As Lendas de Andros
2 A ladra
A ladra
Alguns anos depois...
Donte estava de guarda em frente à casa do conselheiro. Observava cada movimento enquanto amaldiçoava o patrão por tê-lo escolhido para o turno da noite. Era sempre inútil ficar ali, até por que ninguém atacaria o conselheiro do rei em pessoa. Pelo menos ninguém em sã consciência.
Foi então que aconteceu. Rápido e sem qualquer barulho. O segundo em que Donte fechou os olhos para um traiçoeiro bocejo foi o suficiente. Um golpe rápido e preciso cortou o ar acertando-o na cabeça, e depois veio a escuridão.
Uma pequena sombra, a culpada pelo ataque, olhou à sua volta para ter certeza de que o guarda era o único, e quando confirmou isso se aproximou sorrateiramente de uma janela. Seus passos macios quase nem pareciam pisar na grama, era quase como se flutuasse a centímetros do chão.
Abriu a janela e adentrou na casa, rapidamente. Duas empregadas preparavam a ceia quando a sombra se esgueirou para dentro dos aposentos. Era uma pessoa esguia e andava numa maestria silenciosa.
— Iriza eu acho que ouvi alguma coisa. – Murmurou a mais nova das mulheres.
— Deixa de ser apavorada Melida. Atente-se a esse pão. – Respondeu a mais velha.
— Mas Iriza, e se for aparição de Niflheim? – Insistiu a jovem de pele morena e olhos astutos.
— Essas coisas não existem. Chega dessas atrocidades.
A pessoa escondida nas sombras achou graça do medo da criada, e também da rabugice da velha. Afinal de contas a jovem estava correta sobre o ruído. Por mais que tivesse sido rapidamente a sombra se deixou respirar, e num corredor tão próximo da cozinha não havia como a moça não a ter ouvido, ao contrário da criada velha que não a ouviria mesmo que gritasse em seu ouvido.
A sombra partiu dali e foi direto para as escadas. Tomou o rumo de um dos quartos como se tivesse o mapa da casa em suas mãos, e adentrou em um cômodo abarrotado de estantes, mapas, bugigangas, livros velhos e pergaminhos.
Observou atentamente todo o lugar e ao dar um passo para perto das estantes ouviu um leve rangido. Imediatamente voltou alguns passos e bateu seu pé devagar sobre todo o tapete até ouvir o som que esperava.
Ela se abaixou e ergueu o tapete revelando uma portinhola onde um pequeno baú estava escondido. Pegou em sua capa uma gazua[1], e com a destreza que apenas alguém que fazia isso há muito tempo teria, ela rapidamente conseguiu abrir a tranca.
Dentro dele havia um pacote de veludo não maior que um punho. Ela não precisava abrir para saber o que era. Pegou-o, e em seguida os guardou em um alforje[2] que usava a tiracolo.
Um sorriso dançou em seus lábios quando guardou novamente o baú e cobriu as tábuas com o tapete. Aproximou-se da janela e ao constatar que o guarda ainda estava desmaiado e que o chão não ficava muito distante, ela a abriu. Envolveu-se na capa, e se jogou pela janela rolando graciosamente sobre as telhas, saltando ao chegar à ponta para depois pousar sobre a grama. Sua estatura mediana contribuiu para um pouso leve, mas não tão silencioso quanto ela esperava.
Na cozinha Melida olhou ao mesmo tempo apavorada e furiosa para a companheira.
— Não vá me dizer que não ouviu agora?
***
Ainda escondida entre as sombras o pequeno vulto avançou pelas ruas silenciosas de Drahaar, a cidade dos humanos. Com o capuz a esconder-lhe o rosto, passou pelas ruas adormecidas da cidade sem ser notada por nenhum dos escassos passantes. Nem mesmo agora, com o trabalho já concluído, podia se ouvir seus passos na calçada.
Seguiu andando até os limites da cidade, indo para uma hospedagem distante do coração de Drahaar, onde as casas ricas e bem cuidadas davam espaço a casebres sujos e miúdos. Dormiria ali, mas só por uma noite.
Subiu ao quarto sem fazer barulho, encontrou à sua espera um pequeno catre coberto com um colchão de espuma da finura de um dedo, e uma arca de madeira escura. Fora da janela, a lua brilhava palidamente jogando sombras compridas pelo chão do quarto.
