As If We Never Said Goodbye

1 As if we never said goodbye


Notas iniciais
Eu escutei essa musica na serie Glee, e como estava me formando, não consegui não escrever algo assim. Sempre vou lembrar com muito carinho do meu colégio.

As If We Never Said Goodbye

I don’t know why I frightened

I know my way around here

Ela encarava, do outro lado da rua, os portões brancos, escutando os gritos e as conversas que ecoavam por de atrás dos muros de pedra e azulejos azuis. Fazia tanto tempo que não os encarava. Além daqueles portões, podia ver a portaria – que não mudara nada – e um pouco do pátio com crianças correndo. A rua em si estava vazia e calma. Aquele bairro sempre fora calmo. O prédio alto e de arquitetura antiga, contrastava com o claro céu, transformando-o em uma construção imponente.

The cardboard trees, the painted scenes, the sound here

Yes a world to rediscover,

Não eram mais os mesmos funcionários. Ela não lembrava daquele inspetor ou da secretária que lhe deu o crachá de visitante no balcão da secretaria. Mas este, sim, continuava a mesmo. Quantas vezes ficara ali, naquele banco marfim de frente para a porta, esperando o pai buscá-la, por causa de uma dor de cabeça exagerada ou por alguma real doença.

A porta de vitral. A porta que ligava o primeiro andar do prédio principal ao pátio e que sempre ficava aberta, permitindo-os subir mais cedo e pegar um bom lugar na sala – quando esta estava aberta.

But I’m not in any hurry

And I need a moment.

Parou, olhando para o corredor do primeiro andar, lembrando de todas as vezes que passara por ali com seu grupo de amigos. Ou então das vezes que sua turma tivera que descer para uma daquelas salas por que um dos alunos não poderia subir as escadas. Respirou fundo, e subiu para o segundo andar, ao som do sinal que continuava estridente.

The whispered conversations in overcrowded hallways.

The atmosphere as thrilling here as always.

Feel the early morning madness

Feel the magic in the making…

Alunos saíam das salas de aula para esperar o professor da próxima aula, ou, simplesmente, bater papo com o amigo da outra turma. Recordou dos dias de prova em que a primeira turma a fazê-la sempre repassava as respostas.

“você trouxe o trabalho?”

“não estava com você?”

“ferrou, ficou na casa do Tiago e ele ta doente.”

Ela já passara por isso. O famoso trabalho esquecido na casa de um dos integrantes. Só de lembrar do fato, a agonia lhe percorreu o corpo. E aquela prova esquecida? Sempre tinha uma que metade da sala fazia cara de espanto quando o professor a anunciava.

Why, everything as if we never said goodbye.

Virando o corredor, ainda no segundo piso, se deparou com a porta da sala onde passara todas as tardes de quarta. A sala da monitoria. No começo, como aluna, porém em seu ultimo ano, como monitora. A plaquinha ainda estava pendurada nela. Lembrava de como as aulas ficavam cheias em época de provas finais. Ela sempre riu daqueles que queriam aprender todo a matéria na véspera de prova.

I’ve spent so many mornings

Just trying to resist you

I’m trembling now

You can’t know how I’ve missed you,

A sala estava aberta e vazia .As carteiras arrumadas em meia lua, o quadro preso a parede. As mesmas cortinas beges nas janelas com vista para o pátio. Ela entrou na sala contornando as carteiras, indo em direção as janelas. Remexeu as cortinas, pensando se a Direção não teria trocado-as. Esticava as barras, procurava pro algo escrito, algo antigo.

E achou. Escrito em caneta preta, viu seu nome e o de seu melhor amigo, aquele que não via desde a formatura. Aquele que estudara com ela desde a alfabetização, aquele que a ajudara em tudo sem querer nada em troca, aquele com quem dividira todos os segredos. Aquele quem secretamente amou.

Missed the fairy-tail adventures

In this ever-spinning playground

We were young together.

Lembrava-se do dia em que, por pura implicância, foram para trás do auditório se esconder do professor de educação física. Acabaram sendo pegos pelo inspetor, e levando uma advertência. E os trabalhos feitos em cima da hora? As aulas intencionalmente perdidas com as simples desculpas de “o ônibus atrasou”, ou “que dor de cabeça”. Cada um, uma aventura diferente.

