As Raízes de Yggdrasil
15 Capítulo 15 – Fial
Batidas secas e consecutivas despertaram o jovem rapaz do sono profundo, com olhos queimando pelas lágrimas derramadas na noite anterior. Sua cabeça pareceu girar em torno do cômodo, e relutava para abrir os olhos, deixando-se ouvir aquele bater nas vidraças, na única janela do quarto, a qual ficava no centro da parede oposta à da porta. A cama ficava em um dos cantos, e no lado oposto, um guarda roupa de porta dupla, o que era extremamente caro e valioso, especialmente em madeira de Olmo. Uma mesa de cabeceira ao lado da cama, na qual estava encostada a espada oferecida pelo Mestre Espadachim, e só então, percebeu que não estava no chão em que havia supostamente adormecido. Seu corpo estava encolhido em posição fetal, num ninho de lençóis emaranhados em complexos nós.
Mas as batidas perseguiram, como o pior dos despertadores, pois este a mão do ruivo não conseguia alcançar a menos que se levantasse da cama. Os olhos se abriram com displicência, encarando primeiro o chão iluminado pelos diurnos raios luminosos, deixando visível as partículas de pó que voavam de um lado para o outro, de forma calma.
Se arrastou na cama, com movimentos preguiçosos e morosos, até que por fim o corpo caiu no pavimento de soalho, recebendo a calidez do grande fruto de Yggdrasil, que brilhava forte no céu.
— Vai ser um dia quente. – Falou para si em meio ao sono e ao despertar. Sempre que fechava os olhos, dormia uns quantos segundos, antes de se forçar a abri-los novamente para tentar olhar através da janela, mas tudo que via era a claridade que o cegava momentaneamente.
Reclamou baixinho, erguendo o corpo no meio do quarto, o qual recebeu o afável calor matinal, como um abraço maternal. Seus olhos se abriram, e a destra auxiliou, a posicionando com a palma aberta sobre os olhos, para que não chegasse tanta luz nestes.
Passadas lentas, quase arrastadas como se não tivesse força nas pernas, e os dentes que exibiam sua cor tão branca. Destrancou a janela de madeira, e então, a abriu com ferocidade.
Centenas de aves voaram, batendo as asas vigorosamente devido ao espanto que o rapaz lhes causara. Os olhos no tom dourado, focaram o belo cenário disposto diante de si, do eterno e belo azul oceânico, que ondulava calmamente enquanto refletia o brilho sobre si, até que por fim, as ondas embatiam contra a rocha maciça da ilha, das quais gotículas refrescantes tocavam graciosamente a face do jovem. A brisa era suave e fresca, invadindo o cômodo e bagunçando impetuosamente os fios finos de Nero, os quais pareceram uma chama viva naquele momento, apesar de ausente do crepitar comum, mas selvagem como se fosse consumir todo o quarto.
As pontas dos lençóis também se balançava, e o aglomerado de poeira outrora calmo, voava agitadamente por todo o cômodo, sendo expulso para o exterior. Pelo céu num imenso azul, apesar do rapaz conseguir contemplar as milhares de folhas compostas na copa da árvore da vida, os pássaros voavam de forma livre e ordenada, formando setas que apontavam em direções aleatórias, e rumando para tais.
Um sorriso absorto brotou de seus lábios, em simultâneo das centenas de peixes que saltaram em sincronia na água. E só então se deu conta, que não podia passar o dia naquele local. Tinha que partir para Fial de imediato, para que tivesse as honras de se tornar um Espadachim.
Espreguiçou seu corpo, esticando os braços para cima enquanto inspirava o ar puro e com cheiro de água salgada, o qual tanto detestava, mas naquele momento, pareceu a melhor coisa do mundo. Seus ossos estalaram, e os músculos se esticaram, prontos para qualquer tipo de ação e peso. Olhou uma última vez através das janelas, e então, pegou a própria espada.
— Está com melhor aspeto hoje. – O homem atrás do balcão falou prontamente, espreitando da bancada para ver a figura do rapaz descendo a escada. Um sorriso estampado em seus lábios, e olhos caridosamente dourados. A destra segurava firmemente a espada pela lâmina, encaixando o fio por entre os calos da pele, de modo a não cortar sua estrutura ainda intacta. Sorriu como o mais novo, retomando a girar o corpo de vidro em mãos, enquanto um pano extremamente branco limpava sua estrutura.
— Meu aspeto estava tão ruim, ontem? – Questionou o ruivo ao tocar o piso do andar principal da taverna com a ponta do pé, numa leveza total, como se fosse desencadear numa dança a qualquer momento, mas isto não aconteceu. Logo a sola acompanhou, e as passadas firmes se fizeram até o balcão.
— Mais do que horrível, jovem. – Pousou o copo no balcão, no mesmo lugar em que Nero puxava a cadeira e se sentava, correndo os olhos pelo salão.
A clientela matutina não passava de marinheiros e alguns espadachins em roupas costumeiras, num silêncio absorto e inconsequente de suas mentes em devaneios distantes. Pedaços de pão que rasgavam com as mãos, molhados no café puro e sem qualquer grão de açúcar.
— O que vai querer tomar? – Perguntou o homem atrás do balcão, irmão do Mestre Espadachim, e com sua espada exposta bem acima da cabeça do ruivo. Os olhos se desviaram ao dono do estabelecimento, e pensou por alguns segundos.
