As Raízes de Yggdrasil
5 Capítulo 5 - Ala Norte
O dia corria diferente em Midgard. No plano normal, o sol emerge no horizonte, o chamado alvorecer, e então, desce ao anoitecer. Mas ambos planos possuem em algo em comum. Ao meio dia é quando o sol está mais forte, mais brilhante.
Os longos minutos se passavam em Midgard, com o fruto da vida perdendo lentamente seu brilho e diminuindo consigo o calor em Morroc. As crianças caminhavam pelas ruelas que ofereciam a sombra refrescante, procurando poupar a água armazenada, mas não fazendo o mesmo em relação aos viciantes doces que não passavam de misturas de mel, açúcar e frutos com ambos. Os mais raros e saborosos, dourados como um dobrão com valor de dez mil Zeny, os caramelos que duravam por minutos nas bocas dos meninos, que conversavam para passar o tempo.
— Ei, vocês viram aquela cigana? – Edfu comentava, demonstrando sua fraqueza com mulheres, enquanto chutava um pedaço de madeira para longe de seu caminho. Estava relaxado, e isto era notável pela postura de seu corpo, levemente inclinado para trás de forma preguiçosa, com as mãos se encontrando atrás da própria nuca, remexendo os próprios cabelos. – Cara, como ela era linda!
— Seu tarado. – Dizia Ravic, apesar de seu rosto demonstrar que também havia apreciado a bela moça.
— Ah, sabe como é. Quando eu for adulto, e rico… — Seus olhos brilhavam ao ir de encontro ao céu azul, percebendo o movimento de um falcão sobrevoando o local em círculos.
— Pensa contratar umas dezenas de Ciganas, para se sentir homem. – Falou Caelum, deixando que a perna escorregasse por entre as de Edfu, o que o fez tropeçar, e tombar no chão. Sua mochila saiu das costas, e Nero não demorou a tomá-la enquanto ria.
— Olha só, olha só! Tão distraído que esqueceu de segurar a mercadoria! – Dizia o ruivo, começando a correr pela viela de forma cega, na frente dos outros que seguiam a corrida em risadas incessantes, e Edfu, que com o rosto vermelho e furioso, segurava o próprio chinelo, tentando mirar no pequeno rapaz que era muito pequeno para ter um tiro preciso.
— Roubado, roubado! Edfu foi roubado! – Gritavam em coro os mais novos, no caso, em exclusão de Caelum que não via tanta graça nesta brincadeira, como Edfu, que não via graça alguma quando era consigo.
— Ladrão que rouba de ladrão, tem mil anos de perdão. – Disse Edfu com a respiração ofegante, cessando a corrida, assim como todos que estavam ali o faziam. Era como um código de honra, entregar o que havia sido roubado, após a admissão de alguém ser gatuno.
— Seu sem graça. – Nero curvava os lábios num sorriso travesso, aproximando-se de Edfu enquanto tirava a mochila das costas e lhe estendia a mesma.
— Você corre pra caramba, pirralho. – E o loiro reagiu, dando um soco sobre a cabeça de Nero, e o fazendo cair ao chão, com as mãos sobre os cabelos rubros, coçando onde havia sido atingido.
— Maldito… Isso dói. – Reclamou o pequeno.
— Ei, você exagerou um pouco! – Horus protestou, segurando o braço destro de Edfu, o qual havia atingido Nero.
Mas o pequeno gatuno não se deixou ficar por ali. Disparou num avanço contra as pernas expostas pelas calças já rasgadas em forma de calção, e lhe mordeu a perna com força suficiente para que o loiro sentisse seus dentes cravando ali. Claro, isto gerava apenas o efeito oposto ao mais novo, o que sofreu outro golpe na cabeça e acabou por soltar. Com olhos em lágrimas, olhou para o irmão, coçando o local onde havia sido golpeado.
— Caelum, me ajude. – Clamou por ajuda, quase chorando.
— Deixa de ser pirralho, Nero. – Cruzou os braços e encostou as costas na parede dourada atrás de si, se abrigando na sombra, enquanto os outros seguravam Edfu no sol. – Estamos quase no palácio. – E virou seu rosto para o final da viela, com uma imensidão irradiante, luz tão ofuscante, que cegava os olhos agora habituados à escuridão.
