As Leis Do Paraíso
5 Capítulo 4
Ah, meu amor. Trocamos tantas palavras; porém trocamos também segredos contidos no calor de um beijo, e suspiros que tudo diziam. Eu te tocava como algo precioso e, quando você retribuía, eu chegava a acreditar que era verdadeiro. Nos amaríamos pela eternidade de um pedaço de matéria que se transforma por anos, décadas, séculos, milênios, eras, e nada poderia nos separar. Porque éramos imortais ao unir nossos corpos brindados por nesgas de sol e lua sobre lençóis bagunçados. Éramos poderosos, soberanos de nosso próprio amor; coroados com tiaras de pérolas como rei e rei em uma terra distante, só nossa.
Mas com um singelo trovoar, a luz ofuscante que clareia o céu é o epicentro da abertura de meus olhos.
E é nesse momento que aprendo: tiaras de pérolas arrebentam, e alguns sonhos não são feitos para serem vividos.
XxX
“Então, para onde você quer viajar?” Pergunto; minhas mãos bem firmes ao redor da cintura de meu irmão, enquanto ele se senta entre minhas pernas e folheia com um sorriso de cristal o catálogo da agência de viagens, apenas apreciando as imagens.
Naqueles meses vivemos tudo que podíamos. Louis se recuperava cada vez mais, ainda que algumas partes do cérebro continuassem debilitadas, talvez permanentemente, segundo opinião médica. Ele não conseguia lembrar como ler, ou escrever. Quando tentava, suas mãos tremiam, ou ele jogava para longe o caderno, ou revista no qual tentava se concentrar. Irritava-se se eu me oferecia para ensiná-lo, ou dizia que poderíamos contratar algum professor especializado. Com o tempo, também percebemos que ele havia perdido controle sobre dois dedos da mão esquerda, e que sua perna direita continuaria manca, pois alguns músculos haviam se atrofiado irreversivelmente.
Tive de comprar-lhe uma bengala por três vezes, pois ele tinha mania de atirá-las pela janela, quebrá-las, e depois chorar por horas, negando-se a explicar-me o que sentia, por mais que houvesse prometido. Nesses momentos eu me sentia mais solitário do que nunca. Não sabia como ajudá-lo, e observar seu tormento sem poder fazer parte dele, sem arrancar de seu coração o sangue negro que o consumia e passar para mim, ardia-me mais do que me atirar em uma fogueira de são-joão e virar pó como as ditas bruxas da idade média.
Mas na maioria do tempo ele sorria, buscava meu colo e acariciava meus cabelos, como se a textura de cada um de meus fios fosse-lhe ternamente atraente, despertando um brilho de curiosidade em seus olhos que me permitia dormir profundamente por longas horas, enquanto em outras noites eu vigiava os ponteiros do relógio e dormia apenas o suficiente para não cair no cadafalso dos sonhos. Seu humor era tão oscilante quanto um espelho, e as faces que nele se refletem enquanto não quebra.
“Aqui. Nós já fomos?” Aponta, passando o dedo pela imagem. Era um dos lugares por onde havíamos passado durante nossa infância. Eu queria que ele visitasse lugares novos, tivesse experiências, saboreasse cada momento ao máximo, antes que o tempo tivesse chance de devorá-lo. Por isso havíamos passeado por toda a cidade, ido a restaurantes, cinema, teatro. Eu o cansava com um mundo de possibilidades que só me atraíam porque eu podia vê-lo nos contornos claros de suas íris. Tudo se tornaria cinza sem Louis, e por isso eu o apertava ainda mais contra meu corpo.
“Sim... Foi onde eu te entreguei aquela pedra.” Falo. “Você lembra?”
Louis demora a lembrar. Sua memória também não é como antes. Ele lembra dos fatos mais marcantes, as pessoas que via em quase todos os dias de sua infância: eu, Helena e Roger. Os detalhes lhe escapam, e às vezes até se perde num baralho delas, uma mistura que o deixa ausente por alguns segundos, como se tentasse se transportar para aquele tempo, mas fosse barrado por grades invisíveis.
