As Quatro Ondas do Apocalipse
1 Capítulo Único
— As quatro Ondas do Apocalipse
O dia, apesar de ensolarado, nasceu muito frio no Reino de Órion. O céu, por outro lado, estava azul como numa típica manhã de verão, não havia uma só nuvem nele, então quem o olhasse poderia ver perfeitamente as gaivotas e os abutres voando alegres de uma ponta a outra da nação, além de ser carregado de inspiração e de esperança pela beleza da paisagem. Aquela data tinha tudo para ser tranquila como outras tantas que passaram em Órion, ninguém acordou esperando grandiosidades dela.
Achando que não seria chamado para prestar algum serviço em favor do reino, Haru tirou o dia para treinar artes marciais no quintal da frente da casa com suas amigas. Nenhum muro cercava sua residência. Ela tinha dois andares, quatro janelas com batentes de madeira, paredes amarelas, uma pesada porta de ferro escura na entrada e uma pequena escadaria de madeira com cinco degraus que levavam à varanda, cujo assoalho e o corrimão eram também compostos de madeira.
No auge de seus catorze anos, Haru não morava ali sozinho, dividia a espaçosa casa de três quartos com Kin, sua irmã seis anos mais velha. Ela passaria a tarde no sofá vermelho da sala com Arashi, os dois adoravam a companhia um do outro, ficavam horas e horas conversando, flertando, brincando e trocando beijos. Poucas das coisas existentes eram tão puras quanto o genuíno amor deles. Kin falava de tudo com uma empolgação descomunal, ele, sentado na mesinha da frente, nitidamente hipnotizado pelos olhos negros dela, não entendia nem metade do que ela falava.
Sempre que estavam juntos, Arashi longa e irrefletidamente apreciava cada delicado detalhe do arredondado rosto níveo de Kin. Ele registrava na memória seu adorável nariz fino, seu gracioso queixo e, enebriado, voltava ao par de lábios róseos dela que, em uma quase que exata simetria e sintonia com o todo de sua feição, a adornavam e harmonizavam com o preto imperscrutável de seus olhos.
Se perdia na beleza emergida do contornos que seus cabelos loiros encaracolados realizavam em sua face, venerando a irretocável combinação que os dois faziam. A contemplava como se estivesse na presença do mais belo quadro artístico já produzido por mãos humanas e se sentia privilegiado por poder vê-la de tão perto.
— Nós a fizemos pedir desculpas! Foi tão maneiro! — Com uma colher em uma mão e um copo de porcelana branco cheio de mousse de chocolate na outra, Kin terminava sua história.
— A Hanna? Espera aí, fizeram a Hanna pedir desculpas em voz alta? — Ele, que só havia captado o essencial da história, repetia, com incredulidade estampada na dupla de invejados olhos azuis claros que ganhou ao nascer. — Não dá pra acreditar.
Kin deu mais uma colherada no doce, o tomou e disse:
— Não mesmo, você tinha que estar lá!
— Eu acho que prefiro não ter ido mesmo, você ficou tão linda me contando toda empolgada... — Ele discordou e, com um meio sorriso nos lábios, a elogiou.
Comovida, ela chegou mais perto, pôs a mão no rosto moreno dele e suavemente o beijou. Arashi jogou para trás a mecha de cabelo negro que lhe caiu sobre os olhos e apoiou sua testa à dela, seus narizes encostaram. O abajur sobre a mesinha ao lado estremeceu, os dois, desconfiados e analíticos como eram, notaram e estranharam imediatamente. As lâmpadas da casa explodiam como pipocas na panela. Achando que Haru e as garotas tinham culpa no cartório, o casal saiu para perguntar o que eles estavam fazendo, mas quando chegaram lá fora, o que viram falou por si só.