O silêncio se fez, quando todos engoliram em seco e imaginaram que estavam próximos à metade do caminho. O brilho de Yggdrasil também já não era tão forte, indicando que podiam estar chegando ao fim da tarde.
— Então… Uma pausa? – Questionou Ravic, gesticulando com as mãos enquanto falava. Não mais portava aquele sorriso alegre de sempre, ou sequer parecia querer arrumar uma brincadeira tão perto da maior aglomeração de guardas e mercenários.
Claro que todos concordaram, e acabaram se sentando na viela estreita, uns à frente dos outros, aproveitando aquela sombra por alguns minutos. Voltavam a rever o que possuíam em seus bolsos, e na mochila. A água havia sido tocada, mas chegaria para a noite inteira se continuassem bebendo daquela forma. A comida, desde a carne ao pão, estava praticamente intocada até então, onde decidiam festejar pelo menos terem chegado tão longe.
— Para saciar nossas barrigas. – Disse Edfu, entregando a carne a Caelum.
— Que esta carne nos proteja, não é, galera?
O nervosismo era óbvio. Nem mesmo a mais bela das dançarinas conseguiria acalmá-los naquele momento. Todas as suas vidas haviam ouvido relatos sobre a fortaleza, que apesar de bela, guardava os mais terríveis segredos em seu interior. Que os guardas eram terríveis, mais fortes e malvados que os de toda a rua principal juntos. Que esmagavam cabeças com os próprios punhos. Que ali o sino anunciando a morte de alguém, não soava, pois, o Rei não queria saber, de tantos que já havia morto. Realmente, para crianças, o local seria aterrador.
Caelum então sacou o punhal da bainha, cortando igualmente os pedaços de carne que serviriam para acalmar os corações agitados e eufóricos. Demoraram uns longos minutos, de silêncio quebrado apenas pelo vento que soprava, obrigando os meninos a proteger a comida com as mãos para não ficar suja de areia, e das bocas mastigando. Seriam todos criticados em cidades mais civilizadas, pelo modo que o faziam. De bocas abertas e mastigando forte, era possível ouvir pela ruela toda como se fossem ratos remoendo em madeira, a arranhando e trincando, para abrir um buraco novo.
Ao fim, todos estavam prontos, e um a um se posicionavam de pé, olhando em direção do enorme clarão.
— Vamos. – Disse Caelum, o mais esguio e também o único do grupo que teria a capacidade de se tornar um assassino perfeito. Jamais errara em seus planos quando estavam em grupos grandes, o que o tornava o líder do bando.
E todos acompanharam, com os pés em bico para fazerem o mínimo barulho possível. Cada passada cautelosa, evitando pisar tanto no lixo, desde fragmentos de madeiras, a papéis rasgados, como a animais mortos por dias afinco, perdidos de seus donos, e outros selvagens. Quando por fim conseguiram chegar ao clarão, tiveram o vislumbre que muitos nasciam e morriam sonhando em ter.
Rodeado por águas cristalinas e profundas como uma lagoa, ligado das ruas principais por largas pontes movediças, estava no centro de pedras majestosas aglomeradas em paralelepípedos perfeitos, criando a plataforma onde assentava a construção principal. Com telhados ovais e azuis, contrastando com as paredes douradas que teriam mais de vinte metros de altura, a fortaleza usufruía apenas de uma entrada principal. Guardando os portões em madeira fechados, dois guardas de porte grande que cruzavam as alabardas em meio ao ar, imóveis como estátuas, impassíveis de certo, mas oculto pelos elmos.
— Cara… Como eles não assam dentro daquelas armaduras? – Questionou Edfu, olhando por cima do ombro de Caelum, já que era levemente mais alto.
— São enormes! – Falou Nero, abaixado no chão o suficiente para passar por entre as pernas do irmão mais velho, podendo ver apenas metade do corpo dos guardas.
— Quietos! Eu que estou segurando vocês aqui, ou cairiam todos e seriam vistos! – Reclamava Caelum num tom severo, empurrando todas as crianças para trás, de forma a caírem na ruela. Suas mãos pousavam na cintura, e as encarava com seriedade. – Se movam com cautela. – Relaxou um pouco a postura, deixando que todos se alinhassem para conseguirem ver os guardas imóveis, incerto de que podiam passar ou não. Tudo dependeria de sua decisão.
