Notas iniciais
Olá! Para compensar a demora, um capítulo cheio de ação para vocês ♥

Aquele lugar iria servir.

Do prédio abandonado, Driya tinha uma boa visão do grande portal recém-aberto no pavimento desgastado no centro de um balão de retorno que há séculos não era usado por um automóvel. Como eventos espontâneos, Driya não podia controlar quando os portais apareciam nem quando se fechavam. No entanto, ela podia tentar mantê-lo aberto por mais tempo, e era o que faria.

Tirou a bolsa que carregava no ombro, espalhando os materiais de seus feitiços e pegou um gasto fragmento de giz. Antes de tudo, precisava se proteger. Se Khlyen estivesse certo, aqueles humanos com magia apareceriam mais cedo ou mais tarde para fechar o portal, e talvez a tratassem com hostilidade. Aquele com o poder da terra, o único que ela conhecera, não parecia hostil, apesar da postura defensiva, mas poderia ter sido pela ameaça mais urgente do golem, então Driya não se arriscaria por enquanto. Descendo as escadas até o andar inferior ao seu, Driya desenhou um grande círculo na parede, preenchendo-o com símbolos mágicos irreconhecíveis para as pessoas da Terra, e lançou um feitiço de ocultação para esconder as marcas dos olhos humanos. O círculo a avisaria da presença de qualquer pessoa que passasse na frente dele, já que Driya não poderia ouvi-los se aproximar. Em seguida, de volta ao seu andar, Driya fez outro círculo no chão, logo na entrada da escadaria.

Agora estava pronta para começar.

~*~

— Rower! — O grito enraivecido tomou todo o corredor. O Pretor suspirou, lamentando de olhos fechados pela paz que acabava de perder. Não precisou olhar para trás, a voz era inconfundível, e o som firme e ritmado de uma bengala apenas confirmou a suposição. A Dra. Vermont se aproximava. Por que, dentre todas as pessoas da Cidade Aurora, precisava encontrar justo com ela? Rower continuou andando. O corredor não estava vazio, e ele não queria uma cena que poderia desmoralizá-lo. Mas, apesar da perna ruim, Marie o alcançou e se pôs no seu caminho, parecendo ainda mais enfurecida do que o normal. — O que você pensa que está fazendo?!

Rower se limitou a responder o grito com um olhar aborrecido para a mulher a sua frente, interrompendo seu caminho com o cabo da bengala encostando desafiadoramente em seu peito. Sua aparência elegante não combinava nada com a personalidade, na opinião dele. Suspirou uma segunda vez, percebendo que o corredor não estava mais tão movimentado, apenas um ou outro desocupado curioso observava os dois. Marie tinha o poder de afastar pessoas.

— Olá, Dra. Vermont. Se tem algum assunto a tratar comigo, o que acha de irmos para meu gabinete?

— Ah, cale a boca!

Você me fez uma pergunta, doutora — respondeu, mantendo uma máscara de tranquilidade. Marie era a única pessoa em toda a Cidade Aurora que se atreveria a falar com ele assim, e, apesar de não ser de uma das grandes famílias, era a única pessoa em que ele não podia tocar. Rower não ficava muito à vontade em ser cobrado daquela forma, mas Marie era importante demais para provocar. — Uma que eu não tenho como responder, não faço a menor ideia do que se trata. O que está incomodando você dessa vez, doutora?

— Você sabe bem! — Em um raro ato de comedimento, Marie afastou o bastão, abandonando a postura inquisidora e abaixando o tom de voz. — Por que cortou o financiamento do minha pesquisa?

Sim, isso... Rower sabia que arranjaria briga com ela quando tomou a decisão, mas, ainda assim, era uma oportunidade interessante demais para deixar passar.

— Gerenciamento de gastos. Existem outras pesquisas que se adequam mais aos interesses de Aurora no momento.

— Se adequam mais, Rower?! Meu laboratório alimenta essa cidade! Não falta comida aqui por causa da minha pesquisa e você me diz... O que pode ser mais urgente?

— Proteção. Com esses portais lá fora, bom, o mundo está mudando, precisamos saber o que nos espera.

— Você quer dizer "armas"? Você cortou meu laboratório para produzir armas?

Marie apoiava o peso do corpo na bengala, apertando o cabo com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Havia mais do que raiva em sua postura, Rower sabia. Marie temia esta ser passada para trás, como seu antigo colega, Amos Skinner. Sua paranoia não era sem razão, visto que o Pretor Vauxhall, seu antecessor, era um ditador insano.

— Eu não disse armas. Mas precisamos entender essa nova ameaça, e eu não vou voltar atrás nessa decisão. Além do mais, o laboratório de microbiologia não foi cortado completamente. Faça um esforço e conseguirá manter as atividades muito bem. Quem sabe se você diminuir sua equipe?