“Ela era... Preta. Ou branca?” Aperta as sobrancelhas e vira o rosto de lado para olhar-me por cima do ombro. Seu rosto sincero derrama o quanto se sente chateado por não ter muitas certezas. Eu o beijo nos lábios doces. Até mesmo marcado por melancolia é belo, Louis. Até mesmo quando chora tenho ganas de devorá-lo e aprisioná-lo em um lugar distante de todos os olhares e julgamentos. Sinto que se envergonha quando as pessoas reparam em sua bengala, ou notam sua magreza que ainda não cedeu por completo. Infelizmente sempre se deixou magoar pela repreensão que as pessoas fazem a tudo aquilo que não julgam perfeito, ideal, segundo padrões impalpáveis. Você é perfeito para mim, eu sinto vontade de falar a cada vez, mas aprendi também que isso parece irritá-lo ainda mais.
“Ela era uma pedra que mudava de cor conforme quem a tocava. Em suas mãos ficou branca, porque você é puro.” Declaro e o beijo na nuca. Também tenho poucas certezas, Louis. Ínfimas, frente a tudo que nos cerca, perante todas as forças que nos regem. Mas as que tenho me sustentam, e as que não tenho apenas me tranquilizam, pois talvez enlouquecesse se soubesse tudo e não restasse mais nenhuma dúvida para alimentar a alma e instigar as pernas a se moverem, a mente a pensar. Me basta saber que te amo, e que seu amor tem o mesmo alcance do cruzamento de duas linhas paralelas, mesmo quando o outono chega e as folhas caem sem vida.
“Você ainda a tem?”
“Não.” Admito num tom baixo. Como poderia explicar que a havia atirado contra o rio que atravessa a cidade em um momento de raiva? Eu a levava comigo todos os dias e a tocava a cada suspiro de saudade. Eu sabia que não deveria ter saído de meu quarto aquele dia, mas uma necessidade de fugir da casa de meus pais tomou-me como a força de um rei que se banqueteia nos ossos de seus súditos. Caminhei até o rio, deixando a brisa bater no meu rosto na tentativa de sentir algo além de minha própria dor. Perto dali, havia um jardim, e mesas se dispunham nele em um desenho gracioso, e arranjos floridos faiscavam pelo tremeluzir das velas. As pessoas riam naquela festa, sorridentes enquanto seguravam os copos de coquetéis coloridos e não alcoólicos.
Meu braço agiu por vontade própria quando atirei a pedra no riacho sob a ponte. Naquele dia voltei para casa encharcado. Assim que entendi o que havia feito, desci a ponte e atirei-me no lago. Procurei pela pedra por horas, e estas horas poderiam se multiplicar por todo o tempo em que os humanos pisaram sobre a terra, e ainda assim não atingiria o alcance de meu desespero. Aquela pedra era um pedaço de Louis, marcada por seu toque, e eu a jogara fora, da mesma forma que, anos depois, meus pais quiseram jogar meu irmão. Odiei-os tanto por isso, ainda mais por lembrarem-me com sua atitude mesquinha que eu havia dado o primeiro passo.
Desde que atirei aquela pedra no lago, aos meus quinze anos, eu percebi que precisava doar-me inteiramente a Louis, recolher nas celas de minhas memórias cada detalhe, cada sensação. Não poderia deixar passar nada. Louis precisava manter-se vivo, mesmo que você apenas dentro de mim. Ele não estava morto. Não. Eu apenas precisara esperar, eu sabia.
E agora tinha minha recompensa.
“Por quê...?” Louis pergunta e gira um pouco o corpo para mim. “Você a perdeu?”
“Eu... joguei no rio quando tinha quinze anos. Estava há dois anos sem você, e foi a primeira e última vez que pensei que tudo era em vão. Que você não iria acordar e eu que deveria me jogar também na água e deixar-me afundar até que só restasse água em meus pulmões.” Não posso esconder nada de você, não, Louis? Poderia dizer que havia perdido quando me mudei de casa, aos dezoito. Ou que nossos pais a haviam quebrado para impedir-me de mantê-lo sempre comigo.
