As Melhores Intenções

2 Capítulo 2 - Tragédia Grega


Notas iniciais
Não há nada de extraordinário em sua tragédia grega.

A terrível e nada simplória proposta de emprego, que Eleanor havia acabado de receber, lhe pareceu terrivelmente algo que não estava disposta a aceitar. Mas o valor que a garota do gorro laranja havia oferecido, era tão tentador, que por alguns minutos ela listou todos os prós e contras sobre aceitar aquilo:

Prós:

Uma quantia singela, mas suficiente para que ela possa concluir seus planos de independência.

Um emprego, mesmo de forma torta.

Um emprego fácil, sem planilhas ou relatórios extensos.

Contras:

Poderia machucar o coração do rapaz.

Mesmo não sendo uma das melhores pessoas do mundo, Eleanor considera muito um coração para parti-lo.

Não teria que organizar nada, o que era frustrante.

Ela repassou as listas mentalmente cerca de 10 vez, até que foi interrompida por Helena:

— Você não vai tomar seu café? – Helena indagou.

Ambas estavam sentadas em meio a cafetaria do hospital. Eleanor só concordou em seguir para lá, pois Helena tinha sido muito convincente quando dissera que o croissant de chocolate era o melhor de toda aquela região, além do café extra forte que serviam. Como podia resistir a doces apetitosos como aqueles? Especialmente depois de uma ardilosa entrevista de emprego?

— Eu tomo sempre depois de encerrar a refeição. – Eleanor respondeu, mordendo seu croissant. – Mas Helena, me diga mais sobre suas intenções com este trabalho.

— Pensei que tivesse deixado claro. Quero que conquiste meu namorado, Elton.

— Acha mesmo que ele irá se apaixonar por mim? – Eleanor a questionou, sabendo que, mesmo que encontre uma ligação com o tal de Elton, jamais seria o suficiente.

Helena a olhou como se ela fosse uma idiota, e por alguns segundos, Eleanor se sentiu como uma:

— Não sei, mas ter alguém ao lado dele quando eu partir, será bom. – ela suspirou. – Acho que nos tornamos mais amigos do que namorados. E se conheço bem Elton, sozinho ele não vai ficar bem. – ela olhou furtivamente para Eleanor, que terminava de comer seu croissant, então continuou: – Você precisa aceitar esse emprego, será bom para todos nós... Inclusive para você.

Bem, nisso Helena tinha razão, ponderou Eleanor enquanto bebericava seu café.

Uma oportunidade de emprego havia caído do céu. Era tudo o que desejava, mesmo as coisas não funcionando de maneira natural.

Helena lhe explicou sobre o relacionamento que tinha com Elton. Pelo o que Eleanor pode interpretar de seu relato, ficou claro que ambos são namorados há anos, desde a infância, e jamais tiveram outros relacionamentos. O que configurou numa relação terna, que aos poucos foi esfriando.

Por mais que Helena quisesse ficar com Elton para sempre, ou até sua hora chegar, ela priorizava os sentimentos dele antes do dela, e isso deixou Eleanor encantada. Não era somente uma nova namorada que Helena procurava, procurava um novo amor que pudesse abastecer a dor que sua partida iria ocasionar, mesmo que os dois não tivessem juntos.

O fato é: Elton ama Helena, de uma forma diferente, confusa, que se assemelha ao amor, mas ao amor de amigos. Enquanto Helena, o ama de forma mais intensa, e que abdica de seus desejos pelo bem maior.

Eleanor se questionou se teria a mesma coragem que Helena tinha.

Colocar os sentimentos de alguém acima dos seus, lhe parecia um golpe de coragem. Teria que amar muito alguém para fazer isto, além disso, ela não entendia tanto de amor quanto Helena, só sabia que o amor podia ser traiçoeiro, e evitava a qualquer custo que o amor chegasse em sua vida, especialmente com os inúmeros planos que tinha em mente.

Eleanor não soube explicar bem o que aconteceu, mas após de beber todo o seu café, e ouvir três suspiros repetidos de Helena, ela sussurrou:

— Tudo bem, eu aceito fazer isso.

Os olhos verdes de Helena se iluminaram.

— Obrigada Eleanor, muito obrigada.

§

Depois da cafetaria, Eleanor passou o seu contato para Helena, e decidiu seguir para casa. Não havia sido apenas um dia frustrante, como também foi um dia louco. Imaginou que acabaria o dia derrotada no ônibus, voltando para casa com mais uma recusa, só não imaginava que pudesse voltar para casa com um estranho, mas moderadamente pago, emprego.

