As Melhores Intenções

4 Capítulo 4 - Um Dilema


Notas iniciais
Pode-se contar um segredo que não é seu?

Eleanor deixou a boate um pouco transtornada. Esperava ao menos algumas investidas em Elton, só não esperava que pudesse descobrir algo tão íntimo do rapaz. O que ela falaria a Helena? Isso se ela tivesse o direito de contar sobre a sexualidade de alguém...

Ellie? Ainda não foi para casa? – Fred apareceu, assim que ela cruzou a entrada em direção à rua.

Eleanor parou no mesmo instante para encará-lo:

— Não... A noite estava boa.

— Sei. A minha noite também acabou agora, quer carona?

Eleanor ponderou que suas últimas opções não podiam ser piores do que aceitar uma carona de Fred. Podia até odiá-lo, mas não era algo mortal. E depois de todas as emoções da noite, não via problemas em se beneficiar com uma carona, mesmo que isso venha de Fred.

— Por que não? – ela o observou. – Vamos?

— Vamos.

Fred seguiu em direção a um estacionamento abandonado. Depois de passarem ao lado de todos os carros, ele seguiu direto para a parte das motos. Apertou o alarme, e só então, Eleanor notou que o meio de transporte que usariam, não era exatamente o que tinha imaginado.

Fred pegou dois capacetes grudados na garupa da moto, e ofereceu o menor para Eleanor, que apenas o olhou:

— Pensei que tivesse vindo de carro... – ela murmurou.

— Não uso carro há anos. Moto é mais econômica. – ele simplesmente respondeu, dando de ombros.

Eleanor estremeceu.

— Ah, não sei Fred, tenho medo...

Fred revirou os olhos enquanto se aprumava na moto.

— Pare com isso Ellie. Um pouco de emoção é sempre bom. Além disso, eu sou um ótimo motorista. – havia certa ironia em seu tom de voz, mas Eleanor considerou que não tinha melhores opções além de aceitar aquele argumento.

Poderia muito bem se arriscar e chamar um táxi, ou motorista de aplicativo. Podia muito bem ligar para Pedro e fazê-lo ir buscá-la, se bem que a uma hora dessas ele e Angie estariam se atracando no quarto, e a última coisa que queria era interferir naquele trágico relacionamento.

Qual o problema de subir na garupa de Fred? Se não fosse por odiá-lo tanto... Se não fosse o seu medo de ficar grudada nas costas dele... Se não fosse seu coração disparado, ardendo como se aquela possibilidade fosse uma das melhores coisas que havia acontecido em sua vida... Bom, tinha diversos problemas, no entanto, Eleanor estava exausta de pensar e ponderar todas as suas ações.

Ok...— ela murmurou, colocando o capacete e subindo na garupa da moto.

Ela se acomodou atrás de Fred, e entrelaçou os braços ao redor do abdômen dele. Um abdômen bem definido, observou ao tocá-lo.

Se repreendeu. Não podia voltar a desejar seu inimigo.

Por mais que Fred tenha sido prestativo, ele ainda continuava ser a pessoa que a dispensou e tratou mal. Ele continuava sendo o cara que partira seu coração há três anos. E nada mais.

O percurso da boate até seu apartamento levou menos de 20 minutos. Eleanor se despediu de Fred com um breve aceno, e murmurou algumas palavras em agradecimento, mas antes que ele pudesse respondê-la, ela correu para dentro do hall do prédio e seguiu para o elevador.

§

Assim que tirou os sapatos, e observou os quatro cantos do apartamento, Eleanor relaxou em cima da poltrona, pegou o celular e visualizou a mensagem de Helena:

“E! Você sumiu! Mas não importa, Elton tbm se foi. Amanhã farei quimio, se puder vir, poderemos conversar.”

Eleanor suspirou, pela trigésima vez, acreditava ela. Como contaria para Helena sobre os verdadeiros interesses de Elton? Sem contar com a possibilidade de perder o único emprego que tinha arrumado.

Estava em uma sublime maré de azar.

§

Eleanor decidiu que iria ao hospital pelo metrô. Olhou o mapa no túnel da estação, e seguiu pelas linhas amarela, vermelha, e por fim, verde. Desceu na estação que ficava mais próximo do hospital, e decidiu caminhar por entre as ruas mais movimentadas.

Depois de caminhar por pelo menos 10 minutos, ela visualizou a entrada do hospital e seguiu para o departamento onde era realizado o tratamento contra o câncer.

Cruzou na recepção com uma recepcionista pouco amistosa. A mulher mal olhara para ela, e muito menos a ajudou a encontrar Helena. Teria que procurar sozinha, e desafiando a própria sensatez, Eleanor buscou por todas as alas do departamento até encontrar Helena na última ala, acompanhada por mais jovens que também faziam quimioterapia.

Todos tinham aspectos cansados e enjoados. A única que se destoava dentre as pessoas era Helena, que mantinha um sorriso singelo no rosto. Os olhos verdes intensos produziam felicidade, e não dor.

Eleanor notou que Helena era uma das pessoas mais fortes que conheceu em toda sua vida.

