As Histórias De Thalia

71 Gélido como a morte, encaro três tipos de dêmonios


Notas iniciais
Oiee! Preparados para conhecerem algumas caçadoras? Rsrsrs... Boa leitura, queridos:

LUKE

As semanas passaram muito lentamente e de uma forma muito dolorosa. Meu corpo demorou a se refazer, mas agora eu estava firme e forte. Meus treinos haviam diminuído de intensidade para não causar novas lesões ou piorar as já existentes. Voltei aos meus serviços, minhas tarefas. Descobrimos novos semideuses menores que queriam reconhecimento, fizemos novos aliados com mercenários humanos e mudamos nossas bases de comando.

Fui informado pelo pingente, meus amigos do Acampamento sobre os novos treinos e as novas preocupações. Monitorar a Caçada era um problema. As virgens de Ártemis vivem em constante mudança; por diversas vezes pensei que estivessem no exterior. Meu grande medo foi confirmado por Kelli: Thalia estava na Caçada como tenente.

A cada dia eu me sentia mais ressentido. Não consegui mais visualizá-la da mesma forma de antes; eu a via de uma maneira fria e sem sentimentos. Kelli me convencia a cada dia mais dizendo palavras raivosas e baixas sobre a filha de Zeus. Era evidente o que acontecia: ela havia sido apenas um primeiro amor; nada mais.

–Kelli – chamei o demônio – Tenho uma reunião com os patrocinadores; oriente os outros na minha ausência. Talvez eu demore algumas semanas organizando nosso exercito no restante do país.

Pensei ter visto um brilho louco, quase insano em seus olhos. O sorriso brilhava intacto. Mesmo com todos os alertas que meu corpo pareceu enviar, deixei o navio.

THALIA

Havia muitas cores vibrantes em cada lugar que se pudesse olhar. A primavera havia chegado de forma definitiva. O inverno já havia passado e, com ele, as lembranças ruins. Eram raros os momentos em que eu me pegava perdida em dores ou em incertezas. A Caçada era de longe uma nova vida para mim.

–Vamos garotas! — Clara gritou. A menina estava parada nos 14 anos; tinha os olhos esverdeados e os cabelos loiros ondulados. O vestido prateado parecia voar conforme corríamos.

O luar começava a aparecer; o sol sumia no horizonte fechado por árvores.

–Aqueles monstros não são de nada — Elohine gritou e muitas riram. A mocinha também estava vestida de prata. Estávamos caçando um monstro qualquer; talvez fosse o mais perto de um lobisomem que conheceríamos: tinha a pele lisa e gélida, como a de um cadáver, era bem esquelético e muito, muito branco.

Moombean corria a meu lado. O pelo branco do lobo roçava a todo instante em minhas pernas me permitindo sentir a maciez. Os olhos vermelhos brilhavam em satisfação pela corrida longa e divertida. Ao contrario das minhas irmãs, eu estava vestida de uma forma simples: jeans, blusa de manga comprida acinzentada e coturnos. O arquinho cintilava em minha cabeça. Ainda era estranho usá-lo.

Saltamos uma depressão na terra e aterrisamos com leveza, quase não fazendo barulho. Acemira (uma linda índia de cabelos longos e negros) agarrou seu arco pressentindo um ataque. Ela estava certa. Três "lobisomens" pularam sobre nossas cabeças; as últimas caçadoras deslizaram de joelhos mirando as flechas para cima... Dois caíram... Continuamos correndo agora sendo seguidas lado a lado pelo lobo restante... Mais deles começavam a nos cercar.

–Thalia... O que fazemos? — o grito veio de meu lado esquerdo; Baheera uma árabe que fugira do seu casamento arranjado, deveria ter 13 anos. Não parei de correr pensando no que poderia ser feito... Os monstros corriam a nossa volta acompanhando nosso ritmo acelerado; nossos lobos comandados por Moombean corriam em nosso encalço.

–Acemira, você lidera a esquerda. — gritei a ordem que soou tão clara quanto se eu estivesse com ar nos pulmões — Baheera a direita. Elohine e Clara comigo — assim avisado, nos dividimos e os monstros também. Havia outra depressão e uma rocha indicando o fim e começo. Na frente das duas meninas corri até os limites da rocha e, ao pular, virei meu corpo para trás onde saltando sobre as duas e vindo de encontro a mim estava o maior dos "lobisomens". Ainda no ar soltei uma flecha que se alojou no pescoço.

