— Kookie! — Chamei, mesmo sabendo que seria totalmente inútil. — Não estrague nossa noite por algo tão pequeno.

Jungkook me olhou incrédulo, fazendo com que me arrepiasse com toda sua seriedade. No meu ponto de vista não tinha dito-o algo tão chocante assim, era apenas triste, talvez devastador, mas nenhum escândalo era necessário.

— Algo pequeno, Jimin? — Se afastou de mim, levantando-se do sofá em que estávamos deitados. — Você está me dizendo que eu só vou ver o meu namorado daqui dois anos e ainda acha que é algo pequeno? — Eu podia sentir a mágoa em suas palavras, o que me deixou péssimo. — Você passou na universidade de Seul, não foi?

— Sim. — Sussurrei, levantando para poder puxá-lo de volta ao estofado, onde segurei suas duas mãos e entrelacei nossos dedos. — Se você quiser, eu fico. Eu passei na universidade daqui também, quando você se formar eu peço transferência e... — Jungkook me interrompeu, grudando sua boca na minha em um leve selar.

— É o seu sonho e eu quero poder estar na sua formatura, dizendo para todo mundo que o formando mais lindo é o meu namorado. — Um sorriso me escapou sem que eu pudesse ao menos tentar evitá-lo. — Eu só... vou sentir muito a sua falta. Vou sentir saudades de abraçar, beijar, tocar você. Mas, ao mesmo tempo, também estarei sentindo muito orgulho.

— Eu te amo muito, Kookie. — E beijei-o sem me preocupar com mais nada.

— E eu amo muito você, meu amor.

Seis meses atrás, quando me despedi de Jungkook na estação de trem, não pensei que talvez aquela fosse ser a última vez que eu o veria.

Também não pensei que fosse receber uma ligação desesperada da Sra. Jeon sobre seu filho estar morrendo no hospital, e que a família precisava do meu apoio. E agora, eu só queria ter a oportunidade de falar com ele, mesmo que fosse a última vez.

O trem parecia levar uma eternidade para chegar em Busan, e eu só queria acelerar esse maldito trajeto. Por que demorava tanto? Eu estava, simplesmente, com muita pressa.

Eu só queria ver Jungkook, ouvir sua voz, fosse ele me dizendo que estava bem ou então que me amava. Qualquer coisa! Eu só... eu nem sei o que pensar, o que dizer, como raciocinar sobre qualquer coisa — principalmente sobre ele.

Assim que desci na estação fui em busca de um táxi para ir até o hospital. Pedi que ele fosse o mais rápido que pudesse, porque era uma emergência e eu precisava a todo custo chegar lá o mais rápido possível.

Mais uma vez o caminho parecia levar uma eternidade, e ao longo daquele maldito trajeto eu ficava me recordando de Jungkook e de tudo que passamos juntos, eu não queria e nem podia perdê-lo. Eu só queria abraçá-lo, senti-lo perto de mim de novo. Ver seu sorriso, seus olhos, tudo.

— Por que está chorando? — Sequei minhas lágrimas com pressa, vendo um menino maior que eu parado em minha frente. Seus olhos logo pararam em meu joelho todo ralado e em seguida para a bicicleta perto de mim. — Ah, está doendo muito, pequeno?

Eu odiava quando me chamavam de pequeno, porque eu me sentia ainda menor do que já era, em plenos quatorze anos, mas por algum motivo vê-lo me chamar daquela forma foi agradável. Muito agradável. Assenti com a cabeça e ele sorriu, colocando uma mão por baixo das minhas pernas e a outra em minhas costas, levantando-me do chão para, em seguida, me colocar no banco da praça, com a perna esticada.

— Eu já volto. Não saia daí! — Ele correu para longe e mais uma vez me senti sozinho.

E mais uma vez eu chorei. Me sentia um grande idiota por estar chorando por algo tão idiota, mas meu joelho doía tanto!

O menino não demorou para voltar, trazendo junto a si uma sacolinha, que minutos depois vi que era o necessário para fazer um curativo em mim o que tinha ali dentro, e ele sorriu para mim prometendo que faria o "dodói" sarar.

— Eu sou um idiota, quatorze anos na cara e chorando por um joelho ralado. — Revirei os olhos, tentando fingir que não estava ardendo meu machucado com o que ele passava ali.

