As Histórias De Thalia
75 Pés cansados
Notas iniciais
THALIA
Não parei por conta da ordem, mas sim pelo choque. O grito dele atraíra atenção de quem quer que estivesse lá dentro. O vento em minhas costas continuava amigável, confiável, me incentivando a andar mais.
Saindo de não sei onde, uma águia colidiu com o vigia arranhando-lhe o rosto e bicando-lhe nos olhos. Teria sorrido, rido até se num ato tolo e desesperado ele não tivesse disparado a arma cegamente. A bala atingiu algum lugar próximo ao ombro. Um gritinho me escapou quando perdi o equilibrio e caí... Caí, caí, caí... De olhos fechado e evitando as lágrimas senti penas, muitas penas em meu corpo. Tentei abrir os olhos e vi diversas águias; diversas! Elas retardavam minha queda... Mas não foi o bastante.
Colidi com o chão no exato local em que fui baleada. Senti os pedaços de cimento adentrarem minha pele já rasgada. Minha visão ficou turva, os pontinhos irritantes voltavam outra vez como se me amassem e não soubessem me deixar ir. Fui golpeada severamente por punhos grandes e por punhos pequenos; não vi ninguém por algum tempo.
KELLI
Não dava para acreditar. Minha sorte era imensa! Cronos estava mesmo fazendo o impossível.
Fazia semanas, quase meses que Luke não estava no comando dessa parte do exército. Era assim que eu fazia o impossível para acabar com cada resquício de felicidade e esperança que exista em Thalia Grace. Foi maravilho ver a dor das caçadoras perante os canibais... Tão lindo! Uma cena tão tocante... E agora a Grace caíra na isca... Caíra fácil demais...
–O que fazemos com elas, senhora? – um trasgo perguntou; cuspe voou junto de suas palavras.
As três caçadoras estavam caídas, inconsciêntes e feridas no chão. Com excessão de Luke, talvez, aquela fosse a visão que mais me dera prazer nos últimos anos.
–Vamos levá-las para o navio. Prenderemos elas próximo aos dragões... — a gargalhada maldosa e súbita espantou o trasgo, porém motivou os outros a arrastarem as meninas até o nosso lindo barquinho.
[...]
A cela era fria, cinza e podre. Acorrentaram as peninas na parede e contemplei meu maravilhoso troféu. Uma menininha pequena tinha sangue escorrendo pela lateral da cabeça, a menina árabe tinha diversos hematomas, mas Thalia... A filha de Zeus estava bem machucada.
Nada foi melhor do que vela em um estado tão deprimente. Talvez devessemos mostrar o estado das Caçadoras a Ártemis! Ver o horror dela seria impagável.
–Esta daqui deu trabalho — um monstro qualquer resmungou se referindo a árabe — Perdi dois dentes por causa dela.
–Ah, meu bem — acariciei a cara deformada da criatura — Foram as presas? Acho que devemos tirar algo dela também, não concorda? Depois vocês podem... Ah, se divertir com elas.
Voltei a gargalhar deixando aquela cela no exato segundo em que o dragão rosnou. Ah, como a minha vida era bela.
LUKE
Fazia meses desde que eu deixara o meu exército nas mãos de Kelli. Não estava preocupado com a situação; ela deixaria tudo sobre controle com um simples olhar. Cheguei ao navio com a cabeça leve e com um baseado na mão; não lembrava quando havia pego a droga, mas fazia tudo para fugir desta realidade por segundos. Assim que entrei, o barco entrou em movimento. Passei por cada passageiro com um porte altivo e bem superior, mas não pude deixar de sentir a animação dos meio-sangues e dos monstros. Já muito intrigado agarrei um moleque fransino; algum semideus menor.
–O que, por Cronos, os deixou tão animados?
Ele não respondeu. Ajeitou os óculos de forma nervosa e tentou conter o tremor das mãos.
–E... Eu...
–Fale logo antes que eu perca minha paciência com você — a advertêmcia veio acompanhada de um novo puxão na camisa — O que você sabe?
Ele engoliu em seco.
