As Portas de Beauxbatons
1 Veneno e pontualidade
Notas iniciais
Severus Snape estava irritado.
O fato, por si só, não seria digno de registro. Severus passara boa parte da vida irritado com alguma coisa: alunos incompetentes, colegas excessivamente alegres, ministros excessivamente satisfeitos consigo mesmos. Naquela tarde sufocante de junho, porém, sua irritação adquirira a precisão de uma lâmina recém-afiada.
O relógio sobre a lareira marcava três horas e dezessete minutos. A representante de Beauxbatons estava atrasada. Severus olhou para o relógio pela décima vez, como se a força de seu desprezo pudesse obrigar os ponteiros a recuar. Não funcionou. Um dos antigos instrumentos de Dumbledore soltou uma nuvem esverdeada no canto da sala, o retrato de Phineas Nigellus ressonou dentro da moldura e o sol atravessou as janelas do gabinete com uma insistência ofensiva.
O primeiro Torneio Tribruxo desde o fim da guerra. A grande celebração da paz europeia. Uma oportunidade histórica de reunir jovens bruxos em torno de valores como cooperação, coragem e amizade — expressões que apareciam tantas vezes nos documentos do Ministério britânico que Severus começara a suspeitar de que fossem algum tipo de ameaça velada. O último torneio havia terminado com um aluno morto e o retorno de Voldemort. Evidentemente, a solução encontrada pelos governos mágicos fora organizar outro.
Às três horas e vinte e dois, alguém bateu à porta.
— Entre.
A palavra saiu com força suficiente para intimidar alunos através de três paredes. A porta se abriu mesmo assim. O som de saltos atravessou o gabinete antes que Severus visse a visitante por inteiro. Não era Madame Maxime.
A mulher que entrou parecia estar na casa dos trinta e tinha a segurança irritante de quem jamais considerara a possibilidade de não ser bem recebida. Usava vestes de viagem azul-claras, ajustadas na cintura e fechadas até o pescoço, embora o tecido leve denunciasse o calor do lado de fora. Os cabelos muito louros estavam presos num coque baixo, com alguns fios soltos junto às têmporas. Ela retirou as luvas devagar enquanto examinava o gabinete.
Seus olhos eram de um azul vivo. Detiveram-se primeiro nos estranhos aparelhos deixados por Dumbledore, depois nos frascos de poções sobre as estantes e, por fim, em Severus.
— Monsieur Snape, imagino.
O sotaque francês era discreto. A voz, menos.
Severus permaneceu atrás da escrivaninha.
— É o que consta na porta. E a senhorita seria…?
Uma das sobrancelhas dela se ergueu.
— Alguém cuja coruja o senhor evidentemente não recebeu. — Ela se aproximou e lhe ofereceu a mão sem sorrir: — Angelique Blanche. Vice-diretora de Beauxbatons.
Severus olhou para a mão estendida antes de aceitá-la.
— Madame Maxime era aguardada.
— Madame Maxime não se encontra em condições de viajar. Acredito que o senhor seja capaz de sobreviver à substituição.
— Farei um esforço heroico.
Os dedos dela eram frios, apesar do calor. O aperto durou apenas o exigido pela educação. Ainda assim, quando a soltou, Severus percebeu que registrara a temperatura com uma atenção inteiramente desnecessária. Angelique recolheu a mão.
— Espero que Madame Maxime se recupere — disse ele.
A resposta demorou uma fração de segundo.
— O tempo é um adversário contra o qual nem mesmo ela pode lutar.
Havia algo sob a frase que Severus reconheceu e não tentou tocar. Indicou a cadeira diante da escrivaninha.
— Sente-se, Mademoiselle Blanche.
— Obrigada.
Angelique não se sentou imediatamente. Caminhou até uma das estantes e inclinou o rosto para observar um recipiente no qual uma substância escura pulsava como um pequeno coração.
— É um gabinete bastante particular.
— Desde a morte de Dumbledore, venho tentando torná-lo habitável.
— E decidiu começar acrescentando coisas que respiram dentro de vidros?
— Elas raramente cantam. Isso já representa uma melhora considerável.
Ela virou-se para ele. O princípio de um sorriso surgiu em seus lábios, mas desapareceu antes de se completar. Finalmente, acomodou-se na cadeira e retirou uma pasta da bolsa.
— Estes são os planos de Beauxbatons para o Torneio. Cronograma, alojamentos, protocolos de segurança, transporte e tudo o mais que ingleses costumam exigir antes de aceitar uma xícara de chá.