Relutou entre si pela necessidade de pedir algo mais leve, como um leite, ou um suco de fruta. Queria inaugurar novos hábitos, e se habituar a uma vida de adulto que levaria quando se tornasse um Espadachim em Fial.
— Café. – Disse de forma displicente, inseguro se iria gostar do sabor ou não.
— Pois café que seja. – Voltou as costas para o balcão, enchendo uma caneca com o líquido na cor característica, e o cheiro invadiu todo o salão de forma momentânea. Um fio de fumaça emergiu da caneca, subindo alguns centímetros antes de se dissipar.
Enquanto o homem preparava o café da manhã, não deixou de balançar levemente no banco alto, enquanto seus olhos divagavam pelo local, absorvendo cada minuciosa informação que lhe era disposta. Entretanto, pousou os olhos na lâmina acima da cabeça, lendo as gravuras com certa dificuldade, e percebendo sua escrita.
Era uma escrita em códigos simbólicos, de linhas e traços, quase como runas, já que teria sua origem tão antiga quanto. Mas era diferente do dialeto dos Deuses daquele mundo. Suas formas eram diferentes, e possuía também curvas impossíveis de cravar perfeitamente até mesmo pelo melhor dos ferreiros. Mas os olhos atentos conseguiram ler seu nome.
— Por que ela se chama “Oscilante”? – Questionou o ruivo, debruçando levemente o corpo sobre o balcão, com as duas mãos segurando a beirada do banco de madeira. Seus olhos focaram o dono da taverna, o qual se voltou em silêncio, e pousou a caneca de café, e um pão ao seu dispor.
— Como sabe isso? – Perguntou o homem, com um semblante sério e curioso, voltando a pegar o copo de vidro e o limpando.
— Duh. Está gravado bem na lâmina. Dá para todo mundo ver. – Rasgou um pedaço do pão e olhou em volta, tentando ver como todos faziam, mas se deparou com a atenção toda voltada para si novamente.
O taverneiro ergueu a destra, para que dissipassem a atenção do mais novo, e então continuou.
— Ela cortava ondas. – Disse o homem de voz forte, relembrando agora o irmão mais velho. – Ondas que se erguiam acima dos vinte metros de altura, como gigantes demônios. – Ondulou um dos braços, imitando o movimento das ondas, mas seu robusto corpo não permitiu a demonstração com exatidão. Encolheu os ombros, e pegou outro copo de vidro, continuando o mesmo processo.
— Devia ser bem forte. – Disse o rapaz, admirado pela breve história, e ainda com o pedaço de pão em mãos.
— Molhe-o no café, e depois coma. – Disse o homem, dando algumas risadas para o ruivo, o qual enrubesceu e seguiu a dica.
— Obrigado.
Molhou o pedaço de pão no café, o levando displicentemente aos lábios entreabertos, e praticamente o arremessando no interior da boca. Mastigou, absorvendo o sabor com a própria língua dispondo de uma sensibilidade extrema em seu paladar, agradecendo pelo pão ser extremamente doce, já que o café era amargo e escaldava. Relutou em contorcer sua face, inflando as bochechas como se a boca estivesse cheia de comida, e olhando para o café que vibrava levemente.
A porta se abriu num estrondo que chamou a atenção de todos os clientes matutinos, deixando entrar, além da janela redonda que embelezava o salão de luz natural, toda a claridade do exterior das ruas já cheias de pessoas andando para lá e para cá. Mais os marinheiros fortes, carregando amontoados de caixas como se nada pesassem, e os mercadores carregando seus carrinhos metálicos para a praça principal. O escarcéu externo também invadiu o silêncio, e a figura que não passava de uma sombra ao abrir da porta, denunciou sua identidade com a voz.
— Olá, Tio. – Proferiu, enfatizando a voz para um tanto mais forte do que realmente era, e o homem de pouco mais de um metro e oitenta, entrou no estabelecimento.
— Elendar. – Falou o dono do estabelecimento, sem grande surpresa. Soltou um suspiro, e pousou o copo ao lado. Elendar ergueu a mão, para o tio cessar qualquer tipo de atividade.
— Vim apenas buscar o garoto. – Passadas firmes cessaram ao alcançar o ruivo, permanecendo em seu flanco, conforme a destra lhe pousou sobre os cabelos e afagou. – Preciso partir para Fial afim de completar minha tarefa, então pensei guiá-lo na capital. – Beirou os olhos pela comida do rapaz, e então, para o próprio, exibindo um sorriso amigável.
— Vai pagar também a estadia do rapaz? – Perguntou o homem, encostando as costas no lado oposto do balcão, e cruzando os braços.
— Eu mesmo pago. – Retorquiu Nero, pegando a própria bolsa de couro e tirando um total de duzentos Zenys.
O homem franziu o cenho, surpreso pela criança realmente portar dinheiro, e os duzentos Zeny nada lhe custarem a pagar, já que a bolsa ainda estava cheia.
— Com esse dinheiro, conseguirá comprar uma das melhores espadas de Isla. – Comentou o taverneiro, pegando as moedas prateadas com a grande mão, e as guardando na própria bolsa. Nero retribuiu a fala com um sorriso, lançando-lhe um olhar ameno, enquanto relembrava que no dia anterior, havia sido rejeitado na loja de armas. Uma vingança não faria mal, mas estava com pressa.
