As Melhores Intenções
10 Capítulo 10 - Parada do Amor
Notas iniciais
Eleanor não sabia que passar horas em uma sala de espera pudesse lhe causar tantas dores nas costas. Tudo bem, a posição em que estava não era uma das melhores, e ainda tinha que contar com Elton jogando todo o peso da cabeça em cima de seu ombro.
Definitivamente, não era a posição mais confortável.
Mas tinha que aguentar o que fosse, já que ninguém ainda lhe trouxe notícias de Helena, que assim que as festividades de sábado à noite começaram, desmaiou, deixando todos transtornados.
— Eleanor, Elton... – Esmeralda os chamou.
Ambos despertaram, ficando eretos na cadeira:
— Ela está bem. Não se alimentou direito e ficou muito fraca. Ela precisa falar para vocês sobre a desistência dela...— Esmeralda parou alguns instantes para recuperar o fôlego. – Ela não quer mais fazer o tratamento.
Como Eleanor havia presumido, era verdade, Helena tinha parado de lutar.
Elton fungou forte o choro que estava entalado na garganta. Esmeralda se desmanchou a chorar, e Eleanor só conseguia observá-los.
O sentimento de culpa a corroía. Não conhecia aquelas pessoas tempo suficiente para amá-las, mas já havia criado uma conexão diferente. Afinal, assim como ela, todas aquelas pessoas tinham desejos e sonhos. Elton queria ser livre. Esmeralda esperava que a filha pudesse ficar bem e feliz. E Helena queria que todos fossem felizes, mesmo sem ela ali.
Helena não conseguia perceber que parte da felicidade das pessoas que a amavam, era ter ela ao lado deles.
E as pessoas que a amavam, não entendiam que a dor que Helena sentia, era insuportável demais para continuar em um tratamento agressivo.
Eleanor pela primeira vez em anos, sentiu um nó formular em sua garganta. Aquilo era um choro? Será que poderia reprimir mais uma sensação como aquela?
Antes que pudesse tentar fazer algo, ela já estava chorando.
§
1 semana depois
Helena ainda permanecia internada. Seu quadro era estável, e apesar de todos os exames indicarem melhoras, ela ainda precisava ficar no hospital em observação.
Eleanor suspeitava que a verdadeira intenção era manter Helena presa ao hospital, e que alguns dias pudesse a fazer mudar de ideia. Ela se recusava a voltar ao tratamento, e isso matava cada dia mais seus pais.
Na quarta-feira, Eleanor foi visitá-la. Ela leu alguns poemas, terminou o livro que tinha começado, e ambas comeram sorvete juntas. Foi um dia agradável para as duas, nem ao menos tocaram no nome de Elton, o que deixou Eleanor mais satisfeita e menos culpada.
Ficou sabendo por Elton, que ele visitou Helena na quinta, e que ela lhe pediu para que cuidasse de todos os detalhes de um futuro e possível enterro.
Eleanor não sabia como deveria ter agido ao ouvir aquilo, mas ficou perplexa, e passou os demais dias em casa, enclausurada, rezando para que coisas boas acontecessem logo.
Além disso, ela não conseguia parar de pensar em Fred, que havia sumido desde sábado.
Ela ficou feliz, ainda que estivesse triste.
— Eleanor! – Pedro a chamou da cozinha.
— O que foi? – ela gritou.
— Seu amigo está aqui!
— Amigo?
— Venha logo aqui!
Os dois pareciam duas pessoas insanas, ponderou Eleanor se levantando da cama e seguindo para cozinha.
Assim que cruzou a sala, lá estava Elton e Pedro. Ambos rindo e tomando café juntos.
— O que faz aqui? – ela indagou, se encostando na pia.
— Bela roupa. – Elton apontou para ela, que vestia pijamas de bolinha. – Bem, vim te chamar para sairmos, quero te levar em um lugar. Ficar em casa triste não é a melhor solução. E por que você nunca me disse que tinha um irmão?
Ela olhou para Elton, e depois para Pedro, que ainda bebericava sua xícara de café.