— Regras e organização nunca prejudicaram ninguém.
— É uma crença muito inglesa.
— E a pontualidade continua sendo uma descoberta que os franceses pretendem fazer algum dia?
— Cheguei no horário.
Severus apontou para o relógio.
— Vinte e sete minutos atrasada.
— A reunião estava marcada para as três e meia na carta que enviei.
Ele abriu a gaveta, retirou o pergaminho recebido de Beauxbatons e encontrou a linha correspondente. Três e meia.
Severus dobrou a carta com muita calma.
— Uma alteração desnecessária da caligrafia poderia justificar o equívoco.
— Naturalmente. Culpe os franceses e a caligrafia. Jamais os próprios olhos.
Ela lhe ofereceu a pasta. Quando Severus a tomou, as pontas dos dedos dos dois tornaram a se encostar.
Ele percebeu. Irritou-se por perceber e apertou os dedos ao redor da pasta, examinando o rosto dela em busca de alguma reação.
Angelique também permaneceu imóvel por um instante. Seus olhos desceram até as mãos deles.
— Algum problema? — perguntou Severus.
— Nenhum.
Ela soltou a pasta.
Severus decidiu verificar mais tarde se os documentos continham algum encantamento oculto. Era uma precaução mais útil do que continuar pensando no contato.
— Imagino que seus compatriotas possuam qualidades que compensem a falta de organização — disse ele.
— Várias.
— A pontualidade não está entre elas.
— Lavar os cabelos está.
O silêncio que se seguiu pareceu afetar até os retratos.
Severus fechou a pasta.
— Perdão?
— Resíduos de asfódelo — explicou ela, apontando para uma mecha próxima ao rosto dele. — E alguma coisa oleosa. Losna, talvez. O senhor esteve preparando poções antes da reunião?
A precisão da observação apenas tornou o insulto pior.
— Passei a manhã garantindo que sua enfermaria tivesse antídotos suficientes para receber seus alunos.
— Então Beauxbatons deve agradecer o sacrifício de sua aparência pessoal.
— Minha aparência nunca prejudicou minha competência.
Os olhos azuis percorreram lentamente o rosto dele. A avaliação não pareceu produzir o divertimento que Severus esperava.
— Não — concordou Angelique. — Suponho que não.
Severus abriu a pasta antes que ela pudesse explicar o que pretendia dizer. Não tinha interesse algum na resposta.
Começou a examinar os documentos.
— A barreira externa será ampliada?
— Já foi. Acrescentamos três círculos independentes, cada um ligado a uma fonte diferente. Se um cair, os outros dois permanecem ativos.
— E os selos dos campeões?
— Individuais, invioláveis e ligados às autoridades designadas pelas três escolas.
— “Inviolável” é uma palavra perigosa.
— Por isso incluí uma seção inteira explicando todas as maneiras pelas quais podem ser violados.
Severus tornou a olhar para ela.
Angelique parecia perfeitamente à vontade, mas seus olhos haviam perdido a diversão. Indicou a página correta sem consultar o índice.
Ele leu rapidamente. O projeto era minucioso. Havia redundâncias, protocolos de emergência e restrições específicas contra Confundus, falsificação de identidade e interferência externa no processo de seleção.
— Parece decepcionado — disse ela.
— Surpreso.
— Porque sou francesa ou porque uso saia?
— Porque passou os primeiros dez minutos discutindo meu cabelo.
— E ainda assim sei exatamente o que está escrito em cada página.
Severus fechou a pasta pela segunda vez.
— No último Torneio, todas as supostas garantias foram contornadas.
— No último Torneio, um bruxo das trevas teve acesso ao Cálice, um falso professor permaneceu dentro de Hogwarts durante um ano e um menino foi enviado para um cemitério sem que ninguém percebesse. Não pretendo repetir nenhum desses erros.
Não havia leviandade alguma em sua voz.
Severus sentiu a velha tensão formar-se em seus ombros.
— Harry Potter não deveria ter participado.
— Eu sei.
— Um Comensal da Morte colocou o nome dele no Cálice.
— Eu sei disso também.
Ela se inclinou ligeiramente sobre a escrivaninha.
— Não considero a morte de Cedric Diggory um detalhe, Monsieur Snape. É precisamente por isso que estou aqui.
Pela primeira vez desde que ela entrara, Severus não encontrou uma resposta desagradável pronta.
Angelique recostou-se novamente.
— Beauxbatons não permitirá que um quarto campeão seja introduzido. Não permitirá que os selos sejam substituídos. E não permitirá que nenhum diretor esconda informações dos outros dois, por mais inconveniente que seja a verdade.