— Minha "equipe" sou eu e a Sybeal Skinner!

— Então reduza a produtividade.

Marie bateu com o bastão no chão, irritada, e Rower se perguntou se aquilo poderia ser considerado uma arma. Talvez o próximo alvo fosse o seu rosto.

— Sua família vai reduzir o consumo também, ou as consequências do seu gerenciamento são apenas para a Cidade Baixa?

— Suponho que um esforço da minha parte também seja... necessário.

— Oh, que nobre... — respondeu, com o olhar afiado de sarcasmo. — Mas e as outras grandes famílias?

— Dra. Vermont, eu realmente tenho outros assuntos a tratar agora, mas, se posso tentar tranquilizá-la, eu garanto que você não está perdendo a importância que tem em Aurora. Você ainda é a pessoa com maior poder dentro dessa cidade.

O maior exemplo disso era o julgamento fajuto de seu filho, Luc. Qualquer um acusado de assassinato na Cidadela seria executado sem alternativa. Mas não o filho da doutora Vermont, a pessoa que realmente mantém Aurora de pé.

Rower não esperou uma resposta. Sua paciência havia acabado, e ele de fato tinha outros compromissos. Então, Marie chamou seu nome, em um tom frio e calmo, fazendo-o olhar para trás.

— De quem é a pesquisa que você está financiando?

Rower não respondeu de imediato, mas sabia que Marie não era de agir estupidamente.

— Erin Walker.

~*~

— É impressão minha, ou eles estão ficando mais fáceis de encontrar? — Vermont perguntou, olhando para o portal à distância.

— Não sei, mas com certeza estão ficando mais estranhos — respondeu Tony.

O portal dessa vez se abria horizontalmente sobre o asfalto, formando uma estranha miragem pela luz que emanava de suas bordas. Era tão largo que quase encostava as calçadas de um lado a outro da rua circular e, em volta dele, três gigantescas árvores emaranhavam as raízes umas nas outras antes de desaparecerem para o Desconhecido, como dedos de uma mão monstruosa a forçar a abertura ainda mais.

— Essas árvores... elas vieram de lá?

Catarina parecia ainda menos à vontade na Velha Cidade do que ficava na floresta. Era uma sensação inerente, que mal podia explicar. Ela vivia em Aurora desde pequena e o grande segredo das suas origens às vezes fazia ela tentar esquecer que vinha das florestas. Mas nas profundezas de suas memórias, lembrava que seus pais temiam muito a Velha Cidade. Todos os Andarilhos a temiam por causa do veneno no ar e na terra, veneno que em Aurora ela aprendeu ser a radiação, mais intensa ali do que nas florestas. E a joia em seu pescoço não a protegia, apenas protegia Tiberius.

— Pelo jeito sim — respondeu. Podia ver que ele também estava preocupado com a situação dela, mas Tiberius disfarçava melhor. — São as únicas plantas na rua, não acho que poderiam ter crescido tanto naturalmente sem mais nada ter crescido em volta. O que acha, Calisto?

Normalmente, Tiberius não se incomodaria em perguntar a opinião dela sobre algo tão trivial, mas a nômade passara todo o trajeto em silêncio, cabeça baixa e péssima disposição, completamente diferente da habitual empolgação e curiosidade que ela mostrava nas missões. É claro, o mau humor de Calisto não era a real preocupação de Tiberius, mas a causa dele. Se Calisto estava incomodada com algo sobre a missão, ele queria saber o que era.

A nômade revirou os olhos, impaciente.

— Ah, tanto faz, vamos acabar logo com isso?

A resposta ríspida com certeza não era de seu feitio, e se alguém no grupo ainda não tinha percebido seu aborrecimento, agora não havia dúvida. Porém, à exceção de Vermont, ninguém ali sabia das ameaças que Calisto recebera de Rower no dia anterior.

Astra logo tentou desviar o clima da conversa:

— Nenhuma criatura atravessou dessa vez? Estava na hora de termos sorte.

— Não! — Vermont alertou. — Nunca, jamais diga uma coisa dessas!

— Que nós temos sorte?

— Pare de dizer essa palavra!

Astra o encarava com descrença visível em seu rosto, já que ela, assim como Calisto, tinha abolido de vez o traje protetor, sem saber se ele falava sério ou não. Não o conhecia bem, mas já testemunhara ele dizer absurdos descarados com a maior seriedade. Mesmo assim, nem Vermont podia realmente acreditar que falar em sorte poderia afastar a sorte.

