Na manha seguinte, as oito, todos já estavam de pé. Até mesmo Adélia, que estava no banho há quase meia hora. Já suas irmãs estavam na cozinha tomando café. Sam mastigava seu serial de flocos coloridos matinal, porem Kenneth se limitava a tomar um copo de chocolate quente. E a senhora Rose, estava ajudando a vovó Berta a se levantar. Pois as onze deveriam ir ao centro, ler o testamento deixado pelo vovô Reed.

Ninguém havia dormido muito bem aquela noite, ou estava com disposição para ir qualquer lugar. Menos Adélia, que havia sido a primeira a acordar, com uma animação de se admirar. E assim que ela deixou o banheiro apenas de toalha, Kenneth passou por ela para tomar banho.

– Finalmente! – Comentou Kenneth.

– Calma sapata. – Disse Adélia – Vai bater sua – E com um gesto obsceno subiu as escadas – Matinal?

– Não fala com ela assim, Adélia! – Repreendeu Sam da cozinha.

– A cada essa boca, piolhenta! – Gritou Adélia, antes de bater a porta do quarto.

– Mas eu não tenho mais piolho – Disse Sam, coçando a cabeça – Como ela se atreve?

“Vadia” sibilou Kenneth entre dentes. Já estava farta da presença de sua irmã naquela casa, e estava feliz, pois estaria no próximo trimestre estar iniciando seu primeiro ano na faculdade de jornalismo que sempre sonhara. A universidade para grandes mentes, Instituído Clarisse Lispector. Que tinha a direção de sua tia Rosalinda Scarlet, que não pode vir ao funeral, pois estava enfrentando problemas com o uso de drogas, em sua universidade. Mas sua tia Rosalinda, era em si, uma mulher firme e decidia, que por mais que fosse irmã gemia de sua mãe, ambas eram o oposto uma da outra. Mas isso não vem ao caso.

– Kenneth, não liga pra ela. – Disse Sam, com um sorriso singelo no rosto. – Ela não pensa no que diz. Esta louca. Agora que vive em Paris acha que esta acima de tudo e todos.

– Ei, eu ainda posso ouvi-la, gnomo de jardim. – Disse Adélia, descendo as escadas, enquanto ajeitava um vestido justo e curto de cor rosa.

– É anão, mas eu não sou isso. – Respondeu Sam, brava.

– Ei, espera um pouco. – Kenneth esboçou uma expressão furiosa esse vestido... O que você fez com o meu vestido, sua cadela?

– Ah isso? Esse trapo velho é seu? – Zombou Adélia – Nossa não sabia que a senhora ainda usava algo feminino. Ou devo dizer senhor? – E rindo, foi para cozinha beliscar um cookie seco, num pote.

E com isso, Kenneth entrou bufando no banheiro. Sam logo se direcionou para a sala, e tentou ver um pouco de televisão, e começou assistir uma pequena maratona de clipes na MTV. Enquanto isso, Adélia verificava suas mensagens no celular. E uma delas era de seu colega de quarto gay, Cady. Que dizia não ter conseguido fazer com que suas roupas, que ele mandou, chegassem antes de segunda. Mesmo tendo um contato intimo com uma empresa de entregas e viagens aéreas. E neste instante, Adélia pensou apenas em fazer uma coisa... Gritar o mais alto que pode, para extravasar sua raiva e insatisfação. O que assustou sua mãe que apareceu no topo da escada perguntando se estava tudo bem. E Adélia, claro, respondeu sem dar muita atenção.

– Ai, mas que bixa inútil – Ralhou à ruiva – Pra que serve um amigo gay, que tenha bons contatos, mas que não servem pra droga alguma quando mais se precisa. — Mas então, ela lembrou novamente do ponto em questão daquele dia. O testamento, e quem sabe, uma herança. Adélia, então, parou e respirou fundo – Bom, já que possivelmente nossa família pode receber alguma coisa, daquele velho babão... Quem sabe hoje não seja um ótimo dia para compras...

