As Mil Chaves do Meu Coração
1 Prólogo - Anna Rosa
⏸▶️In My Bed-Sabrina Carpenter
Eu me lembro que uma vez, quando eu tinha aproximadamente dez anos, estava vendo um programa na televisão sobre empresas e uma das frases que o apresentador disse foi :
“ Negócios familiares nem sempre dão certo. É necessário um preparo físico e mental para que se saiba diferenciar o profissional do pessoal”
Até dois dias atrás, eu nunca tinha entendido essa afirmação, só que um quadro colorido conseguiu mudar completamente minha perspectiva sobre o assunto. Minha mãe e eu, saímos de nossa cidade natal para dar continuidade na franquia de cafeteria da minha progenitora e estamos a dois dias sem trocar uma palavra, por causa de um quadro colocado em uma posição que ela não gostou.
Sejamos sinceros : quadros coloridos não combinam com um ambiente puxado para o amadeirado e com plantas verdes. Então, eu coloquei na única parede amarela que tinha no estabelecimento. E isso foi o suficiente para endurecer dona Adele, a proprietáriado lugar -e minha mãe-.
—Vocês ainda não estão se falando?—Perguntou Rodrigo, comendo uma maçã e ajeitando a bancada.
— Acho que você mesmo já respondeu sua própria pergunta. — Afirmo e rego as plantas que ficam perto do caixa. Eu ainda não entendi porquê elas estão aqui, mas fazer o quê.
— Minha irmã de três anos já teria dado um jeito nisso. Talvez fazendo birra, mas ja teria.
— Que interessante.— Aproveito a distração para comer um pedaço da maçã dele.
— Ei!
— Quem mandou ser distraído?— Sorrio e volto a regar as plantinhas.
Mesmo eu tendo me mudado a apenas um mês, já consigo enxergar o Rodrigo como um amigo. Desde o primeiro dia dele aqui, ele me tratou bem e conversou comigo. Se tem algo haver comigo sendo possivelmente a sua futura chefa, aí eu já não sei. Mas, por hora, eu aceito a sua amizade como sincera.
— Ja desarrumaram toda a mudança?
— Tu jura? Meu querido, ainda tem tanta caixa lá em casa que a mãe natureza deve estar colocando a minha família na lista negra dela.—Guardo o regador na dispensa e volto para o caixa e o ajudo a limpar as mesas que restam para podermos ser mandados para casa.
— Não quer ir desarrumar? Eu cuido disso.—Ele me dá um sorriso simpático.— Deve ser mais divertido que limpar mesas sujas.
— Hm, de fato .—Retribuo o sorriso.— Mas, você tem certeza? Eu posso limpar, sem problemas.
— Faz uma surpresa para a sua mãe. Quem sabe vocês voltam a se falar.— Rodrigo joga a maçã fora e volta a limpar as mesas. O pior, é que ele está certo. Se a minha mãe chegar em casa e ver tudo arrumado, a chance dela ficar feliz é gigante.
Mas, a chance dela ficar com raiva por eu ter colocado algo no lugar errado, é igualmente gigante.
Avisei a ela que iria para casa mais cedo e ela só me deu um dedão para cima enquanto lia uns papeis, o que significa : “Você pode ir. Mas a gente conversa depois.” O que eu também não sei se é uma coisa boa.
Cheguei em casa e comecei a desarrumar as caixas, até que só restava uma única. O bizarro, é que eu não lembrava daquela caixa. Se bem que tinham tantas, que se eu lembrasse de todas, eu teria um Q.I muito alto. Eu a abri e logo reparei que não conhecia o conteúdo que estava dentro. Puxei com cuidado uma jaqueta de couro com detalhes em rosa e logo estranhei. Minha mãe não gostava de coisas com couro...
Um rápido pensamento me fez crer que poderia ter sido um presente do meu pai para ela. Eu nunca soube dele. Nada. Nenhuma informação. Minha família toda finge que ele nunca existiu. E , mesmo sem a intenção, eles conseguem me magoar com isso.
Fotos antigas com pedaços queimados, cds sem identificação, ingressos de shows e um caderno largo , marrom e com alguns adesivos que obviamente foram colados na capa. Uma fitinha prende as duas capas e a minha curiosidade grita para as quatro paredes do sótão. Se ali haviam coisas que remetiam ao meu pai, provavelmente ali haviam outras informações. Era o meu jeito de finalmente conhecer a pessoa que todos ao meu redor tentam esconder e eu não ia jogar a chance fora.
Deiuma rápida folheada, o fechei novamente e lhe levei para o meu quarto. Respirei fundo e decidi começar a ler todos os segredos que haviam me impedido de ter acesso em todos os meus dezenove anos de vida.
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