Colocou a bolsa na cama, despiu a capa. Uma cascata de cabelos escuros, soltou-se até a altura de sua cintura, uma cor alva como os primeiros flocos de neve lhe tomava toda uma mecha que se estendia desde o topo a ponta. Na luz esbranquiçada de uma vela apoiada no baú apareceu um rosto cansado, delicado e com traços que poderiam ser considerados infantis, mas não os olhos... Os olhos da jovem eram astutos, sábios, e demonstravam um cansaço incomum para a idade que aparentava. Teria dezenove anos no máximo; uma expressão séria e alerta parecia estar entalhada em seu rosto; os olhos eram azuis como o lago Duaang em seus bons dias, brilhantes e cheios de vida; tinha a pele fina de um moreno suave.
O seu nome era Nyah.
A garota começou a despir as suas armas. Setas, aljava, punhais, facas de arremesso, zarabatana, chakram, e até mesmo frascos de veneno. Pelo menos em teoria, um ladrão não deveria precisar de armas, mas a jovem era bem mais do que aparentava ser. Abriu o baú e de dentro tirou um bornal[3] onde havia mais uma quantidade de armas, algumas ainda mais estranhas para uma jovem possuir. Guardou as outras junto dessas, e tornou a colocar a bolsa em seu lugar.
Tirou o corpete, as calcas e a túnica, ficando com uma blusa puída e ceroulas. Deixou-se cair na cama e ficou olhando para as escassas estrelas que podia ver da janela, ainda mais brilhantes comparadas a chama pálida da vela. Cansada do trabalho noturno o sono não demorou a apagar seus pensamentos, deixando-a vagando pelo reino dos sonhos em instantes.
A notícia não demorou a se espalhar, e na manhã seguinte a cidade inteira já sabia. Deimos, o velho mago conselheiro do rei, havia sido roubado em sua própria casa. Agora, o que fora roubado ninguém sabia dizer ao certo. Nada de novo para a aldeia, recentemente havia rumores; histórias contadas aos sussurros sobre o que acontecia fora do alcance dos poderes do rei, nos arredores de Drahaar. Como sempre, as investigações de nada adiantaram, e a sombra continuou a ser apenas uma sombra…
***
No dia seguinte Nyah já ultrapassava os limites da cidade quando ouviu os passos. Alerta ela caminhou com mais rapidez em meio às arvores.
— Ei você! – Gritou uma voz, cortando o silencio da floresta como uma lança. – PEGUEM A LADRA!
Os passos atrás de Nyah ficaram mais rápidos e ela aguçou os ouvidos para conta-los. Eram oito no mínimo. Ela poderia dar conta de todos eles, mas depois a perseguição a ela não pararia nunca. Ser perseguida como ladra era uma coisa, mas se a acusação fosse de assassinato ela não teria como se livrar.
Havia um lugar onde se esconder, mas os passos ainda mais próximos acabaram com qualquer esperança que ela tinha de sequer alcançá-lo. A garota então, desistindo de sua fuga, mas não de sua liberdade, contornou uma arvore que já era sua velha conhecida e arremessou sua bolsa nas raízes ocas, jogando um galho seco em cima para cobrir tudo.
Depois fez uma volta e se encontrou frente a frente com um dos guardas. Ele não era um Orc como a maior parte da guarda do rei. Era humano e estava bem ofegante.
— Cansado senhor? – Nyah perguntou, com uma pitada de malicia. – Em que posso ajudá-lo?
O guarda a agarrou pelos braços com força e a jovem teve que se segurar para não cortar a garganta dele ali mesmo. Os dedos dele afundavam em sua pele e ela podia sentir a queimação, sabia que deixaria marcas. Ela sempre odiou que a marcassem. Nyah podia sentir o aço de sua adaga queimando dentro da sua bota, lhe dizendo quão fácil seria mata-lo. Ela ignorou os instintos e continuou a encarar o guarda.
— Procuramos a ladra de Drahaar. – Ele disse liberando seu bafo azedo no rosto de Nyah.
— Perdão senhor, mas não sei do que está falando. – A jovem mentiu de forma convincente. – Não sou quem procura. Pode me revistar se quiser.
A menina suplicou aos deuses que ele não o fizesse, pois do contrário encontraria algumas armas escondidas por suas vestes. Coisas um tanto incomuns para uma moça, ainda mais de sua idade, levar consigo. O guarda contemplou Nyah, algo brilhava em seus olhos, um brilho sombrio que arrepiou os pelos da nuca da garota. Seus olhos não pareciam corretos, ele a encarava com a intensidade de um predador, mas o medo que os contornava era de uma presa. Ele oscilava entre os dois a cada segundo até que o predador ganhou.