“A mãe e o pai me contaram que pensaram em desligar os aparelhos uma vez, há dois anos, mas que você os impediu.” Louis pergunta. “Por quê? Como poderia ter tanta certeza? E se minha alma continuasse presa a um corpo sem vida até simplesmente morrer, deixando oco? Ou como poderia saber que eu ainda estava ali?”
Sua voz é tão dura, Louis. É como se me acusasse de mantê-lo vivo. E o que posso dizer? Porque sou um sonhador? Porque te podia sentir querendo abrir os olhos a cada batida de teu coração fraco? Talvez porque eu houvesse feito uma promessa, a promessa de pensar em você em todos os dias da minha vida, e precisasse cumpri-la até que as portas do paraíso se fechassem perante meu rosto e eu tropeçasse para o que os cristãos chamam de inferno? Ou seria porque sou um louco, que perdera todos os motivos para viver, e então precisava agarrar-se com garras em nuvens brancas? Louis, apenas deixe-me acreditar que eu sabia, e que estava certo.
“Você está infeliz?” Pergunto, no lugar de responder-te.
“Lorcan...” Toca-me o rosto e abaixa o próprio. “Eu sinto falta de quando éramos puros e tudo que conhecíamos era verdadeiro e pateticamente claro. Não éramos nada– e amávamos isso. Não havia razão para amar, apenas estava lá... E agora-“
“E agora?” Meu coração já doía. Não, Louis, não diga que meu amor possui as motivações erradas. Não diga.
“E agora me sinto em uma busca incessante por algo que nem sei se quero encontrar.” Seus olhos recaem brilhantes sobre os meus. “Bastaria apenas nós dois, não é mesmo? Mesmo que-“
“Não diga!” Me exalto e o aperto com força. Você me encara triste, mas eu não quero encarar nada disso.
“No fundo você sabe a verdade.” Desliza a mão por meu rosto. “Mas acho que justamente por isso eu continuaria te amando para sempre, mesmo que para sempre seja estúpido quando vivemos tão pouco.”
“O que basta é nós dois, juntos, dessa maneira.” Nossas testas se encontram, e eu simplesmente não posso te deixar ir de novo. Você sabe que não, então não olhe com esses olhos abatidos. Há que diga que a tristeza reside melhor no belo, e o belo se encaixa perfeitamente no triste. Mas eu não, Louis. Não quando a verdade é dura demais para encarar.
Louis balança a cabeça, de repente tomado por alguma angústia profunda, que atormenta até o ar que nos rodeia e invade nossos pulmões como doença.
“Deveria ter desistido no dia em que atirou a pedra.” Diz e se ergue, alcançando a bengala. Vejo-o se afastar como de outro plano, onde não posso mexer-me e até mesmo piscar é difícil, pois os sentidos me foram arrancados. Ouço o ‘toc, toc’ da bengala contra o piso e apenas quando ele some pelo corredor é que me levanto, sentindo-me arder em febre e delírios.
Alcanço a porta do quarto e tento abri-la, mas está trancada.
“Louis, abra a porta!” Exijo, e minha voz não demonstra toda minha fraqueza. Sou tão fraco, tão fraco. Apenas não consigo aceitar que tudo pode ter sido em vão. Preferia, sim, mil vezes ter morrido naquele rio a viver uma realidade tão insuportável. Bato mais um vez, com mais força e autoridade. “Louis, abra a maldita porta! Abra agora!”
“Me deixe em paz, Lorcan!” Ele grita em retorno, a voz denunciando o choro. Era possível sentir tudo que ele sentia, mesmo a porta de madeira entre nós. Louis era minha tinta vermelha, era sangue, e a tela onde eu desenhava todos os sentimentos que me consumiam. Meu irmão. Meu gêmeo.
“ABRA A PORCARIA DA PORTA, LOUIS!”