Os professores sabiam. Tinham que saber, não tinha como não saber que certas vezes eles mentiam ou jogavam um desculpa qualquer. Mas mesmo assim fingiam que não notavam, sorriam e aceitavam. Professores sempre foram seres muito estranhos, pensava ela, saindo da sala de monitoria. Estranhos, mas sempre amigáveis. Lembrava de um com quem tinha uma richa, um tentava tirar sarro da cara do outro e isso sempre rendia boas risadas. Havia uma professora com quem ela se identificava muito, tinham ótimas conversas, discutiam a matéria em aplicações além da sala de aula e ambas sabiam que, se um dia precisassem, uma ajudaria a outra. Um outro, já se limitava às conversas, sempre tinha um livro ou um filme novo para comentar. Na verdade, vários professores só se limitavam às conversas de diferentes assuntos, engraçados ou não, mas sempre em tom de amizade.

Contudo, um único professor sempre se destacou dos demais. Ele dava aula brincando, fazendo piadas sobre a matéria e aquilo era tão diferente e único, que o tornara especial e sua matéria fácil de entender. Ele parecia hiperativo, nunca ficava parado, mas era uma agitação sempre tão alegre, com um sorriso no rosto. Ela perdera a conta de quantos anos ele lhe dera aula, e de quanta saudade sentia delas. Graças a ele, ela soube qual carreira seguir.

I’m coming out of make-up

The lights already burnig,

Not long until the camera’s will start turning.

Andava agora pelos corredores do terceiro andar, pensando se a sala dos professores ainda seria naquele piso. Será que a reconheceriam? Será que lembrariam dela? Passara tanto tempo desde a formatura. Olhou-se no fraco e translúcido reflexo da janela, percebendo que não mudara tanto. Apesar dos anos, continuava com a mesma carinha, julgou ela.

A sala continuava a mesma, com sua porta larga e amarela. Olhou o relógio e se assustou, estava tão perdida em devaneios que nem escutara o sinal do intervalo. Então o palco estava armado. Todos aqueles que um dia lhe deram aula estariam atrás daquela porta. As luzes estavam acesas. Ao abrir a porta, as câmeras começariam a gravar.

And the early morning madness

And the magic in the making…

Tirando os novos e bonitos armários de ferro, nada havia mudado naquela sala. A grande mesa retangular com pilhas e pilhas de folhas perto do fundo do cômodo, e os sofás perto de onde estava, além do computador no canto direito não tinham mudado. Esqueceu a mobília, passou a olhar para cada rosto naquela sala e, como se nunca tivesse saído, reconheceu boa parte do corpo docente.

Yes...

O primeiro a notá-la na porta da sala foi o professor-implicante, que não perdeu tempo em reviver os velhos tempos. Ela riu, olhando para os outros que graças à piada do primeiro começaram a reconhecê-la.

Ela foi para o centro do cômodo, cumprimentá-los, contar as novidades, e relembrar momentos. Sentada na ponta da mesa, estava a professora com quem ela se identificava, admirando-a e escutando-a, atentamente, contar como ela se graduara na sua matéria. Sentia tanta saudade de conversar com ela, e agora seria melhor ainda, já poderiam conversar com níveis de conhecimentos próximos.

De repente alguém, rapidamente, a abraçou, o que não a permitiu ver quem o fizera, mas foi um abraço forte e saudoso. Conhecia aquele abraço.

Everything as if we never Said goodbye

Ele sempre se destacou, por que desta vez seria diferente? Afastaram-se em silencio, olhos nos olhos, provavelmente lembrando das muitas aulas. Apesar do bom tempo sem se verem, não tinham palavras para expressar a felicidade que sentiam ao se reencontrarem.

Sentou-se à mesa com eles, rebateu algumas piadas do implicante – fazendo todos rirem – e conversaram sobre as mudanças no colégio. Na verdade, não havia muito o que dizer, pouca coisa mudara. A professora, ainda na ponta da mesa, perguntou o por que dela estar visitando o colégio, por que segundo ela, só saudade não poderia ser. Foi então que resolveu contar o verdadeiro por que de estar ali.