— Sinto muito menina. Nós precisamos de um culpado, e você vai servir.
O guarda assobiou. Um silvo longo, dois curtos e mais um longo; o canto de uma Lalocha [4]. Ao redor dos dois apareceram vários outros guardas, todos bem armados e preparados para qualquer coisa. E então, exatamente como ela fizera com o sentinela do conselheiro na noite anterior, o guarda a apagou com uma pancada na cabeça e Nyah desabou na escuridão.
***
A jovem acordou deitada em um chão áspero e duro; uma masmorra, exatamente como esperava. Olhou para cima e logo percebeu o porquê de estar ali. Suas mangas estavam arregaçadas expondo toda a marca acima de seu cotovelo. As linhas Negras como carvão que formavam a sua rosa dos ventos entre fios negros de trepadeiras.
— Tu fedes a Elfo! – Resmungou uma figura parada além das portas da cela de Nyah.
Ela rapidamente se levantou e observou a criatura. Era um Orc deformado de pele escamosa e azulada que cheirava a pântano. Ele estava escassamente vestido, o que demonstrava que eles não a consideravam ameaça.
— Lhes destirin no unt Gânga![5]— Nyah o insultou, cuspindo nas botas do Orc em seguida.
O Orc não entendeu o que ela dizia, mas ficou furioso. Arrancou uma faca curta de seu cinto e avançou contra a porta. Nyah agarrou seu pulso e o bateu com força contra as vigas da grade. O Orc soltou um urro e largou a faca que a jovem rapidamente pegou.
— Se seu rei souber disso, – Disse a jovem girando a faca entre os dedos. – Será a tua cabeça a primeira a rolar.
O Orc demostrou inquietação, mas não fez um movimento sequer. Um barulho nas escadarias o fez voltar a sua postura habitual de sentinela, como se nada tivesse ocorrido. Nyah escondeu a faca entre suas vestes e sentou-se de pernas cruzadas e cabeça voltada para o chão. Naquele momento ela seria a prisioneira perfeita.
— Deixe-nos. – Ouviu uma voz ordenar.
Os passos pesados e lentos do Orc se fizeram ouvir por longos segundos até que por fim tudo ficou silencioso outra vez. Nyah sabia que estava sendo observada. Podia até mesmo sentir olhos avaliadores tocando cada pedaço de seu corpo, cada movimento de respiração. Ela teria descido a manga de sua camisa se alguém não a tivesse rasgado. Isso a impediu de cobrir sua marca. Não que ela imaginasse que todos já a tivessem visto. E nem lhe passava pela cabeça que eles não soubessem do que se tratava.
— Nunca pensei que veria um de vocês assim tão... subjugado.
Nyah não era uma pessoa amedrontada, havia cultivado formas de se manter calma nas situações mais aterrorizantes, então, calmamente levantou o rosto procurando a origem da voz rouca e baixa e encontrando-a junto a porta de sua cela. Um homem vestido em ouro e seda. O rei em pessoa.
— Secidá unt tu Rahedan, tun nuk becave he so nuk quissu beca.[6]— Ela respondeu num tom azedo e ríspido.
O rei se aproximou ainda mais da madeira escura e suja das portas e sorriu. Era bonito. Realmente bonito em sua forma incomum. Tinha postura altiva, um corpo esguio, mas ao mesmo tempo forte, cabelos lisos e negros, lábios fartos e olhos cautelosamente avaliativos; negros como o manto que cobria seus ombros.
— Será mesmo senhorita... – Ele fez um gesto suave com a mão, incentivando a jovem a se apresentar.
Os lábios de Nyah se apartaram levemente. Surpresa pelo rei ter entendido a língua de seu povo. Ela sabia que seria ruim ignora-lo, e que seria ainda pior desrespeita-lo. Mesmo sem conhecer o rei, todos sabiam o tamanho de seu ego. Sua fama o prescindia. A jovem deixou de lado a surpresa e encarou o homem que não parecia ser muito mais velho que ela própria.
— Nyah, de Mool. – Respondeu secamente, usando o dialeto Androniano dessa vez.