–Capturamos três Caçadoras, senhor. E- Eu ouvi a empousa gargalhando... Ela... Ela falou que pegaram a tenente de Árt...
–O que disse? — eu estava incredulo; não soube como reagir de imediato.
–A tenente da deusa, senhor. O demônio disse que os rapazes poderiam se divertir com elas... Ela está na cela ao lado do dragão...
Joguei o garoto contra a parede em um ataque de raiva. Não me importei se ele ficou inconsciênte ou não. Os punhos cerrados e o maxilar travado, qualquer aura de felicidade dos tripulantes desapareceu assim que viram meu olhar de louco. É verdade que eu não havia pensado em Thalia nenhum desses dias desde a desastrosa mensagem de Íris, mas eu não queria isso. Ok, talvez eu quizesse que as Caçadoras sofressem um pouco por me tirarem a possibilidade de ter a minha tão amada Thalia... Eu nunca seria capaz de tirar delas o seu maior orgulho como Kelli havia ordenado: eu nunca permitiria que alguma Caçadora fosse violada.
Já no porão, atirei uma lança contra a cabeça um telquine por puro capricho. Caminhei por entre diversas celas contendo diversos tipos de prisioneiros; meu destino eram as últimas celas: as mais escuras, mais frias, mais nojentas. As piores em todos os sentidos. Criaturas tão "puras" quanto as Caçadoras não mereciam estar ali. Quase não reconheci a cela tamanha a quantidade de homens e adolescêntes com os hormônios aflorados.
A cena me enojou: uma moça de aparência árabe estava encolhida no chão com apenas o toco da mão ainda sangrando, a camisa aberta com marcas de unhas no busto e rosto coberto por lágrimas. Ela tentava fechar a blusa, mas seus esforços eram em vão. Atrás dela estava uma criança de oito anos, os olhos brilhantes de medo o corpo manchado por hematomas, sangue escorrendo pela lateral de sua cabeça. Do outro lado da cela não havia como observar o que acontecia com a terceira Caçadora; provavelmente Thalia, embora eu rogasse para que não fosse.
Mordecostas brilhou em minha mão e apenas no instante em que um foi decepado o silêncio reinou. Minha aparência devia ser assustadora para todo aquele medo pairar no meu ar. O cheiro da cela me deu ânsia, mas não me detive. Caminhei até a árabe.
–Saia de perto de mim, garoto nojento! — ela se encolheu ainda mais levando a pequena junto. Puxei a para frente com um pouco mais de força do que pretendia.
–Pela desgraça dos Deuses! Havia esquecido o quanto vocês são aríscas. — não deixei tempo para que ela respondesse; fechei-lhe a blusa tomando o o cuidado de não olhar para onde não devia e também de não tocá-la. — É uma semideusa? — ela negou com lágrimas incessantes; suspirei — Tragam ataduras e álcool antes que eu resolva por cortar a mão direita de cada um de vocês. — no mínimo sete sairam para buscar o que foi pedido; assim que chegou limpei o ferimento o melhor que pude e enfaixei o coto — Eles encostaram em você? — minha pergunta foi direcionada a criança, em seu choque, ela não respondeu; me voltei para a outra — Tocaram nela?
–Não. Thalia não permitiu... — o nome me deixou rigído. Levantei sentindo os olhos faíscarem. Ninguém havia se atrevido a sair da frente da terceira Caçadora, mas me deram passagem sem disser nada. Inconsciênte e deitada no chão estava ela: apenas um "vestido" bem curto de alguma banda de rock lhe cobria o corpo, as coxas estavam expostas como se alguém tivesse tido a ousadia de mexer em sua roupa, os pés descalços estavam quase sem pele, apenas com sangue cobrindo-os, na clavicula eu vi o estrago causado por um tiro. Me ajoelhei ao seu lado. Sua pele estava tão pálida deixando o sangue em evidência. No pescoço havia uma pequena gota de sangue solitária... A dois metros de mim uma seringa. Eles a drogaram!
Peguei-a com uma delicadeza que surpreendeu a todos.
