As Leis Do Paraíso
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Houve um momento de sol. Havia pessoas ao redor, e elas falavam, ou tocavam-me o ombro, mas seus rostos eram borrões informes de significados que eu não queria entender, ou ver. Eu queria manter-me cego e acreditar. Naquele momento eu era um ladrão. Roubava da tinta azulada daquele céu claro e dos devaneios de cada um daquelas expressões de Monet alguns instantes a mais sob aquele mesmo sol, aquecedor de almas, decompositor de cores, devorador de sonhos.
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Algo me disse que seria naquele dia. Algo. O fio condutor, a ligação que outrora eu sentia a conectar-nos de uma maneira que, talvez, apenas outros irmãos gêmeos pudessem entender. Segurei a mão de meu irmão, e ela tremia tanto, que eu sabia que gaguejaria caso tentasse conversar. Eu a senti quente e havia vida pulsando ali, sempre teve, era assim que as coisas tinham de ser, e não importava o que os outros dissessem. Eu acreditava. Eu estava certo. Naquele dia eu também sorria e o sol era forte lá fora. Forte a ponto de entrar pela janela e brincar nas mexas claras de Louis, dançar por cada fio e rir ao refleti-los, pedindo para que acordasse.
Levantei da cadeira e fui até a janela, fechando as cortinas. Apenas eu posso pedir que você acorde, Louis. Sou o único com esse direito. Sou o único que deveria ficar aqui com você. Por isso não liguei para nossos pais. Eles te querem morto, Louis, eles já quiseram abandoná-lo por diversas vezes, e eu não deixei. Eu sabia desde o início, eu nunca deixei de acreditar. Nem nunca vou deixar. Atravessaria o desfiladeiro do abismo da loucura por você, e não me importaria de me deixar cair, se isso significasse alguns momentos a mais ao seu lado.
Olhei para a rua brevemente. Aquele cenário era familiar, como olhar pela sacada de meu apartamento e ver os mesmos carros, as mesmas pessoas andando apressadas pelas ruas sem compreender a magnitude de tudo que as cerca. Estão encarceradas dentro da própria mente, presas em seus pequenos mundos de desertos, areia e vento, de montanhas íngremes e rochas traiçoeiras, e elas sempre pensam que precisam atravessar tudo sozinhas. Elas são tão diferentes de mim, Louis, o viajante solitário? Elas conversam entre si, espantam os anjos amargos de suas cabeceiras e acham que amam como a gota de água que compõe e idolatra o oceano. Mas gotas de água evaporam. E para onde elas vão?
Quando me viro, seus olhos já estão abertos. Eu paraliso onde estou, torno-me muralha e aguardo o momento em que seu olhar recaia sobre mim. Não consigo me aproximar; eu temo, como a pessoa que sonhou demais e agora não sabe o que fazer ao receber o que tanto desejou. Tudo que eu quero é que olhe para mim. Olhe para mim, Louis, e me deixe sujar suas íris inocentes com a minha imagem pútrida; suas íris que estiveram adormecidas enquanto eu me tornava tudo aquilo que você não gostaria que eu fosse. Você saberá diferenciar, Louis? Agora, perdido em um lugar que não te parece nem remotamente familiar, acordando de sonhos profundos que poderiam percorrer toda a infinitude do universo, você saberá encontrar o caminho que te conduza desde a pessoa em que eu me converti, até aquela que eu poderia ter sido, ao teu lado?
Louis olha para o teto por alguns segundos, talvez aprendendo a enxergar novamente. Foi bom eu fechar as cortinas, pois não deveria estar acostumado à claridade. Vejo seu peito subindo e descendo suavemente, e ele pisca outra vez, ainda olhando para o teto, analisando aquela angustiante ausência de cores. Seus dedos mexem suavemente, e então todo seu corpo parece estremecer, banhando-se na consciência do que há ao redor. É quando pende a cabeça para o lado e olha-me.
“Lor...” Ele diz, a voz baixa, confusa, mas tão igual às vezes em que lembro, ainda que rouca e arranhada pela falta de uso, que as lágrimas descem de meu rosto e meu coração se afoga no próprio sangue.