Calisto suspirou, totalmente desinteressada na conversa e se aproximou do portal. Os outros ficaram por lá mesmo, já que não parecia ter tarefa alguma para eles. Pela primeira vez percebeu como seus poderes eram estranhos. Mesmo com uma distância razoável das outras joias, Calisto ainda mantinha seus poderes, mas sempre precisava chegar perto dos portais para conseguir fechá-los. Quando apenas cinco passos de distância a separavam da fenda dimensional, Calisto ergueu a mão, concentrando-se de olhos fechados em reunir a energia necessária para aquilo. Então sentiu algo fino e áspero prender seu pulso.

— Gente... — Calisto abriu os olhos, vendo a estranha raiz se enroscar ainda mais no seu braço. Percebendo que aquilo era uma criatura do Desconhecido, Calisto tentou fechar o portal de imediato, mas, um segundo antes de conseguir, a raiz se retesou, torcendo com força seu antebraço até o pulso. Calisto arquejou com a dor súbita, fazendo um disco de energia cortar as raízes como um facão. Assim que se voltou para o portal, novas raízes já estavam aos seus pés, e com um puxão, Calisto foi derrubada e arrastada para longe da fenda. — Gente!

Tony, Tiberius e Catarina perceberam primeiro o que estava acontecendo, mas o grito de Calisto, assim como os outros correndo em sua direção, interrompeu a conversa aleatória de Vermont e Astra, que logo se juntaram aos outros.

— Tirem isso de mim! — Calisto gritou, usando o poder da sua joia para queimar as raízes, mas o pouco que conseguia destruir logo era substituído. Ela estava de joelhos, com as raízes lhe envolvendo feito cordas e, quando conseguiram imobilizar seus braços sobre o tronco, ela não conseguiu mais usar o poder da Joia do Espírito.

Vermont já chegou com sua faca, enquanto os outros três tentavam soltar Calisto com as mãos. Astra usou o isqueiro e envolveu os punhos em chamas, mas era difícil queimar os ramos sem ferir Calisto também. Tiberius tinha o mesmo problema com a espada que sempre trazia nas missões, cortando uma por uma por não ter a mesma precisão que teria uma faca para aquele trabalho delicado. Bruscamente, Tiberius foi ao chão, precisando fincar a espada no solo para evitar ser arrastado para longe dos outros. Um jato de fogo de Astra destruiu as raízes que o puxavam e ele usou a espada para cortar as que permaneceram enroladas em suas pernas. Sob o traje de proteção, eles não conseguiam sentir as raízes até que começassem a apertar. Astra olhou de relance para Vermont, dizendo: — Ok, me convenceu! Não falo mais aquela palavra...

Com uma das mãos novamente livre, Calisto voltou a queimar as raízes, mas logo Astra foi arremessada para trás com brutalidade, caindo quase ao fim da rua. Ela tentou se recuperar rápido, mas outras plantas brotaram do asfalto prendendo suas pernas e braços, o isqueiro não estava mais na sua mão e ela também não alcançava o canivete. Ao contrário de Calisto, as raízes não se contentaram em imobilizá-la, elas continuavam surgindo, passando sobre ela e forçando Astra a se abaixar cada vez mais até que estivesse deitada sobre o asfalto, sem conseguir mover membro algum, em uma vulnerabilidade desesperadora.

A distância de Astra fez a Joia do Espírito parar, mas agora Calisto já tinha sido libertada e os cinco corriam ao socorro de Astra. Não haviam cruzado metade do caminho quando todos os galhos das árvores gigantes despertaram, alguns atacando diretamente e outros barrando o caminho.

— Mais alguém achando isso mais irritante que o golem? — Catarina perguntou, desviando de um dos galhos que em seguida foi retalhado pela espada de Tiberius.

— Mas qual é o problema dessa árvore comigo?! — Calisto gritou, ao ser novamente capturada pelos galhos.

De fato, eles não a atacavam desordenadamente como faziam com os outros, eram movimentos precisos, como se a árvore realmente estivesse tentando agarrá-la. Dessa vez, os galhos a arrastaram de volta aos arredores do portal e Calisto foi jogada de costas contra uma das árvores, as raízes logo cobriram suas pernas e braços e continuaram a subir até metade do tórax, apertando com tanta força que a sensação era a de que Calisto não estava sendo imobilizada, mas sim incorporada ao tronco da árvore, sem possibilidade de escapar dessa vez, e sem alternativa alguma além de observar enquanto os outros se defendiam dos ataques.

Astra sentia o desespero subir pela sua garganta, todas aquelas amarras estavam lhe sufocando, mesmo que não usassem mais força do que o necessário para mantê-la no chão. Ela nunca sentiu algo parecido antes. Sua respiração estava acelerada, mas Astra não sentia o ar, e temia que a qualquer momento fosse desmaiar. Ela não conseguia ver os outros, mas ouvia os sons de seus ataques, e eles estavam tão distantes que ela sentiu as raízes ainda mais apertadas. Eles não conseguiriam ajudá-la. Ela podia ver o isqueiro à sua esquerda, mas mesmo que pudesse mover o braço, ainda não o alcançaria. Todas as suas chances estavam fora do seu alcance, e tudo que Astra sentia era pressão e medo.