O ruivo ergueu-se do banco após o pagamento, pegou na própria espada, e se voltou para Elendar, o qual se distraía palitando os dentes.
— Vamos? – Perguntou o homem, mas começando a caminhar em direção à saída, sem mesmo esperar confirmação.
Nero apenas assentiu, e iniciou passadas mais aceleradas para acompanhar o homem, as quais se seguiram por toda a viagem na cidade de Isla, realmente sobre uma ilha anciã. Não havia nenhum barco no cais, o que talvez explicasse o decrescente número de pessoas comparado com o dia anterior, mas percebeu que era devido ao fato de que o Aeroplano estava no alto da sua plataforma, embarcando todos os viajantes de Veniah.
— Curioso sobre como é viajar de Aeroplano? – Perguntou Elendar, com os olhos focados no caminho à frente, enquanto abria espaço entre a multidão. Nero o seguiu, quase segurando seu manto com a destra, se não soubesse que era terrível falta de respeito.
— Acho curioso como conseguem erguer um navio no ar. – De fato, não passava de um navio como os que navegavam nas águas, mas este tinha enormes asas de pano agora retraídas, e hélices como as dos moinhos, porém, em metal. – Nunca caiu nenhum?
— Curioso. Eu costumava ser como você. – Admitiu o homem, por fim tendo visão ampla da ponte larga que levaria aos campos a sul de Fial. Dali, era possível ver a capital se estendendo por alguns quilômetros de um aglomerado organizado de casas com seu cerne branco e de pedra, e os andares superiores de madeira. Feitas desta forma para sustentarem o peso de alguns andares sobre si, o que nenhuma outra cidade conseguia replicar. Pelo menos, não em Midgard. – Alguns gostam de dizer que é tudo mentira. – A voz do homem voltou a distrair o rapaz, que mantinha o foco na cidade além, e não na ponte de pedra, ou no caminho do vale aberto que teria que percorrer, o qual diferente do oceano, era um manto ondulatório de grama extremamente verde e vibrante, completando-se nas árvores da floresta que rodeava a capital, e rasgada por vários caminhos em gravilha, dentro dos quais, um deles, saia da própria Isla, ao término da ponte.
— Mentira? – Questionou Nero, acompanhando a alguns centímetros de distância as passadas do Espadachim.
— Sim. Veja toda a construção. Um navio pesa suficiente para abalar os oceanos, e alguns panos os erguem no ar? Uma hélice lenta como aquelas nem refresca o calor do Verão. – Conversou mediante a caminhada, por fim alcançando o final da ponte, onde as pessoas se dividiam pelos bancos na plataforma verde da grama. Dois guardas ficavam nos extremos, com alabardas em suas mãos, tendo o pomo encaixado no chão e suportando parte do seu peso. – Aquela hélice deveria criar ciclones. Ciclones que levariam de Fial a Veniah pelos ares.
— O que os faz levantar voo então? – Perguntou Nero, percorrendo os olhos pelo vale, e percebendo que o monte em seu centro continuava ali, franzindo o cenho.
— Magia, é claro. – Concluiu, levando consigo o sorriso durante a postura altiva. Os olhos focavam no caminho à frente, e não no chão, o que provocou o espadachim chutar algumas pedras do caminho de gravilha. – Aqueles arcanistas de Nazdam que devem ter inventado.
— Eu pensei que tinham sido os Sábios de Borngha. – Encolheu os ombros. – Poya quem disse.
— E quem é Poya? – Enquanto caminhava, o mais velho olhou por cima do ombro, por fim cuspindo o palito para longe.
— Comandante do grupo de Eden. – Acompanhou o palito que girou no ar, e saltitou algumas vezes por entre a grama, até por fim afundar. – Ela quem cuidou de meu aprendizado.
Grunhiu como o pai faria, mas logo se apercebendo da mania, e a cessando.
— Ela não deve saber de toda a história então. – Cuspiu um grande amontoado de saliva para o lado, chutando outra pedra.
— História? – Questionou o ruivo, tentando acompanhar a marcha com seu ritmo aprimorado.
— Que os Arcanistas de Nazdam estão junto dos Alquimistas de Zothas. E criaram os aeroplanos para dominar financeiramente Veniah e Midgard.
Nero conteve um riso, sabendo pelo que Poya havia contado, e pelo que havia conhecido de Ray, que tanto Alquimistas quanto Arcanistas, não ligavam para o dinheiro.
— Isso é terrível. Por isso as cidades mais pobres não têm Aeroplanos. – Disse Nero, em tom desdenhoso.
— Está vendo? Eu te falei! – Pela forma como falava, era como se alguém por fim encontrasse sentido em suas palavras. Chegou a dar um toque de pena no coração de Nero que o olhava, já que havia claramente brincado com a situação. – A única forma do Porto de Yauhjaf alcançar Isla, é pelo mar, ou pela terra. Mas é complicado atravessar a floresta de Casron e ainda o deserto de Amar’Sin.
Nero simplesmente assentiu com a cabeça, maneando os lábios num sorriso travesso que era contido pelo bom senso, e mãos que apertaram o punho da espada cujo cume roçava no chão. A trouxe para mais perto, de modo que os olhos encarassem a lâmina que refletia o verde da grama, e deixava o brilho do sol bailar pelo cume.