Caminho rápido até ele, num reflexo como respirar, e sento-me na cama ao seu lado, puxando sua mão por entre as minhas. Seu olhar me segue e prende-se no meu, enquanto beijo o dorso de sua mão, uma, duas, três... Repetidas vezes, até encharcá-la com as minhas lágrimas. Ele parece tão perdido em desalento, então o puxo para mim, fazendo-o sentar-se, e o abraço pela cintura, afundando o nariz em seu pescoço como algumas vezes já me atrevi a fazer durante todos aqueles anos. Minhas lágrimas mancham a palidez de sua tez, e seu corpo é tão frágil e magro, que me preocupo com a possibilidade de quebrá-lo se o abraçar com um pouco mais de força.
Louis acaricia meus cabelos com dedos preguiçosos e doces, e eu não aguento prender os soluços em minha garganta. Liberto-os, como quem liberta a sina de um espectro negro.
“Por quanto tempo?” Você pergunta, mas espera que todos os meus soluços me deixem e evaporem como o orvalho em uma plantação de trigo. Espera que eu me embriague com o seu cheiro e calor, e com tudo que poderemos ser daqui em diante.
Mas minha voz pesa em minha língua quando digo: “Nove anos...”
É minha vez de esperar, e esperar já é meu cântico da alma, um vulto de amizade que anestesia através da passagem inexorável dos ponteiros no relógio. Mas você não diz nada. Apenas continua acariciando meus cabelos após recostar o queixo em meu ombro.
Mas eu sabia que chorava, em seu próprio silêncio, zelando a própria dor, mas buscando em mim um contato que o puxasse para longe da solidão. Louis jamais gostou de estar sozinho, e por isso o visitei quase todos os dias. Talvez eu jamais devesse ter deixado seu lado, mas, egoísta, olhá-lo sem vida era arrancar em navalha, pedaço a pedaço, todos os acordes que ligam a canção de minha vida. A canção triste. A canção igual ao soluço – melancólico e trêmulo, um pequeno sino de prata – que ele solta após os minutos nos quais eu conseguia apenas abraçá-lo com toda a força de minha fraqueza.
“Eu tinha treze anos...” Murmurou, desorientado. “Agora tenho vinte e dois... Lor, onde estão todos esses anos?” Perguntou-me, baixo, assustado para o pesadelo para o qual acordava.
Quando crianças, eu sempre tinha uma resposta para suas dúvidas, Louis. Mas naquela época elas eram tão fáceis, eram balas, travessuras, guerras de travesseiro, árvores de flores sob um céu amarelo, sorvete de chocolate e caramelo em dias de Natal. Hoje eu não tenho respostas, hoje tudo que eu tenho sou eu mesmo e meu âmago que o sente vivo e meu, novamente. Mesmo que você nunca tenha deixado de ser meu, e minha alma nunca o tenha deixado ir.
“Nós vamos resgatá-los. Esses anos. Nós vamos juntos fazer mais do que alguém vive e faz em nove anos. Vamos viver e não apenas sobreviver, Louis. Faremos isso juntos. Eu prometo. Prometo...” Disse, apressado, querendo fazê-lo entender. Entender que agora estava tudo bem e ele não precisava se preocupar com aqueles anos em vácuo, na escuridão. Não. Isso não é o pesadelo, Louis, não é. Você fugiu do letargo e ele é agora passado, e o passado nos condena se deixarmos que ele jogue sua sombra sobre o presente. Eu preciso que você entenda e, como se beijos pudessem transmitir todas as emoções presas em um frasco onde lampeja a luz do agora e todos os caminhos inexoráveis de cada um de nossos passos, eu o beijo. Beijo seu pescoço, suas bochechas, seus olhos úmidos e o nariz arrebitado, as bochechas encovadas em seu rosto desnutrido. Meu belo, comum, adorável irmão.
Ele se deixou beijar, continuando a chorar e tocar-me os cabelos, o rosto, conhecendo minha nova aparência. Seus olhos não eram como os de antes, não continuam o viço da juventude que ainda não sofreu e apenas espera novos nasceres de sol; porém, ainda assim, parecia transmitir o brilho de sua ingenuidade e doçura, e aquilo era tudo de que eu precisava. Ele e seus olhos tão divergentes dos meus. Poderia beijá-los, lamber suas lágrimas salgadas e considerá-las o melhor dos doces, porque se ele chorava, era porque estava ali, acordado, libertando suas mágoas em meu colo.