— Está insinuando alguma coisa?
— Estou informando as condições sob as quais concordamos em sediar o Torneio.
— Hogwarts não recebe ordens de Beauxbatons.
— Ótimo. Isso significa que o senhor compreenderá perfeitamente quando Beauxbatons também não aceitar as suas.
O princípio de sorriso reapareceu nos lábios dela.
Severus percebeu que a discussão já deveria tê-lo cansado.
Não o cansara.
Empurrou para ela o memorando preparado por Hogwarts com força um pouco maior do que a necessária. O volume caiu sobre a mesa com um ruído pesado.
— Estes são nossos requisitos.
Angelique contemplou as cento e doze páginas.
— O senhor escreveu tudo isso?
— Pessoalmente.
— E eu imaginando que não tivesse passatempos.
Ela pegou o documento e começou a folheá-lo.
Severus esperou pela reclamação. Em vez disso, Angelique passou os olhos pela primeira página, pela segunda e pela terceira com velocidade impressionante.
— Os artigos sete e nove entram em conflito — disse ela. — O senhor exige livre acesso dos responsáveis pelas delegações às áreas dos competidores, mas proíbe adultos não autorizados nos alojamentos.
— Os diretores estarão autorizados.
— Isso não está definido no texto.
— Está implícito.
— Regras implícitas são apenas discussões futuras usando roupas formais.
Severus estendeu a mão.
— Dê-me isso.
Ela afastou o memorando do alcance dele.
— Ainda não terminei.
— Pretendo corrigir a redação.
— Depois que eu descobrir quantos outros erros existem.
— Não existem outros erros.
— Que adorável confiança.
Angelique continuou lendo. Uma pequena linha surgiu entre suas sobrancelhas enquanto se concentrava.
Não era despreparo, então. Em poucos minutos, ela fizera observações que dois representantes do Ministério britânico não haviam percebido durante semanas.
Severus deveria ter se sentido tranquilizado.
Em vez disso, passou a considerá-la ainda mais perigosa.
— A cláusula sobre inspeções surpresa é inaceitável — disse ela.
— É indispensável.
— Permite que funcionários de Hogwarts entrem em qualquer área de Beauxbatons.
— Apenas durante o Torneio.
— Então suponho que não se importará se eu incluir uma autorização equivalente para vistoriarmos Hogwarts.
— Isso seria desnecessário.
— Porque castelos ingleses são incapazes de esconder perigos?
Antes que Severus respondesse, três batidas firmes soaram à porta.
Angelique consultou o pequeno relógio preso ao pulso.
— Agora, sim, estamos atrasados.
A porta se abriu.
O homem que entrou era alto, de cabelos castanhos começando a pratear nas têmporas. Vestia vermelho-escuro sob um pesado manto de viagem e trazia no rosto a expressão serena de quem sabia que seria bem recebido em qualquer lugar.
— Perdoem-me — disse ele num inglês impecável. — As escadas de Hogwarts parecem nutrir uma hostilidade particular por estrangeiros.
Angelique pousou o memorando aberto sobre a escrivaninha e se levantou.
Dessa vez, o sorriso surgiu inteiro.
— Benedikt.
O recém-chegado atravessou o gabinete, segurou a mão dela e inclinou-se para beijá-la. O gesto era formal. A familiaridade em seus olhos não era.
— Angelique. Continua chegando antes de mim apenas para poder reclamar.
— Alguém precisa preservar as tradições.
Benedikt von Veltheim, diretor de Durmstrang, voltou-se para Severus.
— Diretor Snape. Finalmente nos conhecemos.
Severus apertou a mão oferecida.
— Diretor von Veltheim.
Benedikt sentou-se ao lado de Angelique. Ela lhe entregou uma cópia dos documentos, e os dois trocaram algumas palavras rápidas em francês.
Severus não compreendeu tudo.
Compreendeu o próprio nome e viu Angelique olhar para os cabelos dele.
Benedikt conteve uma risada.
Severus baixou os olhos para o memorando diante de si. Leu a primeira linha da cláusula doze. Depois tornou a lê-la. Na terceira tentativa, as palavras continuavam sem sentido, enquanto Angelique dizia alguma coisa em francês e Benedikt ria novamente.
Severus segurou a pena com tanta força que o instrumento estalou entre seus dedos.
Era evidente que aquela mulher seria um problema. E, ao contrário dos demais problemas de sua vida, ela parecia não ter o menor medo dele.
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