E quando decidia que avançariam de qualquer das formas, algo o fez gelar. A marcha solene podia ser ouvida ao longe. Passadas longas e pesadas que anunciavam a chegada com urros agressivos como seria seu líder. Homens fracos e famintos carregavam um grande trono sobre os ombros, enquanto vários homens em armaduras metálicas acompanhavam da forma mais barulhenta possível. Talvez aquela fosse a sua deixa.
— Abram os portões! – Gritou o mensageiro, vestindo roupas da corte, mas mais aparentando ser um bobo com aquele bigode que crescia acima dos lábios. Uma luneta encaixada em seu olho, por baixo do sobrolho, e vestes chamativas, portando desde a cor azul, à vermelha e lilás.
— Bando de inúteis. – Austero o Rei portando vestes idênticas ao seu mensageiro, mas com um porte bem superior, demonstrando que caminhar era tudo, menos o que fazia em sua vida. Reclamava em voz alta, à medida que os portões eram abertos para ceder entrada, e os guardas tiravam as alabardas de lugar. – Matem-nos. São uns inúteis. Coloquem outros no lugar.
E como se emergissem das sombras, apareceram dois mercenários, estes de verdade, assassinos contratados diretamente da guilda dos assassinos. Em cada uma de suas mãos, uma katar, arma característica para assassinatos. Tinham seus rostos ocultos, mas cada um portando vestes aleatórias, como se misturassem ao povo. De qualquer das formas, era quase impossível perceber o que vestiam, já que se moviam de forma rápida, como as mortes que presenteavam aos seus alvos. Os dois guardas caíram no chão, desamparados, e sem jorrar uma única gota de sangue, ou sequer um grito de susto, ou de clamar por ajuda. Os assassinos eram tão rápidos que sequer davam esta chance, aproveitando-se dos pontos fracos das armaduras para abaterem qualquer um de seus alvos.
— Se despacha, Nero! – Falou Horus, sem desviar o olhar de seu caminho à frente. O ruivo estava por último, e os rapazes haviam aproveitado a deixa para seguirem caminho rente às muralhas, pois seria o atalho mais rápido para alcançar a ala Norte. Não fosse por ali, teriam que dar a volta inteira na cidade, e isso demoraria bem mais pelas ruelas.
Mas Nero não prestou tanta atenção no que seu amigo falava, e, à medida que gatinhava para manter seu perfil baixo e oculto, deixou que os olhos se cruzassem com os de um dos assassinos, que o fitou friamente. Seu corpo gelou, e tremeu de medo, sentiu um arrepio subindo sua espinha. Era diferente do que olhar um guarda. O garoto já havia até encarado e enganado carrascos que abatiam os gatunos, mas aquela sensação era diferente. Uma sensação de submissão, de fraqueza, a vontade de fugir, que a presa sentia, ao encarar um predador rápido e feroz.
— Não se distraia, idiota! – Voltou a falar Horus, puxando Nero pelo braço, de modo a se enfiarem novamente nas ruelas, por onde poderiam continuar em paz.
— Ele me viu… — Falou Nero, com o coração palpitando como se fosse explodir, e as mãos trêmulas que arranhavam o peito. Seus olhos estavam arregalados, encarando as areias que se moviam sozinhas no chão, à medida que a marcha continuava fortaleza dentro.
— Quem te viu? – Todas perguntaram em coro, preocupados. – O Rei?! – Questionou Edfu. – Suas prostitutas?! – Questionou Ravic. Caelum continuou impassível à frente de todos os outros, como se esperasse todo o escarcéu terminar, para seguir caminho.
— Um dos assassinos. Troquei olhares com ele.
— Que coisa sem sentido. Deve ser troça da sua imaginação. – Retorquiu Horus, buscando acalmar o mais novo.
— Caramba… Nunca imaginei, Nero. – aproximou-se Ravic do ruivo, lhe pousando a destra no ombro respetivo do rapaz. Seu tom sério, por momentos, pareceu que finalmente diria algo inteligente, quando em seus lábios se formou o sorriso. – O calor está mesmo afetando você! – E desatou a rir.
— Eu estou falando a verdade. – Cabisbaixo, respondeu quase num sussurro, mas não se importando. Em sua memória continuava a figura do assassino o encarando friamente. Quanto mais pensava, mais o assemelhava a uma marionete em sentimentos, apenas vivo para receber e executar ordens. Eram algozes.
