As Histórias De Thalia
56 Pequenas confusões
Notas iniciais
THALIA
Foi irritantemente prazeroso esperar aquele ser chegar enquanto a chuva caía. Eu sentia meu braço direito inteiro queimar, mesmo com todo aquele vento; meu estomago roncou mais uma vez e eu, mesmo deitada, me senti zonza. Braços envolveram meus ombros e me puxaram para seu colo. Aqueles dedos tiraram uma mecha de cabelos do meu rosto... Aquilo era bem familiar, por isso nem me dei o trabalho de abrir os olhos.
–Tha? Thalia, por favor, abre esses olhos. – a voz vinha carregada de medo e preocupação.
–Relaxa Percy. Eu to viva, só cansada. – meus olhos continuavam fechados e eu tanto senti quanto ouvi a respiração aliviada do meu primo.
–Não acredito que você caiu por um corte desses. – ele se referia ao corte com o vidro e a “mordida” do demônio.
–Deitei só pra relaxar. – a chuva pareceu ficar muito mais fria.
–Então levanta. – mas que droga! Por que todo o mundo parece querer que eu “acorde”? Qual o problema de curtir os olhos fechados e um soninho de leve?
–Não to afim não.
–Então...
–Minha pressão caiu; foi só isso. – abri os olhos e vi aqueles olhos verdes divinos me olhando de uma forma protetora. Ele me amparou enquanto eu me sentava e voltou o olhar para meu braço. Com o máximo de cuidado que ele conseguiu, Percy retirou o pedaço de vidro alojado na minha pele; doeu bastante, mas nada anormal.
–Quando foi a ultima vez que você comeu alguma coisa?
–Sei lá; ontem eu só lembro o café da manhã...
–Você esta sem comer a mais de um dia? – ele disse com a voz aguda me fazendo rir. Meu corpo estremeceu em contato com a chuva e vi pelo canto dos olhos meu priminho tirando aquele casaco da Hollister. Ele ajeitou aquela peça de roupa no meu corpo enquanto eu olhava para ele confusa. – Tinha alguém olhando muito pra você. Tenho certeza de que estava olhando essa sua blusa transparente.
Tenho certeza de que as bochechas dele adquiriram um tom rosado, mas nem prestei atenção; ainda no chão olhei para os lados procurando o individuo loiro que eu tinha visto não fazia tanto tempo.
–O que aconteceu depois? – perguntei enquanto Percy amparava meu corpo, me ajudando a levantar.
–Eu vim correndo até você e o ser foi embora. Você parece tensa, Tha. O que foi? – ele tinha que me segurar já que aquela tontura voltou com mais força.
–Nada...
–Vem, você precisa comer. – Percy me arrastou pelas ruas molhadas de NY até minhas pernas dizerem chega e a tontura voltar acenando empolgadamente.
–Percy... Tá tudo escuro... – senti vagamente meus pés saírem do chão e decidi fechar meus olhos por alguns minutinhos... Quando voltei a abrir notei que estávamos em um barzinho qualquer e que eu ainda estava escorada no moreno.
–Você me assustou, Cara de Pinheiro. – ele disse tentando parecer irritado, mas eu via aquela faísca de alivio.
–Por quê? Fechei os olhos por alguns segundos... – disse com a voz sonolenta, mas que soou fraquinha; isso me assustou e espantou o sono na hora. Um cara grande e gordo com um avental branco chegou carregando uma bandeja com pãezinhos de queijo e uma xícara de chocolate quente.
–Deu um susto na gente, mocinha. – ele disse com aquela voz grave, mas gentil. Simpatizei com ele. Comi tudo a que tinha direito e senti minha visão melhorar bastante e os sinais de tontura sumirem. Era inegável: eu me sentia bem melhor. Esse negócio de pressão cair não é legal; eu não recomendo!
Percy ainda me olhava atentamente e eu me senti desconfortável com aquele olhar intenso. Será que era assim que as pessoas se sentiam quando eu as olhava? De onde esse pensamento surgiu? Não demorou a um cara insignificante tentar se aproximar perguntando se eu estava melhor, o que era muito evidente. O surpreendente dessa história é o meu querido primo, também conhecido por Persiana ou Cabeça de algas, afastar o individuo de mim apenas com o olhar! Para mundo que eu quero descer... Mas que droga foi aquilo?
Não lembro se agradeci alguém naquele bar ou se Percy resolveu pagar a conta, ou mesmo se aquele Zé vinha atrás de mim; eu só passei pela porta da frente e sai andando pela chuva agora bem mais fraca do que antes.