Os últimos minutos da viagem foram gastos com conversa fiada, palavras cuspidas que o vento levava, como os resquícios de poeira e memórias distantes, juntamente às folhas mais frágeis das árvores. Pois assim era a vida em Midgard. O que fraquejavam, tinham seus corpos levados pelo vento, apesar de que quanto mais pesados são os corpos, maior a malícia que os carregará além.
Ao fim da longa caminhada pelo caminho de gravilha, por fim, cessavam os passos em frente aos grandes portões maciços da capital. Estandartes pousavam nas torres de vigília, uma em cada lateral das portas abertas, dando visão, e cedendo a passagem, ao aprendiz e espadachim sénior.
As muralhas resguardavam com suas torres de vigília e fortificações, a beleza de Fial, a capital de Midgard. Com um conjunto de casas em fileira, com suas costas voltadas para os fortes muros, que percorriam toda a extensão retangular da cidade e que ostentavam de um padrão similar umas às outras.
Em seu interior, podiam contemplar além de jardins que embelezavam os cantos da capital, uma segunda camada de muralhas, com entradas abertas para os portões Sul, Leste e Oeste, sendo também o único meio de atravessar para o centro da cidade. Em seus cantos, quatro pequenas fontes, das quais a água saia de dentro da segunda camada de muralhas, replicando partes da principal que se instalava no centro da cidade.
O pavimento era composto por um aglomerado organizado de pedras quase brancas, polidas e limpas diariamente para manter sua aparência perfeita, com calçadas acima do nível das estradas principais, destacando por onde as carroças poderiam passar e onde os mercadores assentavam no grande dia da feira, aos Sábados.
Na parte central da cidade, no interior da segunda camada de muralhas, era onde se espalhavam as lojas, tanto de armas, como produtos, e tavernas. Algumas tendas costumeiras vendiam de todo tipo de mercadorias, desde frutas a doces, as quais se aglomeravam mais em volta da praça principal, mas limitadas a se posicionar na calçada, o que deixava a cidade extremamente organizada e nada poluída.
Ao longe, após a fonte central, uma escadaria levaria a um andar superior da cidade, a qual ostentava das guildas dos cavaleiros e dos clérigos. A dos cavaleiros, na ala oeste, uma casa maior que as outras, e o chão ladrilhado para formar uma única espada que apontava para a entrada da frente. Seu exterior era decorado com pedras na coloração roxa que brilhavam intensamente mesmo durante o dia, iluminando toda a estrutura do edifício que também servia para abrigar os homens daquela classe, como uma estalagem. Já a dos clérigos, era do outro lado da rua, não passando de uma igreja igual a todas as outras que se erguia em meio a todas as construções. Em si, estavam separadas por uma larga estrada, que dava lugar a uma ponte da mesma largura, por onde águas cristalinas, porém profundas, corriam sob a mesma. Ao final do caminho principal, um tapete vermelho majestoso se estendia desde o exterior do grandioso castelo, adentro pelos altos portões.
Apesar de ser a capital dos mercadores, estes estavam limitados ao escarcéu de Sábado, fazendo com que todos os outros dias da semana fossem extremamente calmos e tranquilos, portando somente alguns aventureiros, guerreiros, e os moradores que passeavam pelos jardins de altos pinheiros bem tratados, grama verde, e flores de todas as cores.
— Aqui… — Nero tentou falar, segundos após atravessar os portões principais, mas lhe faltavam palavras. Cada estrutura completava a outra, diferenciando-se de tudo que já havia presenciado.
— Fial. – Disse Elendar, com um largo sorriso em seus lábios, e ambas as mãos na própria cintura.
— É. Não imaginava que fosse tão… Magnífico. – Ao terminar de falar, ouviu atentamente um grupo de crianças que corria de forma despreocupada. Seus olhos pousaram sobre suas figuras, alegres e de olhos grandes e repletos de esperança e futuros brilhantes. Roupas bem cuidadas e quase nobres, mesmo sendo claramente plebeus. Desviou-se do caminho que os rapazes tomavam, e os encarou entrando pelo jardim, correndo e rolando na grama e nas flores, e então, pulando para dentro de uma das fontes.
— Se perdeu em devaneios? – A voz do espadachim sénior pareceu distante, o qual se voltava para trás para encarar o ruivo, já atravessando o arco do segundo portão sul.
— O que devo fazer? – Perguntou o rapaz, correndo apressadamente para acompanhar o mais velho, enquanto seus olhos se perderam pela área dos mercadores. O cheiro de comida invadia aquela área, devido às tavernas que trabalhavam constantemente para alimentar os cavaleiros famintos, onde a maioria não passava de homens de grande porte.
—Devemos ir à Guilda dos cavaleiros, claro. – Disse o homem, com ambas as mãos atrás da própria nuca, de forma relaxada.
— Mas eu não vou ser cavaleiro ainda. – Falou Nero, displicente, pois almejava ser um num futuro próximo.
— Ainda. – Respondeu Elendar, dando algumas risadas. – Independentemente. Os cavaleiros têm que saber quando algum Espadachim está prestes a se formar.
— Explique-me o motivo. – Pediu Nero, relutando desviar o olhar para uma bela nobre, de cabelos cacheados e loiros, e um vestido azul, conversando graciosamente com uma das atendentes da tenda que vendia as mais frescas frutas. Pelos ouvidos atentos, conseguia perceber as palavras sobre “ser colhida esta manhã”.