As conversas continuaram ao longo do trajeto, algumas vezes trombando com becos sem saída, outras vezes acabando novamente na fortaleza que mais queriam evitar, mas por fim, o grande fruto ameaçou extinguir sua luz para dar lugar à noite. Olhando para cima, era possível ver os milhares de pontos cintilantes. O céu que se tornava a ofuscante matiz carmesim, tingida pela estrela sublime, no decorrer do crepúsculo. Os falcões não mais sobrevoavam a cidade em busca de alimento, e não havia qualquer tipo de ave noturna para caçar os ratos que começavam a sair dos bueiros. Cada um correndo, quase do tamanho de gatos, assustando os rapazes que se encostaram numa das paredes da viela.
— Talvez seja melhor descansarmos. Não vamos ver nada quando anoitecer. – Advertiu Edfu, deixando seu corpo cair pesadamente no chão, com um suspiro. – Ao alvorecer continuamos.
Horus concordou num bocejo, aproveitando que havia um canto na viela, devido às casas não serem alinhadas, e se aninhando ali como se fosse um animal abandonado. – Boa noite. – Disse ele, sem sequer sentir a barriga roncando ao clamar por alimento.
— Está demorando mais do que eu esperava. – Reclamou Caelum, o qual frustrado, sacou o punhal e pegou um pedaço quebrado de uma caixa abandonada e começou a cortar em pequenas lascas.
— Mas que menininhas. São tão frágeis quanto as dançarinas que vimos mais cedo. – E em tom de brincadeira, começava a imitar seus passos de dança, mas falhando em ser atraente, apesar de sacar boas risadas daqueles que ainda estavam acordados.
Nero, num silêncio relutante, sentou-se na quebrada caixa de madeira, por fim agradecendo o pouco peso que tinha, pois ela não quebrava sob seu corpo. Encostando as costas na parede que retinha o calor do dia, deixou-se relaxar. Seus olhos encararam uma última vez o céu, antes de se fecharem em tranquilidade. Com o silêncio que se fez, era possível ouvir tudo. O vento uivando pelas ruas estreitas, um pedaço de papel sendo arrastado. Pessoas conversando dentro da construção em que se encostava, com pratos embatendo uns nos outros como se alguém lavasse a loiça. O irmão lascando o pedaço de madeira de forma nada profissional e até desajeitada, criando um ruído extremamente desconfortável, naquele momento calmo. Mas algo chamou a atenção do ruivo, que voltou a abrir os olhos ao escutar o som das cordas de um alaúde. Vinha do interior daquela casa, que a encarando novamente, percebeu que era uma pousada, daquelas caras que apenas ricos podiam usufruir, ao ponto de terem bardos e menestréis à sua mercê.
— Ei, Caelum. – Sussurrou o garoto, já que eram os únicos acordados naquele momento. O irmão mais velho desviou a atenção para o rapaz, percebendo que o chamara para chegar perto. – Vão recitar histórias! Será que são tão boas quanto as da mamãe?
— A mamãe sabe muitas por causa do seu estilo de vida, Nero. A maioria são mentiras dos nobres que lhe pagam pelos serviços. – Caelum falava com certo pesar, findando a lâmina mais fundo no pedaço de madeira, cortando uma lasca maior que voou para a cara de Edfu, o qual apenas sacudiu como se afugentasse uma mosca. – Você sabe o que a mãe faz, não sabe, Nero?
Nero olhou para baixo, lamentando os serviços que sua mãe suportava para que a casa de barro continuasse em pé. Muitas vezes pediu a Odin para a queda daquele pedaço inútil, que sequer os abrigava direito no inverno, só para ter o abraço cálido da sua mãe todas as noites. Acabou desistindo de chamar pelo irmão, e se encostou na parede, com o som que dispersava as memórias de sua mãe, do alaúde que tocou mais uma vez, mas com tons diferentes, demonstrando que o menestrel estaria afinando suas cordas antes de dar início a cantigas e histórias.