Silêncio. Não há nada tão aterrador quanto o silêncio, e a percepção de que se está sozinho. Desejar com a intensidade com que o mundo se auto-destrói e flagela, lentamente, pode ser mais sombrio do que imaginamos. Mesmo quando esses desejos estão escondidos por um manto negro e impenetrável, eles ainda existem e podem se tornar uma realidade com a qual não se sabe lidar. Culpa. Solidão. Dor... Qual o preço que pagamos pela realidade que queremos?
Escorreguei contra a porta até que meus joelhos batessem no chão, como uma punição que deveria ser multiplicada por milhares.
“Louis, abra a porta. Abra a porta, por favor...” Continuei choramingando, roçando as unhas na madeira.
Até entender que era em vão.
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“Você está atrasado, Lorcan. Assinou um contrato e precisa escrever o livro há tempo, se não quiser acabar com uma multa.” Avisa Matthew, meu agente literário. Eu não dava a mínima para o que ele falava. Havia ido à editora por pedido dele, mas principalmente porque não aguentava mais deparar-me com aquela porta fechada. A muralha da China parecer-se-ia menos imponente, cruel e intransponível do que a porta de meu quarto.
“Não tenho tempo para escrever agora.” Falei secamente, com o olhar em folha de papel. Me levantei, mas Matthew se aproximou rapidamente e impediu-me. Olhou fundo nos meus olhos e depois me analisou de cima abaixo com seus orbes azul-escuros. Um mal-estar apossou-se de meu corpo quando ele tocou meus cabelos. Havia algo de sádico na forma com que me encarava, e até mesmo olhos de um tigre faminto seriam mais agradáveis do que os dele.
“Eu soube sobre o teu irmão. Sei que isso deve tornar mais difícil escrever, mas sua aparência está até melhor, não é? Andou se alimentando direito? Ou dormindo mais do que três horas por noite?” Perguntou, estreitando-me contra seu corpo de modelo de cuecas, fútil como suas maneiras. Não respondo, o mal-estar torna-se maior, mas tudo que Matthew pode ver é meu semblante vazio. Isso o irrita sutilmente. “Deveria ser mais fácil escrever, agora que não há o peso de um irmão em coma para atormentá-lo.” Sua mão corre por meus cabelos. “Ou talvez fosse justamente esse tormento que te fizesse escrever tão bem? A eterna espera, e não a certeza.”
“Solte-me!” Empurro-o com raiva. Um sorrisinho brota de seus lábios de leão ao abocanhar um antílope. Despertar-me algo além de indiferença parece causar-lhe uma sensação como a de um orgasmo, e eu dou-lhe as costas e deixo a sala onde conversávamos, mandando para qualquer lugar podre e sujo assinaturas, contratos e prazos.
Quando chego em casa e a porta ainda está fechada, ligo meu notebook e escrevo em um frenesi sem sentido. Eu ouço gritos, minha cabeça lateja e minha pele coça. Sinto o cheiro pútrido de gente morta e o sufoco da serpente ao engolir uma pessoa viva.
Nesse momento, minha mente é um pintor envaidecido, tomado pelo prazer luxurioso da criação.
E pinta todas as cores difusas e defeituosas de um crepúsculo corrompido pelas nuvens de um dia nublado. Pinta as lápides quebradas e sujas de um cemitério abandonado à luz prateada da lua cheia. Pinta os morcegos, as laranjeiras e as cores secas das folhas amareladas de fim de outono, um olho verde cravejado de pontos luminosos, como cristais de água ao redor da pupila. Pinta o fogo, assassino da carne crua e da pele imaculada, o sopro do vento que bagunça os cabelos loiros num balanço perfeito, um último suspiro e o sangue coagulado de uma ferida profunda, vermelho ardente, verde espantado, um soluço, um garoto se encolhendo de medo e dor e solidão.
No final apago tudo. Toda aquela tragédia insignificante.
