Notas iniciais
Amei escrever essa one super mexeu com meu emocional, espero que gostem e comentem.

Só Deus poderia imaginar o quanto custava a Rebecka estar ali, acompanhando seu irmão mais velho. Seu carrasco de uma vida inteira. O homem que ela mais amava no mundo, e o mesmo que a privara de tantas coisas na vida. Todos os seus planos, seu "feliz para sempre" arruinado pelo irmão. Sangue do seu sangue, que deveria querer o melhor para ela, mas que de fato, foi o motivo do seu sofrimento por muito tempo.

-Ah, Nick...!

Acompanhá-lo nessa saga a deixara destruída. Não tinha mais o mesmo brilho de alguns meses atrás. Nem a emoção que antes lhe afligia os nervos com a força de um tornado. Nada, em absolutamente nada, lembrava Rebecka Mikaelson que todos conheciam.

Andando de cabeça baixa, antes que pudesse perceber, trombou num corpo esguio. Já praguejando a décima geração de quem quer que fosse, olhou para frente. Uma moça morena, que aparentava ter a sua idade. Suas feições igualmente cansadas e esgotadas.

-Me desculpe. – Rebecka suspirou, não se reconhecendo mais. Em outros tempos, teria brigado, feito um escândalo; mas naquele momento, ela só queria um pouco de paz.

-Hum, você tá bem?

-Não, nem um pouco, mas... espero um dia ficar.

A loira saiu andando lentamente, mas algo naquela frase incomodou os ouvidos de Elena. Ninguém no mundo tivera uma cota maior que ela em experiências de morte, parecia uma colecionadora de cadáveres. Um pensamento horrível olhando de fora, mas para ela não passava de uma lição de vida de que, um jeito ou outro, toda vida começa e termina. Ela lidava diferente com esse ciclo da vida. E se tinha alguém que poderia entender – ou quase isso – a angustia de Rebecka, esse alguém com certeza era Elena.

Em poucos passos conseguira estar ao lado dela. Algo nos olhos sem vida daquela mulher que aparentava ser feita de cera de tão pálida que estava, dizia em alto e bom som que nada estava no seu lugar. O jeito como suspirava era claro que ela estava cansada de estar em situações em que, por mais que tentasse, sempre saia perdendo de alguma forma.

-Acho que precisa de um café. Ou um uísque, mas por enquanto, vamos ficar com o café. – Elena disse, depois de a puxar para o sofá da recepção, tentando fazer alguma graça. Em vão, a loira continuava séria.

Quando voltara com o café, a prova estava lá. As lágrimas silenciosas de Rebecka lhe banhavam o rosto, e pareciam um diluvio em sua alma. Estava claro para quem quisesse ver.

-Eu sou Elena Gilbert Salvatore. – ela disse sorrindo por um minuto. Gostava de dizer seu último sobrenome, lembrando a quem pertencia.

Rebecka não estava animada com novas amizades, mas Elena tinha sido tão atenciosa com ela, que podia ouvir sua mãe dizer em sua cabeça.

-Rebecka Mikaelson, não foi essa a educação que eu te dei. Quando alguém se apresenta, você sorri, e faz o mesmo.

Dona Ester nunca tolerou a falta de educação de sua caçula, mas isso não quer dizer que algo mudou. Era o jeito de Rebecka, e isso nunca mudaria, mas naquele momento ela se sentia tão mal, tão sozinha, e tão cansada que não tinha energia para ser ignorante com Elena e a mandar ir embora.

-Rebecka Mikaelson.

Em poucas tentativas, Rebecka desabara. Abrira o peito de uma forma que achava impossível, e Elena também contou de seus mil fantasmas. Aquelas duas tinham histórias difíceis, viveram coisas que muita gente não teria suportado. Quem permaneceria são depois de perder pai e mãe adotivos num acidente de carro, logo após descobrir a adoção? E então depois perder pai e mãe biológicos num acidente de avião? E ainda perder a tia para um câncer que ninguém nem tinha conhecimento? E então num estupido acidente, a casa pegar fogo com seu irmão mais novo lá dentro? Elena sobreviveu a tudo isso, e se manteve sã.

E quando seu pai odeia seu irmão, e o persegue por anos? E esse seu irmão, acidentalmente mata sua mãe? Logo após, num momento de ódio, loucura e raiva, mata seu pai? Eles estavam sozinhos, só tinham um ao outro, e mesmo assim, vez após vez, Rebecka viu seu irmão roubando e acabando com sua felicidade. E mesmo assim, ela se manteve sã. Se manteve ao lado dele, por mais que a custasse o peso do mundo.

