Trabalhar na casa de uma família rica jamais foi fácil. Eles me enxergavam apenas como o jardineiro mesmo, o cara que todos os dias fazia todos os esforços possíveis para manter bem aquelas flores e plantinhas por quem eu sentia tanto apreço. Para os donos daquele jardim, o que importava era que tudo estivesse bonito; para mim, o que mais importava era o cuidado que eu dava a cada um daqueles seres plantados.

As flores têm vida. As plantas têm vida. As árvores têm vida. A natureza tem vida.

E eu as trato com respeito, amor e muito carinho. E dedicação, claro.

— Aceita um suquinho, menino Jeon? — A senhora Kwon, governanta da casa, ofereceu-me pouco antes do meu horário de almoço. — Jiminnie me pediu para lhe trazer.

Um sorriso me escapou sem que eu pudesse me conter. Jimin jamais falou diretamente comigo, mas vivia pedindo que sua governanta me desse um suco aqui, um lanche ali, e sempre pedia também para que ela me entregasse um cartãozinho bem pequeno com alguma mensagem para melhorar o meu dia.

Diferente de seus pais e seu irmão mais velho, Park Jimin não era esnobe ou igual a esses riquinhos que somente pensam em si mesmos. Ele era muito mais humano que seus pais, vivia sorrindo e cantarolando pelos cantos, conversava com seus empregados, trazia alguns poucos amigos em casa, e sentava perto da piscina onde tinha uma visão privilegiada do jardim e, por consequência, de minha pessoa.

Ele sempre mostrava o quanto prestava atenção em mim, então eu não precisava fingir que não notava. Mas ainda assim, quando seus pais estavam perto, eu focava cem por cento em meu trabalho e não deixava visível o que verdadeiramente gostaria de fazer.

A verdade é que mesmo sem saber se era recíproco, eu nutria uma paixão muito escancarada por Jimin e tinha certeza de que, se ele não sabia, sua governanta sim. Eu era óbvio demais para se lidar.

E uma verdade ainda maior, era o quanto admirava as curvas daquele corpo que insistia em estar envolto de roupas coladas demais para a minha sanidade. E as tatuagens presentes em sua pele, todas as flores na sua pele, contribuíam para o meu autocontrole quase se esvair por completo.

As flores tatuadas em seu corpo eram as que eu mais gostaria de poder tocar e cuidar.

Mas ainda precisava do emprego para bancar minha faculdade e o minúsculo apartamento que tinha conseguido. Se queria ser paisagista precisava ser um simples jardineiro — ainda que extremamente competente e bom no que fazia — por todo o tempo que fosse preciso e sem reclamar sobre um vírgula sequer.

— Obrigado, Sra. Kwon. — Agradeci assim que peguei o copo, sendo presenteado com mais um cartãozinho do Park. — Pode agradecer a ele por mim?

— Talvez você mesmo possa. — Ela informou antes de, apressadamente, afastar-se de mim após eu devolver a ela o copo.

Peguei o cartão e resolvi lhe ler, sorrindo automaticamente por conta da caligrafia delicada de um futuro professor de Literatura. Jimin amava dançar e cantar, mas como hobby apenas, sua paixão de verdade era totalmente dedicada ao curso de Letras e Literatura. E ele sonhava em lecionar em uma universidade, adorava dizer isso aos quatro ventos.

"Bom dia, Jungkookie. Meus pais não estão em casa hoje, nem mesmo meu irmão, será que você gostaria de almoçar junto a mim? Eu não gosto de comer sozinho... se quiser, estarei na garagem A, portão da direita. Dentro de quinze minutos estarei saindo."

Jimin tinha um carro, mas ele nunca dirigia, pois não tinha licença para isso. Geralmente saía com seu motorista particular, mas esse também não estava presente. E era mentira que ele não gostava de almoçar sozinho, visto que sempre comia a sós no jardim enquanto seus pais almoçavam na sala de estar.

Larguei minhas ferramentas e fui para a pequena salinha onde eu podia descansar um pouco, trocar de roupa e tomar um banho. Não podia reclamar do meu salário ou das ótimas condições com as quais eu trabalhava, meu único problema era como meus patrões me tratavam, como se eu fosse um ser humano inferior a eles.