— Qualquer Espadachim é um aspirante a cavaleiro. Um dia, mais cedo ou mais tarde, conseguirá se tornar um, a menos que decida ser um Mestre Espadachim, e permanecer na classe permanentemente. – Olhou por cima do ombro para o rapaz. – Então para que consiga ter a sua cerimónia, você deve se inscrever para cavaleiro na Guilda. Se é que podemos chamar de Guilda.
— Por que não poderíamos chamar de Guilda?
— Cavaleiros fazem parte diretamente da Guarda Real, assim como a Igreja, a qual abrange desde os Clérigos, a Monges e Templários. – Suspirou pesadamente, diminuindo a passada conforme contornavam a fonte, onde pessoas se aglomeravam para conversar, sentando-se nos bancos verdes que mantinham fiel a forma dos quatro cantos do local. – Basicamente, eles servem diretamente ao Rei, o que torna inútil qualquer forma de liderança. Se o líder dos cavaleiros quer implementar uma regra, todas as outras classes devem concordar. E mesmo que concordem, o Rei quem dá o veredito. – Pareceu terminar a explicação, mas Nero apenas prosseguiu em silêncio, divagando os olhos pelas pessoas aglomeradas que conversavam numa extrema paz. – Só um exemplo, claro.
— Eu entendi. – Respondeu de imediato, dando um sorriso para as crianças próximas, e apressando as passadas. O badalar dos sinos se fez presente, ecoando pelo cenário imenso, e tornando todo o pouco barulho de outrora, miúdo aos seus pés. Anunciava as dez horas da manhã, faltando apenas algumas para dar início à cerimônia de Espadachins.
Ao terminar o soar dos sinos, um grupo de cavaleiros em armadura prateada desceram a escadaria que levaria ao andar das guildas e do castelo, montados nas mesmas aves que outrora vira o Lorde usar, mas estas caminhavam graciosamente sem pressa alguma. Estavam alinhados em duas filas, numa marcha exemplar e organizada, seguindo para os portões a Oeste. Em cada uma das filas, se postavam cinco cavaleiros, cada um com sua arma de escolha, desde lanças, alabardas, e claro… Os que mais pareciam ser heróis de contos de fadas… As belas espadas. Seus mantos esvoaçavam juntamente à brisa, todos ostentando da cor azul, e não do escarlate costumeiro dos Lordes, que eram uma patente acima, que se diferenciavam tanto quanto o segundo e o primeiro lugar, caso fosse uma competição.
Porém, o tilintar prosseguiu incessante, do ferreiro à direita da escada, trabalhando arduamente na bigorna e no ferro escaldante, com fortes braços morenos expostos ao sol, e uma camisa branca toda cheia de manchas de óleo e queimaduras. Seu rosto era forte, com uma mandíbula extremamente quadrada, e cabelos brancos pela idade. Uma barba que preenchia sua pele morena, apesar de aparada o suficiente para que não atrapalhasse nas marteladas infligidas com vigor. Seus olhos ostentavam de uma proteção visual que escondia a parte superior de sua face, devido aos estilhaços que voavam em todas as direções.
Perto da bigorna, do tanque de água e do amontoado de ferro que seria transformado em armas, uma jovem moça de cabelos escuros anunciava os preços de vários tipos de armamentos, e também, oferecia a possibilidade de armas customizadas. “Armas para cavaleiros, noviços e Lordes! Venha, venha! Armaduras que protegem de flechas e espadas. Outras que colocarão medo em um dragão!” Para o rapaz, aquilo parecia apenas conversa jogada fora, e um exagero comum em lojas que tentavam vender seus produtos.
Mas não teve o tempo de ir verificar. Elendar começava a subir as escadas em passadas pausadas, juntamente a suspiros, e um sacudir da cabeça como se quisesse desanuviar as ideias.
— Alguma coisa te incomoda em Fial, Elendar? – Questionou o mais novo, com a voz que fez o Espadachim dar um pequeno pulo de três degraus pelo susto.
Este levou a destra ao próprio peitoral, e inspirou.
— Caramba, rapaz. Que sua voz não parece nada com a de um garoto de doze anos. – E aliviado, lhe deu um sorriso.
— Então? – Prosseguiu Nero, continuando as passadas pela escadaria principal da cidade.
— Nada me preocupa. Deve entender isso. – Foi a resposta, curta e grossa, tanto quanto a cuspida que o homem deu sobre os degraus brancos e limpos.
Ao término da escadaria, estaria a parte Norte da cidade. A ala que abrangia a nobreza e as Guildas regidas pelo Rei de Midgard. À direita, imensos jardins que decoravam o pátio do clérigo e da Igreja, cuja torre ostentava de um relógio preciso em sua hora, e acima deste, o costumeiro sino. Com uma pequena escadaria que elevava a construção do nível normal, a qual era coberta por um longo tapete azul, até o interior, visível a imensa sombra, pelas portas maciças abertas.
Já à esquerda, claramente a Guilda dos Cavaleiros, com alguns homens conversando no exterior, mas que logo entravam pela grande e pesada porta de madeira, a batendo com tanta força, que foi possível ouvir o baque dali. Como no lado religioso, ali, também haviam jardins embelezados por pinheiros ainda jovens, grama verde e tratada, com flores se espalhando de forma uniforme. Ao lado do estabelecimento, com suas bocas voltadas para o centro da praça, três enormes canhões, protegidos por guardas de alabardas, os quais repousavam seus corpos inertes em total silêncio e quietude. Assim, postavam também os guardas em cada uma das laterais da porta dos Cavaleiros.
