As Portas de Beauxbatons

2 Balas e outras imprudências


Notas iniciais
Neste capítulo, acompanhamos Severus até Beauxbatons. Boa leitura! 💙

Beauxbatons era ofensivamente bonita.

Severus chegou a essa conclusão antes mesmo de atravessar o saguão principal. O palácio parecia ter sido construído por alguém incapaz de escolher entre arquitetura e exibicionismo: colunas claras refletiam a luz da tarde, fontes encantadas lançavam água prateada sobre os jardins e as janelas altas permitiam que o sol invadisse corredores inteiros. Hogwarts tinha a decência de esconder seus excessos sob séculos de fuligem.

Uma jovem de vestes azuis conduziu Severus até o gabinete da vice-diretora e anunciou sua chegada. Antes que pudesse terminar, uma voz respondeu do outro lado:

— Se ele estiver de mau humor, faça-o esperar cinco minutos.

Severus abriu a porta:

— Tarde demais.

Angelique Blanche estava sentada atrás de uma escrivaninha coberta por pergaminhos. Os cabelos louros caíam soltos sobre um dos ombros, e as mangas das vestes haviam sido dobradas até os cotovelos. Não parecia constrangida por ter sido ouvida.

— Monsieur Snape. Que agradável invasão.

— Enviei três corujas informando o horário da minha chegada.

— Recebi todas.

— E ainda assim orientou sua funcionária a me deixar no corredor.

— Somente se estivesse de mau humor. Vejo que ela deveria ter obedecido.

A jovem junto à porta mordeu os lábios para conter um sorriso. Severus lançou-lhe um olhar, e ela desapareceu pelo corredor. Angelique apontou para a cadeira diante da escrivaninha:

— Sente-se. Prometo não insultar seus cabelos nos primeiros dez minutos.

— Sua generosidade é comovente.

Fazia um mês desde a reunião em Hogwarts. Durante esse período, Severus recebera sete cartas de Angelique: quatro estritamente profissionais, duas contendo correções irritantemente pertinentes e uma na qual ela escrevera apenas que a cláusula doze continuava “tão insuportável quanto seu autor”. Ele respondera a todas. Estritamente por necessidade administrativa.

Severus colocou uma pasta sobre a escrivaninha.

— O Ministério britânico acrescentou novas exigências aos protocolos de segurança.

Angelique contemplou o volume:

— Evidentemente.

— Algumas foram recomendadas por mim.

Angelique abriu a pasta e começou a ler.

Severus se acomodou na cadeira. O gabinete dela era muito diferente do seu. As paredes claras estavam cobertas por mapas, diagramas rúnicos e estantes organizadas. Havia flores brancas junto à janela e uma tigela de vidro cheia de pequenos doces embrulhados em papel azul. Nenhum objeto fumegava, respirava ou parecia capaz de matar um aluno. Aquilo demonstrava uma preocupante falta de personalidade.

Angelique virou uma página.

— É casado, monsieur?

Severus permaneceu em silêncio por tempo suficiente para que a pergunta pudesse morrer de abandono. Ela não morreu.

— Não — respondeu por fim. — Embora me escape a relevância dessa informação para os protocolos de contenção mágica.

— Nenhuma. Era curiosidade.

— Controle-a.

— Eu tentei. Foi uma experiência muito triste.

Ela virou outra página.

Severus observou-a procurando algum sinal de zombaria. Angelique continuou lendo como se houvesse perguntado a hora.

— E a senhorita? — indagou ele, antes que o bom senso pudesse impedi-lo.

Ela ergueu os olhos:

— Está retribuindo a curiosidade?

— Estou demonstrando como esse tipo de pergunta é invasivo.

— Solteira — respondeu, sorrindo: — E agora ambos sobrevivemos à invasão.

Severus passou os dedos pela borda do braço da cadeira.

— Se já terminou sua investigação sobre meu estado civil, talvez possamos discutir o motivo da minha visita.

— Ainda não terminei, mas podemos prosseguir mesmo assim.

Ela voltou aos documentos.

Severus deveria ter previsto que qualquer conversa com Angelique se tornaria uma batalha na qual as regras eram inventadas à medida que ela precisava delas.

— O vínculo dos selos com as assinaturas das direções não é suficiente — disse ele. — A pessoa autorizada pode ser coagida, confundida ou substituída.

— Reconfortante saber o que pensa de nós.

— Penso que qualquer sistema dependente da infalibilidade humana está condenado.

— Nesse ponto concordamos.

Angelique separou duas páginas e colocou-as lado a lado.

— Sua proposta acrescenta uma quarta assinatura.

— Não. Acrescenta uma trava. Ela não pertence a pessoa alguma e só cede quando duas escolas autorizam a mesma ação.