Mas, ignorando totalmente isso, tomei um banho extremamente rápido e vesti as roupas que tinha levado, já que sempre carregava ao menos dois conjuntos na mochila e mais o de trabalho.

Encontrei Jimin no primeiro bloco de garagem. Eles tinham quatro blocos, cada qual com dois carros, um pertencendo a cada um dos quatro integrantes da família. Ou seja, cada um deles tinha um bloco com dois carros e eles sequer dirigiam. Família podre de rica? Com toda certeza.

Ele sorriu na minha direção e me jogou a chave do carro. Eu sabia que era isso que ele queria mesmo, porque Jimin quase sempre se fechava de uma forma que eu não conseguia lê-lo, porém em outros momentos ele era simplesmente muito óbvio.

— Posso saber onde vamos? — Questionei assim que liguei o carro luxuoso que Jimin tinha.

— Estou disposto a ir onde quiser me levar. — Informou com um belo sorriso nascendo em seus lábios. — Estou totalmente nas suas mãos, Jungkook.

O sorriso que me escapou não teve como ser reprimido. E quando percebi já estava dirigindo na direção de um dos meus restaurantes favoritos que, por coincidência, combinava muito comigo. Era um restaurante extremamente calmo, que possuía uma culinária leve, e você podia sentar perto de plantas e flores, essas que enfeitavam todo o ambiente.

Era tudo muito natural.

Assim que chegamos ao local Jimin me dirigiu um sorriso, parecendo verdadeiramente encantado com a minha escolha. Gostava de surpreender as pessoas, mas por alguma razão surpreender ao Park me parecia ainda mais gratificante.

— Gosto dessas coisas. — Jimin afirmou, sorrindo na minha direção como se quisesse me demonstrar o quão contente estava com a minha escolha. — Na verdade, gosto de muitas coisas que envolvem você.

Aquele tipo de comentário era o que ferrava com o meu psicológico porque, convenhamos, uma coisa era ler aquele tipo de coisa, outra bem diferente era ouvir o próprio Jimin me dizendo de forma sutil e sussurrada seu apreço por coisas que me envolviam. Se ele queria dizer que, na verdade, gostava de mim, tinha surtido efeito. Eu só torcia para não ter entendido errado.

Nós adentramos o estabelecimento de tamanho comum, nem grande para se perder e nem pequeno para não poder escolher onde sentar, e escolhemos — ou Jimin escolheu — uma mesa que ficava na pequena sacada, esta que era repleta de flores. O cheiro e a coloração preencheram nosso olfato e visão assim que atravessamos a porta de vidro.

O garçom não demorou a nos oferecer o cardápio, e Jimin foi rápido em descrever o que desejava comer, enquanto eu fiquei perdendo meu tempo o encarando ao invés de decidir. E, claro, sendo idiota como sou, só percebi porque ele ficou todo corado e envergonhado.

— Quero o mesmo que Jimin. — Sussurrei, totalmente envergonhado por ter ficado tanto tempo o encarando.

— Traga o prato número quatro para ele. É a comida preferida dele. — Jimin disse ao garçom, que anotou e logo saiu. E eu o encarei na mesma hora. — Que eu saiba, você não gosta de camarão. E é o que tem no meu prato.

— Como sabe disso?

— Senhora Kwon me disse. — Murmurou um pouco envergonhado. — Ou eu ouvi a conversa de vocês...

Acabei sorrindo, porque Jimin envergonhado era a melhor coisa que eu já tinha contemplado na minha nem tão longa vida. Ele era simplesmente lindo, de todas as formas possíveis, por dentro e por fora. Até suas poucas pintinhas eram belas, as curvas do seu corpo, os cabelos um tantinho compridos, os olhos que se espremiam por conta das bochechas gordinhas que eu queria muito morder e apertar, as tatuagens que percorriam sua pele tão branquinha...

E o maldito sorriso que me derrubava, me destruía e reconstruía em segundos.

Aquele sorriso poderia ser a minha cura. E, muitas vezes, realmente era.