— Então todos pediram! – Uma voz suave se fez presente do outro lado da parede, calando a multidão faminta pela história. – A história de um herói! – E os dedos ágeis fizeram vibrar as cordas numa dança harmônica, que fez os corações da plateia pular em curiosidade. Claro, o Menestrel devia estar sorrindo, como sempre fazia ao escolher as palavras para falar em tom de canto, apesar de não ser bem uma canção.
— Um herói? – Perguntou Nero baixinho, com seus olhos fechados, e se imaginando no meio da plateia.
— Thanatos! – Falou alto um dos ouvintes no interior do estabelecimento. Era notável que sua boca estaria ocupada mastigando algum tipo de alimento, o que lembrou ao rapaz que ainda não havia comido nada.
— Isso, isso. Thanatos… Um nome forte. – Continuou o Menestrel, soando lentamente cada nota, antes de começar por fim uma canção lenta. – E forte era ele, que lançou este mundo para todos os males. De corpo maior que todas as muralhas juntas de Prontera, com uma espada tão grande quanto todos os carris dos trems de Einbroch. Este foi o demônio que devorou outro demônio, para satisfazer sua fome e luxúria.
Um silêncio perturbador se fez, mas logo o homem retomou o ritmo e a fala.
— Morroc. – Todos começaram a sussurrar entre si, espantados, tanto quanto Nero estaria. Aquele era o nome da cidade em que vivia, e em que estava naquele momento. – Devido à intervenção de Thanatos, Morroc foi derrotado aqui, onde permanecemos agora. Sua forma física não aguentaria a pressão que a derrota traria, então, se expandiu para o imaterial. Sentimentos negativos, azares inoportunos. “Eu te bano desta terra”, gritou Thanatos ao cravar a espada no corpo do demônio ferido. “Pois banirás meu corpo, mas não minha mente. Jamais banirás a desgraça que por tua ira, cairá sobre este plano.” E o corpo se dissipou em energia, sobrando nada mais, do que um buraco no deserto. Sabem o que foi construído por cima, certo? – Questionou o Menestrel.
— A fortaleza. – Disse um dos homens, mas não se demonstrando preocupado.
— E está certo! – O homem parou de tocar brevemente, talvez, apontando para o que havia acertado a resposta. – Mas esta não é a lenda completa. Todos sabem disto, certo?
Apesar de que no interior da taberna, as pessoas assentiam positivamente com a cabeça, Nero mordeu os próprios lábios, pois este não tinha quaisquer detalhes sobre aquilo. “Então a cidade em que vivemos… É a cidade dos azares e da desgraça? Por isso minha família e a de meus amigos sofre tanto?” Se questionava, de tal forma, que fazia sua cabeça doer.
— A origem do nosso “herói” é incerta. Alguns dizem que cresceu junto de fazendeiros, mas que sempre mentia, e batia nas outras crianças, por ser maior e mais forte. Outros contam que ele foi o primeiro homem a derrubar um grifo com as próprias mãos! – Nero já ouvira aquele nome. Seu irmão dizia que alguns mercadores tentavam vender bicos de ave gigantes, ou até garras, e que juravam pelas próprias mortes, que seriam de grifos. Aves gigantes de quatro patas. – Mas eu lhes contarei aquilo que acredito. Demônios sempre têm suas oportunidades de viverem entre nós, antes de emergirem pelo mal primordial que herdam em seus corações. Pois Odin é piedoso, e lhes dá essa chance. Mas é Thor que os bane, com seus poderosos raios. Thanatos é um destes casos. Ele recebeu sua chance de se provar humano, e não o demônio que é. Viveu com sua família em uma fazenda, até o mal maior provocar um incêndio nos campos. Mas todos sabiam a origem daquele incêndio. O rapaz não havia apagado sua tocha, pelo contrário, a mostrava com orgulho para todos verem. – O toque do instrumento foi se tornando mais pesado, como se a história fosse se intensificar. – Numa tentativa desesperada de afastar o mal, as pessoas o perseguiram com seus materiais de fazendeiros e construtores. Claro, o jovem malicioso teve que escapar para a solidão eterna. E em seu caminho, derrotou um grifo ferido, para consumir sua alma, e deixar o corpo apodrecer. Sabendo que as garras eram valiosas, as transportou, mas não para vender. As cravou no peito dos mercadores que encontrava, fingindo vender a mercadoria. Ao longo de muitos anos, não existiria mais ninguém, e seu corpo havia crescido como o de todos os demônios. “Está na hora.” Odin disse dos céus, fazendo tremer a terra em terramotos sem igual, os quais formaram montanhas novas. Uma delas, emergiu acima de um velho acampamento, e no topo, caiu um relâmpago e um martelo. “Tu que espalhaste a morte e o mal pelo mundo. Que provocaste a desgraça cair sobre terras agora arenosas, serás punido, mas não pela morte, pois esta te abraçaria como abraçou a todos neste dia.” Seus olhos pesados e feitos de pura sombra, encararam o céu, enquanto os dentes pontiagudos eram mostrados num sorriso que rasgou sua pele de orelha a orelha. “Podes tentar.” Desafiou Thanatos, que após sua tola ideia de desafiar um Deus Supremo, sentiu seus ossos estalarem. Os músculos se tornavam fracos, se desfazendo aos poucos, à medida que o corpo ia diminuindo até o tamanho de um humano comum.