— Não achei que fosse uma informação importante. – respondeu.
Pedro riu, e Elton voltou a encará-la:
— É importante Eleanor, já que estamos juntos.
Pedro quase se engasgou ao se dar conta das palavras de Elton. Ele olhou para Eleanor, que manteve uma expressão plácida quase irreconhecível.
— Não exatamente juntos. Mas juntos. – Elton continuou. – Vá se arrumar, iremos sair. Vista roupas confortáveis, e fáceis de se locomover, dançar, pular...
— O que vocês irão fazer? – Pedro perguntou. Talvez estivesse incrédulo, ou achando graça, Eleanor não soube identificar o que se passava na cabeça de seu irmão.
— É segredo.
§
Eleanor concluiu que colocar um macacão jeans, tênis brancos, e uma blusa de manga longa, não era um dos melhores visuais para a Parada do Orgulho LGBTQ+, já que a maioria das pessoas estavam fantasiadas, cheias de glitter, e até mesmo peladas.
Melhores do que seu visual... Disso não tinha dúvidas.
Quando Elton lhe disse que ela iria ficar impressionada, não esperava que pudesse ficar tanto. Não tinha planejado passar o seu domingo se divertindo, parecia até errado, mas assim como Elton havia afirmado minutos antes deles descerem na estação, chorar não vai curar ninguém.
E lá estavam eles, se espremendo em meio a uma multidão envaidecida pela música e pelo movimento.
Elton a guiou pelas laterais da rua. Dizia que era mais fácil para se locomover entre todas aquelas pessoas, e ela não duvidou nenhum segundo disso. Era nova em festas como aquela, nem o carnaval aproveitava, passava tanto tempo planejando cada passo que iria dar na vida, que Eleanor não tinha tempo para aproveitar.
O que era uma pena, pensou ela, cruzando a rua acompanhada por Elton.
— Então essa era a sua ideia de diversão? – Eleanor gritou, pois não conseguia murmurar ou sussurrar.
— É sim, não gostou?
— Pelo contrário. Eu adorei, é que eu nunca tinha vindo.
E realmente, estava adorando cada minuto. A música, as bandeiras, o glitter, as pessoas em si, tudo a deixavam extasiada, e por algumas horas ela poderia esquecer todos os seus problemas e aflições.
Por algumas horas ela podia ser apenas Eleanor Santos.
— Vamos dançar! – Elton a puxou para um grupo, um grupo isolado dos demais que dançavam ao som de alguma música pop.
Eleanor sentiu muito não poder reconhecer divas pop. Não era o seu tipo de música favorita, mas estava disposta a dançar, e foi o que fez.
Ela dançou ao lado de Elton, e aproveitou ao lado de estranhos que jamais viria em sua vida, entretanto compartilharam um momento de diversão juntos.
Enquanto ela dançava e pulava, agitando os braços, e sorrindo em meio à multidão, ela sabia que aquele era o sentimento de felicidade, o sentimento que invadia o seu peito e se manifestava por todas as suas veias.
— Não sabia que você dançava tão bem! – Elton gritou.
— Pois eu também não sabia! – ela gritou de volta, pulando mais e mais.
§
Quando ambos conseguiram finalmente pegar o metrô na volta, algo havia mudado em Eleanor, e ela podia sentir isso dentro de sua alma. Assim como algo em Elton também mudou.
Ele tinha beijado mais bocas que Eleanor podia imaginar, e estava feliz, como se tivesse acabado de se redescobrir.
Elton tinha se encontrado, e Eleanor achou isso magnífico.
— Você beijou mais de 10 bocas, com certeza. – Ela declarou, enquanto se acomodava ao lado dele, no banco do meio do vagão.
— Mais de 10? Que exagero... – Elton pareceu levemente chocado, mas sorriu ao notar que nem ele mesmo sabia quantos bocas tinha beijado.
Eleanor sorriu.
— E quantas bocas foram então? – ela o desafiou, pois tinha certeza de que ele não saberia a resposta.
Elton olhou para ela, se divertindo com os rumos que a conversava tomava.