No centro do pátio que separava ambas as guildas, uma estátua envolta de grama, a qual havia sido gravada em forma de um livro em um suporte, ostentando em seu centro a insígnia de Fial… A águia de duas cabeças. Em sua volta, quatro bandeiras postadas de forma organizada, cada uma com o emblema das guildas representantes da capital.
Adiante, ao passar de ambos estabelecimentos das classes, e do centro do pátio, enormes estátuas de pedra se erguiam nos quatro cantos da ponte principal que levaria até o castelo. Estas quatro estátuas, desenhando homens parrudos de armadura completa, e espadas longas em suas mãos, as quais seguravam no punho, e o cume fincava no solo abaixo de si, simbolizavam as quatro famílias reais que seguiam a cavalaria, e haviam fundado a pólis.
— Elendar. – Disse um homem de aparência jovem, não mais do que vinte anos, com uma armadura que reluzia ao sol, espelhando a imagem dos outros que se postavam à sua frente, incrédulos. Era claramente um Lorde, ataviado com a clássica armadura, e as cores costumeiras do escarlate e prata. Como todos derivados de Espadachins, carregava uma graciosa espada escondida pelo manto, e numa bainha supostamente de couro negro, com seu punho envolto de um tecido rico e amarelo, o qual espreitava por cima do ombro esquerdo. Isso era sinal de que era um Espadachim esquerdino, raridade naqueles dias, mas também significa que era pertencente a uma linhagem única da realeza, assim como Cenia e Seyren.
— Pois não? – O homem tentou não parecer nervoso, apesar de que seus dedos apertavam ferozmente uns contra os outros, chegando a estalar. Os olhos fuzilaram o nobre, com seus escarlates focados no mais velho.
— Sabe que deve me tratar pelo nome. E se ajoelhar. – Desdenhou do Espadachim Sénior, no tom ufano, conforme o peito altivo se mostrou volumoso, como um galo caçando uma guerra. Um sorriso se desenhou em seus lábios com uma curvatura ligeira e perfeita, digna do Lorde que era, apesar de claramente, portar maldade na mesma.
— Sir Arthur Windhelm. – Disse Elendar com total displicência, jogando o joelho destro ao chão, e exibindo a nuca por baixo dos fios cumpridos.
— Hahaha. É uma vergonha para sua linhagem. Pensei que ficaria mais uns anos fora. – Disse o Lorde, sem dar permissão para que o homem se erguesse novamente. Então, voltou a atenção para Nero. Os olhos dançaram entre sua aparência, os orbes que alternavam constantemente a grossura da pupila, e suas cores entre dourado e o carmesim, e a espada que lhe fora oferecida. O sorriso brioso apenas aumentou, e o olhar se afiou. – Seu nome.
— Nero Cyprianus, senhor. – Disse o rapaz, claramente o olhando diretamente nos olhos, sem demonstrar tremor ou medo. Suas palavras saíram, tão firmes quanto a brisa soprou seus cabelos como o fogo.
— Cyprianus? – Deu uma risada vaidosa, cuspindo em seguida, e então, fuzilando o mais novo com os olhos, ao perceber que aquele simplesmente não se curvaria. – Sua tolice vai matá-lo brevemente. – Desviou a atenção para Elendar. – Pode erguer-se, energúmeno. Fez bem em não me dirigir a palavra. Não quero ser contagiado pela inutilidade. – E com a efêmera velocidade como havia surgido, este desaparecia em passos apressados, descendo a escadaria com seu manto esvoaçando graciosamente, e seus cabelos bem penteados e livres, seguindo o movimento.
— Um lorde. Tão arrogante. – Disse Elendar ao se erguer, sacudindo as calças na área dos joelhos, a qual nem demonstrava sujidade.
— Arthur Windhelm? – Questionou Nero, parado ao lado do Espadachim Sénior que começava a caminhar de forma relutante em direção à casa dos cavaleiros.
— É. Uma das famílias reais. O pai dele quase venceu Tristan no duelo. – Coçou a própria nuca com a destra, reclamando tão baixo, que os ouvidos afiados do ruivo não conseguiram captar suas palavras. – Ele declara patentes abaixo dele mesmo, como energúmenos imundos. Precisa se habituar e ignorar.
— Não vou me curvar perante tal aberração. – Respondeu Nero, com o tom rubro queimando em seus olhos, os quais firmaram no caminho à frente.
— Pois terá graves problemas, como ele disse. Lordes são a patente máxima juntamente com os Paladinos. A diferença é que Paladinos são arrogantes ao ponto de não te dirigirem a palavra. Já maioria dos Lordes, prefere deixar bem claro sua superioridade em técnica e poder. Tivemos sorte que foi apenas um esbarrão. Ele não quis descontar sua ira em nossa existência insignificante. – Explicou Elendar, acenando para um Espadachim ataviado formalmente como era costumeiro da classe. Era a primeira vez que Nero vira o uniforme, mas naquele momento, não lhe deu muita importância.