Quando nossos pedidos chegaram, o silêncio veio junto durante um tempo, isso até Jimin parecer cansar e começar a falar sobre coisas aleatórias da sua vida. E foi muito bom conhecer um pouco mais sobre ele e descobrir que ele, definitivamente, não era um jovem rico e mesquinho como seu irmão — ou até mesmo seus pais.

— Não consigo ver alguém passando dificuldades sem ajudar, entende? — Completou após me contar sobre um morador de rua que ele tinha levado para uma casa onde cuidavam de idosos. — Algumas vezes vou lá ver ele e também os outros que moram lá, eles gostam, eu jogo com eles, canto para eles, sou um pouquinho de alegria no dia deles. É triste pensar que todos foram abandonados pelos filhos... eles estão tão sozinhos.

Jimin era mesmo diferente da maioria dos jovens de sua idade que tinham as mesmas condições financeiras que ele. E isso me fascinava muito, porque para ele pouco parecia importar a nossa diferença de classe social ou o que fosse.

— É muito bonito que tenha atitudes como essa. — Aleguei após beber um pouco mais do meu suco de laranja. — Quando eu tinha tempo costumava cantar para crianças em hospitais, mas hoje em dia por conta da faculdade e do trabalho é quase impossível.

Um sorriso surgiu e cresceu nos lábios dele, me deixando levemente constrangido por alguma razão que eu sequer sabia explicar.

— Posso confessar uma coisa? — Indagou após mais um tempo que quase soou como uma eternidade de silêncio. A única coisa que consegui fazer, foi assentir com a cabeça. — Meus pais contrataram muitos jardineiros desde que nasci, mas nenhum conseguiu fazer desabrochar flores que sequer são reais. Como essa aqui...

Jimin aproveitou o primeiro botão de sua camisa aberto e puxou um pouco o tecido, me permitindo ver um ramo de flor de cerejeira — bem desenhado e grande — em seu peito, na região em que ficava seu coração. Senti minhas bochechas esquentarem, mas uma outra quentura muito mais forte e intensa se apossou do meu peito.

Jimin sorria de canto para mim, mas antes que eu pudesse dizer algo o garçom tinha se aproximado pra perguntar se queríamos mais alguma coisa. Não atinei a fazer muito, apenas pedi a conta e a paguei mesmo sob os protestos de um Park Jimin um tantinho mimado querendo dizer que ele pagaria.

— Não é porque você é rico e eu não que não posso pagar uma conta! — Rebati a ele, saindo do estabelecimento em seguida.

— Eu que convidei, o justo seria eu pagar. — Cruzou os braços, totalmente emburrado. — Agora preciso pagar algo para você, em troca.

Acabei rindo por seu jeito e concordei com a cabeça, achando que podia ser ao menos um pouquinho ousado e tentar me jogar um pouco para cima dele da mesma forma que havia sido mais cedo.

— Você pode permitir que eu cuide de suas flores. — Dei de ombros, rindo com a feição confusa dele.

E quando as bochechas adoráveis ficaram vermelhas, eu soube que Jimin tinha entendido muito bem ao que eu me referia.

~#~

Jimin e eu não nos falamos nos dias posteriores, mas isso não quer dizer que ele tenha deixado de me mandar recados, lanches e sucos, ou que tenha parado de me dirigir sorrisos e até piscadinhas de olho. Ele tinha me observado o triplo do que fazia normalmente e, também, os sorrisos vieram muito maiores e mais radiantes.

Nós estávamos flertando com o olhar, era muito óbvio, mas eu precisava fingir que não apenas para tentar focar no meu trabalho. Todos os dias cuidava das mesmas flores, sabia cada cuidado especial que precisava ter com cada uma e ainda assim parecia não ter nada de foco.

Tudo culpa de Park Jimin.

Foi no meio da tarde de uma sexta-feira, enquanto eu já agradecia que no dia seguinte poderia dormir até tarde e depois colocar a matéria da faculdade em dia, que a Sra. Kwon me trouxe mais um suco — dessa vez de morango, favorito de Jimin — e um bilhete. E, claro, me dirigiu um sorriso amigável.

Tinha vontade de abraçá-la, ela fazia eu sentir ainda mais falta da minha mãe.

— Obrigado. — Agradeci a ela, bebendo meu suco e a vendo se afastar.