Assim que caí no chão virei uma cambalhota para trás e lancei outra flecha; também ficou no pescoço. A criatura era silenciosa. Abriu a boca como se rugisse, mas nenhum som saiu de lá. Das feridas um líquido azulado escorria lentamente como sangue. Clara e Elohine lançaram três flechas seguidas que se alojaram na pele clara e morta do monstro. Moombean cravou seus dentes na pata traseira, mas o soltou quando recebeu uma patada violenta; meu querido lobinho colidiu com uma árvore a caiu no chão. Ele estava morto... Fogo! Tínhamos que queimá-lo!

Peguei minha lança e saltei sobre seu corpo caindo montada no dorso incrivelmente gelado do monstro. Ele voltou a escancarar a boca, mas nenhum som foi emitido. Me segurei nas flechas cravadas firmemente em seu corpo... E ele correu... Passei por Baheera e por Acemira; as caçadoras me olhavam abismadas, mas eu ria do desespero do animal. Atraí a atenção dos outros monstros e um deles saltou sobre mim... Com a lança carregada em eletricidade, cortei-lhe a barriga, mas tendo o prazer de queimar suas entranhas. Sangue azul caiu em minha blusa.

As meninas redirecionaram sua atenção para o único monstro vivo (sem ser o que eu montava) e lhe abriam cortes terríveis na pele. A lança, por ser comprida, me impedia de matá-lo ou feri-lo. Eu teria de dar adeus a minha carona. Contrariando meu bom senso, fiquei de pé sobre o dorso da fera, perdendo o equilíbrio diversas vezes, mas não caí. Pegando impulso, pulei e perfurei-lhe o pescoço fazendo raios faiscarem e sangue azul gelado escorrer até o solo. Desci do corpo agora realmente morto e larguei a lança.

O último lobo ainda lutava contra as minhas irmãs, mas não tinha muita chance de se mover. Aproximei-me e enfiei minhas mãos em suas feridas mais profundas sentindo seus órgãos lisos e cortantes como gelo. Fechei meus olhos e me senti vibrar com energia... Já não havia mais vida naqueles monstros.

Uma explosão de risos seguiu de cada uma de nós. Muitas de nós estávamos manchadas de azul, mas ninguém mais do que eu.

–O que fazemos agora, Thalia?

–Vamos queimá-los. Uma fogueira bem grande.

–Bem grande? — a caçadora mais nova tinha entre sete e oito anos. Os cabelos castanhos eram lisos e os olhos brilhantes eram esverdeados. Sophia se lançou em meus braços; a ergui no ar manchando-a de sangue azul também.

–Bem grande.

Arrastamos cada corpo morto e branco dos lobisomens e algumas caçadoras recolheram lenha. A lua já domina a vastidão azul escura e Zoe estava lá, caçando conosco. A fogueira ardia enquanto caçadoras aplaudiam a melhor caçada do dia. Sophia ria e dançava ao redor da fogueira com uma inocência linda e invejável. O vestido branco e prateado voava junta com seus movimentos. Havia algo nela que me lembrava Annabeth, que me jogava de volta ao passado, mas de uma forma reconfortante, acolhedora... A menininha me lembrava o lar.

Embora o cheiro de carniça enchesse o meu ar, me peguei sorrindo observando Elohine tocar flauta, Baheera trançar os cabelos de Acemira, e Clara dançar com Sophia... A pequenina se aproximou de mim me puxando para perto delas.

–Venha! Dance conosco!

[...]

Andamos mais um pouco até encontrarmos uma clareira afastada do cheiro e aparentemente segura. Montamos o acampamento. Meus ouvidos perceberam o som de águas calmas; havia algum riacho por ali. Todas juntas fomos limpar a sujeira azul que ainda nos cobria. A água estava muito fria como consequência do inverno nem tão distante. Não havia peixes no riacho, então fui obrigada a sair para caçar algo comestível; recusei a companhia de Baheera e Acemira. Voltei a ter o arco nas mãos e a aljava nas costas.