E à medida que o silêncio se formava, voltava a ser audível as batidas fortes do ferreiro contra o ferro. O coro vindo de dentro da Igreja, juntamente ao som delicado das teclas de um piano, ecoando pelas estradas da capital. A cidade demonstrava sua extrema calmaria, ao ponto de o relaxante chilrear mais belo das aves ser o sonoro mais presente, atordoado levemente pelas passadas dos rapazes que avançavam pelo caminho em pedra.
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O interior da instalação, era tão deslumbrante quanto seu exterior, com enormes janelas em arcos sem qualquer imagem gravada como seriam os da igreja ao atravessar a rua, por onde entrava a claridade do grande fruto milagroso, formando uma cortina de luz que iluminava todos os quatro cantos do edifício.
Fundamento em ladrilhos de cerâmica, com um padrão dourado e branco, separados por menores em seus cantos, no tom negro, e seis longos pilares cilíndricos em pedra, postados em fileira de três, segurando e equilibrando toda a estrutura, do chão, ao teto, onde formavam belos arcos. Pendurados nos pilares, estandartes no tom carmesim, que balançavam levemente com a ventania que entrava pela janela central, no topo do edifício, a qual estava aberta.
À frente, uma grande estátua em bronze, de um cavaleiro de armadura pesada, e elmo que fazia conjunto, pousando ambas as mãos sobre o polmo da espada larga, e um manto que descia de seus ombros até os pés, envolvendo caridosamente um livro aberto e sem gravuras, com uma medalha pousada em sue centro. Em volta da estátua, contornando a parede de forma oval, e com saliências gravando a forma de uma espada, tumbas cravadas em pedra, com os nomes dos fundadores da guilda dos cavaleiros em Fial, os quais eram também a imagem das grandes estátuas em cada canto da ponte até o castelo.
Duas escadarias com tapeçarias vermelhas, separadas pela escultura principal, as quais subiam em arco para o andar superior, o qual não passava de uma sacada superior, onde alguns cavaleiros conversavam, os mesmos que haviam entrado anteriormente.
No parapeito da sacada, estatuetas de gárgulas em bronze que eram voltadas precisamente para a entrada principal, as quais seguravam adagas com ambas as mãos, apontando para cima. Eram símbolo de vigilância do local.
Três portas, tão grandes como a principal, permaneciam fechadas no andar superior. Uma em cada lateral, sendo a da esquerda os dormitórios masculinos, e da direita, os dormitórios femininos, e no centro de todo espaço com chão forrado em tecido vermelho, o único quarto do capataz, fechado a sete chaves.
— Elendar! – Urrou um dos homens do topo da sacada, erguendo a destra e a balançando no ar. Só então, puxando o foco para o grupo de três na casa, que Nero percebeu que usavam roupas idênticas ao do Espadachim Sénior, assim como espadas longas. – Caramba, quanto tempo. – O loiro de olhos azuis, bateu nas costas dos outros dois.
Outro rapaz tinha cabelos pretos, e olhos rubros e pesados como os dois Lordes que havia visto anteriormente, com um semblante calmo e sério, ostentando de uma autoridade inegável, até em seu porte forte, ombros largos, como os de um Paladino. Era o mais alto do grupo, conseguindo ser mais alto do que Elendar. Seus braços estavam cruzados, e as costas encostadas na sacada, olhando por cima do ombro esquerdo, já que do destro, saia a espada.
Já a outra integrante do grupo, era claramente animada, dando pulinhos de excitação, e fazendo os longos e lisos cabelos carmesim balançarem freneticamente. Seus olhos eram tão azuis quanto o céu mais limpo de Verão, e nem isso servirá de comparação. Eram mais azuis do que o céu e do que o oceano juntos, vibrantes e com um brilho intenso e animado, como o sorriso que sempre portava, com delicados lábios róseos, e dentes brancos e pequenos. Seu rosto era pequeno, como o resto do corpo. Esta mesma garota, era a primeira a disparar numa corrida pela escadaria abaixo, em direção ao maior. Se lançou num salto longo, com os braços estendidos, os quais envolveram afavelmente o tronco de Elendar. Seu rosto se escondeu no peito do mais velho, esfregando a bochecha rosada no tecido de sua roupa, enquanto o mesmo também sorria, com seus olhos voltados à mesma.
— Que recepção, em? – Falou o homem, elevando a destra e afagando os cabelos da menor, como se acariciasse um gato, já que a mesma se assemelhava bastante em suas posturas durante o abraço incessante.
Os outros dois seguiram em passadas lentas por escadaria abaixo, tomando cada um uma escada diferente, se encontrando ao centro, e caminhando lado a lado. O loiro, sorria, já o maior de todos, com o olhar severo, contendo aquele mistério incontestável em seu silêncio.
— Não pode correr nos corredores, Ell. – O loiro falou, batendo fortemente com a canhota no topo da cabeça da garota, a qual começou a fingir um soluço de choro agarrada às roupas de Elendar.
— Não seja tão ríspido com ela. – Respondeu o homem, voltando a afagar os cabelos da ruiva.
— Você quem foi ríspido com a gente, Elendar. – Retrucou o loiro em seguida, levando ambas as mãos à própria cintura, falando num tom superior. Elendar apenas assentiu com a cabeça e suspirou.