Em seguida, peguei o bilhete cor amarela.

"Não aguento mais ficar apenas observando de longe... preciso conversar com você, ouvir sua voz e sentir seu perfume de perto. E, o principal de tudo... quero que cuide das minhas flores, Jungkookie."

Procurei por ele para poder sorrir em sua direção, mas não encontrei-o em nenhum dos lados. Não pude deixar de suspirar frustrado, guardando o pequeno cartão em meu bolso antes de voltar ao trabalho.

Agora estava ainda mais ansioso, mas por um motivo muito maior.

Quando começou a escurecer, senti meu peito apertar em volta do meu coração acelerado. Respirei fundo enquanto tomava meu banho, desejando não sufocar em tanta euforia que me tomava conta. Por que estava tão ansioso? Jimin já tinha deixado nítido que sentia algo por mim e eu também já tinha mostrado que isso era recíproco, então o que estava me deixando desse jeito?

Vesti a roupa mais ajeitadinha que tinha em minha mochila, que era o que eu costumava usar na faculdade: calça jeans escura — dessa vez preta —, camisa social branca e um par de all star preto. E eu até que ficava bem apresentável desse jeito.

Me arrumei como consegui e logo deixei o quartinho, já esbarrando em um garoto lindo e cheiroso em minha frente.

Jimin nada disse, apenas sorriu e me entregou a chave do seu carro, piscando na minha direção antes de me puxar na direção da garagem sem dizer uma sequer sílaba.

— Quer ir para algum lugar específico? — Questionei assim que saí do quintal de sua casa, querendo um destino para nossa saída.

— Qualquer lugar me parece bom. — Havia algo em sua voz que me fazia crer que Jimin não estava muito bem. — Podemos ir para a sua casa?

— Podemos, mas... meu apartamento é bem pequeno, provavelmente ele inteiro é menor do que seu quarto e...

Jimin depositou sua mão em minha coxa, não tirei os olhos da estrada mesmo percebendo que ele me encarava fixamente.

— Pensei já ter deixado claro que eu não ligo para nada disso. — Uma risada baixinha o escapou em seguida. — Além disso, quanto menor melhor, assim posso ficar agarrado em você como desculpa.

Acabei também rindo, percebendo que com Jimin definitivamente não precisava me preocupar com coisas tão supérfluas. Ele gostava de mim. Isso bastava. Isso era o suficiente. Era o que importava.

O caminho não era muito longo, mas desejei que fosse já que durante todo o percurso Jimin ficou acariciando minha perna. E o mais incrível é que era um carinho amoroso, nada de malícia nos envolvia naquele instante.

Assim que adentramos meu apartamento me senti outra vez um pouco constrangido, mas o Park parecia mais interessado em mim do que nas coisas que eu tinha, por isso outra vez relaxei.

— Preciso te contar uma coisa. — Informou, sentando-se no sofá ao meu lado. — Eu vou me mudar. Já estou com quase vinte e seis anos, é hora de ter o meu cantinho.

— Oh! — Aquela informação me deixava feliz por sua conquista, mas também triste por pensar que não o veria com tanta frequência. — Fico feliz por você, Jimin.

— Então... é uma casa linda, pequena, porém aconchegante. E sabe o que é mais incrível? Ela tem um jardim enorme, enorme mesmo. — Sorriu largamente. Jimin amava flores tanto quanto eu. — Aí eu conversei com meus pais e convenci eles a te demitirem.

No mesmo instante arregalei os olhos, mas isso somente até entender o que aquele diabinho estava tramando.

— Quer que eu vá trabalhar na sua casa? — Inquiri, vendo com gosto o sorriso arteiro que se abriu na sua boca. — Acho que eu posso pensar no seu caso.

Jimin ergueu a sobrancelha antes de sorrir de canto de forma quase maquiavélica. E mesmo assim ele era absurdamente lindo e estonteante. Nunca me acostumaria com tamanha beleza.

Ele parecia um anjo.

— E se eu... te der mais flores? — Inquiriu ainda com o sorriso de canto. — Ainda assim será que não?