–Encontrem o demônio. — rosnei — E se mais alguém se atrever a encostar em uma dessas meninas... — deixei a frase no ar incapaz de expor minha raiva em meras palavras.
Saí ouvindo os gemidos da Caçadora perguntando o que eu faria com a sua tenente, mas não respondi a nada. Meu único desejo era chegar a minha cabine. Todos faziam o favor de sair da minha frente com o medo e a culpa brilhando em seus olhos. Me concentrei apenas em Thalia para não acabar matando meu próprio exército: ela estava tão leve, tão pálida... Eu jurava poder ver os pedaços da sua clavícula fraturada. Apertei seu corpo ligeiramente contra meu. Queria tentar sentir seu coração bater ou sua respiração falha; não consegui nada. Ela estava, a primeira visão, morta.
Coloquei-a sobre a cama com cuidado e ageitei seu minúsculo e provocativo vestido. Busquei por Néctar e Ambrosia, álcool e bolas de algodão. Com uma pinça, removi a bala (ou o que sobrou dela) dos fragmentos de ossos; ainda no ombro, retirei pedaços de concreto. Feito isso, despejei quase metade de um cantil de Néctar sobre o buraco infecsionado. Ao chegar nos pés, prendi a respiração: eles estavam muito maltratados. Limpei o que pude com o álcool e agradeci por ela estar incosciente; acho que não suportaria ver a dor em seus olhos ou sua discreta mordida no lábio inferior. Depois de limpar me atrevi a banhá-los com Néctar. A Ambrosia serviria apenas quando ela acordasse.
Me sentei ao seu lado observando suas feições; motivado pelo medo e pela dúvida, relutante, coloquei minha mão sobre seu peito e fechei os olhos. Acalmando meu coração, eu conseguia sentir o dela e o suave movimento de sua respiração. Viva! Por um triz, mas viva.
–Meu amor, o que você que... — Kelli não continuou a falar e eu não virei no mesmo instante — O que ela faz aqui? — não respondi; havia encontrado uma corrente fina e prateada. Ela ainda tinha o camafeu? Minha imagem ainda aparecia nele? — O diabos essa peste está...
O eco reverberou pelo cômodo. Com o rosto inclinado para o lado Kelli ofegou.
–Eu gostaria que você respondesse a pergunta. Como foi que as Caçadoras vieram parar neste navio sem uma ordem minha?
O silêncio perdurou até ela rosnar o óbvio.
–Você deixou este navio sobre o meu comando...
–Não. Eu lhe deixei encarregada de proteger este navio e não falei nada sobre sequestrar Caçadoras...
–Por que está tão incomodado? — nossas vozes soavam altas de mais; temi que isso pudesse despertar Thalia de uma maneira "errada" — Há alguns meses você queria todas elas mortas...
–Nunca desejei uma Caçadora morta. Se julga mais inteligente que Thalia, mas não sabe admitir o erro e contesta o castigo como uma criança mimada... — dei-lhe outro tabefe drante o breve desabafo — Saia. Cuido de você depois.
Ela não se mexeu.
–Vai se arrepender da sua escolha. Essa daí não te quer, estúpido apaixonado! Eu quero! — ela bateu o pé — Você pertence a mim e não a ela. Essa garota inferior que te abandonou...
–Fora.
–Ela não presta! Pessoas no Acampamento disseram ter visto ela agarrada a um filho de Apolo...
–Fora.
–Você viu ela beijar outro garoto na praia...
–EU DISSE, FORA!
Acompanhado do grito cravei a faca na parede próximo ao corpo do demônio. Ela saiu quase correndo.Tentei me acalmar e ordenar meus pensamentos incoerentes, mas não pude. Nunca consegui pensar em algo coerente quando Thalia estava por perto... Não! Eu não era um estúpido apaixonado! Ela havia sido a primeira de muitas garotas, só isso. Havia sido minha família quando eu não tinha outra, mas me abandonou como os outros. É. É isso. Ela havia sido apenas a melhor parte do meu passado; nada mais.
