As Melhores Intenções
15 Capítulo 15 - Assim Como o Paraíso
Notas iniciais
— Não precisa devolver o dinheiro! – Helena dizia pela quinta vez.
Ela, Eleanor e Elton, aproveitavam o bolo e os churros sentados na cama do hospital, mesmo as enfermeiras afirmando que aquilo era inaceitável. Mas de todas as coisas, comer não parecia tão inaceitável assim.
Ao ouvir a resposta de Helena, Eleanor suspirou.
Tinha passado as últimas três horas de seu dia tentando convencer Helena a pegar novamente o dinheiro gasto com o plano. Não se sentia bem com aquilo, e honestamente, já tinha engolido o próprio orgulho e solicitado o dinheiro que precisava à sua mãe... devolver era sua obrigação, nada mais além disso.
No entanto, como esperado, Helena estava irredutível. Afirmava que não teria o que fazer com aquele dinheiro, já que considerava os seus dias como contados. Após efetuar aquele argumento, Eleanor apenas assentiu, guardando todo o dinheiro de volta em sua bolsa.
Talvez ela doasse para alguém...
— Ainda não me sinto bem com esse dinheiro. – Eleanor declarou, pegando o último churros da caixa. – Mas vou doar para alguma instituição...
Helena a observou.
— Se é o que quer, tudo bem. Mas não precisa mais de dinheiro?
Eleanor balançou a cabeça. Não precisava mais do dinheiro, não depois que sua mãe havia transferido uma enorme quantia em sua conta. Podia sobreviver com aquela quantia expansiva, e depois, ainda teria tempo de sobra para encontrar um novo emprego, um emprego normal e sério.
— Está tudo bem, sério! Minha mãe vai me ajudar. – ela respondeu, mordiscando o churro. – Isso é divino!
Elton que apenas acompanhava as desventuras das duas, concordou com Eleanor. De fato, aqueles eram os melhores churros que os três tinham comido em suas vidas.
— E sua relação com o Fred? Como é que vai? – Elton indagou, lançando o olhar mais malicioso que havia encontrado.
Helena arregalou os olhos surpresa. Afinal, ela não sabia nem a metade das peripécias que a relação de Eleanor e Fred era.
— Bem... Eu e ele, ahãn, dormimos juntos... – Eleanor murmurou, envergonhada.
— Eleanor! Como pode deixar isso passar? Nossa! Nem imaginava que você e o Fred tinham um lance! Quem diria? – Helena exclamou, com inúmeras perguntas.
— Eu sabia que isso iria acabar assim! Na cama! – Elton bateu palmas, festejando com o seu churros na mão.
Eleanor suspirou. Ela e Fred podiam até ter dormido juntos, mas ela estragou tudo quando o dispensou...
— É, mas eu fugi. Ele se declarou e eu o dispensei.
Tanto Elton como Helena pareceram chocados. Não disseram nada por alguns segundos, até que Helena perguntou:
— Posso saber por que o dispensou?
Eleanor suspirou. A verdade? Ela era uma covarde. Tinha medo de se magoar, e principalmente, tinha medo do que o futuro poderia lhe reservar.
Ela olhou para Helena, e respondeu:
— Por medo.
Elton riu, mas sem aquela típica risada com humor. Estava mais para sarcástica. Quando ele ergueu os olhos em direção a Eleanor, deixou transparecer uma voz séria e decidida:
— Esse é o seu problema. Você teme a felicidade. Pare de pensar no futuro, pare de se torturar com possibilidades que nem sequer aconteceram. Se você gosta dele, vá atrás dele, pare de pensar por um instante! Vá atrás da felicidade, se você deixar a felicidade passar, vai ser muito difícil conquistá-la de novo.
Helena olhou para Elton impressionada, assim como Eleanor, que ficou boquiaberta.
— Desde quando você entende sobre vida amorosa? – Helena indagou.
Elton deu de ombros.
— Sei de muitas coisas que você nem imagina. – ele olhou para Eleanor, e prosseguiu: – O que tá fazendo ainda aqui? Vá atrás dele sua boba!
— Mas...
— Eleanor! Vai logo! Eu vou ficar bem, Elton estará comigo. Eu jamais irei te perdoar se você continuar aqui ao invés de ir atrás do seu amor. – Helena declarou.
Eleanor os observou. Não precisava de mais nenhum incentivo. Ela pegou sua bolsa, atravessou o quarto correndo, e seguiu em direção ao apartamento de Fred.
§
O apartamento de Fred ficava próximo ao hospital. Eleanor precisou caminhar alguns quarteirões até chegar à portaria do prédio. Naquela semana em potencial, as chuvas torrenciais rasgavam os céus de São Paulo, deixando as ruas alagadas, as pessoas molhadas, e o trânsito parado. Eleanor estava ensopada quando atravessou o hall do prédio.
Ela entrou no elevador e apertou o botão do andar correspondente. Enquanto o elevador seguia, Eleanor reprimiu todos os sentimentos de medo.