Mas eu o afirmei que ainda assim precisava pensar e ele concordou com a cabeça, inclinando o corpo para frente para ficar mais perto de mim. Pensei que Jimin finalmente acabaria com o maldito espaço que havia entre nós, mas ele apenas roçou nossos narizes e afirmou que iria pedir uma pizza, parecendo pouco se importar com qualquer outra coisa.

E eu fui até a cozinha para pegar uma água e beber, pois estava sentindo-me nervoso e com as mãos trêmulas. Jimin estava se tornando um mistério e isso me intrigava na mesma medida que me fazia querer desvendá-lo por inteiro.

Senti sua respiração perto da minha nuca e virei em sua direção após largar meu copo. Não pensei muito em meus atos seguintes, sedento para acabar com aquele espaço que sequer deveria existir entre nós dois. Jimin sorriu e seu sorriso aumentou quando o puxei pela cintura para grudar o seu corpo ao meu.

E quando eu o beijei tudo pareceu muito certo, claro e nítido. Jimin sorriu com o leve selar que depositei sobre sua boca e envolveu meus ombros de forma delicada antes de me permitir aprofundar o toque pelo qual nós dois parecíamos ansiar tanto.

Me perdi tanto durante o ósculo que o puxei pelas pernas e o deixei sobre o balcão, tornando a beijá-lo com ainda mais intensidade do que antes.

Jimin e eu nos beijamos tanto que só fomos parar quando a nossa pizza chegou. E enquanto comíamos conversávamos e, indiretamente, declarávamos um ao outro todos os sentimentos que por tanto tempo tentamos guardar um do outro. Era bom ser sincero e poder dizer tudo que eu sentia.

Como eu previa, ele não estava bem, mas não quis me dizer o motivo e apenas pediu para dormir junto comigo. Eu não vi problemas em deixá-lo tomar banho e vestir minhas roupas, tampouco em saber que iríamos dividir a minha cama.

O que eu realmente não esperava, era encontrá-lo quase nu ao sair do banho. Ele vestia apenas uma boxer, deixando a vista todas as flores estampadas ao longo do seu corpo.

E pelo seu olhar eu sabia que nós queríamos a mesma coisa:

Minhas mãos e minha boca dando amor e carinho a todas as flores no seu corpo.

○ ○ ○ ○ ○ ○

Acordei com a luz tênue da manhã filtrando pelas cortinas finas do meu apartamento. O mundo ainda parecia silencioso, como se não quisesse interromper o instante de paz que pairava no ar. Virei o rosto no travesseiro e o vi ali, dormindo ao meu lado, com os cabelos levemente bagunçados e a respiração tranquila, como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.

Jimin.

Coberto apenas pela minha camiseta, que nele parecia um vestido curto demais, Jimin dormia de lado, com uma das pernas encolhida sobre a minha, como se o seu corpo procurasse instintivamente manter o contato. As flores tatuadas em sua pele, antes escondidas, agora repousavam livres sob a luz do dia, pintadas com ainda mais delicadeza pelo dourado do sol nascente.

Meu coração apertou em um misto de encanto e incredulidade. Ele estava aqui. No meu apartamento. Na minha cama. Como se pertencesse a esse lugar tanto quanto as plantas nos meus vasos, tanto quanto eu pertencia ao jardim onde o conheci.

Acariciei de leve a curva de sua cintura, traçando com a ponta dos dedos as flores na lateral do seu corpo. Um pequeno hibisco cor-de-rosa no quadril, violetas perto da costela, e a flor de cerejeira sobre o coração. Cada uma delas me chamava como se fossem pétalas pedindo por cuidado.

Jimin se mexeu um pouco, os olhos inchados de sono se abrindo devagar, e um sorriso leve curvou seus lábios assim que me viu.

— Bom dia, jardineiro bonito... — murmurou, com a voz rouca da manhã.

— Bom dia, flor mais linda do meu jardim. — respondi sem pensar, arrancando dele uma risadinha tímida.

Ele esfregou os olhos e se ajeitou, se aproximando ainda mais até colar nossos corpos. Sua perna deslizou para cima da minha e os braços me envolveram como se ele fosse se perder se não me tocasse. Eu não tinha nenhuma reclamação a fazer.

— Achei que você ia fugir de mim assim que o sol nascesse. — Jimin confessou em um sussurro, os olhos presos aos meus.