— O que impede duas autoridades de concordarem com uma ideia desastrosa?

— Nada. Arquitetura não substitui julgamento. Impede apenas que um de nós altere ou extraia um campeão sozinho.

Severus se inclinou sobre a escrivaninha:

— A alternativa é confiar cegamente em três pessoas porque possuem títulos respeitáveis.

— E isso seria terrível, considerando a quantidade de criminosos que já dirigiram Hogwarts.

Ele ergueu os olhos devagar.

Angelique continuava examinando o documento: — Incluindo os absolvidos — acrescentou.

— Que consideração.

— Não confunda franqueza com hostilidade, Severus. Quando sou hostil, a diferença é perceptível.

Foi a primeira vez que ela usou seu nome. Apenas uma palavra, pronunciada com suavidade e sotaque francês. Ainda assim, alguma coisa na nuca dele se contraiu.

— Diretor Snape — corrigiu.

— Estamos sozinhos.

— Meu cargo não depende da presença de testemunhas.

— Que vida cansativa deve ser a sua.

Severus ignorou o comentário.

— A trava registraria concordância, nada mais. Não teria identidade própria, não localizaria campeões e não concederia acesso.

Angelique leu novamente o parágrafo correspondente.

— Isso pode funcionar.

Ele aguardou uma objeção: — Apenas isso?

— Deseja que eu discorde para que se sinta em casa?

— Estou tentando compreender por que concordou tão rapidamente.

— Porque é uma boa ideia.

Ela retirou uma pena do suporte e fez uma anotação na margem.

— Minha irmã terá de incorporar a trava à estrutura.

— Sua irmã?

— Claire. Ela projetou a arquitetura rúnica dos selos. Também trabalha com runas antigas e proteções de herança. É melhor do que qualquer especialista da administração republicana e consideravelmente menos tediosa.

— Examinarei a versão final antes que seja ligada aos campeões.

— Naturalmente. Claire também não permitiria o contrário.

Angelique pegou um dos doces da tigela e desembrulhou-o.

— Quer uma bala?

Severus olhou para o pequeno objeto azul entre os dedos dela.

— Não.

— É doce.

— Eu havia deduzido pela localização na tigela de doces.

Ela colocou a bala na boca.

— Imaginei que um pouco de açúcar talvez melhorasse seu humor.

— Dumbledore passou anos tentando testar essa teoria.

A resposta saiu mais baixa do que Severus pretendia.

Angelique parou de sorrir. Por um momento, não disse nada. Apenas empurrou a tigela para o lado, afastando-a dele.

— Então não insistirei.

A ausência de provocação o desconcertou mais do que a provocação teria feito.

Ela continuou lendo.

— A cláusula sobre alojamento foi modificada — disse Angelique. — Os estudantes de Hogwarts ficarão dentro do palácio, na ala oeste.

— As carruagens seriam mais fáceis de proteger.

— E muito mais fáceis de isolar.

— Isolamento pode ser uma vantagem.

— Não numa competição cuja justificativa oficial é aproximar as escolas.

— A justificativa oficial é impedir que os governos admitam que sentem falta de espetáculos perigosos.

Angelique riu. O som foi breve e desprevenido.

Severus demorou um instante a tornar aos documentos.

— Os estudantes ficarão na ala oeste — decidiu ela. — Há quartos suficientes e camas confortáveis.

— Não duvido da capacidade francesa de fornecer camas.

— Não? Que progresso.

Severus percebeu tarde demais a direção tomada pela frase. Angelique apoiou o queixo na mão.

— Para um homem que não é casado, o senhor demonstra um interesse impressionante por alojamentos.

— Para uma mulher responsável por um torneio internacional, a senhorita demonstra um interesse impressionante pela minha vida particular.

— Talvez eu seja capaz de me preocupar com duas coisas ao mesmo tempo.

— Uma aptidão revolucionária.

— O senhor deveria experimentar.

Severus estendeu a mão para recuperar os documentos. Angelique segurou a última página.

— Ainda não terminei.

— Está lendo há vinte minutos.

— E o senhor está me observando há dezenove.

Os dedos dele permaneceram sobre a pasta:

— Estou esperando.

— Naturalmente.

Angelique puxou o documento para si. Severus não o soltou. Por um instante, nenhum dos dois se moveu:

— O senhor sempre finge não perceber quando uma mulher flerta — perguntou ela — ou estou recebendo tratamento especial?

Severus soltou a pasta.

— Eu percebo perfeitamente. Apenas não confundo provocação com interesse.

O sorriso desapareceu do rosto dela, mas seus olhos permaneceram atentos.

— Talvez devesse.

— Talvez a senhorita devesse dizer exatamente o que pretende.

— E perder metade da diversão?