–Hei, onde você ta indo? – ouvi a voz dele enquanto o mesmo corria até mim.
–Para aquele internato cheio de pivetes mimados. Pra onde mais eu poderia ir? – ele ficou em silencio por muito tempo – Por que lançou aquele olhar lá no bar?
–O que?
–Por que olhou feio para o insignificante que se aproximou de mim.
–Eu... Eu não sei. – ele passou as mãos nos cabelos fazendo pequenas gotículas saírem dos fios escuros. – Você é... Te vejo como minha irmã – eu sorri com isso, mesmo ele não vendo – e achei estranho ele chegar perto de você com segundas intenções... Não pense que eu... Eu... Você sabe!
Eu ri do desespero dele de se explicar.
–Claro que não, seu lerdo! – a chuva não estava tocando minha pele diretamente, mas ela estava realmente gelada e eu me sentia extremamente quente. Avistei aqueles enormes portões e o jardim da escola; senti certa vontade de fugir, mas para onde eu iria?
Percy e eu entramos lado a lado. A escola parecia toda vazia e isso foi estranho. O lado satisfatório foi poder lambuzar aquele chão impecável com água e lama; meu rosto devia estar realmente sinistro: os cabelos parecendo um breu e pingando, os olhos deviam estar brilhando com a minha insanidade mental, minha pele devia estar razoavelmente pálida e eu tinha um sorriso sinistro. Senti Percy estremecer ao meu lado.
Andamos até aquela sala enorme onde eu conheci as meninas e depois os mauricinhos. A cena parecia à mesma de quando eu saí: as meninas de um lado e os rapazes de outro. A diferença? A diretora daqui e o diretor de lá tinham as feições preocupadas e de longe vi a minha “irmãzinha” com os olhos marejados e uma Nayla sorridente.
–Por que a Annie ta quase chorando? – perguntei para Pâmela que estava ao lado da porta e mais próxima de mim. Todos os olhos vieram para mim e muitos sorriram...
–Ela está preocupada com você, porque você desapareceu de repente em uma tempestade de raios e não sabe quando vai voltar. – Pâmela disse como se eu estivesse na tempestade e falasse com outra pessoa; a galera prendia o riso enquanto Pam fitava o nada... – AII, SUA DOIDA! – ela gritou e me abraçou sem se importar com minhas roupas molhadas; ninguém prendeu o riso, mas só Lipe que balançou a cabeça negativamente como se dissesse com isso que não eram parentes.
–Ficamos preocupados com você... – foi à diretora quem falou.
–Não me importo com isso.
–Onde você esteve, senhorita? – a diretora disse com um ar sério achando que eu ficaria com medo; mal sabe ela que já monstros piores.
–Perdoe a minha ousadia, querida diretora – disse de forma curta e grossa (o sarcasmo foi meio óbvio, não?), enquanto ela travava o maxilar — mas achei que estava bastante claro, durante a aula interrompida, que eu iria sair na chuva. Se por acaso você for tão oca quanto está me parecendo agora, você não entendeu o recado.
–Como você... – o diretor do outro internato (que me parecia, pelas alianças idênticas, ser o marido da nossa diretora), falou com raiva e com visível desprezo.
–Me poupe do seu discurso, ok? – cortei o coroa – Ele não vai mudar a minha vida e duvido que resolva a sua.
Os dois saíram abalados da sala e o falatório morreu quando a Naja... Digo, Nayla se atreveu a se aproximar.
– Uma pena você ter voltado viva, não? – o tom era claramente venenoso; ta bom que ela não era um monstro grego, mas faria mal matá-la?
– Sinto muito ter voltado para a sua desgraça, mas não posso fazer nada se o mundo me quer viva, querida. – disse de forma doce e tão falsa quanto uma atriz consegue ser.
– Eu realmente queria que um raio te acertasse! – ela rosnou; Annabeth, Percy e eu rimos tanto quanto foi possível e eu decidi passar reto por aquela megera disfarçada de gente. Apresentei Percy à turma e mantivemos uma leve a agradável discussão sobre o quanto eu adoro a chuva. Eu ainda me sentia quente mesmo minhas roupas estando encharcadas e frias. Me despedi do pessoal dizendo que ia tomar um banho quente e me livrar dessa roupas geladas.