Depois de tentar convencer sua mãe, a deixa-la ir até o shopping para fazer umas rápidas compras. Adélia conseguiu apenas que a deixaria ir, se fosse de taxi e que levasse suas irmãs, e não demorasse mais que uma hora. Então, com a maior simplicidade do mundo Adélia foi até Sam primeiro, já que estava na sala, e Kenneth havia passado por ela no corredor e se trancado em seu quarto.

– Oi – Disse Adélia, se jogando sobre o sofá – Muito legal esse clipe do Justin Bieber, né?

– Não é o Justin Bieber, é o Shawn Mendes – Respondeu Sam, furiosa – E o que você quer?

– Ai, calma gnomo de jardim.

– É anão, e não vai conseguir nada desse jeito.

– Ok, desculpa – Disse Adélia se acomodando melhor no sofá. – É que antes de irmos ao cartório, eu gostaria de dar uma passada no shopping, fazer umas compras. Eu já pedi pra mamãe. E ai o que acha?

– Ah, não. Eu passo!

– Ai, mas eu já pedi desculpas gno... Sam.

– A questão não é essa, e sim sair com você. – Sam fala sem tirar os olhos da TV – Não quero voltar aos tempos, em que carregava suas compras.

– Eu te pago vinte, e talvez eu até te compre uma lembrancinha – Adélia era sempre bem persuasiva, quando queria alguma coisa.

– Fechado, vai da até pra comprar o cd novo do 2NE1 que eu quero tanto. – Sam, deu um salto do sofá de excitação.

– Tá, legal. Agora só preciso da sua ajuda, para convencer a sapa... Nossa linda irmã, Kenneth – Adélia se forçava a esboçar um sorriso falso.

– Bolça sorte, querida. Vai precisar. – Disse Sam, após de soltar uma gargalhada alta. – Bem, espere aqui. Eu vou vestir algo... Mais apropriado.

– Como assim, “mais apropriado”?

– Você não achou que eu ia usar meu pulôver, não é? – Sam subia as escadas, com Adélia em seu encalço.

– Sei lá, você só usa esse troço. Mas não se incomode eu também tenho um em Paris. Bem, mas vai me ajudar a convencer a Kenneth, ou não?

– Tudo bem, eu falo com ela. – Sam chegou até a porta do quarto e bateu três vezes. – Ei, Kenneth. Sou eu a Sam, por favor, me deixa entrar.

Depois de uns segundos, Kenneth destrancou a porta.

– Ah, obrigada. – Sam, então, entrou e antes de trancar a porta disse – Me de cinco minutos.

– A onde vai com a cretina? – Perguntou Kenneth, enquanto se jogava novamente sobre a cama.

– Ao shopping. Que ir junto? – Sam, vestia uma meia-calça preta, e um short com suspensórios. E por fim uma camiseta de bolinhas vermelhas, e um sapato fechado simples.

– Com ela? Dispenso.

– Por favor, não me force a ter que ir sozinha com ela. – Sam se aproximou, e se sentou aos pés da cama.

– Mas porque você vai mesmo?

– Ela me prometeu vinte pratas.

– Ah claro. – Kenneth dito isso, se virou para o outro lado da cama.

– Ah, esta bem. Eu vou com você para o show da The Pretty Reckless, que você tanto quer.

– Serio? – Disse Kenneth sentando-se. E Sam, assentiu em resposta. – Certo, só me ajude a achar minhas botas de salto fino. Estou cega, perdi minhas lentes ontem, quando estávamos voltando pra casa.

– OK. Mas e onde estão seus óculos? – Disse Sam, se abaixando e pegando a bota que estava sob a cama de Kenneth.

– Acho que no armário...

Dez minutos depois as meninas já se encontravam no ponto a espera de um taxi. E quando o primeiro passou elas pegaram, e foram em direção à pista principal.

– Centro, por favor. – Disse Sam.

– Não, ao shopping. – Repreendeu Adélia.