— Dizem que até hoje é possível ouvir seus gritos de dor em Arunafeltz. – Disse uma mulher, interrompendo brevemente o Menestrel que não pareceu se importar.
— Sim. Até hoje o vento leva e traz os gritos desesperados e agoniados do demônio. Também dizem que se aproximarmos o suficiente da torre que se ergue do abismo até os céus, conseguimos ver Thanatos em seu topo, assim como ele olha para nós.
Mas antes que Nero conseguisse ouvir o resto da história, seus olhos se fecharam. Sentiu o corpo relaxar no calor da parede em que se encostava, com seus cabelos dançantes devido ao vento que ondulava por entre as paredes estreitas das vielas. Sequer os ratos incomodaram a calmaria das crianças exaustas do longo dia de viagem, acolhidas apenas pela fraca luz de Yggdrasil, e seus milhares de frutos cintilantes como estrelas.
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Acordava, senão pelo barulho que as outras crianças faziam ao conversarem e prepararem tudo para os últimos minutos de caminhada, mas também, por uma única gota de água que caiu sobre sua testa exposta. Estaria caído no chão, e não sentado sobre a caixa, com sua barriga exposta pelos braços abertos e relaxados. Ao abrir os grandes olhos curiosos, suas pupilas dilatadas se alteraram para aquela mesma fenda quase invisível de tão fina no meio de toda a mescla colorida. Contemplou, não o brilho radioso do fruto gigante, chamado de sol, ou sequer a copa da árvore da vida, que para si, era normal a ver, e por tanto, não comentava sobre, mas sim, o céu encoberto de nuvens quase negras, que ameaçavam com uma tempestade eminente, outra inundação na cidade.
— Nero! Já que acordou, se levante. – Horus se agachou perto de Nero, dando alguns tapas leves em sua face.
— Pare com isso! – Com aquele mau humor de quem era recém acordado da pior forma possível, Nero fechou os olhos e deixou descer o braço esticado, estapeando fortemente o rosto de Horus, o qual simplesmente começou a rir e se afastou.
— Acordei ele! – Gritou o rapaz um ano mais velho que o ruivo, correndo em volta do irmão mais velho que ria do dorminhoco, deixando pedaços de papel caírem sobre o mesmo.
— Vocês são bem chatos. – Se remexeu o menor, por fim se levantando apressadamente, como quem estaria pronto para fugir, mas não o fazia. Deixou-se levar pelas risadas contagiosas, as parando após notar a falta de seu irmão, e de Edfu. – Onde estão os outros?
— Caelum foi confirmar o caminho até a ala Norte. Ele disse que não demorariam mais do que trinta minutos para ir e voltar, já que sem a gente, conseguem ir correndo. – Ravic cruzou os braços, obviamente chateado pela falta de confiança que tinham em sua capacidade.
— Mas logo eles voltam! – Disse Horus de forma animada, escalando o corpo do irmão mais velho ao ponto de colocar seu rosto sobre o ombro destro do mesmo.
E ao terminar da breve conversa, surgia Edfu e Caelum, lado a lado, comendo um pedaço de pão e trocando sorrisos satisfeitos. Todas as crianças já haviam comido, menos Nero, que sentiu seu estômago reclamar da fome, roncando como um dragão.