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O lugar era dono de uma placidez contagiante. Um pequeno paraíso recordado das histórias bíblicas de Adão e Eva, e Louis era o pequeno anjo que caíra do céu e agora mergulhava a mão no lago cristalino, sentado sobre uma das pedras largas que salpintavam a água como sardas rochosas. O olhar de Louis era distraído, mas ternamente... feliz. Aquilo poderia ser um sonho imerso em brumas, eu já não sabia, mas o mais singelo dos sorrisos em seu rosto acalmava-me mais do que a mais poderosa das morfinas.
“Gostou daqui?” Pergunto, avançando pelas pedras até chegar onde ele está. Viajávamos por alguns lugares da Croácia, inclusive alguns pontos onde havíamos passado durante nossa infância. Louis tenta se lembrar... Às vezes a memória falha e ele finge não se importar, mas na maior parte do tempo aprecia a paisagem, os detalhes idílicos que permeiam a terra e apenas ele parece ver.
Louis sempre foi um observador. Era distraído, é verdade, mas parecia possuir algum radar para as pequenas coisas. Queria possuir esse dom de olhar o mundo como meu irmão, mas já me era suficiente observar os pequenos e fundamentais detalhes dele e afogar minhas íris em sua imagem pálida. Me ajoelho ao seu lado e aspiro o aroma silvestre de seus cabelos, inebriando-me em seu remédio.
“É impossível não gostar, não é?” Louis responde, fechando os olhos por um momento, perante minhas carícias. “Mas você não está se esforçando demais, Lor?”
“Não.” Digo.
“Eu não queria te causar nenhum transtorno.” Seus olhos umedecem e toca meu rosto, percorrendo as linhas que nos aproximam e completam. As linhas erradas, curvas, mas perfeitamente encaixáveis. “Você sabe o quanto eu te amo, não sabe? Sabe o quanto te quero feliz... Mas eu apenas te atormento, Lor. Desde aquele acidente.”
Agarro bruscamente seus pulsos e os aperto; e é como apertar meu próprio coração e privar meus órgãos de tudo que os nutre. Louis arregala os olhos, mas logo se acalma e seu semblante torna-se tão plácido quanto as águas que o cercam, mesmo que meu aperto apenas aumente de intensidade com os segundos.
“Por que insiste nesse assunto!? Do jeito que fala, parece que quer que eu me livre de você!” Grito sacudindo-o. “Não foi você quem disse que ficava feliz que eu tivesse te esperado por tanto tempo!?”
“Aquilo foi errado.” Abaixa o rosto, escondendo o que considera ser uma vergonha.
“Mas foi verdade, não foi? Admita!” Forço mais seu corpo contra o meu. “Eu te conheço melhor do que você possa imaginar, Louis. Acompanhei seus risos, seus choros, suas crises, suas expectativas, seus sonhos, suas decepções desde o início, e tudo que eu peço é que me deixe continuar a acompanhar tudo isso...”
“Eu deixo, Lor. Eu deixo...”
Te abraço forte, aprisionando-o entre meus braços, com a certeza de que não posso te deixar esvanecer. Mas há aquela estranha sensação de que mais nada restava senão versos escritos em espelhos quebrados, camas desfeitas em um quarto alagado, antigas velas apagadas e ecos distantes no vazio.
XxX
É algo curioso a maneira como os seres humanos se enganam para conseguir seguir em frente. Não somos capazes de aceitar uma realidade ruim, então fingimos que tudo ficará bem, projetamos nossas expectativas em um futuro incerto, nesse conceito que temos de futuro e que sequer conseguimos compreender de todo. Temos medo de enlouquecer se abrirmos bem os olhos, e arrancar nossos olhos porque as imagens à nossa frente são mais aterradoras do que passar o resto da vida na escuridão.
No fundo eu sabia que iria acabar. Como os primeiros segundos das músicas clássicas famosas, uma Sonata ao Luar que olha para o astro sem luz e entrega a ele as notas graves, numa cadência que sobe e morre subitamente, que se estilhaça e não oferece chance de sofrimento por sua queda, porque é rápido. Rápido demais. Porém a agonia permanecesse, ressoando, vibrando, e é como se a música continuasse indefinidamente, perdendo-se nas ponderações de se tivesse mais tempo, se tudo houvesse acontecido, se nada houvesse acontecido.
