As Raízes de Yggdrasil

1 Capítulo 1 - A virtude rubra


A lenda chegara ao fim, com o mistério de seu desaparecimento sem precedentes, assim como aos Deuses das calamidades. Hatii não gelava mais os polos, nem ameaçava devorar a lua, a qual todas as noites brilhava sobre a copa da árvore da vida, a qual envolvia o céu num doce abraço maternal, com seus frutos encolhidos como fetos, em brilhos majestosos que eram facilmente confundidos por estrelas. Tampouco Skoll embargava o grande fruto, buscando conter seu brilho grandioso durante o dia. Fenrir não devorava as almas dos mortos, e os vivos, de certa forma, possuíam total certeza e tranquilidade, que o vento levava seus falecidos, para Valhalla, ou Niflheim, onde descansariam por toda a eternidade.
Mas bem abaixo de toda aquela luz resplandecente. Abaixo de todo o alcance de quaisquer sombras, nas raízes de Yggdrasil, o local mais longínquo de todos os planos, repousava o herói solitário, solene em sua quietude, abraçado pelo cenário cinza, como se estivesse parado no tempo. Suas costas curvadas, cobertas pelo longo manto na tonalidade rubra, como o sangue que escorria do ferimento profundo em seu peitoral. Seus pulmões não tentavam puxar o ar, pois este ali não existia. Seus olhos buscavam enxergar algo além do foco escarlate abaixo de si, escapulido o líquido pela armadura de prata que cobria seu tronco, rasgada no local da ferida. E seus ouvidos captavam nada mais do que o som das gotas caindo, uma de cada vez, como a mais tortuosa invalidez que o invadia. Suas mãos seguravam o nada, tensas. Seus lábios fechados e neutros, estóico e sereno, como sempre aparentaria. A dor ali, seria permanente, o som das gotas, também. Tudo que restava, era contemplar as primeiras gotas do seu sangue caírem ao chão. O cavaleiro permitiria que seus lábios se formassem num sorriso, conformado com a morte, mas seu corpo não respondia.

— E assim se finda vossa maldade. – Recitou para si, já que seu corpo recusava o movimento. – E assim sou acolhido pelos braços da morte, tão amargos, mas macios em simultâneo.

Por fim seu coração parou, e a sensação de asfixia era eminente, mas seus sentidos não cessavam, sequer os pensamentos, sobre a honra que sentia em seu coração paralisado, sobre a bravura em seus atos, e pelo sacrifício que significaria a paz em todo o plano existencial, bem acima de sua cabeça curvada. Outrora, seu corpo se postaria orgulhoso e altivo, sairia em busca de outros males para purificar com as suas próprias mãos, mas agora permanecia ali, imóvel, com seu corpo curvado e paralisado de dor, fraco.

— Por que está demorando tanto tempo? – O timbre forte ecoou por sua mente, de certa forma, usando a conversa consigo mesmo como uma distração da dor lancinante, e do som perturbador das gotas caindo uma a uma, lentamente formando uma pequena poça de sangue abaixo de si. Seu corpo vibrou numa tentativa fútil de recobrar o controle, para poder sair dali. – Como que eu cheguei aqui mesmo? O meu caminho. A glória que abraço e agarro com todas as forças. O começo de tudo…

Sua mente se ocupou, imaginando o sol alto no céu, escaldante como as areias que abrangiam quilómetros em volta da sua cidade natal. Construções em pedras frágeis que desmoronariam caso enfrentassem as tempestades invernais do Norte, algumas sequer contendo janelas ou portas em madeira, e apenas as suas devidas aberturas. Em contraparte disto, a fortaleza se erguia forte e rica no centro da cidade de cor dourada, envolta de águas puras e cristalinas, inacessíveis ao povo que viveria na baixa, como ratos jogados para a própria morte, lenta e penosa. Quatro ruas principais, que levariam diretamente os portões das altas muralhas, até o castelo, largas e repletas de mercadores de terras longínquas, vendendo produtos a preços exageradamente altos. Sorrisos falsos, com dentes extremamente brancos, e mãos bem tratadas do trabalho que não faziam, se esfregando uma na outra. Atrás de suas bancas, armas de tortura, para aqueles que tentassem furtar seus produtos.
Sim, era ali que Nero Cyprianus havia vivido os primeiros anos de sua vida. Ali, onde o paladar sempre se enchia de areias finas ao falar, trazidas por ventanias quentes e fortes, que dilaceravam os tecidos das bandeiras e estandartes da cidade de Morroc, assim como as cortinas das casas mais pobres. A cidade dos arruaceiros, gatunos e mercenários. De governo corrupto e sujo, que deseja a morte de seu próprio povo. De mercadores que nada se importam com a qualidade de seus produtos, mas sim com a bela aparência deles, e preços altos. Ali, era onde a história começaria.