As Long As You're There

4 Are you scared of the things that she might put you through?


–Quero fazer umas fotos suas. Dessas que revelam até a alma.
–Deus me livre, Marina! Morro de medo e de vergonha de câmera, já te disse que só sou forografada nos festinhas de família.

–Ah, vamos. Você é uma das poucas pessoas que eu conheci que tem um brilho próprio. Ás vezes a luz não ajuda em nada, sabe? A pessoa tem que ter a própria graça, o próprio brilho que a faz única e especial. Você tem isso tudo. Eu não precisei estar atrás de uma lente pra saber que você é especial. Eu vi ese seu brilho.

–Marina, assim você me deixa com vergonha.

–Desculpa. -Riu Marina. -Só quero que perceba o quanto é linda.
Marina não se conformava. Como ela podia simplesmente não perceber o quanto era linda? Como ela podia simplesmente não perceber que com o brilho que ela possuia era possível encontrá-la em uma multidão?
Clara ruborizou com todos aqueles elogios, e a sensação de dever cumprido preencheu Marina novamente. Ela sabia que havia tido o efeito que queria ter quando Clara ficava com vergonha ou quando o rosado invadia suas bochechas. Marina sabia que a estava deixando louca, e parte dela amava isso. A outra, sentia-se fútil. Ela podia estar destruindo uma família. Por poucos segundos, sentiu-se culpada por suas investidas em Clara, mas a sensação passou assim que ela percebeu que era impossível resistir á aquilo.

Depois de mais de cinco minutos em silêncio, Clara fez contato visual com Marina e deixou a alma transparente. Estava assustada. Queria sair daquela situação e dar tempo a si mesma para pensar em todas as coisas que estavam acontecendo.

–Eu... Eu vou indo. O professor do Ivan vai ficar uma fera.

–Tudo bem. Mas... Passa aqui amanhã. Vamos almoçar juntas, pra compensar hoje.

–Ah, Marina... Domingo é o único dia que eu e o Cadu não temos nenhum compromisso. Vou ter que falar com ele.

–Isso não é problema. Traz o maridão, e o filhote também. A gente pode passar o dia na piscina.

–Tudo bem, vou falar com eles depois. Eu... Te ligo. -Clara se aproximou de Marina, e o calor que a incomodava antes subiu por todo seu corpo quando a respiração quente de Marina tocou a maçã de seu rosto. Marina lhe deu um beijo pergosamente próximo a sua boca. Clara suspirou, aproveitando aquela sensação de ter Marina por perto. Clara se afastou, com medo de que aquela situação se tornasse descofortável para ambas. Marina sorriu, vendo Clara sair porta á fora.

Não havia nada no mundo que irritava mais Clara que o professor de judô de Ivan. O cara era um saco! Eles estavam sempre um pouquinho atrasados, mas isso nem interferia na aula então ele já deveria ter se acostumado. Clara deixou Ivan em frente ao centro de esportes e nem cogitou a possibilidade de entrar também. Seus pensamentos já estavam consideravelmente cheios. Ela não conseguia parar de pensar em Marina e na sensação de borboletas no estômago que a dona de casa sentia sempre que a fotógrafa estava por perto. As revitavoltas no estômago, o súbito calor e os arrepios involuntários que Clara só lembra ter sentido em seus primeiros dias com Cadu. Cansada de pensar naquilo, ela deu meia-volta e dirigiu até o salão de beleza.

–Quero essa piscina um brinco, com a água cristalina. Não exagera no cloro, não quero estragar o cabelo das minhas visitas. -Disse Marina.

–Marina, o telefone tá tocando. -Alertou Vanessa. -Número bloqueado.

–Me dá, deixa que eu atendo.

–Alô? Alô? Alô! Fala alguma coisa. -Do outro lado, o coração acelerado de Clara acabava de receber a notícia de que Marina era realmente homosexual. No salão, todos sabiam da vida de todos. Suzy, sua manicure, se pronunciou assim que Clara comentou sobre a nova amizade com a fotógrafa.

No final das contas, Clara sentiu-se feliz e não entendia o porquê daquilo. Seus olhos se estreitaram e ela mal conseguia acreditar no que ouvia.

–Mas, como você sabe que ela é...?

–Ah, menina, aqui todo mundo sabe da vida de todo mundo. Eu vi essa revista aqui, ó. -Ela abriu a revista na frente de Clara. A foto, Marina nua. Com os braços cobrindo os seios em uma pose sensual. -E eu de cara disse "nossa, que deusa, que maravilhosa" e a minha cliente respondeu na hora: "Ainda bem que é sapata, menos uma pra concorrência". -A manicure riu. -Você estranha? Hoje em dia é tão mormal. Muita mulher é.

–Eu? Estranhar? Não estranho não. Não, claro que não. -Ela disse, ainda boquiaberta com a notícia. Clara fitou novamente a revista, sem conseguir tirar os olhos do corpo de Marina. Os olhos dela, mesmo mais parados que uma estátua, não pareciam distantes. Pareciam fitá-la profundamente através do papel da revista.