A cor do céu, do mais limpo e agradável azul, mudou para uma inédita e incômoda cor de abóbora, transformação acompanhada de um calor escaldante. Parecia que o sol havia se aproximado mais da Terra. Os mares e os ventos entraram em agitação, como que reagindo a uma ameaça ou a um sujeito de carranca demoníaca. A terra estava se rachando. Kin e Arashi trocaram olhares, depois, olhando para o lado, examinaram Haru, Naomi e Yue, nenhum dos três demonstrava saber mais do que eles o que seria aquilo tudo.
Yue pôs a mão na frente do rosto para proteger os olhos violetas da poeira, a força da ventania era tanta que ela sentia como se seus lisos, curtos e azulados cabelos fossem se soltar das raízes. Haru usava os braços para defender as vistas, o capuz de sua camiseta preta sem mangas estava por um fio. Com seus especiais olhos castanhos claros, o garoto de cabelos ruivos espetados tentava ver se o responsável por aquela bagunça estava em algum canto do planeta. Finalmente viu alguma coisa, mas de relance, e desejou não ter visto.
Em sua ambição de abranger o mundo inteiro, uma explosão os alcançou antes de Haru poder abrir a boca para contar sobre ela aos seus amigos. Um poderoso clarão ofuscou todo o globo terrestre, um observador de outro planeta, olhando a Terra, pensaria que ela era dourada. O espaço foi paulatinamente dominado pela luz, em instantes até a galáxia foi ofuscada pelo estranho e desavisado fulgor. A rota de vários planetas e asteroides foi alterada.
Haru, custando para acreditar que estava vivo, olhou a si mesmo e depois as próprias mãos. Milagrosamente sobreviveu e permaneceu inteiro, seus amigos também. Não foi um milagre. No desespero, usou seus poderes e converteu em luz tudo e todos na sua proximidade, imaterializando-os e imunizando-os contra os efeitos daquela rajada de energia destrutiva que se alastrou pela Terra.
— Tá todo mundo bem? — Arashi abriu os olhos como quem despertava de um pesadelo e perguntou, checando a si mesmo para ver se faltava algum membro. Sua mente, mais investigativa e inquieta do que a da maioria das pessoas, se cutucava em busca de respostas.
— Sim... — Naomi, com seu charmoso sotaque francês, foi a primeira a falar com ele. Havia muita poeira e mato em seus compridos, brilhantes e lisos cabelos negros como ébano. — O que diabos foi isso?
As árvores e as casas da vizinhança foram completamente varridas da existência pela explosão, mas nenhum deles cinco sumiu, Kin olhou para trás e viu que a casa em que morava também não. Olhou para Haru, tinha certeza de que estavam vivos por causa dele. Abriu um par de asas douradas reluzentes nas costas e, com o coração pesado de preocupação, subiu vários quilômetros de altura para ver se existia algo de pé no planeta. Praticamente nada. Provavelmente bilhões de pessoas estavam mortas.
Arashi construiu nas costas um par de asas de gelo e a alcançou. Ia falar com ela, tentar acalmá-la, mas mesmo ele, conhecido pela frieza e a racionalidade que mantinha em momentos de grande tensão, foi arrebatado pelo horror visual da devastação causada pelo poder que quase os triturou. Se recuperou, mas assim que se dirigiu a ela, um holograma imenso apareceu no céu e projetou o rosto de um menino. Uma criança loira, de feição seca e olhos inexpressivos fitava o mundo como se o tivesse sob seu jugo.
Com asas iguais às de Kin, Haru pairou ao lado do cunhado e da irmã. O holograma atraiu a atenção dos três e das duas lá em baixo como uma barra de ferro retém o imã, levando-os a um estado de perplexidade tal que os seus queixos caíram e seus olhos se esbugalharam sem que eles se apercebessem. Era como se tivessem caído em algum tipo de transe.
— "Olá, Seres de Essência. Eu sou o Juiz da Vida. Alguns me chamam de Apocalipse, mas isso diz mais sobre essas pessoas do que sobre mim. — Nenhum canto da Terra estava fora do alcance de sua voz e de sua imagem, nem de seu campo de visão e de escuta. — Meu trabalho é viajar pelo cosmos testando as formas de vida, é revelar quais são dignas desse dom e liquidar as que não o merecem. Minhas provas consistem no que eu chamo de "Três Ondas", ao final das quais sua dignidade será comprovada. Eu os parabenizo por sobreviverem à Primeira Onda, o que nunca vi acontecer. A segunda, no entanto, será ainda mais brutal e virá quando menos esperarem. Boa sorte."