– Ah, mas o shopping é no centro. – Disse Kenneth, revirando os olhos. – Gênia.

E assim o motorista deu a partida.

***

As dez e quarenta e cinco, as três irmãs Scarlet, ainda se encontravam dentro do shopping. E por mais que o celular não parasse de tocar, e suas irmãs implorando-a que fossem embora, as únicas respostas de Adélia eram “Só mais cinco minutos... Só mais esta... Ai eu fiquei um arraso...”.

– Adélia, vamos. Temos que ir logo para a leitura do testamento, já são quase onze horas. – Choramingou Sam.

– Esta bem, mas e que horas começa mesmo?

– As onze! – Gritou Kenneth. – Anda vamos.

– Ai OK. Mas antes...

“Vamos Adélia” Gritaram juntas as mais novas.

– Ai esta bem, vamos. – Dito isso, Adélia passou o cartão e comprou apenas três peças de roupa (Um par de sapatos de salto alto, um vestido vermelho e outro dourado) – Certo, agora para onde vamos? Eu não sei andar por este shopping.

– Ótimo Sam você que vem aqui mais vezes, onde é a saída? – Perguntou Kenneth.

– Claro. Mas teremos de ir de escada. Vejam, o elevador quebrou.

–Tudo bem, escadas rolantes? – Puxou Adélia as irmãs.

– Ótimo, em manutenção. – Arfou Sam.

– Nada funciona neste Shopping, serio? – Esbravejou Adélia.

– Funcionam, mas vamos logo de escada. – Kenneth foi à frente, se equilibrando sobre seu enorme salto.

– Olha, parece uma velha correndo de salto alto – Zombou Adélia, da situação.

Depois de descerem vários lances de escada, do quarto andar ao térreo, elas se viam em frente ao shopping. Sem saber bem para que direção ir. Porem...

– Sorte de vocês que meu celular tem GPS. – Gabou-se Adélia – Bem, alguém aqui sabe o nome do lugar onde vai ser lido o testamento?

– Eu sei. – Respondeu Kenneth.

– Então, fala!

– Não grita comigo, sua galinha. – Ralhou Kenneth.

– Olha como você fala comigo, em garota. – Adélia movia as mãos no ar, e falava em tom de ameaça.

– Por favor, podem parar de brigar e ver a droga do caminho? – Gritou Sam – Mamãe não para de ligar, esta nervosa. Por favor, nós prometemos a ela.

– Esta bem, escreve ai... – Disse Kenneth forçando-se a lembrar – Escritório da Senhorita Caroline Porter.

– Certo, e aqui esta. – Adélia esboçou um sorriso aliviado – Pra nossa sorte, não é muito longe. Fica apenas daqui a menos de dois quarteirões.

– Ótimo o que estamos fazendo aqui paradas? – Disse Kenneth – Vamos logo.

– Claro, temos apenas dez minutos. – Disse Sam.

Com isso as três irmãs foram disparada quarteirão adentro, e pouco antes de chegarem Adélia quebrou o salto, e foi mancando. E claro Kenneth não deixou de implicar, dizendo “Que foi menina parisiense, não sabe andar de salto?”. Chegando lá, elas passaram pela recepção, um tanto afobadas, perguntando a recepcionista que lhes disseram que elas deviam ir para o segundo andar e entrar na sala sete. Dito isso, elas foram para as escadas. Pois o elevador estava lotado, e além de que elas tinham menos de dois minutos.

Nos dez primeiros degraus Sam tropeçou e rolou escada abaixo, fazendo um de seus suspensórios arrebentar. Mas logo sendo levantada por Kenneth. Porem, ao se levantar, Sam piso na barra do vestido de Kenneth, rasgando parte dele. E assim que chegaram ao corredor do segundo andar, foram correndo em direção à porta sete. E sem pensar muito, adentraram a sala. E caindo, literalmente, para dentro dela.

– Oi, estamos muito atrasadas? – Disse Adélia ofegante, observando sua avó e mãe do chão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.