Elas choraram juntas, se abraçando, e se consolando. Porque num momento de desespero, quem te diz um a, está desposto a ouvir o alfabeto inteiro e ainda te ajudar a pronunciar certo se você precisar.

-Sabe, eu nem sei porque eu ainda estou aqui. Nicklaus não merece isso. Ele tirou de mim todas as formas de felicidade, frustrou todas as minhas tentativas de viver... Ele matou o homem que eu amei a vida toda, porque ele se declarou... Dá para imaginar isso? – ela chorou olhando suas mãos. – Marcel era seu melhor amigo, Nick o ajudou e o amou como um filho. Nos apaixonamos, e quando ele perdeu o medo, e fez sua escolha, meu irmão o viu como um traíra. Meu próprio irmão matou o homem que eu amava na minha frente, porque Marcel escolheu a mim. Foi... ciúme, posse.

-Ele fez isso com você? – ninguém conceberia que um irmão faria o outro sofrer assim.

-Sim... me envenenou com verbena* quando soube que eu estava grávida do meu Marcel... E mesmo assim, depois de tudo que ele já fez comigo, e não foi pouco, eu estou aqui com ele. Eu estou aqui Elena, e mesmo assim Nick me olha como se eu tivesse o odiado a vida inteira! – as lágrimas geladas de Rebecka tomaram conta de seu ser. Geladas, pois já não tinha calor com ela, seus traumas a tornaram fria. – Eu o odiei, sim. Com todas as minhas forças, eu o odiei por vinte anos, mas nem nos meus piores dias, o deixei sozinho... Todas as vezes que ele mereceu, eu não consegui ir embora. É o laço, sabe? Puxa mesmo quando o que mais queremos é ir embora.

Elas ficaram em silêncio, sentindo o gosto amargo das lembranças de Rebecka. Nada poderia curar o coração dessa mulher, nada acabaria com a decepção – porque o ódio dura, mas quando já não inflama, fica só a decepção – de ter a família que tinha, o amor por seu carrasco, e mesmo assim, nem quando seu coração doía de raiva ela foi capaz de virar as costas para ele. Seu sangue, o homem que ela amou e cuidou, e que não a amou de volta. Seu próprio irmão.

-Sabe, eu também já passei por poucas e boas, mas tive meu anjo salvador. – a morena sorriu.

-Seu marido?

-Sim. Meu Damon.

Lembrar do marido, fez os olhos de Elena cintilarem de emoção. O moreno de olhos azuis sempre a conquistara. Nada se comparava ao poder de persuasão que aquele homem tinha sobre ela; tudo que ele quis, ele teve. Sem exceções.

-Nós não nos demos bem no começo, mas depois não resisti. Não consegui mais resisti àquele maluco debochado. – ela sorriu ao ter na memória a imagem do sorriso torto debochado que Damon sempre ostentara. – Quando eu ia imaginar que terminaria com ele?

-Vocês não tiveram filhos?

Rebecka estava agradecida por ter sido tirada daquela esfera de dor onde tivera a vida inteira. Sempre amara histórias de romance, desses clichês mesmo, e Elena falava do marido com tanto amor...! O brilho – o tão famoso "brilho de amor nos olhos" – estavam lá sem dúvida.

-Nós... perdemos um bebê logo no início da gestação, e depois vimos que apesar de gostarmos muito de crianças, elas não eram pra nós. Tínhamos vida de aventureiros! – sorriso de amor, ele também estava presente – Conhecemos sessenta países, vivemos aventuras! Ele cumpriu tudo que me prometeu...

-Eu quero ter uma vida, Damon. Quero aventuras, quero ter lembranças, quero viver!

-Nós vamos conhecer o mundo, Elena! Vamos viver de momentos, amor e loucura – ele riu a levando junto – Nós seremos felizes.

-Nós casamos num balão sobrevoando Londres. Num balão, Rebecka! Uma loucura – Elena riu jogando a cabeça para trás. Seu conto de fadas com Damon tinha sido o mais louco do mundo, mas foi repleto de tanto amor. – Nós vivemos!