Como se nada tivesse acontecido. Nada aconteceu. Nada.
Louis.
XxX
É forte essa sensação que me toma quando entro em meu quarto e encontro Louis nu deitado na cama. O quarto fede a sexo, e meu estômago embrulhava. A raiva vem quando olho em direção à janela e vejo William ali. Ondulações quebradas de raiva, ódio, angústia e um líquido azedo que toca a superfície de um vidro, dissolvendo-o em fumaça, me despedaçam em uma temperatura infernal. Um berro animalesco nasce de minha garganta e preenche o quarto, um grito que traz à tona tudo aquilo em mim que não é humano. Ou justamente o que há de mais humano em meu ser.
“POR QUE, LOUIS? POR QUÊ?” Berro e avanço na direção de William, cujos olhos, os detestáveis olhos cor de céu, se arregalam desde o momento em que solto meu primeiro grito. Mas muitos outros se seguem. Eu já havia batido em seu corpo tantas vezes, mas nada se comparava com a força com que agora eu estrangulo seu pescoço, prensando-o contra o vidro da janela.
Nunca fui o mais forte, mas por algum poder superior e incontestável, eu sou o dono de todas as vidas. Poderia tirar a todas, arrancar um a um os corações de meus ditos semelhantes – semelhantes? – e riria depois. Os atiraria no rio e veria o sangue manchar as águas límpidas, claras como os olhos desfocados de William, a cada segundo perdendo seu viço, até que seus pulmões contenham apenas veneno e suas pálpebras fechem, poupando-me da cor de suas íris. E que não abrisse novamente os olhos. Que fosse carregado pelas criaturas mais fétidas para cavernas abandonadas sobre a terra, onde os insetos, ratos e todas as mais desagradáveis criações do Deus em que acreditava o devorassem até restar apenas os ossos.
Minha mão o solta e seu corpo cai até atingir o chão, em uma posição torta que volta a me enojar. Sua morte não me toca, e o arrependimento não visita minha consciência pelos segundos que o encaro, ofegante, e com a mão que o matou dolorida. Então viro-me para Louis, para a cama de onde ele observara toda a cena sem mover um dedo para impedir-me. Vou até ele e agarro seus cabelos aloirados, puxando a cabeça ligeiramente para o lado, mas nossos olhos não se perdem um do outro.
“Por quê?” Pergunto sem realmente querer escutar a resposta, mas ardendo por ela. Louis não responde. Louis, você deve me responder! Não me torture com a ausência de palavras suas, pois foi justamente por elas que eu esperei por tanto tempo. “POR QUÊ?!” Te empurro, fazendo-te cair de costas contra o colchão.
“Eu encontrei teu diário, Lorcan.” Disse, baixo, mas com uma força que me assustava. “Eu o encontrei e o li todas as vezes que você saía de casa para fazer compras, ou ir à editora, ou qualquer outra coisa que você vem fazendo ultimamente, saindo de casa sem nenhuma explicação! Eu li teu diário e percebi que eu sou uma maldita idealização! Uma idealização, você vê? Não sou aquilo que eu era, não sou o que você quer que eu seja! Você não percebe, mas sempre me olha como um brinquedo quebrado, que você precisa consertar, alimentar e levar para conhecer o mundo, porque isso pode trazer o antigo Louis de volta! Eu não tenho mais os olhos de antes, e eu não vejo o mundo colorido e livre de toda a sujeira.” Apertou os lençóis e olhou-me com o rosto transfigurado em sentimentos que não deveriam existir ali, não deveriam se refletir em sua perfeição. “Você não me ama pelo que eu sou agora, você me ama pelo que eu um dia fui! E qual a razão para continuar se prendendo a tudo aquilo? Por que não me permite simplesmente ir?”