— Ah Eleanor, você sabe que eu também perdi as contas no quinto beijo.
Ela deu uma gargalhada.
— Ah Elton, você realmente aproveitou a parada..., Mas por que comigo?
Elton contraiu os lábios. Ele passou o braço ao redor dos ombros de Eleanor, e a puxou para mais perto. Um gesto íntimo, que até mesmo a assustou, mas ao notar a proximidade infame de Elton, ela apenas relaxou os braços e permitiu ser abraçada por ele.
— Porque você é a única pessoa que sabe da verdade. Que me conhece de verdade. – Ele respondeu. – Queria muito ter contado para Helena, mas não tive coragem. Foi falando para uma estranha que pude ser eu mesmo, de verdade. É por isso que sou grato, não sei se acredito em destino, mas se não fosse por você cruzar o caminho de Helena, nem sei como estaríamos hoje.
— Talvez você ainda continuasse enclausurado em um armário invisível... – Eleanor brincou.
Elton piscou, e apertou ainda mais os ombros dela.
— Provavelmente sim...
— Sabe, alguma hora teremos que falar a verdade.
Ele suspirou.
— Eu sei. Quando chegar a hora, eu falarei da nossa farsa. Inclusive vou aliviar as orações da minha mãe.
Eleanor levantou os olhos um pouco sobressaltada. Por acaso Victória rezava? Aquela mulher não demonstrara nem um pouco de religiosidade no fim de semana em que passaram juntas.
— O que quer dizer com as orações da sua mãe? – Eleanor perguntou, pois sabia que tinha uma necessidade de saber se havia um pouco de santidade naquela mulher.
Não que ela fosse o exemplo de fé mais inabalável que existisse, no entanto, duvidava que Victória fosse também.
— Foi modo de dizer Eleanor. – Elton sorriu ao responder. E depois de um breve instante em silêncio, prosseguiu: – Ela pede nas supostas orações dela, que eu criei juízo e me separe de você.
Eleanor não pode deixar de sorrir, era evidente que Victória jamais tenha gostado dela.
— Não sou um partido tão terrível assim.
— Não é, e ela sabe que não. Mas minha mãe me disse que você está apaixonada por outra pessoa.
O quê? Como Victória haveria de saber algo do tipo?
— Você deve estar se perguntando, “como ela sabe?”, – Elton prosseguiu. – Ela me disse que observou você quando chegou na recepção, perto da piscina. Ela afirmou com toda sua veemência que você só caiu porque se assustou ao ver Fred.
Eleanor engoliu seco. Mas antes de formular uma resposta, Elton continuou:
— É óbvio que não acreditei nela, mas minha mãe tinha razão. Em todo lugar que ele está, você fica diferente.
— Isso não é verdade.
Elton gargalhou.
— Claro que é verdade. Você está apaixonada por ele, e ele por você. Nós não somos namorados de verdade Eleanor, pode me contar a verdade.
Eleanor suspirou. Não podia mais enganar Elton, e muito menos a si mesma.
Por mais que três anos tenha se passado, ela ainda continuava suspirando de amores por Fred. Se recusara a beijar pessoas durante o festival, e se recusara ainda mais a conhecer outras pessoas durante esses anos que jurou jamais se apaixonar.
Era fácil cumprir seus desejos, já que estava parcialmente apaixonada por alguém que jamais seria seu. Lembrava das palavras duras de Fred, e seu orgulho, mesmo que a rasgasse em pedaço, não permitiria que ela o perdoasse.
Oras, por que pensava em tantas asneiras como aquelas? Pensou, ao notar os olhos de Elton em cima dela.
— Ele me dispensou... não gosta de mim.
— Eleanor, ele te olhava no barco como se você fosse um tesouro precioso. Talvez ele não gostasse de você na época em que descobriu que gostava dele, só que agora, ele está louquinho por você.
Eleanor sorriu, não acreditava tanto assim em Elton, mas havia um que de satisfação em ouvir que Fred talvez estivesse louco por ela.
Fale com o autor