As Melhores Intenções

1 Capítulo 1 - Bolhas nos Pés


Notas iniciais
Dedico a história para todos aquelas pessoas que acreditam no amor, e nas melhores intenções que alguém faz para nos aliviar da dor, mesmo que algumas dores sejam necessárias a serem sentidas.

Eleanor atravessou a rua correndo. Assim que conseguiu alcançar a calçada do outro lado da rua, ela entrou no parque.

Era incomum ver alguns pontos de verde na cidade de pedra, São Paulo. E quando Eleanor avistou o parque, não pensou duas vezes antes de seguir para dentro dele. Sentou-se em um dos bancos de pedra, e retirou os sapatos, deixando finalmente que seus dedos pudessem descansar.

Ponderou que havia escolhido os piores sapatos para uma entrevista de emprego, mas o que ela podia fazer, sendo que precisava urgentemente causar uma boa impressão? Para Eleanor Santos, os sapatos mordendo seus dedos do pé, o cabelo arrumado em um coque apertado, e a saia que ressaltava sua cintura larga, não foram condições suficientes para que conseguisse a vaga de emprego. E mais uma vez, ela não conseguiu o que desejava, e fora obrigada a voltar para casa com mais uma decepção.

Suspirou ao notar como sua última alternativa havia sido péssima. Não foi uma entrevista justa, esperavam dela um alto conhecimento em domínios financeiros, que ela podia até entender sobre, mas não foi o suficiente para se adequar a vaga. Se soubesse que as coisas iriam terminar daquela forma, jamais teria saído de casa.

Ela observou as pessoas ao se redor e bufou.

Era extremamente irritante tantas pessoas felizes em um dia tão ruim como aquele, no entanto, como as pessoas poderiam ignorar aquele dia de sol perfeito? Perfeito para aqueles que possuem emprego, pensou Eleanor amargamente.

— Ei, seus pés estão roxos! – ela ouviu alguém comentar.

Virou-se na direção da voz, e notou que a dona do comentário impertinente, era uma garota, que não devia ter menos do que 17 anos. A garota que sorria de uma forma natural e encarava Eleanor, tinha embolado em sua cabeça um gorro laranja, não tinha cabelos, e os olhos verdes olhavam fixamente para os pés inchados de Eleanor.

— É por causa do sapato. – Eleanor comentou, não sabendo por qual motivo se explicou, mas constatou que tinha que ser educada.

A menina que até o momento encarava os pés roxos, a olhou de supetão.

— Imaginei. Também, esses sapatos não são nada bons. – ela apontou para o salto agulha. – Vi você suspirando aqui e pensei que precisasse de algum amigo.

Eleanor sorriu. Ela não gostava de intrusos no seu momento de paz, mas não achava que deveria desprezar alguém que se mexeu para falar com ela.

— Ah, obrigada. – sussurrou, já que não sabia o que dizer.

— Me chamo Helena. Qual o seu nome?

— Eleanor.

— É um dos nomes mais bonitos que já ouvi! Lembra o meu! – Helena disse animada.

Eleanor permaneceu a encarando, como se a garota em sua frente fosse louca, e de fato, tinha suas suspeitas quanto as procedências daquela pessoa que insistia em ser simpática.

— Obrigada. – agradeceu ao elogio, mesmo ainda não se sentindo suficientemente grata.

— Eleanor, você é a mulher ideal.

Eleanor piscou, enquanto Helena prosseguia com sua explicação:

— Perfeita para namorar o meu namorado.

Perdão?

Definitivamente, Eleanor sentia que aquilo não iria acabar bem. Estava sendo observada por uma louca, que usava um trágico, e brega gorro na cabeça. Sem contar as roupas de hospital...

Ela olhou mais uma vez para as roupas de Helena e tossiu.

— Helena, por acaso você é paciente do hospital do outro lado da rua?

O hospital ficava a menos de 100 metros do parque. Era conhecido por ser excelente no tratamento contra o câncer. Neste momento que deduziu as origens de Helena, ela pigarreou.

— Sou sim. A doutora Carla me deixa vir respirar um ar fresco de vez em quando. – Helena olhou ao redor. – Daqui a pouco ela vem atrás de mim.

— Você deveria estar no seu quarto se cuidando. – Eleanor murmurou, por não saber como agir naquela situação.

Helena riu:

— Ah, não se preocupe com isso Eleanor. Eu já estou morrendo mesmo. Só que estava aqui, olhando para o céu, quando a vi praguejar e retirar os saltos. Foi um sinal divino que cruzou o nosso caminho... Tenho certeza de que você é perfeita para ele.

Eleanor tossiu. Havia se engasgado com a própria saliva, mas acreditava que o engasgo foi causado pela repentina importunação de Helena. O que ela queria dizer com perfeita para ele? Refletia, ainda observando a jovem do gorro.

— Olha, Helena, não sei o que quer. Mas seja o que for, não sou perfeita para essa pessoa... – explicou-se, calçando novamente os sapatos.

— Não seja boba. Você estava procurando um emprego, não estava? – Helena indagou.

Sem alternativas, Eleanor apenas assentiu.

— E não conseguiu a vaga, certo?

Assentiu mais uma vez.

— Bem, eu tenho uma proposta de emprego para você.

Eleanor sentiu o coração vacilar. Só de ouvir a possibilidade de um emprego, já ficava animada. Tinha uma necessidade louca para ganhar o próprio dinheiro. Não queria viver mais nenhum segundo as custas de seu irmão e da mesada mensal que sua mãe depositava todo o mês em sua conta. Necessitava de sua independência, e claro, queria poder financiar sozinhas seus gastos exorbitantes, sem ter que dar justificativas.

Não bastava ser uma universitária que morava com o irmão, em um pequeno apartamento no bairro chinês, precisava de mais, e aquela oportunidade que havia caído dos céus, seria burrice ignorar.

— Como assim? – indagou, encarando os olhos verdes de Helena.

— Bom, pagarei para você um valor mensal, singelo, mas o suficiente para o que tem que fazer. – Helena pigarreou. – Queria que você ficasse com o meu namorado, quer dizer, em breve ele será meu ex.

Eleanor pigarreou também. Que história mais bizarra era aquela?

— Mas por quê? – indagou confusa.

— Eu irei morrer Eleanor. Não quero que ele sofra com a minha partida, e por isso, preciso de alguém que fique ao lado dele quando eu partir. Sei que ele me ama, mas me ama como amigo, não tem coragem de terminar comigo, e eu acho que não suporto isso. – Helena parou, antes de continuar. – Quero que ele fique feliz, mesmo que não seja comigo.

Notas finais
Obrigada por lerem!