— Oi... – murmurou ao se aproximar de Helena.

— Oi! Você veio...

— Sim, conforme você solicitou na mensagem.

Helena assentiu, fechando os olhos para se recuperar de uma onda de náusea que a invadia.

Eleanor ficou parada, não sabia o que fazer naquela situação. Jamais cuidou de alguém com câncer, e jamais se viu presa em uma situação como aquela. De alguma forma, a dor de Helena era perturbadora.

— Aqui está querida. – uma mulher parecida com Helena se aproximou. Ela trazia um balde de metal pequeno, e segurou em frente ao rosto de Helena, que ainda permanecia com os olhos fechados. – Vamos, pode pôr para fora.

Helena colocou tudo o que tinha no estômago para fora, literalmente. O vômito estava numa cor amarelada.

Eleanor permaneceu parada, esperando que finalmente o vômito acabasse. E por uns 2 minutos, a sessão tinha acabado, e o rosto pálido de Helena, que antes remetia certa alegria, agora lhe transparecia puro cansaço.

— Oh Eleanor... – Helena sussurrou, recuperando as forças. – Sinto muito por ter que ver isso. Bem, essa moça do balde é minha mãe. E mãe, a moça do macacão jeans, é minha nova amiga.

A mulher que ainda segurava o balde devotadamente olhou para Eleanor. Realmente, Helena se parecia com ela.

— Prazer Eleanor, eu sou Esmeralda. – elas se cumprimentaram, ainda que fosse apenas com gestos, já que Esmeralda ainda segurava o balde repleto de vômito. – Bom, vou me livrar disso.

Ela se levantou, e seguiu para uma ala oposta.

— Elton ainda não chegou. Logo ele vem. – Helena comentou.

— Entendo, eu queria conversar com ele. Acha que consigo levá-lo até a cafetaria? – Eleanor indagou.

Antes que pudesse contar a verdade para Helena, precisava deixar as coisas claras com Elton, e fazê-lo confessar antes dela. Afinal, o assunto era de total interesse dele.

— Ah, eu acho que ele vai desconfiar. Mas assim que ele chegar, vou pedir para os dois iriam buscar rosquinhas para mim no outro lado da rua. – Helena respondeu, sem dar muita importância.

Eleanor só não soube dizer se ela não deu a devida importância devido a dor que sentia, ou por simplesmente não significar o bastante.

— Tenho impressão de que ele vai desconfiar do mesmo jeito... – ela sussurrou, encarando Helena.

— Fique tranquila. Vai dar tudo certo.

Eleanor não tinha certeza se as coisas realmente iriam dar certo, mas não disse mais nada. Sentou-se na poltrona ao lado de Helena, e observou os demais pacientes, que assim como Helena, permaneciam enjoados e fracos.

— Você nunca perguntou... – Helena comentou.

O que?— Eleanor perguntou curiosa.

— Qual o meu tipo de câncer.

Para ser sincera, Eleanor se questionou sobre, mas achou que seria indelicado. Especialmente pela conjuntura das coisas. Pessoas que estavam morrendo não gostavam de falar sobre, e perguntar qual câncer consumia as energias de Helena, lhe pareceu extremamente fora de contexto.

— Achei que não era educado da minha parte. – ela se explicou, mesmo que Helena não tivesse exigido explicação.

Helena riu, e observou as bochechas de Eleanor corarem.

— Tudo bem. Mas se quer saber, iniciou com um pequeno tumor em meu joelho, e depois foi se espalhando, e se espalhando.

— Você descobriu com quantos anos?

— Aos 13 anos, e desde então vivo uma luta diária. – Helena respondeu suspirando.

Desde os 13 anos, indo e vindo, de um hospital para outro. Não parecia uma vida fácil, e muito pior para uma adolescente. Ainda assim, Helena mantinha planos, sorria com intensidade, se arrumava para festas... Vivia intensamente, já que sabia que não teria muito tempo disponível.

Eleanor pensou que jamais seria tão forte quanto Helena.

— Você é uma péssima acompanhante Eleanor. – Helena sussurrou, tirando Eleanor dos próprios devaneios.

— Ah, me desculpa, não sei acompanhar ninguém... – ela disse, se sentindo constrangida.

— Você poderia vir todas quartas-feiras e ler um livro, assim iria me acompanhar.

Eleanor balançou a cabeça assentindo. Não tinha muitas tarefas nas quartas-feiras, não seria nenhum incomodo fazer companhia para Helena. Até mesmo tinha ótimos livros para por em dia, e ler em voz alta, poderia motivá-la a ler até o fim.

— Combinado. Semana que vêm eu venho na quarta. Vou trazer um romance.

— Romance? Qual?

— Inspirado em Cyrano de Bergerac, vou trazer para você A Marca de Uma Lágrima. É um bom livro, e quero reler.

Helena assentiu.

— Perfeito. Olhe!— ela apontou para a porta de onde Eleanor havia entrado. – Lá vem Elton, essa é sua chance.

E de fato, era a chance de Eleanor confrontá-lo.

Notas finais
Obrigada por lerem! Em breve, responderei os comentários.