“Você vai ficar comigo, Lor?” Ele perguntou, e não era um homem de vinte e dois anos. Era a mesma criança que eu havia perdido para um tolo jogo de futebol. “Vai cuidar de mim...? Eu estou... Estou com medo.” Tremeu, débil, fracamente tentando deixar-nos mais próximos. Parecia querer fundir-nos e assim roubar a força que acreditava-me possuir. Esta força que nos sustenta as pernas em dias difíceis, mas não nos salva dos tormentos que invadem a mente.
“Sempre... Sempre, Louis. Você é meu. Meu. Vai ficar comigo.” Assegurei, afagando seus cabelos e costas, até segurar seu rosto e aproximar nossos olhares. “Vou cuidar de você e nunca mais vou deixar que alguém te tire de mim. Dessa vez farei tudo direito. Dessa vez...” Me engasguei com meu pranto, desequilibrando-me da corda bamba pela qual eu caminhava há tantos anos.
“E o pai e a mãe?” Ele perguntou, parecendo mais aliviado; ainda que apenas superficialmente. Talvez eu, mais do que muitas pessoas, soubesse o quanto é possível esconder por trás filtro de nossas emoções; o que permitimos oferecer à observação dos curiosos.
Estão mortos. Há apenas nós dois. Era o que eu queria dizer, para roubar para mim toda a dependência e atenção de meu irmão. Nossos pais quiseram te matar. Eu quis falar também, agora com uma raiva vívida, incontida que borbulhava em minha saliva. Por que se lembrar deles agora, Louis? Eu não basto? Não sou o suficiente no encaixe perfeito que existe entre os caminhos emaranhados que nos distanciam e unem? Esqueça-os. Eles não te amam como eu amo.
“Não os avisei.” Foi o que disse, guardando e filtrando o que poderia dizer por agora. “Só consegui pensar em você quando o médico falou que você estava perto de acordar.” Eu não diria que fazia cinco dias que eu estava dentro de seu quarto, e apenas saía para ir ao banheiro, e nisso nunca ligava para nossos pais. Observava aos poucos Louis acordar. Ele dera pequenos sinais ao longo daqueles cinco dias. Movera uma mão, ou havia um espasmo na perna, algumas vezes os cílios estremeciam, de modo que eu estremecia junto, achando que acordaria, mas eles retornavam à mesma extática de antes. Eu falava e falava, pois o próprio médico dissera-me que, agora, havia mais chances de que ele me escutasse, pois seus sentidos iam voltando aos poucos até que ele pudesse, enfim, acordar. O doutor Gause, preocupado, havia mandado que me alimentassem com a terrível comida do hospital, os quais eu recusei praticamente todos.
Ainda havia alguns aparelhos conectados a Louis, em seu braço, e ele permanecia com o respirador no nariz, limitando-lhe os movimentos.
“Eu acho... Acho que escutei sua voz, Lor... Enquanto eu dormia.” Sussurrou, não parecendo brabo por eu não ter avisado Helena ou Roger, e um alívio inevitavelmente me percorreu. Eles não eram importantes. Eu estava ali, e por isso eles não importavam.
Louis adormeceu.
Eu chamei o médico, desesperado, achando que ele havia voltado ao coma, mas Peter explicou-me que seria assim por mais alguns dias. Louis dormiria, acordaria, ficaria consciente por alguns minutos, e em alguns dias conseguiria ficar acordado por mais tempo. O tempo. Ele nunca vai me abandonar? Nunca vai deixar que as coisas transcorram sem que suas garras deixem marcas em cada parede, cada folha que cai da árvore no outono, ou em cada coração que palpita mais forte pela emoção? O tempo... Imperdoável e implacável tempo, com seus grãos de areia caindo em meus olhos e cegando-me pouco a pouco.