Pressão e medo. O que despertava seus poderes no início, quando ainda não tinha aprendido a controlar a joia? Pressão e medo. Ansiedade. Raiva. Tudo o que ela sentia agora. Até o momento era impossível, mas Astra desejou transformar tudo aquilo em combustível. Afinal, as joias não ficavam mais fortes junto da Joia do Espírito? E ao seu redor não tinha todos os elementos necessários para queimar? Se aqueles sentimentos eram combustível para o fogo, Astra estava cheia deles até a boca. Sua alma já estava em chamas, só precisava conseguir trazê-las para fora. Com o esforço e a concentração, Astra mal percebeu a fumaça escapando das raízes que envolviam suas mãos. Sentia a temperatura aumentar, mas não de forma desagradável, e as chamas vieram, devagar no começo, mas logo se espalharam pelos ramos. Finalmente livre, Astra inspirou profundamente o ar, aliviada, apesar da exaustão provocada por sua nova habilidade. Assim como quando usou a Joia do Fogo pela primeira vez, a magia tinha consumido suas forças. Mas não havia tempo para se recuperar, precisava voltar para perto dos outros, para que Calisto fechasse o portal, e novas plantas já tentavam brotar em sua direção.

Os outros estavam com problemas também, seus poderes não pareciam úteis contra as plantas vivas. O ar não era capaz de afastá-las por muito tempo. Tony às vezes erguia uma parede do solo a fim de se defender de alguma investida, mas as plantas simplesmente desviavam seu caminho. Vermont usava a faca para cortar os ramos que prendiam seu braço, ao mesmo tempo que tentava evitar que as raízes subissem por suas pernas. E Calisto só podia observar enquanto as árvores tentavam impedir que Astra se aproximasse o bastante para ajudar os demais. Ali, Calisto era inútil, incapaz de mover qualquer coisa além da cabeça, e provavelmente não por muito tempo, já que uma raiz deslizava vagarosamente sobre seus ombros feito uma cobra. Mas ao menos ela não estava no meio da ação. Calisto estaria perdida se precisasse se defender como os outros Portadores, mas, felizmente, a árvore se contentava apenas em prendê-la...

Então, quase por instinto, tudo se tornou claro. A luta era como um quebra-cabeças com uma peça à menos, não fazia sentido algum. Mas Calisto, de alguma forma, entendeu a imagem completa e gritou:

— Isso não é natural!

— Não brinca! — Vermont resmungou, ainda lutando contra as plantas. — Quantas trepadeiras endemoniadas você via na floresta?

— Não é isso! Outra coisa está fazendo isso! — Calisto virou o rosto, tentando desviar por mais tempo do galho que tentava cobrir seu rosto. — As plantas não são a criatura!

Foi a última coisa que conseguiu falar antes de ter a boca coberta, quando a árvore pareceu se dar por satisfeita e as raízes enrijeceram naquelas posições.

Os Portadores se entreolharam, absorvendo a nova informação. Estranhamente, fazia sentido. Os ataques apenas pareciam desordenados, mas havia racionalidade nos movimentos das árvores, impedindo Calisto de se aproximar do portal, separando-a do resto do grupo para neutralizar seus poderes. Também não era qualquer criatura. Algo controlava as árvores, algo que entendia a natureza e o funcionamento das joias.

Mas, longe de ser uma descoberta animadora, significava apenas que não importava o quanto eles lutassem contra as árvores, a luta não acabaria. Porque sua adversária estava longe da batalha, em segurança e usando do mínimo de esforço para combatê-los.

— Por que ficamos tão perto dessa vez?

Apesar do soldado Killian Redfield ter escolhido voltar a participar da escolta dos cientistas depois de se recuperar dos ferimentos da primeira missão, ele não parecia tão confortável. Killian não era o único, outros soldados também pareciam apreensivos, com razão. Estavam tão perto dos Portadores que podiam ouvir os sons confusos do que quer que estivesse acontecendo com eles.

Alessa suspirou, por dentro do traje de proteção. Ela e Killian se conheciam há tempos, eram grandes amigos, então não se importava de ser sincera.

— Confesso que não foi minha ideia dessa vez — falou baixo, para não ser ouvida pelos outros, e apontou com o queixo na direção de Sybeal Skinner, que andava de um lado para o outro do salão do prédio abandonado com um medidor de radiação em mãos, completamente alheia ao perigo próximo deles. Sybeal era a única civil sendo escoltada dessa vez. Erin Walker estava ocupada, e o terceiro membro tinha desistido das missões depois do fiasco que foi a primeira. — Ela viria de qualquer forma. Quase deu pulinhos quando soube que estávamos vindo para a Velha Cidade. Você sabe como ela é...

