As Manias De Cada Um!
42 Quilofagia
Notas iniciais
Aleixo Ramos Belo era um país jovem de tonalidade morena, dono de cabelos pretos e de olhos de um tom semelhante ao caramelo derretido.
Foi o primeiro país a ter a sua independência no século XXI, mas para a ganhar, custou ao seu povo duas centenas de milhares de vidas.
Foram décadas de sofrimento. Conseguiu a independência em 2002 – e não só.
Adquiriu também um hábito, um vício. O de morder os seus lábios.
Não conseguia impedir; era mais forte que ele.
Talvez fosse masoquismo, mas gostava de sentir a dor nos lábios.
A origem deste hábito está perdida no tempo.
Ele não se lembrava de onde tinha vindo tal mania.
Talvez fora uma maneira de ignorar as vozes agoniantes que assombraram a sua mente durante a ocupação da Indonésia.
Ou talvez, uma forma de faze-lo fechar os olhos quando levaram milhares de pessoas, separadas das suas famílias, em camiões para um lugar que, até então, é desconhecido.
Ou, quem sabe, ele poderia ter pensado que tudo era um pesadelo e começou a morder o lábio, como uma forma de tentar despertar.
De qualquer forma, não importa qual foi o motivo foi. Aleixo sabia uma das razões da origem desta mania: a sua covardia.
Ele era um cobarde, ele mesmo o dizia.
No entanto, agora estava mais maduro. Muito mais comparativo com a época em que Afonso cuidava dele.
O seu governo era diferente, tinha esperanças que tudo começasse a melhorar. Ter esperanças nunca fez mal a ninguém.
– Ah, estás a sangrar de novo! – uma voz disse, tirando Aleixo dos seus sonhos. Fora Afonso quem avisara.
– Ah, tens razão, Fonz! – exclamou ele, enquanto pegava num lenço e fez pressão sobre o lábio. Tinha mordido com força a mais.
– Então, cara? Você está sonhando de novo? – questionou Luciano, enquanto bebia o seu sumo.
– Estaria a mentir se dissesse que não. – confessou Aleixo.
Aleixo olhou para a mesa. Havia nela quatro pasteis de nata, dois sumos –sendo um deles seu -, uma chávena com chá e uma com café.
– É uma pena que as nações africanas não podem nos acompanhar nesta tarde. – disse Lopo, pegando na sua chávena de chá. – O tempo está agradável.
– É um milagre, esse tempo! – exclamou Afonso, enquanto olhava para a sua nata. Meteria ou não canela? Eis a questão.
– Continua frio, Fonfon. – informou Luciano. – No Brasil é muito mais quente.
– Timor também é. – disse Aleixo, mordiscando de novo o seu lábio.
– Vocês os dois são do Hemisfério Sul! – reclamou o português.
Com mais uma mordida no seu lábio, Aleixo riu baixo, ao contrário do brasileiro que ria mais alto.
Enfim, Afonso finalmente decidiu o que fazer: iria colocar a canela na nata. Afinal, canela fica bem em tudo.
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