O holograma gigante se esfarelou em uma nuvem de pó colorido. Kin se voltou para Arashi, depois, sem nada falar, arrancou para o norte dali, ele a seguiu, sabia exatamente para onde ela estava indo e que pensamentos encheram sua cabeça. Haru foi após os dois. Os três aparentemente esqueceram que Yue e Naomi não voavam, as garotas, frustradas, suspiraram com a lembrança de quantas vezes disseram isso a eles e tentaram acompanhá-los a pé.
A Terra de Áries mergulhou num silêncio sinistro. Seus doze reinos estavam quase que completamente destruídos, como Kin estipulou, bilhões de pessoas morreram naquela explosão. Por toda a parte só se via escombros, cadáveres, sangue e poeira, o ar aqueceu, o céu foi preenchido com nuvens cinzas e negras. O medo se espalhou por tantas regiões e com tamanha intensidade que o cheiro dele penetrava as narinas mais sensíveis. Aquele ataque pegou de surpresa todas as lideranças do mundo.
Em profunda desolação, Kin aterrissou sobre os destroços daquele que costumava ser o palácio da sala de Hayate, o primeiro ministro do Reino de Órion. Ela escavou com as próprias mãos o monte de pedras abaixo do qual imaginava que seu líder estava e, quanto mais pedras atirava longe e não o achava, mais impotente se convencia de que era, mais persuadida ficava de que chegara o fim de tudo pelo que seus pais se sacrificaram. E isso não podia aceitar.
Arashi pousou do lado dela. No olhar dele não havia esperança como no dela, nem vontade de continuar procurando Hayate. A seu ver, com exceção deles cinco, graças a Haru, todos no Reino de Órion estavam mortos, um fato que mesmo para ele era angustiante demais e no qual estava evitando pensar. Restava ir atrás de saber quantos sobreviventes haviam no mundo.
A loira, teimosamente, sem demonstrar o menor sinal de cansaço, prosseguia usando as mãos como pás.
— Kin... — A chamou. Queria dissuadi-la a desistir, mas não sabia por onde começar.
— Me ajuda com isso! — Ela exclamava, enfurecida. Sem entender por que ele permanecia parado, pediu de novo: — Vamos! Hayate está em algum lugar aqui debaixo, não fique aí parado!
Sempre o mais pessimista, Arashi guardou as mãos nos bolsos da calça e virou o rosto. Haru chegou voando, dissolveu as asas, desceu e caminhou alguns passos para perto deles. Sua irmã ainda não desistira. O garoto usou os olhos especiais para tentar ver através das pedras e achou o que ela buscava muitos metros a esquerda da posição deles. Ia avisá-los, dizer-lhes para ajudá-lo, mas não foi preciso, Hayate emergiu sozinho da montanha de escombros em que foi soterrado.
Mesmo ferido e cansado, ele estava bem. Os três, esperançosos, o fitaram sorridentes. Hayate, para eles, era mais do que um retalhador superpoderoso e do que um cargo político executivo, o admiravam e amavam como um irmão menor admira e ama o mais velho.
— Pronto! A gente tá contigo! — Haru correu e o segurou quando ele ia cair, lhe emprestou o ombro como suporte.
— As pessoas... — Hayate, desorientado, murmurou algumas vezes. Perdeu o terno preto em algum lugar debaixo dos destroços, seu rosto acastanhado, como sua camisa branca social, estava sujo e ralado. Longe das ruínas das quais levantou, ele olhou para Haru e pediu: — Tem gente em perigo, vá ajudar, não se preocupe comigo e nem com o responsável por isso.