Fiz o que podia, bem mais do que realmente podia; vi mais do que aguentei naquela cela. Parecia haver areia em meus olhos, como na colina Meio-Sangue, quando a criança dentro de mim morreu. Depois de tanto tempo, tantos passos, tantos erros e acertos, meu rumo voltava a colidir com o dela. Isso era alguma coisa, não era? Eu não podia desistir dela, podia?
Balancei a cabeça como se isso clariasse meus pensamentos.
Ela é uma Caçadora. Ela havia desistido de mim. Mas que droga! Por que vê-la tão fragilizada ainda me incomodava? Não era mais uma criança, ela também não. Tínhamos crescido, seguido rumos diferentes, mas continuávamos teimando em nos esbarrar... Só pra que? Sofrer um pouco mais?
Um ligeiro movimento na cama me fez olhar para ela mais uma vez. Thalia era um paradoxo belíssimo: de aparência tão delicada, mas tão rígida, tão forte por dentro.
Suspirei; não por cansaço como vim a responder depois, mas por pura admiração. Seria uma noite longa para ela e breve para mim. Sentado de frente para a cama, passei cada segundo acordado vendo-a como se cada miléssimo de segundo fosse pouco, fosse o último.
[...]
Seus olhos se abriram lentamente faiscando no escuro como um magnífico farol azul, dois dias depois. Não dormi em nenhum segundo desses dias. Suspirando ela voltou a fecha-los. Logo os abriu de novo, mais decidida e confusa, passando os olhos pelo quarto estranho, se perguntando como chegara ali... E seus olhos pararam em mim. A princípio nada, mas logo vi o que deveria ser medo.
Pulando da cama ela tentou correr para a porta. Eu deveria ter permitido, porém já não estou agindo de forma tão sensata. Corri em sua direção e ela logo se desviou de mim; correndo pelo quarto, fungindo de mim, prenssei-a na parede segurando-lhe as mãos na altura da cabeça, os dedos quase entrelaçados. Thalia ofegou e fechou os olhos com força por um instante; a cor desapareceu de seu rosto e o corpo começou a deslizar em direção ao chão. Soltei suas mãos lembrando que seu osso ainda não estava curado e que seus pés ardiam devido a pele ainda não ter se refeito por completo. Delicadamente, e não por maldade, puxei suas pernas de encontro a minha cintura. Soltei uma das mãos e lhe segurei o pulso caído ao lado do corpo. Os olhos ainda fechados me denunciavam o quanto tudo aquilo lhe doia. Levei seu braço até seu peito e apertei suas costas ligeiramente, forçando-a a encostar em mim sem tanto medo. Pálida, cansada, dolorida e gelada, ela encostou a cabeça em meu ombro respirando pesadamente enquanto tentava se apoiar com a mão livre em meu ombro.
De longe senti que seu toque em mim não era afetivo, mas sim desesperado por tanta dor. Nunca suportei vê-la assim. Levei-a para a cama e a deitei com cuidado. Fechei as janelas e cobri seu corpo com o edredom. Ela tremia. Peguei um pedaço de ambrosia e me sentei a seu lado. Com a mão disponível lhe dei apoio as costas ajudando-a a se sentar por alguns segundos. Levei o pedaço de bolo a sua boca e sua mão segurou a minha por um breve instante em que meu corpo se arrepiou.
Thalia voltou a deitar. Me sentei ao seu lado afastando o cabelo de seu rosto.
–Não vou perguntar nada, mesmo tendo tantas perguntas – lhe sussurrei – Também não pedirei nada. Não posso impedi-la de ir embora como não posso forçá-la a ficar comigo e esquecer os deuses. – seus olhos fechados me davam força para continuar mesmo que ela não ouvissee – Não queria que eles tivessem feito isso com você e sua nova família – desci o carinho até chegar na curva do ombro, mas voltei para o rosto – Mesmo querendo, não vou lhe tocar indevidamente. — nesse ponto, saí da cama e me ajoelhei ao lado do colchão, sem tocá-la como queria, apenas olhando-a.
Ela respirou fundo e apertou mais o braço ferido contra o peito.
–Eu respeito suas escolhas, Thalia. Espero que respeite as minhas.
Pensei ter visto uma lágrima escorrer.
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