A noite passava correndo, como as crianças faziam durante o dia. O fruto primordial de Yggdrasil recobrava seu resplendor, incidindo a luz sobre o patamar mediano da árvore da vida. Em Morroc, o calor era abrasador, sentido desde os primeiros raios mais fortes, até que os mais fracos se dissipassem, estes mesmos raios do alvorecer, que invadiam pela cortina coberta de pequenos buracos, diretamente contra a face de Caelum que dormia em seu canto respetivo. Seus olhos abriam displicentemente, e num impulso assustado, o rapaz se levantou. As mãos tatearam as cobertas vazias, sem o corpo pequeno e fraco de seu irmão recém-nascido, antes de perceber que a figura do mesmo estava à porta de casa, encarando as pessoas que saiam de suas habitações para as ruas. Sim, a confusão invadia sua mente. Havia sonhado com a noite em que o irmão nascera. Não tinha mais cinco anos, e sim onze, e seu irmão não era mais um recém-nascido, mas uma criança energética, porém desajeitada, de seis anos.
Coçou pesadamente com a base das mãos os olhos recheados de olheiras, e um inchaço característico de quem havia tomado uma surra, ou então, de quem passara quase a noite toda em branco. Limpou as remelas com os dedos, os quais acabavam machucando os olhos com areia, e reclamou baixinho em palavrões sem sentido, como se falasse em outra língua.

— Que você faz aí, Nero? Já tocaram os sinos? – Perguntou Caelum. Sua voz ainda era uma mistura de meninice com a de um adulto, demonstrando os primeiros sinais da puberdade, assim como pequenas bolhas que apareciam em sua pele.

— Irmão! – Gritou o pequeno rapaz. Apesar de ter seis anos feitos, seu corpo era quase o de uma criança de quatro, disparando contra o maior em um abraço caloroso e demorado. – Hoje é o dia que vai me mostrar a ala norte!

— Ah, está tão ansioso assim?

— Sim! Sempre me perguntei como seria a vida por lá. E não se esqueça que Edfu, Horus e Ravic também vão!

O ruivo de cabelos curtos e rebeldes, afrouxou por fim os braços em volta do irmão mais velho que estava sentado, o qual tomou partido para o empurrar com certa força, para que Nero sentasse à sua frente. Os olhos curiosos do rapaz encararam o mais velho, grandes e fortes, com duas tonalidades distintas, que atraíam atenção de todos que o viam correndo pelas ruas e vielas. Sua íris era uma única fenda, negra e profunda como o abismo, rasgando a íris na vertical. A tonalidade dourada, parecia dançar em volta do centro, como se fosse uma chama abundante e feroz, envolta pelo intenso escarlate, realçado à pele clara, algo estranho, devido ao sol que deixava a todos quase negros. Sempre que Caelum via aqueles olhos, se perdia, se lembrando do dia em que reclamara do segundo nome do irmão, mas logo fechando os próprios, chutando para longe as ideias.

— Mas o plano é nos reunirmos ao soar do quinto sino! Aquele que anuncia o que chamam de hora do almoço. O mais longo de todos! – Ressaltou Caelum, à medida que se levantava e coçava os cabelos emaranhados e longos, cheios de grãos de areia aqui e ali. Olhou por fim em volta da casa, a qual a cada ano que passava, se tornava mais frágil, com as rachaduras antes quase mínimas, cada vez mais abertas. Alguns dos rasgos, deixavam agora entrar a própria luz solar, assim como água da chuva, quando esta decidia cair. – Ainda é muito cedo…

Podia dizer isto, devido à claridade. Ainda não era total, e sim levemente rosada, mas já portando um calor sem igual para aqueles que não estavam habituados, ou que estavam despreparados. Esta não era uma boa hora para gatunos, ladrões que usavam as vielas perigosas, pois os mercadores ainda estariam montando suas tendas matinais, e usariam de todas as suas energias renovadas para vigiarem bem seus produtos mais frescos. O cheiro de pão descia pelas ruas pobres ao sul da cidade, invadindo a habitação dos rapazes, e fazendo seus estômagos roncar em reclamação.