Haru assentiu e foi correndo fazer o que ele disse. No caminho da volta, deu de cara com Naomi e Yue.
— Venham comigo, ainda tem gente viva por ali precisando de ajuda! — Pediu a ajuda delas, preparando as asas para voar.
— Não dá pra ir todo mundo andando só dessa vez? — Yue suspirou desanimada, abaixou a cabeça, os ombros e reclamou, após ele alçar voo.
Kin conversava com Hayate para acalmá-lo e ajudá-lo a se recompor. Arashi, afastado dos dois, refletia sobre as palavras da pessoa por trás do holograma. O desgraçado disse que suas "provas" consistiam em "três ondas", que aquela explosão foi a primeira e que a segunda seria ainda pior. Permitir que ele derramasse mais uma gota de sangue inocente no seu planeta estava fora de cogitação, só de pensar nisso seu peito palpitava de ódio.
Keiko, a primeira ministra do Reino de Bellatrix, e Hizashi, o chefe de estado do Reino de Altair, estavam tentando entrar em contato com Hayate há vários minutos, não conseguindo, já que o comunicador dele foi destruído, Keiko ligou para o de Kin:
— ''Kin? Está me ouvindo?''
— Oi, estou, sim! — A loirinha respondeu. Kin liderava a equipe dos retalhadores de elite do Reino de Órion, era natural que tivesse contato com as maiores autoridades da Terra.
— ''Oh, graças a Deus!'' — Keiko ficou muito feliz por saber que ela estava viva, quase emocionada. — ''Você está no Reino de Órion? Como estão as coisas por aí?''
A retalhadora de elite olhou em volta antes de responder.
— Nada bem, tá tudo destruído. — Relatou, mas depois disse algo que a confortou: — Só que o Hayate está vivo, ele está de pé... Arashi e eu estamos vivos, só não sei quanto aos outros retalhadores da equipe de elite... Como estão as coisas em Bellatrix?
— "Não muito diferentes daí." — Replicou Keiko. — "Me deixa falar com o Hayate, por favor."
Kin removeu da orelha direita o pequeno interceptador de chamadas prateado e o entregou nas mãos do primeiro ministro. Parado onde estava desde que chegou, Arashi mantinha seus pensamentos naquela tragédia e dedicava seus raciocínios à previsão da próxima investida do adversário. Só Kin tinha uma ideia de como ele se sentia em situações como aquela, de que, muito embora ficasse mais produtivo, Arashi era dominado por uma culpa irracional e imensa, então ela foi até ele e o abraçou.
Pego de surpreso pelo gesto, Arashi retribuiu e deu um beijo em sua testa. O primeiro ministro de Órion, decidido, se aproximou dos dois e devolveu o comunicador de Kin.
— Só Keiko, Hizashi e eu estamos de pé, os outros nove ministros foram hospitalizados. — Os informou. Sem outra saída, deixou a nação aos cuidados deles: — Os dois estão muito feridos. Eu vou me reunir com eles, se o inimigo decidir dar as caras, nós três vamos atraí-lo com nosso poder e enfrentá-lo. Confio o Reino de Órion a vocês.
Lisonjeados, ao mesmo tempo que temerosos diante de tamanha responsabilidade, seus dois jovens ouvintes consentiram. Hayate só se foi após saber que contava com a anuência deles, ambos conquistaram seu respeito e personificavam suas esperanças relativas ao futuro do reino. Claro que Haru, Naomi e Yue também. O Reino de Órion era o lar dos jovens mais promissores da Terra e Hayate, orgulhoso, os elogiava para os outros ministros sempre que tinha a chance. Para que haja um futuro, no entanto, os vivos devem realizar sacrifícios, e por aqueles garotos Hayate doaria a própria vida sem hesitar.