Killian sabia. Pensar nisso o deixava abatido e sabia que Alessa se sentia da mesma forma. Liam, o irmão mais velho de Sybeal, tinha sido o melhor amigo deles por bons anos, desde que começaram o serviço militar. Killian, Alessa e Liam eram quase inseparáveis. Mas os irmãos Skinner, Liam, Ewan e Sybeal, também eram inseparáveis, então, por causa de Liam, os dois grupos muitas vezes se encontravam. Era triste saber que Sybeal era a única deles que restava.

— Mas o que foi isso? — Veracruz perguntou, postura alerta, após ouvirem o que parecia uma pequena explosão.

— Seja o que for, eles conseguem lidar. Eles não deixaram a desejar nas missões anteriores... — Enquanto Alessa terminava de falar, os Portadores tentavam fazer contato pelo rádio comunicador. — Aqui é Rower. Pode falar.

General Rower, precisamos de ajuda! — falou Tiberius Magni, seu tom sério e cansado impediu os soldados de enxergarem a ironia no pedido.

— Pode falar.

Estamos lutando contra uma cortina de fumaça, o inimigo real não está aqui, mas não conseguimos nos afastar! Seja lá o que for, deve estar próximo, provavelmente nos observando... — A fala foi interrompida por um som metálico e veloz, alguns murmúrios distantes e irreconhecíveis, antes de Tiberius voltar a falar. — Pode averiguar a área e nos informar se encontrar algo? Pelo menos precisamos saber onde procurar. Não vamos conseguir fechar o portal antes disso!

— Agora mesmo, Magni.

Seja o que for, é perigoso, então não se aproximem!

Ao fim da comunicação, todos observavam Alessa, até mesmo Sybeal tinha desviado um pouco a atenção de suas amostras. Ninguém estava tão disposto assim a procurar pelo que quer que estivesse causando problemas a uma equipe de usuários de magia. Se Alessa sentia o mesmo, não demonstrou.

— Redfield, Faraday, vocês ficam aqui com a Skinner. O resto vem comigo — disse, antes de deixarem o prédio.

— Terminei — Sybeal informou, alguns minutos depois, sentando-se no chão. Faraday olhava pelas janelas, atento, apesar de não conseguir ver para onde a general tinha ido. Ele e Killian estavam com as armas nas mãos, mesmo que Killian parecesse mais relaxado do que o colega, não vacilava sua atenção. Para este, que era quase um amigo, Sybeal perguntou casualmente: — Você não acha um tédio ter que ficar fora da ação?

— Sinceramente, minha perna ainda dói pela última vez que estive no meio da ação... Mas eu nunca vi você se entediar com trabalho.

Killian quase conseguia sentir o sorriso zombeteiro de Sybeal através do visor do capacete. Ela tinha um espírito aventureiro incontrolável, não surpreendia a ninguém ela ter se voluntariado para aquelas explorações. Mas ele suspeitava que não fosse apenas o amor pela aventura que a fizera tomar aquela decisão. Todos os membros da expedição recebiam armas, por ordem do Pretor, mesmo que uma faca ou um canivete, já que armas de fogo eram escassas. Sybeal não precisou, pois sempre estava com o conjunto de adagas que Ewan lhe dera de presente, e, mesmo que não pudesse ver sob o traje, Killian sabia que ela levava no pescoço o fino apito de pássaros que Liam lhe dera antes de desaparecer em missão. Ewan tinha morrido na Cidadela, mas com Liam era diferente, era difícil aceitar a perda de alguém cujo corpo nunca foi achado.

— Ah, as medições eram um favor que Erin me pediu, já que ela não pôde vir, ela está ocupada com a nova pesquisa. A radiação é mais o lance dela, o meu lance são plantas. Colhi minhas amostras logo que chegamos, mas não parece ter nada de interessante. Tipo, eu esperava encontrar ao menos uma planta legal aqui na Velha Cidade, mas...

— Afastem-se! — Faraday gritou, recuando das janelas no momento em que algo arrebentou o vidro.

Por instinto, Killian se colocou na frente de Sybeal, o fuzil padrão dos militares já preparado para se defender... até perceber que estava mirando sua arma contra uma planta. Uma raiz enorme e retorcida, que se agitava de maneira estranha pela sala, mas não atacou ninguém.

— Não se movam.