Ele sorriu com certa surpresa, Nyah pode perceber; só não entendia o porquê ao certo. O rei era bem diferente do que a jovem esperava. Parecia calmo e cansado. E também era mais jovem do que pensou. Sua postura enigmática e cautelosa começava a intrigar a moça.
— Não sabia que o povo Élfico também fazia parte da Seita do Caronte. – O rei ponderou placidamente. – Pensei que eles fossem mais... contra a matança desregrada.
Ele conversava com Nyah como se a conhecesse há tempos, e não como se ela fosse sua prisioneira recente e provavelmente a pessoa que executaria em poucas horas.
— Nem todos são iguais. Eu não vivo sobre as terras de Mool a muito tempo, e a muito deixei de seguir as regras deles. – Ela respondeu de forma tranquila.
O rei fixou seus olhos nos de Nyah, havia uma centelha faiscando nos dele e isso a deixou incomodada. Não sentia boas Harna [7] vindo do rei. Era ainda pior, ela não sentia Harna alguma vinda dele. Isso a assustava.
— Me diga pequena Elfo, a quanto tempo você não vive em Mool?
— Tempo suficiente. – Ela disse simplesmente.
O rei sorriu, um sorriso graciosamente aterrorizante.
— Você não faz ideia mesmo, não é?
— Não sei do que você está falando. E também não me interesso.
Ele a estava irritando. A jovem detestava ser o alvo das provocações de alguém sem poder revidar. Ela se levantou e começou a procurar por pontos fracos da cela.
— Você sabe que não vai fugir.
Nyah encarou-o e sorriu com malicia. Os olhos fixos nos dele, que eram tão escuros quanto os panos que cobriam seu corpo.
— Ivae’a ut uluthae ed trane.[8]
A jovem avançou contra o rei e o agarrou pelo ombro colocando a faca do Orc firme contra sua garganta. O metal chegava a queimar-lhe a mão, mas Nyah não afrouxou o aperto. Ela o puxou para perto e fez um leve talho em sua pele fina. O vermelho manchava a cor alva imaculada da pele do rei.
— Ordene que me soltem. – Disse lentamente, movendo a faca para exibir as consequências. Antes que ela pudesse ter uma resposta ou fazer alguma coisa a jovem sentiu um prurido em seu braço. Era algo que Nyah nunca tinha visto nem sentido. Algo que não podia explicar. Ela simplesmente perdeu o controle de seus movimentos e quando deu por si não segurava mais a faca contra o pescoço do rei, e sim contra o seu olho.
A lâmina pairava a centímetros de sua pálpebra e ela quase podia sentir a simples nesga de ar que havia entre eles. Seu corpo tremia convulsivamente e ela fazia uma força imensa, porem inútil, para tomar o controle de si. A faca diante de seu rosto era como encarar a face da própria morte, mas ela não ia ceder.
— Agoo! Ut mana![9] — Ela gritou ao rei enfurecida.
Ele por sua vez tinha a mão estendida em direção a Nyah e a mantinha sob seu comando apenas com o seu poder. Com sua magia impura. Isso parecia extremamente exaustivo para ele, mas naquele momento Nyah conseguiu ver a centelha, o fogo que todos diziam existir dentro dele. Chamas de pura ira e ódio. O mago que conseguira sozinho domar o exército de Orcs para dominar toda Andros. Agora Nyah era capaz de vê-lo; e a garota sabia que essa pequena centelha não chegava sequer perto da chama que ele exibira a Andros anos atrás.
— Não agora querida. – Ele murmurou voltando rapidamente ao seu estado pacifico. – Em breve.
Naquele momento, Nyah se lembrou das palavras de um antigo conhecido, ‘’Ivae’a ed edlle naa biir ed manu dana lothores”[10] e elas nunca lhe pareceram tão corretas.
Ela deixou-se cair no chão zangada, decepcionada e ofegante. Tinha as unhas tão fincadas nas mãos que em poucos segundos o sangue estava a lhe escorrer por entre os dedos.
Ela permaneceu assim, imóvel por algum tempo e quando voltou a si estava sozinha. Não sabia se era noite ou dia a única luz em sua cela vinha de tochas acesas nas paredes do lado de fora. Não foi incomodada por ninguém, nem o rei e nem o guarda voltaram a aparecer e ela agradeceu aos deuses por isso.
A jovem acabou adormecendo e mesmo perseguida pelos pesadelos conseguiu descansar.
