As Raízes de Yggdrasil
4 Capítulo 4 - O Soar dos Sinos
Os minutos se passaram, correndo como o vento que soprava e levava panfletos de procurados voando pela rua principal da capital de Sograt, também, a única cidade que se erguia em uma extensão longa de dias de viagem deserta. Não só panfletos, como todo o tipo de lixo aglomerado em bolas que rolavam pela rua em areia batida, ao ponto de se tornar tão rígida e firme, como pedra. Nero por fim alcançava a tenda do alvo de seu furto, ainda nervoso, e mantendo o mesmo silêncio que havia mostrado ao irmão minutos antes. Seu pequeno corpo serviu para contornar facilmente as pernas dos habitantes e nobres que compravam, sendo enganados pelos preços extravagantes, ou por réplicas. Seus olhos percorreram a madeira tratada, que também era uma réplica da madeira cara de um Olmo. Conseguia perceber à primeira vista de que era pintada, pois seu irmão e amigos, haviam descoberto um modo de desvendar tudo que era mentira, até mesmo em palavras e corações. Haviam crescido para serem ou mercenários, ou arruaceiros no futuro, vivendo como gatunos por enquanto.
— Olá, pequeno garoto. – A voz forte do homem interrompeu os pensamentos do ruivo, o qual teve que olhar completamente para cima, para que seus olhos encontrassem com os azuis do homem. Este lhe abria um largo sorriso, que para o mais novo, era tudo, menos simpatia. – Tem algum dinheiro para comprar pedras preciosas ou punhais de ouro? Ou talvez esteja aqui pelo pão!
O rapaz engoliu em seco. Não tinha dinheiro para comprar nada, e não era bom com palavras como o irmão mais velho. Tentou olhar em volta, mas seus olhos não alcançavam os telhados das casas, o deixando com um embrulho no estômago, sentindo as pernas falharem em medo.
— Eu… Eu não tenho muito dinheiro. – Falou baixo, abraçando uma pequena sacola de pano, que parecia conter algum tipo de material físico, o que poderia confundir os mercadores com Zeny para que não o expulsassem de imediato da banca.
— Então está excluindo as pedras preciosas? – Os olhos do rapaz pousaram sobre as pedras exibidas, quatro num total. Dois rubis, uma safira, e uma esmeralda. Apenas duas eram verdadeiras, sendo o rubi, o mais caro, e a mais barata, a esmeralda. – E os punhais de ouro? – Mostrou a adaga em ouro, mas esta era uma réplica mal feita, deixando escapulir a forma da madeira maltratada, devido à forma que a tinta adquiria. Mas seus olhos pousaram mesmo, foi sobre o pedaço de pão ao alcance de seus pequenos braços. – Oh… Está faminto, pequeno?
Assentiu com a cabeça, deixando um fio de saliva escapulir por seus lábios, com o estômago roncando.
— Quanto tem com você? – Questionou o mercador, com ar penoso.
— Cinquenta. – E abriu a pequena mão com três dedos erguidos, demonstrando certa ignorância em não saber contar, apesar de ter noção de que cinco, e cinquenta, seriam demonstrados por cinco dedos, e não três, que seriam obviamente, elevados para trinta.
— Pois pode desandar, pirralho. Não vou vender o melhor pão da cidade para um maltrapilho que nem dinheiro tem, e que nem sabe contar.
E antes que pudesse fechar a sua mão, uma pedra o alvejou no pulso, fazendo cair as quatro pedras que segurava. O homem recuou o braço em uma cólera amedrontadora, coçando a área que seria tomada por uma vermelhidão, e uma dor característica. Devido à forma como o atingira, seus nervos estavam enfraquecidos, e então, não conseguiu agarrar Nero, que abraçou o pedaço de pão e chutou as pedras para o meio da multidão.