— Nero. Se já está acordado, podemos partir. É dez minutos para chegarmos à ala Norte, e à rua principal. – Disse Caelum, arremessando um pedaço de pão para o irmão mais novo, o qual simplesmente abriu a boca, e o engoliu. – Caramba… Acho que era de se esperar essa fome.
— Vocês precisam ver a quantidade de tendas vendendo bugigangas valiosas! Parece que nem têm medo de ser roubados! – Disse Edfu com os olhos brilhando, e segurando firmemente a mochila em suas costas.
— Antes… — Disse Nero, mantendo a postura estática, e agora com um ar sério, e não aquele bobo que sempre aparentava. – Sabiam que esta cidade é uma cidade dos azares e desgraças? Ouvi ontem. Esta casa é uma taberna. – E sua pequena mão repousou com a palma sobre a parede onde dormira, desviando a atenção para a mesma. – Ou algo do tipo. – Encolheu os ombros e voltou a atenção para o grupo à sua frente. – Ouvi um bardo contando sobre um tal de Thanatos, e que ele provocou um demônio com o nome de Morroc. E é o nome da cidade! E disse que por isso, todos aqui são tão avarentos!
Por momentos, as crianças refletiram em conjunto, trocando olhares preocupados e atentos para o menor, mas Ravic desatou em uma risada, abraçando o próprio abdômen como se não fosse aguentar. A risada era alta e despreocupada. Horus soltou o irmão, indo em direção a Nero e fazendo uma careta feia, o que obviamente soltou um sorriso da face do pequeno garoto.
— Deixe de bobagens. Vamos logo! – Disse Edfu, voltando as costas em simultâneo com Caelum, que a cada dia que passava, estava mais calado ainda.
A caminhada realmente não foi longa. Durante o caminho, dobrando as esquinas de forma esguia, algumas com apenas alguns centímetros para poderem passar, evitaram todas as ruas principais e entradas frontais o máximo possível, de modo a não atraírem atenção, apesar de que sua confiança aumentava ao lembrarem que ali, ninguém os conhecia. Logo alcançavam o desejado, o El Dorado do grupo. Mas não era como imaginavam. Apesar de terem seus olhos sobre a estrada principal, mais larga que todas as outras alas, repleta de plantas tropicais que atraíam os turistas, e agraciavam os ricos que ali viviam, não haviam mais do que sete barracas, mas todas guardadas por homens em armadura metálica. Não havia quase ninguém nas ruas, revertendo o sonho para nostalgia da confusão da ala Sul. Talvez fosse até previsível, já que ali os preços seriam incrivelmente maiores do que na ala oposta da cidade, porém, os produtos seriam de qualidade, e muito provavelmente apenas disponíveis para os mais ricos poderem usufruir. Claro que os meninos demonstraram o desânimo ao contemplarem tal visão. Seus rostos estavam caídos, e acabaram por desistir de encarar a estrada quase deserta, quando começaram a cair as primeiras gotas da chuva que duraria por dias.
— Que ótimo. Está chovendo, para melhorar as coisas. – Disse Edfu, chateado por ter mentido sobre as centenas de barracas para poderem roubar. A verdade é que apenas Caelum havia enxergado a rua, mas nada dissera, além do clássico “É aqui.”. Se agachou no chão, levemente distante de todo o grupo que se aglomerava atrás de uma única casa.
Nero suspirou profundamente, lembrando-se do quanto sua mãe devia estar preocupada, e muito provavelmente procurando os irmãos por toda a vizinhança. Horus e Ravic, espreitavam pela viela estreita, mas tão estreita que impediria a passagem dos meninos para a rua principal, porém, cedia à visão, dos guardas que andavam de um lado para o outro sem descanso.
— Pelo menos viajamos. – Disse Caelum, cruzando ambos os braços em frente ao peito exposto. Fechou seus olhos, e deixou que o cabelo longo caísse por seus ombros como uma cachoeira, que logo ficaria molhado de verdade.
— Acha que a mamãe vai ficar chateada? – Perguntou Nero, imitando a postura do irmão, mas sem o tamanho devido em seus cabelos.
— Muito provavelmente. Vai até fechar o resto da casa com barro antes de sair. – E cuspiu uma bola de saliva para o chão, como havia cuspido as palavras de forma displicente.
— Se forem ficar reclamando, só amanhã chegamos em casa. – Reclamou Edfu, mas ninguém olhou em sua direção.
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