–Pode ficar com a revista, se quiser. -Disse a manicure, percebendo que os olhos da dona de casa estavam fixos na imagem de Marina. É claro que Clara aceitaria a proposta de ficar com a revista. Aquela foto estava simplesmente linda.
Já em casa, Clara jantou com o marido e com Fernando, marido de sua tia. Os dois eram amigos inseparáveis, e só sabiam falar de comida. Se Clara já não aguentava Cadu, os dois juntos a irritava bem mais.

–Que revista é essa aí? –Perguntou Cadu, observando a revista que Clara deixou ao seu lado na mesa.

–Que isso, Cadu? É revista de mulher. Comprei lá no salão. Aliás, a dona da banca mandou dizer que você tá devendo a conta do mês passado.

–Ah, amor, esquece isso, amanhã eu pago.

Marina se estreitou na cama, havia recusado jantar com Vanessa. No dia seguinte, Clara iria á sua casa com Cadu e Ivan, e ela não sabia o que seria pior: ter de disfarçar o calor quando visse Clara de biquíni, ou vê-la com Cadu. Ela suspirou, e procurou por seu telefone. Queria ouvir a voz dela.

–Porque não atende a droga desse telefone? Você não parou de olhar pra ele a noite toda. Quem que tanto te liga? –Insinuou Cadu.

–O que você tá insinuando, Cadu?

–Nada, mas atende logo essa coisa.

–É a Marina. A fotógrafa. Posso fazer uma pergunta pra vocês, que são homens e sabem da vida de todo mundo?

–Hum, que isso? –Perguntou Cadu.

–Tá chamando a gente de fofoqueiro? –Se pronunciou Fernando.

–É que eu tava lá no salão hoje fazendo unha e a manicure me contou que a Marina, sabe a Marina? Ela me contou... –Ela olhou para os lados, verificando que Ivan não estava por perto. –Que ela é sapata. –Sussurrou, como se estivesse contando um segredo. –Será que é verdade?

–Olha, eu já ouvi falar que ela “sapateia”. –Fernando fez o gesto das aspas com os dedos.

–Mas também né, isso aí falam de todo mundo. –Disse Cadu. –Falam barbaridades de todo mundo.

–Mas por quê? Você ficou chocada?

–Não. Claro que não. –Clara engoliu seco. –Não tenho preconceito. Mas é que eu achei essa expressão “sapata” muito vulgar.

–É sim, mas é como falam. Falam até pior, “sapatão”.

–E também “gay”, né? Que é o mais falado. –Comentou Cadu. –Hum, pode ser também que ela seja bi. Quem sabe tem uma esperança ainda, né?

–Que horror. –Disse Clara, horrorizada. –Que feio, Cadu.

Clara se levantou da mesa e foi para o quarto, incomodada com os comentários machistas e preconceituosos sobre Marina. Ela se jogou na cama, passando as mãos pelos cabelos. Olhou para o celular e viu as chamadas perdidas de Marina. Ela não sabia se devia ligar de volta, ou se esperava que Marina ligasse novamente. Interrompendo seus pensamentos, Cadu abriu a porta do quarto.

–Amor, vou descer com o Nando, tá?

–Tá, eu vou... Descansar um pouco aqui.

–O Ivan foi lá pra casa da Helena, tá? –Cadu já ia saindo, quando lembrou-se de outra coisa. –Ah, e essa ida na casa da fotógrafa amanhã? Tá de pé?

–Não sei, Cadu. Depois a gente fala disso. –Disse, sem nem pensar.

–Que foi? Você tá preocupada com a Marina? –Perguntou Cadu, num tom irônico que Clara preferiu não ter entendido. –Acha que ela pode tá dando em cima de você? –Perguntou, cruzando os braços.

–Cla-Claro que não. –Gaguejou. Clara agarrou uma das almofadas que estavam em cima da cama e jogou em cima de Cadu. –Não enche. –Esbravejou. –Cai fora! Olha aqui, nunca mais fala uma coisa dessas, hein? –Gritou, vendo Cadu sair do quarto, rindo.
Ela se enfiou no banheiro, esperando que a água quente do chuveiro tirasse dela aqueles pensamentos. Mais uma vez, pensou em Marina. Deixou a água escorrer pelo corpo, quente e gostosa. Marina não estava dando em cima dela. Ela não faria isso. De um jeito ou de outro, Clara não negava o efeito estranho que Marina havia tendo sobre ela. Sentia-se em chamas quando estava por perto da fotógrafa, e quando pensava nela, a sensação não era muito diferente. Ela respirou fundo, e se enrolou na toalha cinza que a esperava do lado de fora do box. Vestiu uma blusa e não fez questão de procurar por um shorts. Ela se jogou na cama, e olhou para a revista enrolada no canto da cama. Não queria pega-la, mas resistir era quase impossível. Ela se jogou na cama, desejando que aqueles sentimentos fossem embora. Ela sabia que o que estava sentindo por Marina não era certo. Não só pelo fato de ser casa, mas Marina era uma mulher! E ela também! Aquilo não estava certo. Ela respirou fundo novamente, e abriu a revista. Leu a entrevista reveladora de Marina, e observou, mais uma vez, a foto que a ilustrava. Ela sorriu sozinha, mordendo o lábio inferior da boca. Virou-se na cama, com a revista em cima de si e abraçou-a, tentando sentir Marina mais perto dela.

Notas finais
Fiquem ligados no próximo capítulo, talvez as coisas esquentem, hehe.