— Não há idade para que os machucados parem de doer. — Ele sorriu de forma carinhosa. — Eu tenho doze anos. E, a propósito, me chamo Jungkook. Jeon Jungkook.

— Park Jimin. — Devolvi o sorriso, verdadeiramente encantado com aqueles dentinhos tão fofos dele.

Jungkook e eu ficamos conversando após ele me fazer o curativo, e ele me contou sobre seu sonho de se tornar médico, enquanto lhe confidenciei o meu de ser arquiteto. Prometemos que seríamos amigos, e todos os dias depois dali nos encontramos na mesma praça.

Era engraçado pensar no quanto mudamos. Jungkook queria ser médico, mas ao chegar no ensino médio seu amor pelas artes se fortificou muito, ainda mais por ele perceber o quão bom era em desenhos e também na dança e na música. Ele até começou um curso de dança e outro de desenho, ao terminar ingressou em um de fotografia e agora pretendia cursar música na faculdade também.

Enquanto eu, de arquitetura fugi para a dança. Coreografia era o que eu estudava, e simplesmente amo o que faço.

Jungkook estava muito estranho nos últimos dias. Sempre que ele me olhava e eu o encarava de volta, ele desviava e passava a fixar seus olhos em um outro ponto aleatório qualquer. Se eu perguntava o que havia acontecido ele apenas dizia que estava tudo bem e que eu não tinha motivos para me preocupar.

Mas eu me preocupava, porque ele era o meu melhor amigo já há dois anos. Eu já tinha dezesseis, quase dezessete, e ele estava há dias de seus quinze anos também. Quando sua adolescência chegou, Jungkook se tornou ainda mais bonito, mas também muito mais reservado. Ele só conversava comigo e mais dois meninos da escola, mesmo que com eles Jungkook não conseguisse ser ele mesmo, sempre fechado em seu mundinho, dividindo o fone de ouvido comigo e desenhando em seu caderno ou lendo algum livro.

Eu me preocupava ainda mais, porque ele nunca desabafava com ninguém. Era um ótimo ouvinte e conselheiro, mas quando eu queria saber mais sobre seus sentimentos Jungkook simplesmente se isolava e fingia que eu não estava bem ao seu lado.

Então ele segurava minha mão, entrelaçava nossos dedos e me encarava, sussurrando que eu não deveria pensar nisso, porque seus sentimentos não eram importantes.

Mas eles eram. Ao menos para mim.

— Jungkookie! — Chamei um tanto mais manhoso do que queria. A verdade é que eu me sentia frustrado, porque meu melhor amigo estava com problemas e não confiava em mim o suficiente para me contar o que estava lhe ocorrendo. — O que houve com você, uh?

Sentei-me do seu lado, pertinho o bastante para entrelaçar meu braço no seu. Ele riu sem vontade, se encolheu um pouco e cheguei a pensar que ele iria se afastar, mas não o fez. Ele parecia querer me olhar e estar em conflito por não conseguir.

— Você pode falar comigo, Kookie, sabe que pode confiar em mim.

Jungkookfinalmente me olhou, e tão rápido quanto isso simplesmente grudou sua boca na minha. Eu me assustei, mas não recuei, porque não era ruim, longe disso. Eu tinha sentimentos por Jungkook que eu não sabia explicar, e que com aquele selinho eu talvez pudesse compreender — tendo em vista o meu coração todo saltitante dentro do meu peito.

Jungkook se afastou um pouco, suas bochechas estavam avermelhadas quando ele levantou de sua cama e andou pelo quarto.

— Isso está me deixando nervoso e assustado, porque você me causa sensações que eu não consigo explicar ou entender. Eu apenas sinto, Minnie. — Jungkook expos de forma afoita, parecendo estar preocupado com o próprio estado. — As mãos trêmulas, as borboletas no estômago e o coração acelerado... isso não é o tipo de coisa que sentimos por um amigo. Eu tenho vontade de sorrir cada vez que te olho, vontade de te abraçar cada vez que você sorri, vontade de te beijar... sem nem ter um motivo, eu apenas quero. Eu quero muito.