Foi então que os sinos tocaram por toda a cidade, e isto sempre tinha um significado. Se o sino era contínuo e repetido por três toques rápidos e um longo, significava invasão, mas este nunca tinha sido ouvido em mais de cem anos. Se todos os toques fossem longos, e contabilizassem doze, significaria a hora do almoço, onde mercadores fechariam suas tendas e poderiam comer. O mesmo servia para o fim da tarde, mas para as pessoas retornarem para a segurança de suas casas, como um aviso de que mercenários e arruaceiros começariam a vagar as ruas, em buscas de seus alvos. Caso fossem apenas dois toques curtos, repetidos e espaçados, anunciavam morte pública a ladrões. Mas este era um toque diferente. Eram curtos, com intervalos curtos, e que duraria o suficiente para a corrida de Nero por entre as pessoas confusas, tanto pelo alvoroço, como pelo estridente som do sino, que atordoava todos nas ruas. As mãos agarraram as pedras brilhantes que via pelo caminho, sem soltar o pão que abraçava com o braço esquerdo, enquanto as pedras de Caelum choviam sobre o mercador que insultava em dialeto de Arunafeltz, outro reino ainda mais a Norte do que Midgard.
— Volte aqui, garoto! Vou te caçar e arrancar suas mãos. Ladrão, ladrão! – Carregava consigo o longo bastão de metal, e o balançava freneticamente, obrigando todos na rua a se afastarem para não serem acertados por engano, e isto acabava por facilitar Nero em sua chegada à viela.
Sua respiração estava ofegante, seus olhos viam tudo distorcido e em uma lentidão alarmante, e seu coração parecia que ia explodir do tanto que batia. Seus sentidos se viram atordoados, com a audição falhando, ouvindo o grito do povo que silenciou juntamente do sino, e uma voz mais reconhecida.
— Nero! – Era seu irmão mais velho, de cima da casa, atirando pedras no homem corpulento.
Isto era o que lembrava, antes de seu corpo cair ao chão, e deixar escapar as pedras valiosas e o pão, que curiosamente rolou para debaixo de uma caixa quebrada na viela.
Só despertou com o novo badalar dos sinos, abrindo preguiçosamente os olhos, e tomando o foco aos poucos. Sua cabeça doía por todos os lados, assim como suas pernas e costelas. À sua frente, numa viela que desconhecia, estava Caelum sentado num degrau de uma escada que subiria para o telhado de uma casa de barro, conversando com outros três rapazes.
— Vejam, ele acordou! – Um dos garotos falava, era quase tão novo quanto Nero, com cabelo marrom e que chegava aos ombros, todo descabelado e descuidado. Sua voz ainda era de criança, mas levemente rouca, como a da segunda criança que se aproximava, apesar de ser mais velha do que ambos.
— Ei, cara. Está tudo bem? Você parece meio… Quebrado! Hahaha! – Em aparência, era igual ao irmão mais novo. Mais pareciam gêmeos ao ficarem um ao lado do outro, apenas diferenciados pela enorme diferença em altura. Seriam Horus, o mais novo, e Ravic o mais velho.
— Soltem ele. São idiotas? – Só então Nero notava que a dor era devido a estar sendo chacoalhado pelo mais novo, claro, apanhou uma sova do dono da loja. – Se ele tiver mesmo os ossos quebrados, pode morrer. Foi o que ouvi dizer. – Este rapaz teria a mesma idade de Caelum, que permaneceu em silêncio sentado no degrau. Este era loiro como o dono da tenda que havia assaltado, e de olhos também marrons, demonstrando não ser das raças nórdicas.
— Está tudo bem. Só dói um pouquinho. – Conseguiu fôlego para responder quando parou de ser chacoalhado de um lado para o outro. Tateou levemente as costelas mais danificadas, soltando pequenos grunhidos de dor.
— Cara, nós até tocamos os sinos! Era suposto ter escapado. – Falou Horus.
— E conseguimos escapar sem nenhum arranhão. E olha que os guardas nos perseguiram! – Ravic, mais convencido, apontou com o polegar para ele mesmo, piscando o olho para Nero que estava sentado no chão, e com as costas encostadas na parede de outra casa, se sentindo ainda pior ao saber que havia falhado em roubar, mesmo com todo aquele plano.
— Ridículos. – Disse Edfu, o loiro, batendo em simultâneo nas nucas dos dois irmãos, que começavam a rir e corriam escadaria acima, para o telhado da casa. – Você conseguiu, isso é o que importa.
De fato, quando o ruivo pousou os curiosos olhos sobre o irmão, retomou com a atitude animada. Os lábios secos vincaram num sorriso animado, e os olhos retomaram seu brilho, ao ver um pedaço enorme do pão que roubara sobrando, estendido para si, por Caelum.
