As Marcas de Luka
2 Apenas o começo.
Abri meus olhos lentamente, minha visão estava parcialmente borrada, mas aos poucos ia se estabilizando. Eu estava de frente a uma parede branca, que ficou um pouco amarelada devido ao tempo. Joguei meu corpo para o outro lado, e avistei o armário a alguns metros. Bem, eu definitivamente estava no meu quarto.
Não estava com a menor vontade de levantar, mas sabia que estava atrasada, mesmo que, naquele momento, devido ao sono, eu sequer lembrasse para onde devia ir, ou para que estava me atrasando.
O despertador começou a tocar. Ele nunca tocava no tempo certo, isso se deu provavelmente ao fato de Anie ter o jogado do quinto andar de um prédio, quando estava brincando com a amiguinha na casa da mesma, e pediu para levar o despertador. Não faço ideia do porquê de elas terem jogado ele de lá.
Apoiei minhas mãos na cama, e empurrei, levantando-me e me sentando em posição de índio. Esfreguei os olhos calmamente com as mãos.
— Que sono. – Disse entre o bocejo.
Levantei da cama e fui andando até a porta, cambaleando.
Escutei o som das panelas de pressão, aquele ótimo cheiro de comida. Era realmente uma pena eu não estar com fome, já que havia acordado naquele exato momento. Segui o corredor e fui até o banheiro, lavei o rosto e após isso fui imediatamente até a cozinha.
— Bom dia, Briana! – Anie, minha irmã mais nova, disse.
— Bom dia, pirralha. – Eu esfreguei meus olhos e me sentei na cadeira da mesa, não me importava de estar de pijamas. Eu nunca me importei com nada, então não era um problema.
— Não seja implicante com sua irmã, e bom dia. – Meu pai disse, secando as mãos com um pano de prato e vindo até nós.
— Bom dia, pai. – Eu ri baixo e disse. – O que vamos ter para comer? – Eu o encarei.
— O de sempre. – Respondeu.
— Aaah! Eu não quero comer carne. – Anie balançou as pernas, enquanto estava sentada na cadeira.
— Você não tem que querer, palhaça. – Eu disse, mostrando a língua.
Nós começamos uma discussão, nosso pai apenas ria, de vez em quando nos mandava parar.
Percebi o horário e me levantei da cadeira imediatamente. Corri até o meu quarto, sem dizer nada, e me arrumei... sequer tomei banho. Desci as escadas correndo e me despedi de meu pai e Anie. Tirei o skate da mochila, desdobrando-o. Ele já estava velho. De repente, começou a flutuar.
— A mesma rota de sempre. – Falei, subindo nele.
— Seguindo rota escolhida. – Uma voz robótica "respondeu".
— Vá devag... – Mal terminei de falar e o skate já estava a não sei quantos km/h. Tão rápido que mal conseguia me manter em pé. – Jesus! Vá devagar, devagar! – Berrei.
— Devagar. – A voz robótica disse, e, logo após isso, começou a se locomover lentamente. Muito lentamente, mal parecia estar se movendo.
— Não tão devagar! – Os novos modelos eram tão inteligentes. As vozes aparentavam ser humanas e eram extremamente inteligentes... o meu sempre foi do modelo antigo.
— Por favor, repita o comando.
— Acelere, mas não a ponto de me lançar a outra base!
— Por favor, repita o comando.
— Vá mais rápido!
— Erro na base de dados, bateria fraca, desligando. — O skate deixou de flutuar e foi diretamente para o chão, fazendo-me cair imediatamente.
— Você só pode estar de brincadeira comigo! – Coloquei a mão no meu braço direito. Estava doendo. – Eu não preciso de você, sua torradeira! – Eu saí andando, irritada. – Brincadeira, isso é caro. – Eu voltei e peguei o skate, colocando-o em baixo do braço.
Corri até a universidade, o fato de ser sedentária não me ajudava em nada. Com certa dificuldade, cheguei. Estava toda suada e respirando forte.
— Atrasada. – Ele disse. Ah, "ele".