Tinha criado em sua mente inúmeras possibilidades do que poderia acontecer, como Fred a dispensando, ou os dois seguindo para a cama, o que para ela, seria uma opção muito melhor do que a primeira. Porém, precisava encarar os fatos:
Fred estava magoado com ela. Uma coisa totalmente compreensível considerando os últimos acontecimentos;
Talvez ele possa xingá-la, dizer o quanto megera ela foi e era;
Ele simplesmente irá dizer não, “suma dali”.
Para o alívio de Eleanor, o elevador finalmente parou no andar de Fred.
Ela desceu e seguiu até a porta do apartamento. Deu três batidas, até a porta se abrir:
— Pensei que fosse demorar mais para vir. – Fred disse, lhe lançando o sorriso mais lascivo e mais bonito que tinha.
Ela não esperava por aquilo. Esperava hostilidades, cara fechada, olhares tortos. Mas jamais imaginou que seria recebida pelo sorriso mais amistoso que Fred podia dar.
Maldito, ela praguejou para si mesma. Se ele viesse com cem pedras na mão, ela teria uma boa resposta na ponta da língua. Mas ele não veio com as cem pedras, na verdade, veio com todo o amor e vigor que alguém poderia dar.
— Você sabia que eu viria? – Eleanor perguntou, ainda um pouco desestabilizada.
— Claro que sim. Te conheço há tanto tempo, você precisava do seu tempo. E acredito que pensou com carinho em suas decisões, não pensou? – ele disse.
Eleanor assentiu, sentindo algumas lágrimas invadirem aos seus olhos.
— Fred... – ela o olhou, e antes que pudesse continuar a dizer tudo o que havia ensaiado durante sua caminhada até ali, ela desabou.
Tudo o que sentia não era suficiente para mesurar em palavras.
Estava sufocada, e antes que pudesse emergir em sua própria confusão, Eleanor chorou. Deixou as lágrimas saírem. Não precisava mais segurar uma lágrima sequer, não sentia necessidade disso.
Fred a puxou para dentro do apartamento. Ela não soube dizer como, mas quando percebeu, já estava totalmente entregue aos braços dele, chorando baixinho em seu ombro, enquanto ele a abraçava.
Nos braços dele, ela finalmente se sentia segura.
§
Eleanor contou tudo. Todo o seu drama de conseguir um emprego, as bolhas que tinha adquirido nos pés (após um longo dia atrás de um trabalho), o modo como conheceu Helena, o primeiro plano de conquista, a descoberta sobre Elton, e por fim, o quanto se sentia mal por todas as coisas que havia feito nas últimas semanas. Eleanor desmembrou as dúvidas de Fred, que afirmou veemente suas desconfianças quanto a Elton, e ficou feliz ao saber que tudo era mentira.
— Então você estava com ciúme do Elton? – ela indagou emocionada. Afinal, era a primeira vez que alguém ficava com ciúme dela.
Fred assentiu, arrancando o sorriso mais divertido de Eleanor.
— Sim, eu estava! Quando te vi na boate, eu pensei: “posso renunciar todas as garotas por ela”. Logo depois, vi que você está com Elton, então sim, eu fiquei com ciúme, e fiquei meio louco também.
Ela sorriu mais uma vez.
— Acho que gosto disso.
— De me deixar enciumado?
— Não, de você gostar de mim.
Fred sorriu também, não conseguia mais conter a felicidade de ter Eleanor ali, com ele.
— Gosto até das suas peculiaridades.
— Uma palavra muito difícil Fred, e muito curiosa também.
Ele balançou a cabeça, achando graça.
— Mas é mais pura das verdades. – ele se ajeitou na cama. Ambos estavam deitados, ainda que as roupas de Eleanor tenham molhado toda a cama de Fred. – Por exemplo, gosto quando faz caretas quando está pensando, ou quando você aponta os meus erros. Gosto até quando me xingava de idiota, e se sentia um máximo por isso.
— Ah meu Deus, sou tão patética assim? – ela indagou, cobrindo o rosto com as mãos.
— Claro que não sua boba. – Fred puxou as mãos de Eleanor, que pareciam árduas em cumprir a tarefa de cobrir o seu rosto. – Bem, antes era um pouquinho..., Mas agora não é nenhum um pouco patética.
Ela abaixou as mãos e o encarou:
— Mesmo?
— Mesmo.
Eleanor não pode deixar de sorrir, aquele era o comentário mais bobo e mais bonito que tinham feito um para o outro.
Os lábios de Fred estavam entreabertos, ela fitou diretamente a boca dele, e uma vontade de beijá-lo emergiu em seu mais íntimo.
Não tinha como evitar. Foram dias longe dele, e o seu ser pedia, implorava que ela pousasse seus lábios nos dele. E assim ela fez. Se aproximou do rosto de Fred, e selou os lábios ao dele, depositando um singelo e tímido beijo ali.
Mas ao contrário de Eleanor, Fred estava faminto por ela, por isso, ele a agarrou pela nuca e a beijou intensamente. Do mesmo jeito que havia beijado dias anteriores na cama. Com desejo, e talvez, amor. Sim, havia muito amor naquele beijo.
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