— Tá vendo? Você também quer sair! – Reclamava Nero, fazendo uma certa birra. Seus lábios secos se fechavam num bico imaturo, e as pequenas mãos agarravam as calças de Caelum.

— Nero… O que devo fazer com você? Sabe o que aconteceu da última vez que tentamos roubar um mercador matinal.

— Eu era menor! E estava cansado. E sem fome. Estava desmotivado! – E mais umas quantas desculpas que foram nomeadas por longos dois minutos de dúvida.

Caelum fingiu prestar atenção, levantando alguns pedaços de pano do chão e pegando uma pequena adaga que havia furtado dias atrás. A sacou da bainha em couro, e encarou a lâmina de aço, afiada para cortar qualquer coisa existente, ou isto era o que pensava. Abriu um sorriso que mostrou os dentes não tão brancos quanto dos mercadores exagerados, e escondeu a adaga guardada em sua devida bainha, por entre a calça e a cintura, deixando a camisa larga e longa cair.

— Também quero uma arma. – Reclamou em outra birra, aumentando ainda mais o bico, e agora cruzando os braços em frente ao peito galgaz.

— Vamos sair então. Mas não reclame se voltarmos para casa com alguns hematomas, arranhões, e com uma fome desgraçada.

Claro, a felicidade estava exposta na face do garoto ruivo, que começou a pular num festejo silencioso, pois não queria acabar com o plano antes deste começar.

— Mas você vai roubar. – Disse o mais velho, abrindo um sorriso matreiro enquanto virava um pote extremamente pesado do avesso, deixando que de dentro caíssem pedras cobertas por poeira. Suas mãos as seguraram. Eram sete ao todo, e seriam usadas para chamar a atenção do mercador mais inexperiente das ruas.

— Mas! Eu não tenho mãos ágeis como as tuas. – Reclamou o mais novo, batendo o pé uma vez mais, mas se reconfortando no fundo, pela confiança depositada em si pelo seu irmão.

— Ah, não reclame tanto. Vai dar tudo certo. – E em passadas rápidas, uma corrida para fora da casa, começando a subir as ruelas estreitas, onde o sol não batia.

Nero tentou segui-lo no mesmo ritmo, mas sempre se afastando de uma parede ou de outra entre aquele labirinto interminável, para não esbarrar com os escorpiões que faziam questão de mostrar além das pinças largas e fortes, as longas caudas com os ferrões que matariam qualquer adulto em questão de minutos. Realmente, não tinha vergonha em demonstrar que temia sequer esbarrar com um desses, então sempre espreitava bem antes de se enfiar pela ruela em que o irmão havia se enfiado sem medo. Após alguns minutos em caminhos deambulantes por entre as casas, como se fossem ratos á procura de queijo, por fim o rapaz podia ouvir o escarcéu de várias pessoas falando umas sobre as outras em simultâneo.

— Se encosta. – Falou Caelum num tom apressado, após espreitar da viela para a rua principal, e com a canhota tocando o peito do irmão, o grudando contra a parede com certa facilidade.

Naquele mesmo momento, passavam dois guardas completamente cobertos por uma armadura de metal, e pesada. Pareciam gigantes, com aquelas passadas em marcha tão altivas e poderosas, que faziam a terra tremer, e os ouvidos vibrar junto do coração, com o tilintar da armadura. Em suas destras, a arma característica da guarda do palácio que ficava a alguns quilómetros dali, alabardas pesadas, que partiriam qualquer criatura e homem ao meio com um simples manear. Mais lembrava machados de carrascos, que eram molhados todos os dias com sangue de mercenários descuidados, e arruaceiros que apenas usufruíam da experiência em furtos. Sem se dar conta, admirou mais do que sentiu medo, mas logo isto mudava, quando por fim desapareciam de sua vida. Ambos suspiraram em alívio, e Caelum se virou para o irmão, com um sorriso amigável.