— Killian, é só um palpite, mas eu acho que isso aí não tem olhos — zombou Sybeal, apesar de ter se encolhido no lugar pelo susto. Ela se levantou, segurando uma de suas adagas e andou alguns passos na direção da raiz, apesar dos sinais desaprovadores do soldado. Sybeal se aproximou da ponta mais fina da raiz e em um golpe rápido cortou um pedaço fora. Killian e Faraday a observavam, estáticos. — O quê? O universo ouviu meu pedido, eu não podia perder a chance de pegar uma amostra. Não é sempre que se tem essa sorte.

— Não diga essa palavra... — Faraday pediu.

— Sorte?

Novamente, ouviram o som de vidro estilhaçado, dessa vez mais distante, e depois o som de tiros e coisas sendo derrubadas.

— Isso foi aqui?

— Tem algo lá em cima!

Driya estava encostada na parede, abaixo da janela que usava para vigiar o portal, protegendo-se dos tiros. Não sabia que os Portadores tinham uma equipe de apoio. Mesmo sem poder ver a luta, Driya continuava movendo os dedos envoltos em um fraco brilho verde, controlando as raízes na rua. Precisava manter os Portadores ocupados, agora que sabiam onde ela estava, pois com os humanos ela conseguiria lidar, mas teria problemas se os Portadores aparecessem pessoalmente.

Os tiros pararam, mas Driya não se arriscaria a espiar novamente pela janela. Onde estavam Khlyen e Yasune? Por que não tinham passado pelo portal? Driya manteve o portal aberto por mais tempo do que eles tinham pedido, então o que os impediu?

Interrompendo seus pensamentos, um símbolo mágico brilhou na sua frente, uma versão menor daquele que tinha desenhado na escadaria. Os humanos estavam indo em sua direção. O que quer que tenha acontecido com Khlyen, não importava mais. Driya precisava sair.

Driya correu para fora da sala, agarrando a alça de sua bolsa no caminho. Subiria um andar e sairia por lá. Porém, não tinha sido rápida o bastante, e Driya parou seu caminho ao ver os três humanos a encarando, alertas, dois deles apontando as armas para ela.

— Será que ela é a criatura?

— Ela parece humana, não faça nada. Sybeal, para trás.

— Ela com certeza não é uma andarilha, Redfield!

Driya não sabia o que conversavam, ou talvez falassem com ela, mas ela não conseguia ver seus lábios através do capacete. Então, o que estava mais próximo atirou, mas Driya permaneceu no lugar, com um misto de aborrecimento e impaciência no olhar. Seu segundo feitiço a protegia, aquele desenhado em frente à escada, e a bala parou no ar criando uma rachadura brilhante, como se houvesse atingido um vidro.

Diante da incredulidade dos humanos, Driya sorriu, e correu na direção deles. O mesmo soldado tentou pará-la novamente, mas nenhum de seus tiros avançou mais do que três palmos, conseguindo apenas aumentar as rachaduras no ar. Os soldados recuaram alguns passos diante do ataque iminente, mas Driya apenas saltou sobre eles, apoiando-se na parede e aterrissando no patamar inferior da escada, aproveitando para, no caminho, fazer plantas brotarem no interior das armas, ramos escapando pelos canos.

Ao perceber a arma inutilizada, Faraday tomou a adaga das mãos de Sybeal e correu para as escadas em perseguição à Driya, ignorando as ordens de Killian para voltar.

— Finalmente parou! — Catarina observou, a respiração ofegante pelo cansaço.

Não sabiam o que tinha acontecido, as raízes simplesmente tinham endurecido nas posições em que estavam, como se os ataques tivessem congelado. Qualquer que fosse a explicação, os Portadores estavam muito gratos. Já tinham ido além da exaustão. Vermont, caído de joelhos, só reuniu forças para levantar porque Calisto ainda precisava ser libertada da árvore demoníaca. O cansaço fazia seus músculos parecerem dormentes, mas tinha certeza que cada centímetro do seu corpo estaria doendo no dia seguinte. "Que eu não tenha que levantar da cama amanhã..." desejou.

Astra e Vermont se aproximaram da árvore, soltando primeiro as raízes que cobriam parcialmente o rosto de Calisto, que respirou aliviada, cuspindo pedaços de casca de árvore, e resmungou: — Pior missão de todas.

— Pelo menos você ficou segura o tempo todo.

— Ah, você queria trocar de lugar?

Vermont observou para como a árvore parecia ter tentado engolir Calisto, e estar preso naquela posição parecia aterrorizante e claustrofóbico. Até relevava que Calisto estivesse sendo mais ríspida do que antes.

— Não, obrigado, esquece o que eu falei.

— Isso vai demorar? Não pode fechar logo o portal? — Tiberius perguntou, temendo que alguma coisa ainda pudesse atravessar enquanto estavam ali, distraídos. Astra e Vermont eram os mais úteis em ajudar Calisto, ela com o fraco fogo que conseguia invocar e ele com a faca. Tony não tinha nenhuma lâmina, mas ajudava como podia com as mãos, tentando arrancar os pedaços mais frágeis.