Subi as escadas brancas e passei por paredes imaculadas até chegar aos dormitórios. Abri a porta e entrei no quarto de paredes claras mobiliado com quatro camas brancas e enormes armários da mesma cor. Aquilo era um palácio para uma patricinha. Como eu tinha ido parar ali? Entrei no banheiro e me livrei das roupas encharcadas, foi quando percebi a gravidade daquele ferimento no meu braço: onde os dentes da empousa passaram ainda havia sangue fresco e, ao redor do ferimento, meu braço estava esverdeado. O contato com aquelas gotas quente foi doloroso, mas agora parecia que meu corpo e a água tinham a mesma temperatura.
Sai do banheiro usando apenas peças intimas e fui buscar um pijama no armário. Esbarrei em quase todos os objetos a minha frente, mas minha visão estava escura de novo. Peguei as peças de um macio algodão e as vesti as cegas. Ainda sentindo aquela fraqueza no corpo, cai sobre meu adorado colchão e, sem mais qualquer preocupação, adormeci.
[...]
–Thalia... – a voz desconhecida vinha acompanhada por batidas na porta – Thalia, a diretora esta te chamando...
–Já vou. – respondi, mas não sei se ouviram. Levantei, esfreguei meus olhos e tirei um pano quente que estava em minha testa. Segui até o banheiro e fiz a minha higiene pessoal. Peguei meu short jeans e a blusa social da escola; como estava com presa, fechei apenas um dos botões da camisa, não era nada absurda já que era uma escola de meninas e, desde que eu não fizesse movimentos bruscos, eu não mostraria nada de mais. Coloquei os “saltos de Afrodite” e passei sombra preta nos olhos.
A cada passo pelos corredores percebi a escola vazia. Devem estar de novo naquela “sala” onde todos se conheceram. Prendi meus cabelos em um coque e segui meu caminho. Cheguei lá e, para minha surpresa e susto, os meninos também estavam lá. Mas eles...
–Senhorita? – a voz confusa da diretora quase não entrou pelos meus ouvidos; eu ainda me sentia cansada. Nayla parecia prestes a explodir já que seu namorado olhava (babando) para mim. Ignorei-o e aos outros...
–Me chamou por quê? – fui direta, mas minha voz denunciou meu sono.
–Onde está o seu uniforme e o seu bom senso? A escola esta cheia de homens...
Eu ri.
–Eu só vejo projetos de meninos; um bando de garotos que nem saíram das fraldas. – a maioria das meninas riu.
–Venha comigo, Thalia. – a diretora estendeu a mão em minha direção – Com a licença dos senhores. – ela me conduziu até a sua sala, o que, diga-se de passagem, é um caminho bem longo. A porta aberta mostrava o bonito e organizado escritório; não esperei convite para me sentar, eu estava mesmo sonolenta. – o que a senhorita estava pensando vindo vestida dessa forma?
–Isso é uma escola de meninas. Alem de mais, eu ainda estava dormindo. – minha voz soou amansada pelo sono.
–Eu avisei que eles viriam nos visitar.
–Você disse que eles viriam segunda feira.
–Thalia, hoje é segunda-feira. – o que? Isso não fazia sentido. Eu não tinha dormido por mais de dois dias... Ou tinha? A mulher se levantou e deu a volta pela mesa se aproximando de mim. Ela pousou a mão em minha testa e afastou a mesma rapidamente. – Você esta queimando em febre, menina. – pensei em falar alguma coisa, mas não tive chance – O que é isso no seu braço?
Olhei para baixo por reflexo; a faixa enrolada no meu braço era quase toda coberta pelas mangas (mesmo curtas) da camisa; o pano estava manchado de vermelho e estava sobre o corte causado pela empousa. A mulher notou que não iria receber nenhuma resposta e retirou o pano... Ela soltou um ofego baixinho. Minha pele não estava mais verde, mas ainda havia um “rasgo” pequeno onde o demônio havia passado os dentes.
Por ser a diretora, ela era privilegiada com uma sala com microondas e frigobar, fora alguns armários com guloseimas e outras coisas. Ela começou a preparar um chá e seguiu para algum armário. Ela retirou bandagens limpas e um kit de primeiro socorros. Senti aquela clássica ardência quando o algodão mergulhado em álcool encontrou o corte no meu braço. Não fiz nada que denunciasse dor porque, no fundo, eu já não sentia muito isso.
–Vista isso. – ela tinha pegado uma saia nova. – Vamos; quero você apresentável. – vesti a saia enquanto ela chamava alguma funcionaria para levar meu short de volta ao meu quarto. Abotoei os botões que faltavam e ela me deu a xícara com o chá – Beba, vai diminuir a febre.
Tomei um gole.
–Camomila? – ela sorriu.
–É camomila.