Segui caminhando pela margem do rio, esperando encontrar algum animal matando a sede. A cada passo lento que dava, escutava o farfalhar das folhas aos meus pés. Sem ter uma noção de tempo e espaço, me peguei perdida e distante das caçadoras. Escorei-me em uma árvore e sentei no chão admirando o riacho. Eu tinha que me acalmar antes de continuar a caçar.

Fechei os olhos e assim que os abri tive a visão de um arco íris a minha frente; tão claro e lindo quanto seria durante a manhã. Do outro lado da imagem um homem me observava intensamente, quase sem piscar.

–O que quer? – fui bastante grossa.

–Então a famosa Thalia Grace se juntou verdadeiramente e um bando de virgens puritanas... – seu rosto se contorceu em escárnio – Isso é tão... Patético!

–O que quer, Castellan? Tenho certeza de que não esta gastando o seu tempo e dinheiro me insultando.

–Saber por que você me...

–Por que te joguei do penhasco? Era necessário.

–Lia...

–Não me chame assim. – a rispidez era evidente.

–Thalia, eu...

–Você não tem o direito de dirigir a voz a mim! – exclamei.

–O que aconteceu com você? Não é mais a menina que conheci – seu rosto apresentava confusão – Eu não te conheço mais.

–Acho que essas palavras são todas minhas. Sabe Castellan, estou muito feliz onde estou deveria ter aceitado o convite da primeira vez que tive chance. Você foi o maior desperdício do meu tempo!

–Não consigo acreditar do que diz – seu rosto mantinha o sorriso intacto para o meu desgosto – Ainda existe uma chance para se juntar a Cronos; ainda não é tarde demais...

–Para que? Existe uma chance para que, Castellan? Não vou desperdiçar minha vida lutando por um titã que me quer sofrendo...

–Poderia existir uma chance para nós dois... Então eu poderia te provar o quanto não sou um desperdício de tempo... – seu tom era descontraído, o sorriso maroto, mas olhos me pareciam tristes.

–Nós dois? – minha voz falhou contra a minha vontade; respirei fundo preenchendo meu corpo de ar – Somos opostos, proibidos um para o outro. Você é leal aos titãs e eu aos deuses. Você é servo de Cronos e eu sou a filha de Zeus e tenente de Ártemis. Você passa as suas noites com prostitutas e semideusas sem nome e eu... – eu estava de pé com um sorriso simples, pequeno e um tanto tristonho – Eu sou uma caçadora... Não volte mais a falar comigo a menos que queira mudar de fidelidade.

Agitei a mão sobre a névoa colorida e um rosto estático e inexpressivo sumiu. Eu sei que deveria sentir um peso sobre o peito, uma agonia no coração ou uma intensa dor de cabeça, mas... Mas a cada vez que pensava em Luke eu via a minha infância, os meus “primeiros dias de vida” e não aquele homem. Não conseguia mais sentir dor por ele; ele havia mudado violentamente... Mas eu não tirava sua razão: eu também havia mudado. Todos mudamos... Nós crescemos... E tanto esquecemos quanto nos lembramos do conceito de certo e errado.

Voltei a me sentar no chão de olhos fechados, escorada na árvore.

Tantas verdades escaparam da minha boca... Mas não deixei de mentir. Luke não foi um desperdício de tempo, nunca foi uma pedra sob meus pés. Eu consegui sentir suas mãos em minhas costas me amparando no instante em que escorreguei na lama. O toque inocente e inesperado foi tudo e nada. E eu não me arrependia de ter recusado a caçada naquela época... Não me arrependia de nada.

Abri os olhos e senti meu coração chegar à boca: o rosto de demônio estava quase colado ao meu por centímetros nos separando. Os olhos vermelhos, os cabelos em chamas, a pele encantadoramente bronzeada pelo sol, o sorriso psicótico e assassino...

Notas finais
Gostaram do final? E o que pensam do Luke? E dos novos sentimentos da Thalia? "Zoe estava lá, caçando conosco" - eu chorei escrevendo esse trechinho... Espero que tenha tocado vocês também... Me digam, amores e até logo =D