— Não, eu não posso fechar o portal daqui, Tiberius, eu preciso me mover e me concentrar e não sei se você percebeu, mas agora eu não consigo fazer nenhum dos dois!

— Olhem, a general! — Catarina apontou para o grupo que acabava de chegar ao fim da rua, mas não se aproximaram mais, desconfiados do estranho campo de batalha que era o asfalto destruído e tomado por raízes gigantes. — O ataque apenas parou. Nós ouvimos tiros, vocês mataram a criatura?

— Não! Encontramos alguém observando a luta, mas não conseguimos nos aproximar e nem atingi-la.

— Alguém? — Tiberius perguntou, lembrando da reunião em que Tony revelara ter encontrado uma mulher do Desconhecido. — Era uma pessoa?

— Certamente parecia uma...

— General! — Um dos soldados apontou para uma das vielas, de onde Driya saiu de trás de um muro, correndo com dificuldade em direção ao portal.

— Cuidado, Portadores!

Alessa posicionou a arma, preparada para disparar, mas Driya instintivamente reviveu uma das raízes, que agarrou a pessoa mais próxima, Tiberius, e a atirou entre ambas, forçando Alessa e hesitar no gatilho. Tony se levantou, mas não teve tempo de reagir antes que Driya saltasse sobre o portal, desaparecendo na segurança do Desconhecido, ao passo que Catarina correu para Tiberius, preocupada.

— Não disse que não tinham atingido ela? — Tony perguntou.

— Não atingimos.

— Ela parecia estar sangrando...

Enquanto isso, outra pessoa corria na direção deles, gritando por Alessa.

— Sybeal? O que aconteceu? Onde estão Redfield e Faraday?

— Você precisa vir! Faraday está ferido, Killian está com ele!

— É grave? O traje foi rompido? — Alessa perguntou, preocupada. A situação devia ser realmente séria, porque mesmo Sybeal não conseguiu responder, apenas assentiu nervosamente, apreensiva. Além disso, os níveis de radiação na Velha Cidade eram intensos. Talvez isso fosse pior do que os ferimentos. — Faraday não pode ficar aqui, temos que voltar! Vamos levar um dos veículos. Veracruz, você fica para trazer os Portadores de volta.

E tão rápido quanto apareceram, Alessa e seus soldados desapareceram, seguindo Sybeal até o homem ferido.

— Essa é a mulher que você falou? — Calisto perguntou para Tony, em tom ácido. — É, ela parece muito amigável...

Tony suspirou, cansado.

— Já que ninguém vai perguntar... Qual é o seu problema hoje, Calisto? — Sua pergunta soou mais irritada do que ele pretendia, o que atraiu olhares surpresos de Vermont e Astra. Em geral, Tony era uma pessoa calma e pouco comunicativa, mas o dia tinha sido difícil.

— O que você disse...

— Eu entenderia se fosse por causa da missão, apesar de que isso foi tenso para todo mundo, não só para você. Mas eu sei que não foi por isso, porque você está sendo desagradável o dia inteiro. Se fizemos algo para você, diga logo, mas, se não, está sendo agressiva com as pessoas erradas.

— Calma, cara... — Vermont falou, sem desviar os olhos das raízes que estava cortando. Calisto apenas ouvia em silêncio, mas algo em seu rosto denunciava sua ansiedade.

— Ele não está errado... — Astra murmurou, sem querer se envolver demais.

— Eu estou calmo, só estou dizendo. Se algo aconteceu, é melhor ela dizer o que foi em vez de afastar as pessoas que podem ajudar.

— Além de que ela está sendo bem injusta com a gente. Tiberius só tinha feito uma pergunta...

Calisto permaneceu calada, desviando o olhar dos dois. Vermont percebeu que ela, fosse por cansaço, estresse ou por consentir com as queixas, não estava disposta a se defender.

— Rower ameaçou ela.

— Vermont! — Calisto reclamou, enquanto os outros exclamavam surpresa. Até mesmo os Magni se aproximaram.

— Mal, eu não sou bom com segredos. Nem com discussões, deve ser trauma de infância, sei lá... — Vermont deu de ombros com indiferença, murmurando algum cometário irônico como fazia quando estava ansioso, percebendo que os outros o encaravam. — O quê? Não é culpa minha, só temos dois médicos em Aurora, nenhum deles é psicólogo.

— Esqueçam, não é importante...

Finalmente eles conseguiram soltar Calisto, que se levantou ainda desviando os olhares. Ela odiava que o assunto tivesse surgido naquele momento, em que estava presa, não conseguia evitar se sentir encurralada e vulnerável, completamente à mercê de outra pessoa. Exatamente o que sentira quando Rower lhe proibira de sair da Cidadela. Era horrivelmente angustiante, e Calisto tinha certeza de algo: ela mataria Rower se ele ousasse colocá-la em uma corrente.