— E perder a chance de acordar com você assim? Nem em mil anos. — minha mão repousou em sua nuca, puxando-o para mais perto.

— Que sorte a minha... — ele sussurrou, colando nossos narizes e depositando um selinho suave na minha boca. — Você sempre cuida das flores que ama assim?

— Não. Só das especiais.

— Hm... então quer dizer que eu sou especial?

Respondi com um beijo, um pouco mais firme, deixando que meus lábios dissessem o que talvez minha timidez ainda me impedisse de dizer com todas as letras. Jimin sorriu contra minha boca e retribuiu o beijo com uma ternura que aquecia mais que o sol.

— Jungkookie... — chamou baixinho. — Posso pedir uma coisa?

— Qualquer coisa.

— Fica comigo. Não só hoje. Não só agora. Sempre.

Demorei um instante para responder, absorvendo o significado daquilo. Não era um pedido qualquer. Era o florescer de algo verdadeiro.

— Eu fico, Jimin. Sempre. Só me deixa cuidar das suas flores. Do seu coração. Da sua alma inteira, se você quiser.

Ele riu, os olhos marejados e brilhando como o orvalho da manhã. Depois me puxou para perto, grudando nossos corpos mais uma vez, como se estivéssemos selando um pacto invisível, feito de amor, carinho e promessas silenciosas.

Ali, no meio dos lençóis amassados e o perfume leve do seu corpo misturado ao meu, eu soube: havia encontrado o meu lugar. E ele florescia na pele de Jimin.

○ ○ ○ ○ ○ ○

Alguns anos depois

— Jungkook... — Jimin chamou da cozinha, com a voz ainda arrastada de sono. — Você está mexendo na terra logo de manhã? São sete horas. E você está sem camisa.

Estava mesmo.

Acontece que o sol da manhã era perfeito para regar as plantas novas que havíamos replantado no jardim dos fundos, e eu não resistia àquela luz dourada, nem à possibilidade de começar o dia ao lado do que mais amava: a natureza... e Jimin.

— A flor-de-maio precisa de umidade bem cedo. — Respondi sem me virar, com o regador em mãos. — E você não reclamou quando eu fiz isso de sunga outro dia.

— É porque naquele dia eu estava ocupado te beijando até esquecer o meu nome. — Ele retrucou com uma risada.

Virei para encará-lo. Jimin estava de moletom, o cabelo agora comprido preso de qualquer jeito em um coque no topo da cabeça, óculos de leitura escorregando no nariz e uma caneca grande demais entre as mãos, e mesmo assim, parecia a coisa mais linda que já pisou na grama desse jardim.

— Você está tão bonito que minha samambaia está corando só de te ver. — Brinquei, andando até ele com passos lentos.

— Jura? Vai usar cantadas botânicas agora? — Ele sorriu, mas mordeu o lábio inferior de um jeito que me fez saber: estava funcionando.

Parei diante dele e passei o polegar suavemente por sua bochecha.

— Se você fosse uma flor, seria uma flor rara. Daquelas que só desabrocham com amor, cuidado... e um pouco de café.

Jimin riu, se encostando na bancada da cozinha externa, deixando a caneca sobre ela.

— E se eu fosse uma flor, você ia querer me plantar onde?

— No meu peito. Perto do meu coração. Onde você já está, aliás.

Ele me puxou pela nuca e me deu um beijo doce, demorado, que me fez esquecer o cheiro da terra molhada por um momento, o que é difícil. Suas mãos subiram pelo meu pescoço até os fios úmidos do meu cabelo, bagunçando tudo, mas eu não ligava.

— Você vai trabalhar hoje? — Ele murmurou contra meus lábios, entre um beijo e outro.

— Tenho algumas entregas de projeto... mas volto à tarde. Por quê?

— Porque eu queria te sequestrar para o meu sofá, meu colo e meu edredom. — Ele respondeu com os olhos semicerrados, aquele sorrisinho preguiçoso que só me deixava ainda mais apaixonado.

— Então me deixa terminar de regar esse jardim e aí você pode me sequestrar. Mas só se prometer me deixar cuidar de você primeiro.

— Você já cuida, Kook... — Ele disse baixo. — Cuida de mim o tempo todo e nem percebe.