— A culpa não é minha, o skate quebrou no meio do caminho. – Levantei minha cabeça para vê-lo. Estava apoiado na porta de entrada da universidade, de braços cruzados e com uma expressão séria.
— Se você acordasse mais cedo, isso não aconteceria. – Ele suspirou.
— Meu despertador está quebrado. – Repliquei.
— Claro, claro. – Riu.
— Cale-se. – Eu andei até ele, colocando apenas uma alça da mochila no meu ombro esquerdo, passei por ele e entrei na universidade.
— Irritei? – Escutei logo atrás, sabia que ele estava me seguindo.
— Você sempre me irrita, Andy. – Eu ri. – Acho que essa é sua maior intenção.
— Hm... admito ter muitas outras intenções. – Senti-o próximo a minha orelha.
Virei-me rapidamente, na intenção de dar um chute nele, mas o mesmo se afastou antes que eu conseguisse.
— Menos. – Eu suspirei e continuei andando, enquanto escutava a risada dele logo atrás. Ele adorava me irritar, não importava de que forma fosse, desde que fizesse o dia dele brilharia.
Meu amigo de infância, Andy. Um menino que, assim que nos conhecemos, ria da minha cara o tempo inteiro. No começo, se achava por causa dos cabelos castanhos e olhos verdes, além de ser consideravelmente bonito. Tudo bem, ele é muito bonito, mas muita coisa mudou.
Ele amadureceu muito mais do que eu, tem boas notas, é totalmente controlado, nunca arranjou problemas com ninguém. Ao contrário de mim, que sempre faço alguma besteira aqui e lá.
A parte de rir de mim não melhorou muito, mas ele se esforça para não me tirar do sério e atingir meu limite.
Ele não é popular na universidade, mas chama atenção de algumas garotinhas, sim. Bem, até eu chamo atenção de alguns garotos as vezes, não que eu me orgulhe disse, apenas que ele não é melhor que eu. Não é.
Nós fomos em direção a sala de aula, sentamo-nos nas cadeiras, as nossas mesas eram juntas, agarrei o braço que estava doendo. É aquela tal "dor do crescimento"? Comecei a sentir um frio leve, mas incômodo.
— Andy, pode me emprestar seu casaco. – Uma menina da carteira de trás perguntou, após tocar no ombro dele.
— Ah, eles ligaram o ar-condicionado. – Ele pegou o casaco dentro da mochila, e entregou a ela. – Aqui.
Ela pegou o casaco e começou a cochichar algo para a amiga ao lado, enquanto sorria.
— Hm. – Resmunguei.
— Tudo bem? – Andy apoiou o cotovelo na mesa e o rosto nas costas da mão, observando-me. – Seu braço dói? – Olhou para a minha mão, que apertava o meu braço dolorido.
— Ah, eu caí de skate. – Respondi.
— Não machucou? — Ele franziu o cenho. – Você realmente não tem jeito. Deixe eu ver.
— Eu não vou morrer. Foi só uma batida leve – Na verdade estava ardendo bastante, o que era aquilo? – Eu estou com um pouco de frio, só isso. Eu ia te pedir para me emprestar o casaco, mas agora já foi.
— Ah. – Ele me olhou por alguns segundos e se virou para trás. – Sinto muito, eu realmente vou precisar do casaco agora.
A menina fez um pequeno drama, tentando chamar a atenção dele e logo depois devolveu o casaco.
Após ter o casaco em mãos, lançou-o em mim, tapando minha cabeça inteira.
— Coloque isso. – Ele disse, voltando a sentar corretamente.
— Que falta de cavalheirismo, tirar de uma para dar a outra. – Eu disse, rindo.
— Ela não está com frio, só quer usar meu casaco. – Praticamente sussurrou para mim. – Eu não consigo entender.
— Algumas garotas são muito estranhas para serem entendidas, incluo-me nesse grupo. – Coloquei o casaco, olhando de canto para a menina que estava atrás, observava-me com certo ódio. Apenas dei um sorriso e voltei a olhar para ele. – Ele me odeia. – Disse ainda sorrindo forçadamente.
— Todos te odeiam. – Andy disse. – Ai! Não me bate.
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