“NÃO! É mentira! Está mentindo, está errado.” Subo na cama e agarro seus ombros, forçando-o a se deitar no colchão. “Você não pode me deixar. E não pode me trair. EU NÃO TE DISSE QUE VOCÊ É MEU!?”
“E por que você não faz comigo o que gostava de fazer com aquele William? Por que não me bate e me sufoca? Por que apenas ele pôde conhecer teu lado mais escuro, enquanto a mim resta apenas a falsidade de teus gestos ternos?! Se você me ama, me mostre quem você realmente é. Liberte-se!” Sua voz adentra meus ouvidos feito estilhaço de bala, e meus tímpanos vacilam não querendo deixar suas palavras atingirem o centro de todo meu descontrole, já aceso e feroz, escurecendo meus olhos.
Minha mão vai para teu pescoço também, apertando-o até que você comece a espernear e seus lábios abrirem e fecharem repetidas vezes, gritando por ar, chorando por piedade, ansiando por algo que não sei se posso te dar. Liberdade? Não. Não a quero, e não quero que a tenha. Como pôde libertar-se sem mim? Meu irmão, minha alma. Somos ligados, Louis. Morreremos juntos, meu amor.
Minha outra mão abre o zíper de minha calça e puxo para fora meu membro teso. Afasto tuas pernas e me afundo em ti, sem a delicadeza das outras vezes, porque você parece desejar sentir a dor. E meu quadril se move contra teu corpo, até que você chore e consiga soluçar, porque alivio a pressão em tua garganta apenas para poder escutar teus lamentos e transformá-los em parte da sinfonia em teu nome. Você chora e chora, Louis, conforme atinjo o ápice de nossa sonata – sozinho – em movimentos que te rasgam a carne, mas em nenhum momento você me pede para parar. Você apenas chora, e de novo recolho tuas as lágrimas com minha língua seca, transformando tua agonia em minha saliva.
No final na noite estou sentado na beirada da cama, observando o corpo inerte de William, o rapaz que a mim se afeiçoara e eu matei, enquanto você permanece deitado no colchão, encolhido. Teu sangue escorre por tuas coxas, e eu o lamberia também, se não houvesse me viciado no gosto salgado de tuas lágrimas.
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“Está tudo bem.” Você diz e acaricia meus cabelos, mas eu sou as cinzas acumuladas em um canto da sala, encolhidas, e temendo serem levadas pelo vento. “Você vai ficar bem, Lor.”
“Não...” Tremo. “É minha culpa, minha culpa...” E me encolho.
“Não, é minha, porque não pude voltar para você. Não como você merecia. Eu queria tanto, Lor... Você sabe, mas agora você tem que seguir em frente. Isso está te matando.” Sua voz é tão doce, e eu prefiro tão mais acreditar que é real, Louis. Deixe-me acreditar, mesmo que tudo esteja desmoronando lentamente e meu maior desejo seja arrancar fora meus olhos.
“Não. Não. NÃO!” O abraço, mas não há mais ninguém ali, apenas o vento.
É triste ver um banco vazio no crepúsculo, o banco onde nós deveríamos nos sentar, ou os balanços onde brincaríamos até atingir o céu de mãos dadas. É triste saber que falta, tudo falta, e saber que não dá para comprar, substituir, esquecer, implorar – e eu imploro, e imploro de novo.
É triste lembrar como eu ria contigo.
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Por algum motivo invadem meu apartamento, e só então percebo que as luzes estão apagadas, pois dói quando a claridade invade meus olhos. Eu pisco desorientado, amaldiçoando quem ousa atrapalhar minha paz. Minha e de meu irmão. Quem ousa vir tirá-lo de mim?
E me surpreendo ao ver meu agente literário. Quando ele caminha até mim e se ajoelha à minha frente, é novamente o momento que percebo que estou agachado em um canto e meu apartamento está destruído – outra vez. Ele agarra meus ombros e eu lamento, porque agarrei os ombros de Louis daquela forma, antes de machucá-lo. Eu mereço apodrecer, é o que digo.