Ainda com a xícara em mãos, saímos da sala. Não queria e não ia admitir em voz alta que me sentia melhor. A sala estava barulhenta com a conversa empolgada que os alunos mantinham. Nayla estava agarrada a Lion de uma forma realmente repulsiva; nem filhos de Afrodite se pegavam daquela maneira! Voltei a vasculhar o lugar e achei minha turma de desajustados. Felipe estava sentado na poltrona e, ao contrariando a boa educação, ele não deixou o lugar vago; de uma forma protetora, Fê me puxou para o seu colo. O interessante é que, mesmo os desinformados, poderiam notar o óbvio: não havia malicia ou segundas intenções. Tomei mais um gole da bebida quente e observei a diretora chamar a atenção de todos.
–Como vocês sabem bem, queridos alunos, todo ano nossas escolas se reúnem para prestigiarmos a cultura e artes cênicas ou artes plásticas. – toda a atenção do pessoal estava na voz controlada da mulher – Já visitamos grandes museus e visitamos parques ecológicos para a formação de um melhor caráter em todos vocês.
–Dessa vez, iremos um pouco mais alem – agora, era o coroa, o diretor da escola dos meninos quem falava – Vocês todos foram convidados a assistir um clássico conhecido como Coppélia. O balé será realizado dentro de um mês em um dos melhores teatros da nossa cidade.
–Não é necessário dizer, mas os trajes devem ser escolhidos com rigor. – a voz da diretora voltou a se sobressair — Vestidos chiques e os meninos não vão escapar do smoking, nem da gravata. – muitos meninos fizeram cara feia.
Eles devem ter continuado a falar por bastante tempo, mas o chá estava bem mais interessante. A maioria das meninas decidiu conversar sobre qual o melhor modelo de vestido ou sobre a cor da estação, mas eu não queria falar sobre isso. Deixei meus amigos para trás e parei em um canto mais isolado daquela bagunça; Annie veio logo atrás.
–Lia, você dormiu por mais de dois dias...
–Fiquei sabendo. O que aconteceu depois que eu subi na sexta?
–Ficamos conversando com o Percy sobre nada especifico – assenti; isso era muito comum entre nós. – Depois eu subi e te encontrei apagada e com febre... E eu vi aquele corte. Eu sabia que era algum monstro... Pensei que eu fosse acabar te perdendo de novo!
–Nossa Annie, Era um corte quase insignificante...
–Thalia, vocês estava inconsciente, pálida, com febre e sangrando...
–O que só aconteceu porque eu fiquei muito tempo sem comer... Não vai me perder tão fácil, Annabeth. – disse mais calma – Eu prometo.
–Não vai me abandonar? – aquilo parecia importante. – Senti falta da minha irmã mais velha.
–Não vou te deixar, sua chata. – ela sorriu – Continua. Eu estava em um estado lastimável...
–Eu pinguei um pouco de Néctar no seu braço depois que eu limpei aquele excesso de sangue, enfaixei o corte e coloquei um pano úmido na sua testa pra diminuir a febre. Fiz isso durante os dois dias.
–Brigada.
–Você saiu às presas da escola. O que aconteceu?
–Eu me sentia sufocada e suja – disse lembrando aquela sensação horrível – Era como se só a chuva pudesse levar aquela sensação embora... E... – pensei em contar sobre aquela pessoa estranhamente conhecida que se aproximava... Mas como ela iria reagir? Annie nunca pensava de forma totalmente racional quando se falava em Luke... – Annie, promete não surtar e não contar a mais ninguém, nem ao Percy o que eu vou te contar agora?
–Prometo; o que foi Tha? – respirei fundo e contei sobre Nicole e sobre como ela descreveu Nayla; contei de como minha pressão caiu e contei sobre o estranho conhecido que se aproximava devagar.
–... Quando voltei a abrir os olhos, não tinha mais ninguém, mas Percy viu um homem se afastando.
–Você acha que era ele? – Annabeth tentou disfarçar, mas eu vi esperança e alegria misturadas ao medo do que isso poderia significar.
–Não sei. Mas eu espero que não seja.
–Mas...
–Não se esqueça das coisas ruins que ele já fez. – encerrei essa conversa e nós voltamos para a companhia do Fê, Pam e Celine.
–Hein, já sei onde podemos passar um fim de tarde, galerinha! – Fê exclamou convencido.
–Onde? – perguntei em duvida.
–Vamos chamar o pessoal gente boa que eu te fale das outras escola, aquele moleque de olhos verdes também... Percy! Esse é o nome dele... Vamos pegar uns dois ou três carros com um som muito bom...
–ONDE? – eu e Annabeth gritamos.
–Nós vamos na praia!
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