***
Durante o sono ela foi acordada pelo som de passos abafados. Ficou imóvel enquanto ouviu a porta de sua prisão sendo aberta e quando mãos tocaram seu ombro ela rapidamente girou o corpo dando um chute no recém-chegado que acabou desabando ao chão.
Ela se jogou por cima do Orc de pele azulada e bateu sua cabeça fortemente contra o chão, deixando-o inconsciente em segundos. Nyah vasculhou as roupas do Orc, mas não encontrou arma alguma. Provavelmente por causa de seu último feito.
Sem se deixar abalar ela seguiu em frente. Não havia guardas nos corredores baixos da masmorra, mas ela pode ouvir vozes adiante. Ela não tinha armas e precisaria delas se quisesse sair dali viva.
Nyah vasculhou as celas ao redor e percebeu que todas estavam vazias. A garota se perguntou o porquê, ela tinha certeza de ter ouvidos outras vozes antes. Vozes que vinham das celas ao lado da dela. Mas ela não podia se concentrar nisso no momento, precisava sair dali.
Nyah descobriu uma pequena sala que servia como depósito para os pertences dos prisioneiros. Mais que rapidamente ela procurou por suas coisas, encontrando suas armas e botas enrolados em sua capa. Sua adaga estava fincada em uma viga de madeira, como se alguém estivesse a usando para arremessar. Nyah pegou-a também. Depois de devidamente vestida ela prosseguiu com a fuga.
A jovem se escondeu em uma das celas vazias, usando as sombras como esconderijo e começou a assobiar.
Como esperado, logo um dos guardas veio checar o que estava acontecendo e assim que ele identificou o lugar de onde vinha o som Nyah saiu de seu esconderijo e o acertou com um golpe na nuca. O guarda caiu no chão causando um baque alto. Prontamente outros dois Orcs vieram ver o que havia acontecido e ao notarem o primeiro Orc morto iam se retirando para avisar aos outros.
— Estão com medo? – Nyah perguntou saindo das sombras.
O primeiro guarda avançou contra ela cego de ódio. Ele era pesado e muito forte. Um de seus golpes acertou a grade das celas e enquanto ele se recuperava Nyah aproveitou para apunhala-lo da mesma maneira que fizera com o anterior. O guarda desabou pesadamente e Nyah não teve tempo de recuperar sua adaga do corpo do guarda antes que o outro a atacasse. Nyah se lançou nas vigas do teto para se desviar do golpe e o acertou um chute no rosto. O guarda cambaleou e tentou alcançar as pernas de Nyah com a espada, mas tudo que conseguiu foi deixar um rasgo na bota da jovem. Assim que ele caiu ela lhe tomou a espada e atravessou-a no peito do Orc.
Depois de recuperar sua adaga e a espada do Orc a garota se lançou masmorra afora. Tudo não passava de uma quantidade de corredores que levavam ao mesmo lugar; uma escada enorme que desembocava na praça do rei.
Assim que atingiu o topo da escadaria Nyah chegou a sorrir imaginando o que o rei faria quando soubesse que ela havia fugido. Não era noite, como ela imaginara, mas sim o início da tarde, o sol já ia baixando no horizonte acima dos muros.
Antes que Nyah pudesse se encaminhar para a pequena vila dentro dos muros do castelo a praça foi tomada por uma legião de guardas. Eram mais do que ela podia lidar sozinha, ainda mais escassamente armada como estava.
Ela foi cercada rapidamente, os guardas lhe tiraram as armas e amarraram suas mãos. Eles a levaram exatamente para onde ela esperava. A superfície do cadafalso sob seus pés era irregular e desgastada, o que provava que ela não seria a primeira e nem a última pessoa a morrer ali. Havia outras duas pessoas amarradas ao seu lado, um homem e uma mulher, ele de cabeça baixa e coberto por ferimentos, ela chorando desesperadamente.
A luz do sol atingiu os olhos de Nyah cegando-a por um momento. O cadafalso ficava no centro da praça, ela era cercada pela pequena vila de Drahaar que por sua vez era circundada por muros de pedra. Antigamente o lugar era usado para festas, ela ouviu dizer, mas hoje seria o palco da execução dos três.
Ela sabia o que viria a seguir, eles precisavam de um culpado, e mal sabiam que tinham nas mãos o verdadeiro. A garota sorriu com a ironia da situação e tudo o que conseguiu foi um soco no estomago de um dos guardas.
— Você acha sua morte engraçada sua porca? – Ele indagou acertando outro soco em Nyah.