I don’t want to be alone that’s all in the past

This world’s waited long enough.

Ela já havia se graduado há um tempo, estava terminado seu mestrado, e o colégio a chamara para uma entrevista. Se tudo desse certo, ela faria parte daquele corpo docente junto com eles.

I’VE COME HOME AT LAST!!!

De olhos arregalados e bocas abertas de surpresa, perguntaram por que ela estava perdendo tempo com eles. Mandaram-na para a sala da diretoria quase empurrando-a para fora da sala dos professores. Ela pediu para ficar ali mais um pouco, para ficar mais calma, mas o sinal, indicando o final do intervalo, tocara.

Os professores se entreolharam e depois pediram desculpas por não poderem ficar mais tempo com ela. Deram-na conselhos, dos quais a maioria era ficar calma, e se dirigiram para suas salas de aula. Ela viu, um por um, se afastarem e dizerem que estariam torcendo por ela, até a sala estar vazia. Por ultimo, passou o implicante dizendo que se ela fizesse parte daquele grupo, ele poderia perturbá-la o dia inteiro, e ela respondeu, calmamente, que poderia fazer o mesmo.

And this time will be bigger,

And brighter than we knew it.

Saiu da sala e se pôs em direção à diretoria, porém não chegou a dar dois passos antes de ver quem estava parado no corredor olhando para ela. Ele parecia tão orgulhoso, e não era para menos, a vira crescer. Ela tinha noção de que ele sabia ser calmo, mas era tão “não ele”.

Foram andando juntos pelos corredores, ele dizendo que os alunos podiam esperar, e ela dizendo que não era mais uma criança e poderia ir sozinha.

So watch me fly, we all know I can do it...

Poder ir sozinha não significava que ela queria ir. Ter ele ao seu lado lhe dava confiança, e não podia desapontá-lo. Entraria naquela sala como visitante e sairia como colega de trabalho dele. Sabia que conseguiria.

Could I stop my hand from shaking?

Pararam um em frente ao outro com a porta da diretoria ao lado. Respirou fundo, agradeceu a ele por tudo, desde a primeira aula até agora, conteu o nervosismo e a ansiedade e tocou na maçaneta.

Has there ever been a moment...

“Boa sorte. Sei que consegue.”

With so much to live for?

Ela assentiu e entrou na sala. Fechou a porta ainda sentindo sua presença com ela. A diretora – que não era mais a mesma de quando estudara – convidou-a a sentar na cadeira a frente dela para começarem a entrevista.

The whispered conversations in overcrowded hallways,

So much to say not just today but always.

We’ll have early morning madness…

Os alunos, em euforia, corriam pelos corredores, combinando festas, encontros, cinemas e varias outras coisas, enquanto contaminavam todo o colégio com a animação pré-férias de verão. Espalhados pelo pátio, havia uns três grupos com violões, vários jogando cartas e suas derivações, os mais novos corriam para lá e para cá e outros só pensavam em ir para casa.

We’ll have magic in the making...

Ela olhava o mural dos melhores momentos do ano, lembrando e comparando com o mural do seu ultimo ano. Via as fotos dos vencedores do concurso de redação, da feira de ciências, dos formandos daquele ano e de sua festa de formatura, alem do time de basquete vencedor do campeonato intracolegial.

Yes, everything’s as if we never Said goodbye

O tempo passa, mas aluno é sempre o mesmo. Examinou toda a portaria novamente, lembrado da vez que seu melhor amigo fora barrado por falta de uniforme. Ela mesma por pouco também não fora.

Yes...

Deixou o interior do colégio e esperou, do outro lado da rua, os professores saírem, contemplando os primeiro momentos de férias dos alunos. Ou de liberdade, como costumavam chamar.

Everything’s as if we never Said goodbye

Não precisou esperar muito, logo eles começaram a sair, conversando entre si. Ela foi até eles contar o resultado da entrevista. E nem precisou chamar a atenção destes, aqueles mais amigos estavam ansiosos para saber.

“Nos vemos no começo do ano letivo que vem.”

We taught the world new ways to dream.

L.Rocha

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