De repente, a expressão de Elena entristeceu. Seus olhos ficaram sem foco, como se ela estivesse vendo algo, que só ela poderia. O salgado de suas lágrimas irritando seus olhos de forma que fez com que os coçasse. Não era irritação alguma. Era a saudade de Damon transbordando de seus olhos novamente. Mas tudo bem, já não doía mais, não como antes. Não como na hora.

-O que aconteceu com ele?

Num impulso impensado, Rebecka se viu abraçando a mulher que conhecera há horas. Solidariedade de um coração triste a outro.

-Nós... estávamos na Amazônia quando ele foi picado por uma aranha caranguejeira, e... Ele não resistiu. Segurou minha mão e disse " Você sabe onde quero estar, e não se preocupe por mais gostosa que seja a fantasma, eu continuarei fiel a você. Eu vou te esperar, morena, mas por favor não tenha pressa de me encontrar." – a voz de Damon podia ser ouvida no fundo de sua mente. – Ele foi canalha até quando estava morrendo!

Elas riram, Elena se engasgando nas lágrimas. Lembrou-se de como foi estranho estar triste e calma quando subiu no alto da colina no meio da floresta ao sul de Mistic Falls, e de lá jogara as cinzas de Damon ao vento. Era como se pudesse sentir sua pele macia e morena acariciando suas costas e sua voz dizendo "Vai ficar tudo bem Lena" exatamente como fez por dezessete anos.

-Não foi como eu esperava, sabe? – Elena disse sorrindo, batendo ombro no de Rebecka – A morte não deve ser encarada de uma forma ruim. É só o descanso, Rebecka.

No final da noite, quando Elena desapareceu – como se tivesse sido um fantasma vagando pelos corredores – aquelas palavras ficaram ecoando em sua mente. E de repente, chorou. Um choro torrencial, pesado e intenso. Choro soluçado, e pela primeira vez sentiu o peso da raiva e do ódio saindo de seus ombros. Naquele momento ela soube que Elena surgiu para lhe trazer a liberdade do perdão.

Sem pressa caminhou até o quarto 0709. Estava com medo, mas decidida. Quando entrou, Nicklaus parecia que via algo que somente ele podia. Talvez um de seus muitos fantasmas.

-Nick?

Nicklaus a olhou com ódio e tranquilidade. Um misto de sentimentos que ninguém nunca poderia entender. Ele já chegara ao limite de tudo. Já não sabia se um dia voltaria a estar são – pois se perdera no meio do seu ódio e incredulidade, já não tinha mais humanidade. Perdera-a em algum ponto de sua história que já não sabia onde exatamente.

-O que está fazendo aqui Rebecka? – ele rosnara com olhos negros e arregalados. Rebecka sentiu pena do irmão que já não era o mesmo que conheceu a vida toda.

-Estou aqui por você Nick.

-MENTIRA! Você está unida a Marcel pra me derrubar! – Nicklaus gritou ao reunir o pouco de forças que ainda tinha. A doença levara o pouco de lucidez que ainda restara, e aos poucos se perdera entre o presente e a fantasia.

Rebecka se aproximara, chorando pelo irmão. Ele olhava ao redor de olhos arregalados, assustado como se todos os inimigos que colecionara a vida toda estivessem ali, prontos pra atacá-lo. E foi quando ela o sentiu ao redor de seus braços, que Nick derrubou o muro que o escondia, e chorou. Como se voltasse a ser criança, ele chorou sofridamente. Provavelmente sentindo o peso de seus erros e a dor de estar morrendo mergulhado num mar de dor e angústia.

Os irmãos Mikaelson choraram juntos, talvez se perdoando por todos os sofrimentos que passaram. Num último momento, Nicklaus olhou sua irmã, mas não a via. Seus olhos voltaram aos de menino, e então ele se sentiu como criança novamente.

-Me desculpa, mamãe. Por tudo que eu fiz, eu não queria! – ele chorou, com seus enormes olhos verdes refletindo suas dores de criança misturados ao peso de sua maldade adulta.

-Eu te perdoo Nick.

E foi quando ele fechou os olhos, derramando uma lágrima solitária, que Rebecka também lamentou. Seu irmão morto em seus braços, e então ela soube que poderia viver. Porque seu fardo estava livre, e ela também. Livre pelo poder edificante do perdão que dera ao seu carrasco. O homem de sua vida, seu irmão mais velho.

Dias depois, quando saiu pela porta da frente do hospital de Mistic Falls, ela foi viver todas as vidas que lhe foram negadas...

Notas finais
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