Já Nero, encarou cada uma das figuras, se sentindo obviamente ignorado, mas não se importando muito. Seus olhos divagavam, com certa curiosidade, as instalações de um lado ao outro, querendo explorar. Por um lado, relutava contra o impulso de Amar’Sin de sair caçando dinheiro nas ruas de uma cidade rica. Já o outro lado, queria simplesmente sentir a adrenalina de caminhar solitário naquele estabelecimento, e pelas ruas, explorando da sua própria forma.
Conforme correu os olhos pelo local, acabou se encontrando com os do maior, o qual em silêncio, o observou de forma austera, como se fosse portador do próprio raio do Deus Thor. Aquele deveria ser o líder do grupo, observador como um predador, calmo como as águas de um riacho, mas com olhos que fuzilavam como o mais poderoso tufão de fogo e sangue.
— E este rapaz? – A conversa continuara, mas de forma muda para o ruivo que havia feito ouvidos surdos, até o momento em que era citado. Seus olhos no tom dourado se voltaram na direção da voz feminina, da figura que se debruçava com as mãos apoiadas nas próprias coxas, e um sorriso afável. Seus cabelos caíram de suas costas, por cima dos ombros, se dividindo de forma igual.
— Seu filho perdido, Elendar?! Ficou tão irresponsável assim?! – O loiro fazia todo o drama possível, pousando o braço canhoto sobre o ombro do suposto líder, com grande dificuldade pela diferença de altura, e com a destra, carregava no sobrolho, lamentando em voz baixa.
— Por Freya! – Disse a garota, olhando para o loiro, como se protestando aquela ideia. – Não diga tais barbaridades. – E voltou a encarar o rapaz, levando a destra até as bochechas de Nero, e as apertando. – Elendar nunca faria algo tão bonitinho. – E sacudiu o rosto do mesmo, até que este simplesmente empurrava com a canhota, já que a destra segurava firmemente a espada, o braço da mulher, se afastando alguns passos.
— Seu nome. – O maior falou de forma incontestável, vibrando as paredes com um timbre tão forte como o de um trovão, e um olhar que desafiava o próprio ar a voltar-se contra si.
Todos se abalaram e tremeram perante tal voz, que esporadicamente se protestou, causando o silêncio. Nero engoliu em seco, relutando para sair um único “ai” de sua voz, apesar de saber em seu âmago, que deveria obedecer, como se estivesse perante a própria justiça.
— Calma. Vocês todos. – Elendar estendeu as mãos em direção do menor, num toque ameno que foi suficiente para quebrar de seu transe.
Todos olharam incrédulos. A garota retomou a postura, sempre mantendo aquele sorriso amigável e encantador, e com os braços por trás do corpo, com a pequena mão esquerda, segurando o pulso do braço direito. Balançava levemente o corpo, fazendo seus tecidos esvoaçarem com a brisa leve, assim como os cabelos longos, que chegavam até meio de suas costas.
O loiro, continuou usando o corpo do maior de encosto, com uma expressão tranquila. E o maior, continuou impassível como sempre.
— Nero. – Disse Elendar, apontando com ambas as mãos para o garoto, o qual assentiu com a cabeça a cada um dos cavaleiros.
— Ellenor! – Disse a menina, com um pequeno saltinho animado.
— Ludovicus! – Disse o loiro, desencostando-se do maior, abrindo um altivo sorriso, e apontando com o polegar para o próprio peito estufado.
O silêncio se fez, e todos encararam o maior, o qual sem qualquer suspiro, cuspiu seu nome com a forte voz.
— Rulf Elbic. – Trovejou a voz, ao mesmo tempo que uma nuvem cobriu todo o brilho que invadia o estabelecimento, deixando a luz das tochas mais presente do que a do exterior.
— É um prazer conhecer vocês. – Nero retribuiu, balançando a mão em um cumprimento. Obviamente, a garota com bochechas rosadas, retribuiu, dando risadinhas graciosas.
— O que está fazendo por aqui, garotinho? – Perguntou a garota, toda alegre.
— Ele está aqui para- Elendar tentou falar, mas fora interrompido pela destra do maior, que se ergueu em sua direção, e então, a maneou solenemente em direção do ruivo, o qual prosseguiu.
— Eu sou um Aprendiz que passou no exame de admissão para me tornar um Espadachim.
— E quer se tornar um cavaleiro como nós? – Perguntou Ludovicus, maneando ambas as mãos em volta, incluindo Elendar no círculo, o qual suspirou e franziu o cenho. – Ah. Não era para o garotinho saber? Que Elendar A’Daragon, o filho do Mestre Espadachim… É…
— Cale-se! – Disse Elendar, mostrando toda a cólera na voz que ecoou pelos aposentos.
— Quanto ódio, hihi! – A garota levou a canhota aos lábios, a escondendo na risadinha miúda.
Como sempre, Rulf deixou-se levar pelo silêncio, parecendo uma enorme estátua.
— O que é o Elendar? – Questionou Nero, cruzando ambos os braços com cuidado para não se cortar. Seu semblante calmo, apesar dos lábios se curvarem ligeiramente num sorriso. Seus olhos claramente encaravam o mais velho, com a sobrancelha levantada.
— Um cavaleiro. – Rulf disse num tom áspero, mas não se importando com aquele fato.
Enquanto que o loiro e a ruiva continham um riso, Elendar fechou os punhos em uma evidente raiva, porém, relutou com a vontade de querer atacar seus amigos em frente a um aprendiz.
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