Assim que cruzou a sala de seu apartamento, Eleanor notou que seu irmão ainda não havia chegado.

Eles moravam juntos desde os seus 16 anos, quando na época mais importante de sua vida, seus pais resolveram se separar, e cada um seguiu com uma vida diferente, deixando os dois filhos crescerem e amadurecerem em meio a um pequeno apartamento. Ao menos, cada um tinha o seu quarto.

Agora, com seus 21 anos, uma universitária desempregada, vivendo com um irmão aspirante a ator, Eleanor tinha uma vida mediana. Não achava nada de extraordinária sua tragédia grega, mas gostava de dramatizar suas angústias quando necessário.

Era dependente de seu irmão mais velho, e vivia com o dinheiro que a mãe depositava mensalmente em sua conta. Tinha vergonha por ainda se encontrar em tal circunstância, e ansiava pelo o dia que pudesse sair daquele minúsculo apartamento, conquistar sua independência, e seguir viagem para o outro lado do mundo.

Sua mente percorreu sua lista de objetivos, enquanto descascava as cebolas e preparava o arroz:

Se formaria o quanto antes;

Guardaria todo o dinheiro para viagem;

Compraria roupas e chapéus novos;

Compraria sua passagem só de ida para uma nova vida.

Ela suspirou ao lembrar do item 4, e numa tortuosa frustração, atravessou a cozinha atrás de algum legume para cozinhar com o arroz.

Ellie!— ouviu seu irmão a chamar. – Trouxe companhia para o jantar.

Eleanor revirou os olhos. A única companhia que seu irmão trazia, era a presença desprezível de Fred, o único garoto da face da terra que ela odiava com todas as suas forças.

Pedro, Fred e Eleanor, se conheciam desde pequenos, e os três nutriam uma amizade boa, até que ela se apaixonou por Fred, que partiu seu coração em pedacinhos ao dizer que Eleanor era extremamente pegajosa e gorda.

Isso havia ocorrido há três anos. Não que ela não tenha superado, mas não tinha sangue de barata para tratar Fred bem. Além disso, continuava com as mesmas características que ele desprezava nela: gorda e pegajosa.

— Se for o Fred, podem dar meia volta. – ela gritou como resposta. – Me recuso a cozinhar para aquele idiota!

— Ellie, Ellie! Não seja tão impetuosa. – Fred disse, atravessando a cozinha e seguindo direto para geladeira.

E ela era impetuosa, pensou Eleanor, cortando os legumes para o arroz e descongelando a mistura.

— Vá se ferrar! – não poupou palavras para atingi-lo.

— Vocês dois, podem parar agora! – Pedro gritou da sala.

Eleanor só conseguiu suspirar e continuou a tarefa de cozinhar o jantar.

Pedro abusava de sua boa vontade. Ela cozinhava e ainda retirava o lixo, enquanto ele limpava a casa e lavava a roupa. Era uma maneira justa de distribuir as tarefas, no entanto, toda vez que ela cozinhava algo diferente, Pedro trazia Fred para dentro do apartamento, e o lugar que já era pequeno por si só, ficava menor ainda mais com a presença ilustre de seu inimigo.

§

O jantar por mais que tenha sido difícil de vivenciar, passou logo, e ela finalmente pode se deitar em sua cama. Folheou alguns livros sobre autoajuda, e por fim, resolveu analisar as mensagens.

Helena havia mencionado que deixaria as instruções tudo por mensagem, e que o quanto antes, faria logo o pagamento da primeira parcela do novo trabalho de Eleanor.

Será que Helena não tinha medo de ser apenas um golpe? Eleanor ponderou, mas se fosse um golpe, Helena só teria prejuízo com a primeira parcela, pois logo notaria... Além disso, ela tinha tanto dinheiro, que os trocados sugeridos entre ela e Eleanor não lhe fariam falta.

Helena Reis era rica. Fazia o tratamento contra o câncer em um dos melhores hospitais do país, e ainda sim, não tinha conseguido completo sucesso em sua recuperação.

A vida lhe parecia injusta, Eleanor sussurrou para si mesma, enquanto voltava a ler a mensagem:

“E, aqui é a H.

Elton estará em uma das boates de meu pai amanhã, tbm irei, a doutora Carla me liberou. Já terminei com ele, mas permanecemos amigos. Quero que o conheça logo, esteja na Blue Karaokê às 20h. Bj.”

O pai de Helena é o dono da boate de Karaokê mais conhecida da cidade? Eleanor suspirou. Precisaria se concentrar, e procurar todas as táticas de flerte que conhecia. Teria que conquistar aquele garoto o quanto antes.

Notas finais
Obrigada por lerem!