As One - Como um só
4 Capítulo 4 - Tudo na vida é imprevisível.
Notas iniciais
Não tem aquela hora que você está no maior silêncio, em paz, sem esperar nada e então tudo vira um show de horrores? Pois é, é isso que está acontecendo. Todos os alunos estão sendo mantidos a uma distância longe da menina que está coberta com um véu branco e morta. De longe vejo a Claudia de um lado e o Yuri do outro olhando também surpresos.
– Pessoal, por favor, silêncio – Grita o Diretor no microfone. – Já ligamos para os médicos, eles estão vindo pra cá. E infelizmente teremos que cancelar o acampamento.
De longe eu vejo a Claudia com sua cara de surpresa se transformando em uma cara de alegria.
– Iremos procurar as evidências sobre o que acaba de acontecer. Mas por hoje é só. – Continua o Diretor – Estamos ligando para os motoristas, sairemos daqui hoje mesmo.
Uma pessoa morta, o acampamento encerrado, médicos vindo, ônibus vindo, iremos voltar para casa, e ninguém sabe o que fez a menina morrer. Ninguém quer esclarecer isso, eu estou andando de volta para a tenda para arrumar as coisas junto com os outros enquanto vejo os médicos chegando e correndo em direção a menina. Alguns alunos estão chorando, devem ser amigos da menina que morreu, a qual eu nem sei seu nome.
– Os ônibus chegaram, vamos para casa – Diz o meu Professor alertando-me.
– Professor... Já sabem o que aconteceu? – Pergunto.
– Parece que outro professor de outra turma a matou. Não sabemos o porquê disso, e ele já está detido. – Conclui ele.
Saio da Tenda junto com o Professor que acena para Claudia e o Yuri virem até nós. De longe eu vejo alguém sendo amarrado pelos guardas e sendo colocado dentro do carro da policia, com certeza deve ser o professor que matou a menina.
– Vamos, dessa vez vocês três vão voltar no mesmo ônibus – Diz o Professor a nós três – Chegaremos lá às três horas da manhã.
Eu entro no ônibus junto com a Claudia e o Yuri. Eu sento do lado de uma menina que deve ser do terceiro ano, ela está chorando. Claudia e Yuri também sentam do lado de outro desconhecido do terceiro ano. E assim voltamos para casa.
Deixe-me memorizar tudo que aconteceu nesses últimos minutos. Uma menina foi morta por um professor, não sabem o motivo. O acampamento foi cancelado, e uma hora dessas estamos voltando para casa. E é ai que percebemos que tudo nessa vida é imprevisível e não podemos esperar nada. Tudo é imprevisível.
Já são três horas da manhã, e bem que o professor falou que chegaríamos nesse horário, porque daqui já dá pra ver o começo da cidade. O que me traz uma alegria poder finalmente voltar, mesmo nessa escuridão.
– Chegamos – Diz o motorista parando o ônibus na frente da nossa escola — Sejam todos bem-vindos de volta. Podem descer.
Eu sou um dos primeiros a descer, logo após desce os outros junto com a Claudia e depois o Yuri. Vemos alguns alunos indo embora e o Professor está falando algo com os outros. E nós três estamos lá, parados, esperando alguma explicação.
O Professor nos vê e vem falar conosco.
– Está tudo bem com vocês? – Ele pergunta.
– Claro, com certeza – Diz Claudia mostrando sua felicidade ao sair daquele acampamento.
– Querem que eu leve vocês para casa? É perigoso uma hora dessa estarem por aqui – Diz ele.
– Não, minha casa é logo ali – Diz Claudia.
– A minha também – Fala Yuri
– E a minha... – Eu não quero pegar carona com o professor – É ali do lado, não se preocupe.
– Então está certo, nos desculpem pelo ocorrido. Com certeza as aulas só voltarão próxima semana – Conclui ele.
Os outros ônibus chegam, e então volto o meu olhar para a Claudia e o Yuri que estão parados.
– Que horas são essa? – Pergunto.
– Falta meia hora pras quatro – Diz Yuri – Temos tempo.
– Tempo pra dormir – Fala Claudia feliz
– Claro que não, sua anta – Fala Yuri – Venha comigo vocês dois.
– Sua o que? – Pergunta Claudia.
– Ir pra onde? Você não vê que horas são essas? – Pergunto.
– É sério, sigam-me – Diz ele.
– Claro que não, tenho mais o que fazer. – Fala Claudia um pouco irritada.
– Dormir – Continua Yuri – É sério, vem.
– Mim obrigue – Ela diz.
– Vocês não vão se arrepender – Yuri diz – Nossos pais ainda não sabe que nós voltamos. Por favor.
– Está certo, vamos – Digo isso mesmo, até porque minha casa é seis quarteirões daqui.
– Eu não vou. Vai aparecer um homem e vai acabar estuprando nós três – Ela diz rindo logo depois.
– Venham – Chama Yuri enquanto caminha na frente.
Eu e a Claudia o seguimos atrás. Sendo que isso é coisa de louco. Estamos bem longe da escola, está tudo escuro e a rua está deserta e ele continua mandando nós seguir ele. Até que o vejo entrando em um beco, que leva para um lugar alto, uma montanha bem dizer que dá pra subir com segurança. Nunca tinha visto essa montanha aqui, até porque é muito bem escondida e dá pra apreciar a passagem. Só daqui de cima dá pra ver o colégio inteiro.
– Vamos ficar aqui – Diz ele.
– Tô fora, até mais pessoal – Claudia diz.
– Por favor, eu falei que você não ia se arrepender – Ele continua – Daqui a pouco vai ter o amanhecer do dia. E acreditem, vai ser a melhor coisa que vocês verão na vida.
– Sei não hein – Digo com um pouco de incerteza.
– Sentem nessa grama, vou buscar sorvete – Ele diz.
– Sorvete, não tem nada aberto – Digo.
– Tem sim, lá na frente uma velha vende seus doces na madrugada – Ele diz indo embora.
– Você sabe que se ele for sozinho vai ser estuprado né? – Diz Claudia rindo e sentando na grama logo após.
– Claro, sempre – Digo sentando também na grama.
Esperamos uns bons tempos calados, até que ele chega com três copos de sorvete na mão e dá um para cada.
– Espera aí, eu não queria cobertura no meu – Diz Claudia colocando o dedo na cobertura e saboreando-a para saber de qual sabor é a cobertura.
– Ah, isso não é cobertura – Diz Yuri – É que tinha uns pombos lá sabe...
Esse é o momento que vejo a Claudia vomitando e o vomito descendo a montanha.
– Era pra você ter vomitado em outro canto – Digo.
– Culpe esse peste. – Ela diz com cara de nojo, que logo após joga o sorvete tão longe que deve ter parado no inferno.
– Calem a boca, já vai começar – Diz ele sentando.
Lá estamos nós, na grama, em cima de uma montanha, vendo o amanhecer de um novo dia. Eu estou do lado esquerdo, o Yuri do lado direito e a Claudia no meio. E assim vemos calados, os nascer do sol.
– Que coisa mais brega – Diz Claudia cortando o clima do amanhecer.
– Sempre quis fazer isso – Diz Yuri.
– Você. Eu não – Conclui Claudia.
Mais um dia estanho começava. Mais um dia a qual eu não sabia o que esperar estava começando. Sem aula, sem nada. Fui pra casa a pé, como todos os dois. Consegui entrar em casa sem fazer barulho, tanto que no outro dia quando minha mãe me viu no quarto tomou um susto e gritou acordando a casa toda, mas tudo bem. Vamos continuar a vida.
Continua...
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