respiração calma e quente, bater-lhe na pele. Por impulso, a empurrou com ambas as mãos sobre seus ombros, mas esta não caiu. Como se esperasse aquela reação pela parte do rapaz, desatou em uma gargalhada, e em uma corrida em volta do rapaz.

— Eu vi, eu vi! Seu rosto estava da cor de seus cabelos! Eu vi! E contarei para todos na estalagem. – Gritou Cenia, com os braços esticados para o ar, enquanto corria de forma desordeira.

O rapaz cerrou os dentes, provocando um ranger que apenas ele escutara, se enfurecendo por breves momentos. Os olhos pousaram sobre a garota, que agora, ria mais ainda, começando a andar de costas, em frente ao garoto.

— Hahaha! Que mal-humorado. Veja só, está mais vermelho ainda, parece um tomate! – E de fato. Nero já tinha seus fios rubros, olhos quase na mesma tonalidade, tirando o dourado invasor e levemente brilhante, agora ostentando de bochechas ruborizadas, antes de timidez, e agora de euforia. A garota apenas levou a destra aos lábios, pequena e delicada, como a de uma garota normal seria, apesar desta usar suas mãos para portar armas. Abafou o riso, inflando as bochechas de forma graciosa, quase uma careta, que sacou do menino um sorriso breve. – Isso foi um sorrisinho? Que coisa rara de se ver!

— Não foi. – Respondeu de imediato, cruzando ambos os braços em frente ao peito, e prosseguindo a caminhada. – Veja. Um grupo de Fabres. – E parou a caminhada, apontando para o amontoado de árvores fora do alcance dos menores, que olharam para o topo do monte que só conseguiriam subir escalando.

Trepando as árvores, em um grupo de dez números, lagartas verdes ondulavam seus corpos numa locomoção harmoniosa, tranquila, para que alcançassem as belas folhas que saiam das ramificações na copa, seu alimento favorito, além das maçãs e resina.

— E estão bem grandes. – Comentou Cenia, com ambas as mãos atrás do corpo, como se imitasse o rapaz, apesar de sua postura ser mais graciosa que o tal. – Logo vão formar as Pupas, e então… Virar Creamys.

Um vento mais forte soprou, mas a jovem não se importou, assim como Nero, que a encarou todo aquele tempo com atenção e quietude. O tempo pareceu parar naquele momento, e seu coração chegou a bater mais forte, como se sentisse atraído pela nobre, até esta o encarar, e novamente, sua face enrubescer.

— De novo! – Ela riu, apontando para o rosto de Nero.

— De novo o quê?! Sua praga! – Cerrou ambos os punhos, retendo a vontade de simplesmente atacar a garota já que ninguém estaria vendo, ou isso era o que achava.

Antes que a menina pudesse provocar mais uma vez o rapaz, uma voz adulta do sexo masculino se fez presente, ecoando à distância. Ao encararem a direção, lembraram-se de sua tarefa, pois quem os chamava, era o mensageiro de Ray.