— Não. Mas vou achar a sua. – A garota retrucou cuspindo o sangue em sua boca no rosto do guarda.
Os olhos dele fervilharam de ódio, mas ele se conteve e se afastou dali. Alguns minutos depois os moradores da vila estavam todos na praça, a maioria tinha olhos cansados e tristes. As crianças eram magras e amuadas. Tudo isso só nutria ainda mais o ódio de Nyah pelo rei, e ela sabia melhor que ninguém que o ódio pode ser uma arma potente.
— Povo de Drahaar... – A voz dele ecoou pela praça como que invocada pelos pensamentos dela. – Temos diante de nós algumas das almas mais impuras de Andros, pessoas que vem causando tantos danos a nossa amada terra. Todos foram capturados pelos meus guardas, para manter a segurança de vocês, meus súditos.
Houve um murmurinho pela praça, havia tanta gente ali que Nyah chegou a se questionar se eles eram obrigados, se eram forçados a assistir os atos de brutalidade que o rei tanto pregava como justiça. Talvez o rei saboreasse a presença deles, rostos contorcidos, um amontoado de sofrimento e dor unidos em um único lugar, todos sob seus comandos.
Toda Andros podia estar sofrendo sobre o comando do tirano rei, mas Nyah não conseguia sequer imaginar os tormentos que o rei infligia àquele povo tão próximo. Principalmente porque eram todos humanos, e sem a ajuda dos demais eles nada podiam fazer contra o rei.
— Temos aqui hoje, um fornicador, uma consorte do prazer, e uma ladra. – A mulher chorou ainda mais alto enquanto o rei falava e um dos guardas a queimou com um atiçador para que se calasse. Seu grito de dor ecoou pela praça antes de ser novamente abafado pela voz do rei. – Recentemente descobrimos que esta mulher diante de vocês não é apenas uma ladra, mas também uma assassina. – Prosseguiu o rei. – Uma integrante da Seita Do Caronte.
Se antes as vozes estavam cansadas e baixas, agora o ruído foi geral. Ouviram-se exclamações de horror, e gritos de pânico. Uma jovem tentou se afastar e foi contida por um Orc que a empurrou de volta para a multidão. Isso fez Nyah crer que talvez nem todos estivessem ali por vontade própria. Talvez nem todos tivessem perdido seus valores, e apenas os escondessem por medo. Medo do que aconteceria se decidissem mostrar suas opiniões.
— Silencio, por favor. Peço que não se desesperem. – Lohkine sibilou com sua calmaria habitual. – Afinal, hoje livraremos o mundo de almas impura.
Finalmente ele encontrou os olhos de Nyah. Não havia nenhuma emoção nos dele próprio. Se o rei sentia, havia aprendido a esconder isso com perfeição. Ela mesma tinha treinado essa técnica por anos, e não sabia se a utilizava com tanta destreza como ele. Se era capaz de desprover o rosto de sentimento com tamanha facilidade quanto ele.
— A senhorita tem algo a dizer antes de deixar este mundo, Nyah de Mool? – Ele perguntou quase que com delicadeza.
Nyah foi forçada a se ajoelhar e encarou o rei com determinação. Abaixo de si via o baluarte de madeira, onde logo a foice do carrasco logo encontraria sua carne a espera. Ela sorriu.
— A única coisa da qual me arrependo, majestade, é que um dos meus trabalhos para o Caronte não ter sido livrar o mundo da sua alma.
Nyah viu o choque nos rostos ao seu redor, menos no que esperava atingir. Ela notou que o que mais aquele povo demonstrava, e ela conheciam bem, era medo. O rei era temido, assim como todos diziam. Porém não havia nada que ela pudesse fazer por eles. Nunca houve.
Por fim ela debruçou sua cabeça sobre o baluarte e fechou os olhos para esperar a morte em paz.
[1]. Ferramenta com ponta de metal usada para abrir fechaduras.
[2]. Sacola com aba para fechar. Geralmente confeccionada em couro.
[3]. Bolsa grande normalmente usada para carregar alimento.
[4]. Ave arisca de saliva toxica.
[5]. Tu fedes como um porco.
[6]. Acredite em mim majestade, eu não estaria aqui se não quisesse estar.
[7]. Vibrações
[8]. Nada me impede de tentar.
[9]. Vamos lá! Me mate!
[10]. Nada de bom pode vir de uma alma atormentada
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