Uma escuridão perturbadora de repente preencheu o planeta, mas tão apavorante quanto ela era a violência dos tremores que simultaneamente castigavam o globo. O primeiro ministro de Órion foi forçado a adiar o encontro com os dos outros reinos e ficar onde estava. "Será essa a tal da segunda onda...?", Arashi, abraçado com Kin, foi atirado no chão pela força do terremoto. Não muito longe dali, uma casa desabando teria esmagado uma menininha se Haru, o único no mundo enxergando algo, não a tivesse segurado e imaterializado com seus poderes. Ele trouxe luz aos olhos de suas companheiras e foi ver se sua irmã e os outros precisavam de ajuda.
Um meteoro vinha em direção à Terra. Graças à Haru, Hayate recuperou a visão e, sem perder a calma, o ministro mensurou a dimensão da tragédia que abarcaria o planeta se alguém não fizesse alguma coisa. Não é um meteoro, compreendeu, assombrado, o estadista. Era a lua. Tal constatação o fez tremer como poucas vezes em toda a sua carreira como retalhador. Seu corpo inteiro doía, tinha mais músculos lesionados do que imaginava e suas mãos tiritavam, mas o mundo dependia delas. Arqueou as pernas e cerrou os punhos. Precisava vencer o medo e agir o quanto antes.
Num só rápido e brutal salto, Hayate se lançou no espaço e colocou as mãos no satélite natural. Planejava devolvê-lo para a sua órbita. Assim que, com muito esforço, o fez, foi, por alguém que não viu, arremessado com um chute de volta para o planeta do qual veio, mas Haru voou até ele e o segurou, impedindo-o de colidir com o solo e sofrer muito mais machucados, talvez até morrer. Seu retorno ao chão foi suave como o de uma pena, o mesmo, no entanto, não podia ser dito do inimigo, que enfim se havia feito presente e estava de pé diante de Kin e Arashi.
Era a "criança" do holograma. Nem Kin e nem Arashi se deixaram enganar por sua aparência, Arashi transformou o chão onde pisavam numa pista de gelo, fez correntes surgirem de dentro da terra e as apontou para ele, que permaneceu imóvel até um segundo antes de ser por elas tocado. A criança habilmente se esquivou de todas elas com um salto, girou no ar e, com uma espada em mãos, se arrojou contra Arashi, mas Kin se colocou entre eles e deteve a investida usando uma espada de luz.
A lâmina de Kin venceu o embate, facilmente partiu a dele em dois, o pequeno descartou o que sobrou da arma e ergueu a perna para chutar a retalhadora, Arashi, no entanto, levantou um muro de gelo entre o pé dele e a cara dela, protegendo-a. Por meio do muro, Arashi disparou cristais de gelo contra o oponente, seu alvo se mostrou mais ágil do que antes, recuou vários metros e deitou no chão, não foi tocado por nenhum dos tiros. Kin o atacou por cima, ele rolou para o lado, se pôs de pé e desferiu um chute contra a loira, ela agarrou sua perna, o imobilizou e apontou a mão, repleta de energia dourada, para o rosto dele.
O brilho que precedeu o disparo de Kin pareceu cegá-lo completamente. Tudo indicava que aquele era o fim da luta, mas o garoto pôs a mão sobre seu braço, sugou toda a energia que ela acumulou e o torceu até as costas dela, forçando Arashi a vir em seu socorro. Arashi errou a voadora, o garoto revidou com um chute utilizando as duas pernas, seu alvo levou o golpe mas continuou de pé e segurou suas canelas com as mãos. Kin girou com outra espada em mãos e desferiu um corte mortal contra o inimigo, ele repeliu Arashi, saiu da frente do corte e a socou no rosto.
Arashi se recompôs e foi correndo saber como Kin estava.
— Você está bem? — Perguntou.
— Tô, e você? — Ela respondeu, com a mão sobre o ombro direito.
— Sim. — Replicou ele. A examinou rapidamente e percebeu na hora o que ela tinha. — Você tá com o ombro deslocado, vai precisar colocá-lo no lugar se quiser voltar à luta...
— Não, eu... — Fez um movimento para retornar ao combate, mas a dor lhe mostrou que seu companheiro tinha razão. — Infelizmente você está certo.