“Meu Deus, Lorcan...” Matthew chama o nome desse Deus que desconheço. “Agora entendo porque não cumpriu com o prazo, ou atendeu as ligações. Você não deveria se isolar, se está tão mal.”
“Deixe-me em paz. Não estou sozinho. Louis está aqui comigo.” Digo tentando esconder meu rosto. Posso sentir perfeitamente o gosto salgado em minha boca, mas tudo parece mais seco do que deveria ser. Até mesmo minhas veias parecem ter secado e me transformado em uma casca sem-vida. Não há mais força em meus braços, e tropeço quando Matthew tenta erguer-me.
“Vou ligar para os seus pais.” Ele avisa ao largar-me numa cadeira depois de desvirá-la.
“Onde está Louis? Está no quarto? A porta ainda está fechada?” Pergunto, e Matthew me olha de esguelha, consternado. Odeio-o tanto, Louis. Por que ele não me responde? Por que me olha dessa forma, como se eu precisasse de ajuda? Não preciso, não é? Eu tenho você, meu amor, minha plenitude. Estamos juntos e nossos momentos se gravarão em nossas lápides e pele como ferro quente. Momentos que não podemos esquecer, porque somos servos fiéis do que sentimos um pelo outro, e assim seremos imortais.
Não sei quanto tempo se passa até que meus pais cheguem. Eu viro o rosto quando minha mãe se ajoelha à minha frente, mas ela segura meu rosto e me obriga a olhar para seus olhos chorosos. Seus olhos sempre tão chorosos, e agora eu compreendendo que temos os mesmos olhos, porque também choro sua mesma dor.
“Vocês vieram tirar Louis de mim?” Pergunto e ela balança o rosto e chama por meu nome. Roger também se aproxima e toca meu ombro, mas então as forças retornam e eu me ergo de súbito, afastando-me de ambos. “NÃO VOU DEIXAR VOCÊS O LEVAREM! O quiseram morto!!! Morto! Mas agora ele vai viver e vocês terão de engolir isso, queiram ou não!”
“Meu filho!” Roger me segura, impede-me de desferir um tapa em minha mãe quando ela tenta se aproximar. “Pare com isso! Pare com essa loucura!” Ele exige. “Por favor, eu imploro! Você é nosso filho, e te amamos, por favor.”
Também chora, pai? Chora por mim, o filho desgarrado, que nunca ofereceu nenhum carinho, nenhum consolo, nenhum pagamento. Não são vocês, pais, bancários que oferecem seus favores, feitos de carinhos, presentes e ensinamentos, para depois exigirem com juros a gratidão dos filhos, por coisas que deveriam dar sem entregar um preço? Por que choras agora, no lugar de matar-me e viver com o filho que te apraz? Louis está no quarto. Busque-o. Veja com teus próprios olhos.
Matthew aparece novamente, vindo do corredor. Seu rosto está pálido e parece prestes a vomitar.
“Há... Um homem morto no quarto.” Ele diz, incerto se deveria ser o porta-voz daquela notícia.
Eu me desespero, ignorando a perplexidade de meus pais.
“Eu o matei... matei... É meu irmão? Ele está morto?” Pergunto e tento ir em direção ao quarto, mas Roger me segura. “Pare! Me solte! Eu preciso vê-lo! Eu não o matei, eu aliviei a pressão em seu pescoço! Ele me disse que tudo ficaria bem. Louis me disse!”
“Pare com esse absurdo, Lorcan!” Meu pai me sacode, sou uma criança arteira que precisa ser contida. “Teu irmão nunca acordou do coma! Ele está morto. Ele morreu, Lorcan. Ele morreu.” Roger grita, mas sua voz parece-me um sussurro. Quando me solta, eu cambaleio para trás até bater novamente na parede e escorregar por ela até estar outra vez encolhido no chão.
Levo minhas mãos às têmporas, trêmulo, tentando abafar o choro de minha mãe. Tudo que faz é chorar...
Tudo que faço é chorar...
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