— Nesse caso, não se surpreenda quando ninguém levar a outra metade a sério.

Angelique sustentou-lhe o olhar. O divertimento desaparecera de seus olhos quando ela fechou a pasta:

— O senhor realmente não acredita que alguém possa falar sério quando flerta com você?

— Acredito que pessoas sérias não costumam transformar intenções em jogos.

— Isso não respondeu à pergunta.

— Não era uma pergunta que merecesse resposta.

Ela se levantou. Por alguns segundos, Severus acreditou que a reunião tivesse terminado. Angelique, porém, contornou a escrivaninha e parou diante dele.

Perto demais.

Ele permaneceu sentado.

— Então permitirei que faça uma experiência — disse ela.

— Não tenho interesse em seus experimentos.

— Tem, sim.

Angelique inclinou-se e retirou alguma coisa do ombro dele. Seus dedos roçaram a lateral do pescoço de Severus.

Ele segurou o pulso dela. A reação foi imediata, anterior ao pensamento.

Angelique não tentou se afastar. Apenas abriu a mão. Um único fio branco repousava em sua palma.

— Seu — explicou.

— Tenho quarenta e sete anos, Mademoiselle Blanche. Não estou em processo de decomposição.

— Que alívio. Por um instante pensei que precisaria rever meus planos.

Severus olhou para o fio entre os dedos dela.

— Cabelos são ingredientes úteis demais para serem recolhidos casualmente por uma bruxa.

O humor desapareceu dos olhos de Angelique. Ela colocou o fio sobre a pasta diante dele.

— Então fique com ele.

Severus continuou segurando seu pulso.

O perfume dela era muito discreto, alguma coisa fresca sob o cheiro de pergaminho e tinta. Os olhos azuis estavam à altura dos seus. A distância entre suas bocas era indecentemente pequena. Ele poderia atravessá-la sem sequer se levantar. O pensamento surgiu completo e indesejado.

Severus a soltou.

— Não volte a me tocar sem permissão.

Angelique baixou a mão devagar.

— Muito bem.

Não houve ironia na resposta.

Ela recuou um passo. Pela primeira vez desde que se conheceram, parecia não ter nada a acrescentar.

Severus levantou-se e ajeitou as mangas das vestes, embora não houvesse nelas qualquer desordem. Tinha feito o que era correto. A certeza não produziu alívio algum.

— A próxima reunião ocorrerá no fim de agosto — disse Angelique, retornando à escrivaninha. Sua voz recuperara a formalidade. — Algumas alas do palácio estarão fechadas enquanto reforçamos as barreiras. Os diretores e os representantes técnicos ficarão na propriedade da minha família.

— Isso não será necessário.

— Será. A hospedagem já foi acordada com Madame Maxime e com a Comissão Republicana de Segurança Mágica.

Ela retirou um envelope de uma gaveta e o colocou diante dele.

— Sua presença também permitirá que conheça Claire e examine com ela a proposta da trava de concordância.

Severus pegou o envelope.

— Quem acompanhará Durmstrang?

— Benedikt ainda não decidiu.

A resposta veio rápida demais ou talvez Severus estivesse prestando atenção demais.

— Naturalmente.

Angelique inclinou a cabeça.

— Isso foi desapontamento?

— Foi indiferença.

— Precisa praticá-la mais.

Ele guardou o convite dentro das vestes.

— Enviarei minha confirmação.

— Traga roupas para alguns dias. A propriedade fica afastada da escola.

— Sou perfeitamente capaz de interpretar a expressão “hospedagem”.

— Depois do episódio com o horário, prefiro não fazer suposições sobre sua interpretação de palavras simples.

Severus caminhou até a porta.

— Mademoiselle Blanche.

— Monsieur Snape.

Sua mão já estava sobre a maçaneta quando a voz dela o deteve.

— Severus.

Ele olhou por cima do ombro. Angelique estava atrás da escrivaninha, com as mãos apoiadas na borda:

— Eu falava sério.

Nenhum sorriso acompanhou a afirmação.

Severus sustentou seu olhar. Uma resposta formou-se em sua garganta, mas ele a conteve antes que pudesse adquirir som.

Saiu do gabinete sem dizer nada. Somente depois de atravessar metade dos corredores de Beauxbatons percebeu que ainda sentia no pescoço o lugar onde os dedos dela o haviam tocado.

Não era desejo, decidiu.

Era irritação.

A persistência daquela irritação durante toda a viagem de volta a Hogwarts foi apenas mais uma prova de que Angelique Blanche constituía um problema administrativo de proporções alarmantes.

Notas finais
Obrigada por acompanhar! O que vocês acharam desta visita a Beauxbatons? Até o próximo capítulo! 💙
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.