O antagonista, cansado de esperar, partiu para cima deles, mas Haru entrou na frente, o chutou no queixo e o pressionou com vários outros socos dos quais, agora alerta, o menino majestosamente se defendia. Logo atrás vieram Yue e Naomi, as duas o atacaram junto com Haru. Arashi, os olhando, viu que estavam se saindo muito bem, mas sabia que eles não conseguiriam vencer, Kin, tão certa disso quanto ele, tentou pôr o ombro no lugar. Arashi teria que fazer isso por ela.
Os dois se agacharam.
— Está pronta? — A olhou nos olhos e indagou, ela, com a cabeça, respondeu que sim. — Consegue pensar em alguma coisa mais romântica do que isso?
Ela riu.
— Não me faz dar risada no meio do fim do mundo! — Reclamou.
— Foi mal. No três! Um, dois... — Antes de contar o três, no entanto, pôs o ombro dela no lugar, Kin, para aguentar a dor, apertou seu braço. Passados alguns segundos, a inquiriu: — Vamos nessa?
— É claro. Aquele nanico vai me pagar por isso!
Uma explosão mandou Haru, Naomi e Yue de volta para cima dos dois aliados deles, o baixinho os teria finalizado juntos se Sora não tivesse aparecido e o repelido para longe dos cinco com sua rajada de energia sonora. Yue abriu os olhos e achou que estava delirando quando o viu, mas esfregou as vistas e, a muito custo, finalmente se convenceu que era real. O pivete egoísta de peito tatuado por quem ela mesma não dava nada apareceu e os salvou. Sora, atacando-o sozinho, estava se saindo muito bem, mas seus espectadores sabiam que ele, uma hora ou outra, iria precisar de ajuda.
Ainda incrédula, Yue ficou de pé. Seu espanto diante daquela cena foi tanto que ela até se esqueceu de ajudar os outros, e quando foi pensar nisso, eles já tinham se arranjado, inclusive compartilhavam alguma estratégia elaborada por Arashi.
— Temos que ser rápidos, ou ele vai matar o Sora! — Exclamou Haru. O considerava um amigo, apesar de tudo.
— Não perca o foco! — Pediu Arashi. — Naomi e eu vamos na frente, e Kin, você e a Yue vão pelos lados! Haru, preste atenção, ele não conhece o seu poder, então quando eu der a deixa, você age!
Todos estavam de acordo. O inimigo agarrou Sora pelo pescoço, Arashi, como que por meio de teletransporte, de repente estava a menos de um metro de distância dele, e o atacou com um gancho para obrigá-lo a largar Sora se quisesse se defender. Assim aconteceu. Enquanto ele se defendia do soco de Arashi, Naomi se movimentava para acima de sua cabeça. Ela foi vista e, no minuto que desferiu o murro, ele recuou para longe do alcance de seu ataque.
Seguindo o combinado, Kin e Yue investiram de lados opostos para cercá-lo, Yue com os punhos e Kin com uma espada. Ele as pegou pelo pulso, as puxou para frente e as teria explodido se um pião invertido composto de gelo não tivesse brotado de dentro da terra e o forçado a soltá-las. Arashi olhou Haru de relance e, quando percebeu que essa era a deixa acertada, Haru tornou Kin invisível, impedindo o oponente de ver o disparo de luz efetuado por ela. Certeiro. Com todo o lado direito do corpo desintegrado, o Juiz da Vida caiu por terra.
Os heróis, embevecidos de alívio, sentaram-se no chão mesmo. Sora foi o único entre eles a estranhar algo naquilo logo de cara. Pessimismo? Não. Longe disso, na verdade. Sempre foi muito otimista, um amante da vida — a tatuagem verde perto do seu ombro direito, "life", em letras garrafais, estava de prova. Franziu suas sobrancelhas negras e cheias, andou dois passos e atentou as orelhas ao suposto cadáver. Se existia algum sinal de vida nele, por mais fraco que este fosse, seus ouvidos especiais captariam.