— Esses são os únicos guardas de vigília, e vão demorar uns bons trinta minutos para voltarem a descer as ruas antes de trocar seus turnos. – Começou a recitar o mais velho, em sussurros que não chegariam aos ouvidos devido á confusão na rua principal. Alguns ladrões já eram pegos pelos mercadores e apedrejados, ou então, espancados com longos bastões de madeira.

Nero engoliu em seco ao ouvir a confusão, e tentou olhar por cima dos ombros do irmão que ocupava toda a ruela, mas sem sucesso.

— Escute. Temos que descer um pouco mais a rua. Edfu me disse ontem que um novo mercador montaria hoje sua tenda perto da casa do Ravic e Horus. Ele supostamente vende velharias, e pão que não comeu no dia anterior. – E deu um salto por cima de Nero, disparando novamente pelos corredores estreitos por entre as casas, acompanhado pelo mais novo.

Mais alguns minutos se passavam, e Caelum subia umas escadas feitas em areia e barro, para o telhado de uma das casas que compunham a barreira da rua principal, para o bairro pobre.

— Ali. – Apontou Caelum, ao ter certeza que Nero estaria ao seu lado para ver, apesar de seus olhos terem se fechado brevemente para não sofrerem com a areia que era trazida pela forte ventania, que fez balançar as altas palmeiras que se estendiam em fileira até o palácio ao longe, como se fossem tombar ou quebrar. – Aquele loiro ali, de bigode. Veja como é mentiroso.

Uma investigada do mais novo e do mais velho, percebiam que as pedras que este vendia, dizendo serem rubis, esmeraldas e safiras, não passavam de réplicas baratas e mal feitas. Estas não refletiam qualquer luz incidida pelo fruto de Yggdrasil gigante no céu, o sol, mas os burros não notariam isto.

— Apenas cinco mil Zeny cada pedra! Leve agora, leve agora! Baratinho, baratinho! Tenho pão, pedras preciosas, e punhais em ouro! – O homem de corpo forte e gordo, abria os braços como se convidasse todos a aproximar-se de sua tenda, erguendo em uma mão segurando um punhado das pedras falsas, e outro, um punhal de ouro falso. Claro que os mais ignorantes se aproximavam da tenda com as mãos segurando o queixo, para que a boca se fechasse, fingindo um ar pensativo.

— Apenas areia naqueles cérebros, haha. – Caelum dava uma boa risada, dando um tapa nas costas do irmão mais novo, que engolia em seco.

Estava nervoso. Seus braços e pernas tremiam como se fossem perder a força, e engolia em seco. Seus poros se abriam e deixavam escapar toda a água que havia bebido no dia anterior, sobre a forma de suor salgado e amargo que descia de sua testa até os lábios. Se não fosse pelo calor que aumentava a cada minuto, era por estar extremamente tenso e preso naquele lugar, com o coração palpitante. Não encarava mais as pedras preciosas, ou os punhais que sequer cortariam a mais tenra carne, mas sim o longo bastão de ferro nas costas do homem de roupas largas e castanhas, como quase todos mercadores da área.

— Não fique nervoso, Nero. Eu ficarei aqui em cima. – Começava a brincar com uma das pedras, soltando as outras aos seus pés. O sorriso aumentava, com ideias maldosas sobre onde acertaria primeiro, e quando. – Você age normalmente.

Naquele momento, podiam contemplar as técnicas de venda do homem. Ele realmente mostrava o produto original. Um punhal de ouro que cortava qualquer material como se nada fosse, assim como nas histórias de cavaleiros que vinham do Norte, além do longo e rigoroso deserto. As pedras que mostrava à mão também eram originais, refletindo qualquer tipo de brilho. Valeriam bem mais do que cinco mil Zeny, o que deixava todos pensando que o mercador era extremamente generoso, ou burro, por ser novato no mercado. Mas o produto que entregava em mãos, dentro de sacolas de pano velho e bem amarradas, era o oposto. Quando não colocava amontoados de barra para fingir o peso, colocava pedras normais, ou as réplicas em madeira e tinta bem distribuída. A cada venda, esfregava suas mãos ansiosamente, sabendo que demorariam horas para descobrir sua trapaça, já que ninguém mostraria sua compra em meio ao mercado público.