— Pirralho. Você se saiu melhor do que eu esperava. – Disse o irmão, claramente o mais velho de todos, mas ganhando em idade de Edfu, apenas por alguns meses. – Se nossa mãe soubesse que roubamos para comer, ela ficaria orgulhosa. – Encolheu os ombros, dando um sorriso de canto. – Mas é melhor que ela não saiba ainda.
— Sim… Concordo. – Disse Nero ao recuperar o seu pedaço de pão das mãos do irmão, o devorando com a fome de cinco leões. – E a ala Norte?
— Estávamos esperando você acordar para partirmos. – Disse o irmão. Edfu retomou um silêncio profundo de quem espera ansiosamente, mas é orgulhoso em demasia para demonstrar. – Mas se estiver com muita dor, ficará para trás.
— Eu estou bem! – Disse o mais novo, lépido em seu erguer, mas logo recaiu sobre si a dor do espancamento até adormecer. Por fim recobrava as lembranças, de que havia talvez sido atingido na cabeça no primeiro golpe, e cambaleado até cair.
Do cimo da casa, espreitavam de soslaio os dois irmãos, sorrateiros como os gatos que ocupavam os outros telhados. Estavam tão ansiosos como todas as outras crianças, mas estes não conseguiam esconder tão bem. Especialmente, quando os sinos voltaram a tocar, anunciando a hora do almoço.
— Está na hora. – Sorriu Edfu, pousando uma pesada mochila no chão. Esta era em pano amarrotado e velho, mas servia para carregar as coisas necessárias para passarem um dia inteiro fora de casa. – Tenho uma garrafa de água, pão, um pouco de carne que roubei do açougue. – À medida que falava, ia pousando num pequeno manto que retirou antes da mochila, aberto no chão, para acolher os alimentos. Era como se listasse toda sua preparação.
Os irmãos desceram as escadas e pararam apenas ao lado de Edfu, admirando o pedaço de carne, e a água. Ambos se encararam, e começaram a esvaziar os bolsos.
— Pedras e cortinas de fumaça. – Cortinas de fumaça são pequenas esferas do tamanho de pedras pequenas, que ao serem arremessadas com força suficiente, explodem em uma cortina de fumaça.
— Doces que roubei da loja da velha. – Completou Ravic ao tirar dos bolsos cheios, um amontoado de doces embrulhados em papel, o que alegrou até mesmo Caelum, que amava aquele tipo de iguaria.
— Eu tenho este punhal, que irá nos proteger. – Disse o gatuno com orgulho, retirando da bainha a adaga que roubara dias antes, a qual reluziu em contacto com a luz, e cegou Nero, que foi obrigado a levar a mão destra a tapar os olhos, espreitando por entre os dedos.
— Eu… Não tenho nada. – Disse o ruivo, com certo desânimo na voz, o que fez diminuir seu sorriso ao perceber que seria apenas um peso morto. – Mas prometo roubar a tenda mais cara da ala Norte! – Agora demonstrou certa confiança, diferente do último furto minutos antes. Não tremeu, e nem gaguejou, apesar de que era uma imagem engraçada ver o pequeno rapaz imitar os soldados armados, batendo a mão contra o peito enchido de ar e altivo, apesar de tão magro, que era possível ver seus ossos.
O grupo desatou a rir. Uma risada que durou alguns minutos e que deixou a face de Nero tão rubra quanto seus cabelos, retribuindo de forma displicente aquele riso.
— Ora, não se acanhe. – Disse o irmão, Caelum, batendo em suas costas e o fazendo dar os primeiros passos. – Quanto mais tempo perdemos, mais tarde voltaremos para casas com nossas mãos vestindo anéis de rubis e safiras verdadeiras.
— E também com seus aros de ouro! – Completou Edfu, fazendo as crianças mais novas sonharem e encararem os próprios dedos magrinhos, que deixariam qualquer anel cair e rolar pela rua, até se perder para sempre no amontoado de lixo que eram as vielas.
— Os sinos soaram, ou foi minha imaginação? – Questionou Ravic, guardando os doces em seus bolsos volumosos.
— O que estamos esperando? O cara já pensa estar louco, haha! – Horus zombou do próprio irmão, recebendo um tapa ligeiro e forte em sua cabeça, o deixando coçando a área em reclamações baixas.
— Vamos, vamos! – E o ruivo voltou a pular em ânimo, ignorando parcialmente a dor em seus músculos e ossos.
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