Uma forte ventania soprou para trás a lisa mecha loira de cabelo que Sora deixava cair sobre a testa. Seus olhos puxados se arregalaram. Quando ele ia avisar aos outros, era tarde demais: uma explosão, derivada do moribundo, abrangeu toda a Terra em segundos e, nesse breve tempo, a transformou no segundo corpo mais brilhante do sistema solar. Eu disse três ondas?, pensava o destruidor, a medida que seu corpo era consumido pelo poder que ele mesmo invocou. Quis dizer quatro.
Sora, apavorado, abriu os olhos.
— Eu tô no inferno...?! — Se indagava, tateando-se. Olhou melhor em volta, avistou Yue e os outros e ficou relaxado: — Ah. O que será que aconteceu?
Haru repetiu o feito que salvou a vida de sua irmã e de seus amigos durante a primeira explosão provocada pelo Juiz da Vida, mas agora em escala planetária. Graças a ele, a Terra de Áries estava a salvo. O choque e o poder por ele dispendidos, entretanto, foram tão avassaladores que ele desmaiou e caiu para trás, sua cabeça teria tido um encontro violento com a terra se Yue não o tivesse acolhido. A vista, reparou Yue ao notar o céu, até que não era assim tão horrenda. A natureza parecia estar voltando ao normal depois que aquele monstro foi embora.
Os outros cinco decidiram ficar por ali mesmo, a maioria havia tido a casa destruída, de qualquer forma. A noite caiu rapidamente, trouxe consigo o sereno e suas belas companheiras, as estrelas, as quais, deitados lado a lado, os heróis contemplaram juntos, com exceção de Haru. Ele, com a nuca apoiada na perna de Naomi, ainda dormia o sono mais tranquilo de toda a sua vida. Por mais alto que falassem, seus amigos, todos a sua volta, não conseguiam acordá-lo. Haru não tinha ideia do quanto eles o invejavam.
Deitados logo a direita de Naomi, os que conversavam mais alto eram Sora e Yue. Com as mãos atrás da cabeça, as pernas esticadas e o céu estrelado refletido nos olhos, Sora respondia, uma a uma, todas as perguntas que ela fazia.
— Como é que você sobreviveu a primeira explosão? — A resposta dessa pergunta era a que Yue mais queria. Seu pequeno rosto níveo foi tomado de uma graça única, irrepetível, um leve sopro de ar fresco agitou seus curtos cabelos azuis claros de pontas loiras.
— Vamos dizer apenas que eu estava longe da Terra quando aconteceu. — Ele desconversou. — Quando voltei, vi minha casa destruída e quis matar o responsável. E vocês? Como sobreviveram?
— Hum... — Ela olhou para Haru, que lenta e calmamente despertava. Quando encarou Sora de novo, percebeu que nem precisava dizer mais. — E o que foi que rolou com aqueles arruaceiros que andavam contigo?
— Estavam... "longe da Terra" junto comigo quando aconteceu. Mas eu me entediei deles. Acho que vou ficar por aqui por um tempo. — Replicou.
Ao abrir os olhos, Haru foi recebido pelo sorriso de Naomi, o favorito dele. Suas bochechas enrubesceram.
— Olhem quem acordou, pessoal. — A francesa deu a notícia aos demais. O doce perfume de seus compridos e lisos cabelos negros, que tocavam com suavidade o rosto dele, contribuiu para despertá-lo. Ele se sentou.
— O herói! — Yue bagunçou os cabelos dele.
— Eu... — Ia dizer algo, mas Kin se jogou nas suas costas e o interrompeu.
— Só podia ser o meu irmão! — Ela exclamou, orgulhosa.
Entre Naomi e seus amigos o elogiando e sorrindo para ele daquele jeito, Haru não sabia quem o intimidava mais. Para ser honesto, não se lembrava ao certo de por qual feito heroico foi responsável, mas ver Kin tão orgulhosa dele o fazia mais feliz do que ele mesmo conseguia imaginar que seria um dia.
Fim.
Fale com o autor