Fiquei quieto por um momento, sentindo aquela frase pousar sobre mim como o toque delicado de pétalas. Jimin sempre sabia como me fazer sentir inteiro, suficiente e amado.

— E você... — Falei encostando minha testa na dele — ...é a melhor coisa que já floresceu na minha vida.

Ele sorriu de um jeito que apertou meu peito e disse baixinho:

— Eu te amo, jardineiro.

— Eu também te amo, minha flor favorita.

E então a gente se beijou outra vez, entre o aroma do café, o som leve das folhas ao vento e a certeza de que o amor, assim como as flores, só precisa de tempo, cuidado... e de um pouco de sol para florescer.

A tarde caiu com preguiça sobre o jardim, tingindo o céu de um azul pálido e arrastando sombras longas pelo gramado. Jimin já tinha cumprido a promessa de me sequestrar — e agora estávamos no sofá da sala, envoltos em um cobertor fino, pernas entrelaçadas, o mundo do lado de fora completamente ignorado.

Ele estava deitado sobre mim, o rosto apoiado no meu peito nu, brincando com os pelos da minha barriga como quem traçava um mapa. Seu toque era lento, quase distraído, mas seus olhos entregavam tudo: Jimin estava concentrado demais em cada pequena reação minha.

— Você sempre treme quando eu faço isso... — Ele murmurou, os dedos roçando meu quadril.

— É porque você me desmonta por inteiro com um toque. Não é justo. — Sorri, e o puxei um pouco mais para cima, até que ficasse com o rosto alinhado ao meu.

Jimin me olhou daquele jeito que eu já conhecia bem: pupilas dilatadas, lábios entreabertos, as bochechas levemente coradas. Era seu jeito silencioso de dizer que me queria. Que me desejava. Que precisava de mim tanto quanto eu precisava dele.

— Lembra do dia que você disse que queria cuidar das minhas flores? — Ele sussurrou contra minha boca.

— Como eu poderia esquecer? — Murmurei de volta, deslizando minha mão pela curva de sua cintura até a base de suas costas. — É o que eu mais quero.

Ele se ergueu só o suficiente para tirar o próprio moletom, revelando a pele marcada pelas tatuagens que tanto me hipnotizavam. Cada flor ali parecia mais vívida do que nunca sob a luz suave que invadia a sala. A flor de cerejeira no seu peito, a peônia no ombro, as pequenas margaridas nas costelas no lado contrário das violetas... tudo nele era arte viva.

— Cuida de mim, então... — ele pediu, com a voz baixa, trêmula de ansiedade e desejo. — Mas com calma. Como você faz com as flores.

Meu coração bateu forte, e minhas mãos começaram a explorar sua pele como se eu estivesse tocando em pétalas raras. Cada beijo que deixei nele foi como um banho de luz. Cada toque, como adubo para algo maior.

Beijei seu ombro, desci para sua clavícula, me detive no desenho de uma flor em seu pescoço. Ele suspirava, e eu o escutava como quem escuta o vento entre folhas. Nossos corpos se moviam devagar, como quem dança sem pressa, embalados por um desejo que não queimava, mas sim florescia.

Quando cheguei ao botão de flor em seu peito, beijei com tanto carinho que senti Jimin estremecer sob mim. Ele me olhou como se ali, naquele momento, não existisse mais nenhum lugar no mundo em que preferisse estar.

— Eu sou seu, Jungkook... — ele disse, arfando baixinho. — Planta, flor, raiz e tudo mais.

— Então deixa eu te regar com tudo que eu tenho.

E ali, entre o sofá e o pôr do sol, Jimin se desfez em minha boca como chuva de primavera. E eu, jardineiro apaixonado, cuidei do seu corpo com devoção, fazendo desabrochar cada desejo guardado, cada gemido preso, cada sentimento escondido.

Fizemos amor com a delicadeza de quem cultiva uma flor rara.

E depois, deitados lado a lado, cobertos por nossos próprios corpos suados e o silêncio satisfeito da intimidade, Jimin segurou minha mão e sussurrou:

— Eu acho que a gente acabou de plantar um amor eterno.

E eu soube. Era verdade.



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