Naquele dia, no nosso primeiro selinho, eu disse a Jungkook que eu não entendia meus próprios sentimentos em relação a ele também, e que tudo o que me foi descrito era o que eu também sentia. Jungkook acabou me beijando de vez, e eu retribuí, porque eu sentia que era o certo e que era o que eu também queria. Eu já tinha beijado antes — ao contrário dele —, conquanto os outros dois garotos que eu beijei não tinham me despertado nada do que Jungkook tinha conseguido.

Porque, era óbvio, eu estava apaixonado pelo meu melhor amigo.

E eu não me importava com isso.

Demorou cerca de dias para começarmos a namorar, e nunca mais no separamos, brigamos ou qualquer coisa parecida. Nem um mísero desentendimento. E agora eu apenas queria vê-lo bem.

Já estava na recepção quando avistei os pais de Jungkook, os dois em lágrimas. A mãe de Jungkook me grudou em um abraço apertado e começou a chorar desesperada, e por puro nervosismo eu comecei a chorar junto, mesmo que eu não soubesse o que de fato estava acontecendo.

— C-cadê ele? — Perguntei atônito, vendo-a apenas negar com a cabeça e permitir que mais lágrimas lhe escapassem.

— Aqui seu café, appa. — Essa voz...

Eu definitivamente conheço essa voz.

Virei-me com pressa para trás, vendo ele bem ali, em pé, pálido e abatido, com olheiras abaixo de seus olhos — sendo que estes também estavam avermelhados — e a ponta de seu nariz também estava vermelhinha.

— K-Kookie... — E antes que ele me avistasse eu já tinha o agarrado em um abraço apertado, deixando todas as lágrimas caírem de vez. — Meu amor... Jungkookie...

— M-Minnie? — Afastou-se um pouco para me encarar, mas eu apenas me afundei em seus braços, a cabeça escorada em seu peito, aspirando seu perfume que tanto me viciava. — Por que está chorando? — Encarei-o no mesmo instante, lembrando-me que aquela fora a primeira coisa que ele me disse quando nos conhecemos. — O que está doendo tanto, meu pequeno?

Poucas alterações em sua fala, mas ainda me lembrava a primeira vez. E isso apenas me fez chorar ainda mais, grudado agora com os braços em seu pescoço.

Mas... se Jungkook estava ali... então...

— O que houve com o Junghyun? — Vi os olhos de Jungkook marejarem. Junghyun era seu irmão mais velho. Eu entendi tudo errado, me desesperei tanto com o que a Sra. Jeon me disse que prontamente pensei que Jungkook estivesse morrendo. — Vem aqui, meu amor, vamos sentar.

O puxei até as cadeiras da recepção, um pouco afastados de seus pais, e passei a acariciar seus cabelos quando ele deitou a cabeça em minhas pernas, com a outra mão entrelacei meus dedos nos de Jungkook.

— Eu senti tanto a sua falta, amor. — Jungkook sussurrou bem baixinho. — Me sinto melhor tendo você aqui. Você sabe... você é o meu maior apoio.

— Sei disso, meu amor. Quando sua mãe me disse, ela não nomeou qual dos filhos não estava bem, eu me desesperei tanto.

— Ela está totalmente atordoada com o que houve, nem deve terpercebido, amor. — Me olhou novamente. — Obrigado por ter se preocupado comigo. Mas... o problema é com o Junghyun... ele sofreu um acidente de carro tem uns dias e está em estado gravíssimo. Ninguém sabe o que pode acontecer, mas ontem... ontem o médico disse que... a qualquer momento, amor.

— Shh... — O puxei para um abraço, quase o puxando para que ele sentasse em minhas pernas.

Eu odiava ver Jungkook de tal forma, odiava com todas as forças.

Abracei-o forte, pensando que poderia ser ele, pensando que eu poderia ter chegado e ele já não estaria mais aqui. Nunca sabemos quando é a última vez que vamos ver quem amamos, ou quando vamos poder abraçar essa pessoa, dizer o que sentimos. E foi naquele instante que eu percebi que ficar sozinho em Seul não valia a pena, mesmo sendo meu sonho, porque eu não tinha meu irmão, meus pais, meus amigos, ou Jungkook.

E eu não era feliz sem eles.

— Eu não vou mais embora, Kookie. — Prometi, mesmo sem que ele soubesse que era uma promessa. — Vou voltar para Busan e vou ficar com você.

Afinal... eu não sabia quando seria a última vez.

Eu precisava ficar ao seu lado.



Você chegou ao fim do livro. Parabéns!