Surpreendentemente, Cataria era quem mais parecia indignada. Ninguém sabia que suas origens eram as mesmas que as de Calisto, de fora de Aurora, mas saber que Rower tentava coagi-la fazia com que se sentisse pessoalmente ofendida, e a desconfiança que o casal Magni ainda cultivava quanto à nômade se desfez como um castelo de areia.

— Não, é importante sim! Se esse é o problema, podia ter nos falado. A quem você poderia pedir ajuda senão nós?

— Rower não é rei em Aurora, Calisto, ele não pode fazer o que quiser — acrescentou Tiberius, sério. — Podemos proteger você. O que ele falou?

Calisto deixou surgir um fraco sorriso, sem jeito. Não era fácil confiar de primeira nas pessoas da cidade, mas ela estava percebendo que pelo menos os Portadores não eram como os outros. Afinal, as joias haviam escolhido eles por um motivo.

— Vamos fechar esse portal logo. Eu explico durante a volta.

~*~

O céu noturno de tom vermelho escuro do Desconhecido era uma visão reconfortante. Driya se deixou cair de joelhos assim que atravessou o portal, a adaga de Sybeal nas mãos coberta pelo seu próprio sangue. Seu ombro ferido latejava, e só agora Driya pensava sobre como teve sorte. O ataque do soldado humano alcançaria seu pescoço se não tivesse desviado.

Khlyen. Yasune. Onde estavam?

Driya sentiu que alguém se aproximava. Não olhou para trás, mas sabia que não eram seus irmãos. Sem forças para a magia e ignorando a dor no ombro, Driya esperou até que ele estivesse perto o bastante e girou o corpo desferindo um arco com a adaga. O homem recuou rapidamente, mas agarrou seu pulso impedindo novos ataques.

Ah, ele... Então, resolvido o mistério da ausência de Khlyen e Yasune. Driya o cumprimentou com um olhar enraivecido, tentando se soltar, mas, ainda lhe segurando firme, ele se ajoelhou, ficando cara a cara com Driya. O capuz que usava cobria o rosto inteiro, exceto os olhos, no entanto, não havia dúvidas de que ele e seus companheiros eram todos humanos. Era possível ver pelas armas de fogo, que não existiam no Desconhecido até chegada deles. Desviando de Driya, seu olhar parou sobre a adaga que ela segurava, e ele abaixou o capuz permitindo que ela visse seus lábios enquanto falava.

— Então, era você quem estava do outro lado? — Com a mão livre, ele encostou o cano de sua arma sob o queixo de Driya, com um sorriso cínico. — Não quer ter a bondade de me dizer o que Khlyen planeja, princesa?

Por sua vez, Driya usou a mão livre para fazer um gesto pouco amigável e reconhecível em todas as dimensões. Um de seus companheiros humanos segurou o riso e comentou qualquer coisa.

— É, afinal, ela cresceu com o Rei Obscuro — respondeu ele, voltando a encará-la e afastando a arma. — Não é fácil intimidar você, é?

— Liam, eles estão voltando com apoio! — Outro humano falou, observando o grupo três vezes maior que se aproximava rápido atravessando o descampado. — Precisamos ir. Vamos levá-la?

— Não temos tempo para isso. O Rei Obscuro não vai gostar de ver a irmã ferida, é melhor não estarmos aqui. — Liam se levantou, soltando o braço de Driya. — Ele vai ficar furioso com a gente...

Então, com a postura relaxada, Liam apontou a arma destravada para Driya. O instinto a salvou, fazendo raízes surgirem do chão como uma parede entre eles no instante em que Liam disparou. A sobrevivência falou mais alto do que o corpo, e Driya conseguiu forças para se levantar e correr na direção do pequeno batalhão de Khlyen.

— Devo atirar? — O soldado perguntou, com a mira sobre Driya.

— Não... Assim não vai valer a pena. Vamos embora. — Liam pegou a adaga do chão antes de pegarem os cavalos, o semblante tomado por melancolia e preocupação. — Acho que minha irmã está se metendo em problemas...

Notas finais
Primeira visão do Desconhecido para vocês. Agora a trama principal começa a engatar! Teorias?? Eu estou testando não dividir a missão (porque eu tenho a tendência de desaparecer, então acho chato postar a primeira metade e voltar meses depois com a segunda metade da missão), o que acharam? Acham que aconteceu muita coisa, ficou confuso? Ou começar e terminar em um capítulo é melhor? Enfim, até o próximo capítulo! Vamos ver mais da Driya e do Desconhecido. E conhecer o tal do Khlyen.