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Houve milhares de recomendações. Centenas de palavras que eu bebia vorazmente, porque significavam a recuperação de Louis. O médico dizia que os nove anos de fisioterapia haviam sido fundamentais para que ele ainda tivesse chances de voltar a caminhar normalmente. Ele teria de fazer novas sessões e, depois disso, seria bom que iniciasse algum esporte. Natação era uma boa escolha, Peter afirmara.
“O desenvolvimento motor de uma pessoa se completa apenas aos dezoito anos. Louis perdeu cinco anos de desenvolvimento preso naquela cama. Mas ele pode recuperar esses anos. Demorará um tempo, mas com uma boa alimentação e com atividade física adequada... É bom que Louis receba acompanhamento psiquiátrico também. Perder nove anos de vida mexe com uma pessoa... A mentalidade dele ainda é de um pré-adolescente.” Peter alertara, entregando-me em palavras cuidadosas e timbres suaves todos os ingredientes para que meu irmão se recuperasse plenamente. Eu poderia criar um caderninho apenas para aquilo, e o leria todas as manhãs, como meu novo vício, maior do que cigarro ou balas de menta. Tudo por Louis.
Meu Louis.
Mas não irei cansá-los com Helena e Roger. Eles apareceram, choraram abraçados a meu irmão, e Louis chorou em seus braços; porém olhava-me por cima dos ombros deles, parecendo reparar com acuidade cada tênue vibração de minha expressão sombria ao observá-los. Aqueles que tentaram matá-lo. De novo e de novo. E continuavam querendo. Eles pediram para ficar com Louis. Disseram que seria melhor se ele ficasse com os pais, não comigo, seu terrível irmão anti-social que nutria desejos incestuosos por seu corpo debilitado. Os doentes eram eles. Eu jamais tocaria em Louis antes de tê-lo perfeitamente saudável e são. E jamais o tocaria sem seu consentimento. Jamais conspurcaria nossa relação com um estupro. Apenas a ideia de ele não me querer tanto quanto eu o queria causava-me náuseas e eu poderia mutilar-me pouco a pouco, arrancando pequenos diamantes negros de meu coração, caso ele me negasse.
Não negue-me, Louis. Depois de tanto tempo e tantos sonhos mortos, eu não aguentaria. Beije-me e jogue-me nas labaredas do inferno com sua saliva adocicada. Mas não me negue.
Eu obviamente briguei com meus pais. E Louis assistiu a tudo. Helena chorou. Era o que ela sabia fazer de melhor. No momento em que ela se sentia acuada, ela chorava. E o que seria da humanidade além de choros se todos se banhassem em lágrimas de decepção, fraqueza e mágoa toda a vez que esses sentimentos amarfanhassem seus débeis corações? Eu poderia ver-me como um filho adotivo, pois jamais conseguiria imaginar-me saído daquele ventre, não fosse por Louis, e as lamúrias que mancharam seu rosto ao ver-nos brigando daquela maneira.
“Vocês o jogariam num caixão e o selariam sob a terra, se isso nos mantivesse separados!” Eu havia gritado, socando a parece e deixando que a dor física aplacasse minha ira. A pele amassou-se contra meus ossos, mas nem isso era capaz de acalmar-me.
“Lorcan, por favor, você não está sendo coerente! Ouça o que está falando!” Helena gritara em resposta, com as bochechas brilhando pelos rastros das lágrimas. Os olhos eram cristais ensanguentados em decepção e desespero. Eram da mesma cor dos meus, e dos de Louis. Eu odiava que ela tivesse aquele mesmo traço. Ela não deveria. Eu não gostava de seus olhos, e amava-os ao mesmo tempo. Ela havia nos entregado aqueles olhos, mas deveria tê-los arrancado ao fazê-lo; ela deveria saber que não podia meter-se entre Louis e eu.
“Helena... Deixe que Louis decida isso.” Fora Roger o ponto de equilíbrio. Ele sempre era. Seu rosto parecia permanentemente cansado, ainda que, nas minhas lembranças da infância, eles brilhassem castanhos como a mais saborosa das avelãs. Aqueles anos também o haviam mudado, e uma tristeza velada em fios de prata permeava cada um de seus traços envelhecidos.
Todos olhamos para Louis. Ele parecia mais pálido do que em todas as vezes nas quais eu o visitara durante seu coma. Olhou principalmente para mim, brindando-me com seus orbes confusos. Meu coração disparou apenas com aquilo. Ver-lhe os olhos abertos seria, talvez, para sempre uma alegria inusitada e complexa; e eu poderia senti-la em qualquer lugar, qualquer momento, e duraria apenas o tempo necessário para eu desejar senti-la novamente.
As pequenas mãos de meu irmão torceram sobre a cama e ele abaixou rapidamente os olhos, conversando em silêncio com o lençol em busca de sua resposta. Admito que a simples dúvida dele, quanto à com quem deveria morar, machucou-me. Meus olhos quiseram chorar, como os de minha mãe, e essa deveria ser uma das pusilanimidades que ela me doara junto com eles. Impedi-me e meu rosto transformou-se numa rocha erodida pela forças de meus sentimentos.
“Eu... Eu vou ficar com o Lorcan. Ele disse que iria cuidar de mim. Por favor, entendam... E não briguem mais.” Palavras tão simples que, unidas, poderiam carregar para longe todo o sofrimento de uma alma. Era assim para mim, cada vez que Louis falava. E falava em meu favor. Amava-me, como eu o amo.
E então o levei para meu apartamento, depois de enchê-lo com tudo que ele poderia gostar. Infelizmente não o enchi de doces, ordens do nutricionista; porém pintei as paredes, coloquei quadros mais cheios de vida, mudei alguns móveis e comprei inúmeras roupas para ele. Ainda o levaria comigo às lojas para que escolhêssemos juntos, mas por hora ele teria o que vestir. Eu empurrava sua cadeira de rodas quando chegamos. Ele estava tão magro que eu sequer precisava fazer tanta força, era como empurrar uma imagem surreal, um delírio de minha mente que possuía cor, brilho, melodia e tons de ouro. Mas era real. Finalmente real.
“Isso é tão estranho...” Louis sussurrou, tão baixo, que eu precisei apurar os ouvidos e juntar as sílabas das palavras em quebra-cabeça para entendê-lo. Parei a cadeira de rodas perto do sofá e, gentilmente, ajudei-o a se sentar no sofá. Ele forçou os próprios músculos para tanto, mas se apenas sorrir lhe era difícil, o que dirá mover-se segundo os anseios da mente? Ajoelhei-me à sua frente e segurei suas mãos, apertando-as entre meus dedos, mais do que nunca querendo mantê-las ali pela eternidade. Eu congelaria aquele momento, e o pintaria mil vezes nas palavras de meu diário, se eu fosse capaz de expressar em tinta e verso tudo que morria e florescia em meu peito, em um ciclo inconstante.
“Promete que vai me contar tudo que está sentindo? Que irá dizer-me quando está triste, feliz, ansioso, chateado... Que não irá esconder nada de mim e vai permitir que superemos tudo isso juntos? Você promete, Louis?” Perguntei, apertando suas mãos. Olhava-me, tentando decifrar o homem que eu era. A pessoa em que eu me transformara durante todos aqueles grãos de areia. “Prometa-me.”
“Eu prometo, Lor.” Apertou fracamente minhas mãos em retorno e fungou, abaixando o rosto e fechando os olhos. Eu não os queria fechados. Vi-me a derramar gotas de orvalho em suas mãos, pois a noite chegara ao fim e agora eu podia voltar meus olhos para o sol e não senti-los derreter com as chamas de tão magnânimo astro. Beijei cada um de seus delicados dedos e lambi os vãos entre eles, recolhendo o sal de meu próprio pranto. Um pranto feliz, enfim.
Ergui-me apenas o suficiente para que meus lábios alcançassem seu pescoço e eu recolhesse ali as lágrimas gêmeas que ele soltava e escorriam até a gola de sua camiseta. Louis deixou a cabeça pender para trás, contra o encosto do sofá, e uma de suas mãos se soltou e agarrou meus cabelos com a mesma força de um horizonte que se banha na luz das primeiras horas da manhã. Lambi-o até limpar-lhe todas as marcas de sua aflição. E o faria pelo tempo em que chorasse.
Mas em algum momento seus olhos secam, e eu o abraço, embalado no consolo terno de seu colo.
Notas finais
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Beijos, até o próximo! :)
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