As Flores Azuis
1 Capítulo Único
Autumn in Helen
A noite havia caído pesada sobre a floresta. O frio se infiltrava entre as árvores como um véu invisível, cortante, que arrepiava a pele e tornava cada respiração uma pequena nuvem branca no ar. O vento gélido soprava contra as costas de Fern, que encolheu os ombros, tremendo de leve. Ela puxou o manto roxo sobre o corpo e suspirou, decidida que não passaria a noite gelada daquele jeito por nada.
— Stark! — chamou, firme, com uma pontada de urgência em sua voz. — Vá procurar alguns galhos secos. Quero uma fogueira bem forte aqui.
O guerreiro ergueu as sobrancelhas, já preparando a reclamação que sempre vinha em resposta a suas ordens.
— Mandona... — murmurou, baixo, enquanto caminhava para dentro da mata. Ainda assim, obedeceu. Stark sempre obedecia, independente de suas próprias reclamações.
Fern esboçou um pequeno sorriso satisfeito. Já estava acostumada a ouvir os resmungos dele, mas sabia que Stark não deixaria de cumprir uma tarefa quando ela pedia. Mais uma vez, não importava o quanto ele reclamasse das ordens dela!
Enquanto isso, Frieren, com sua calma habitual, caminhava um pouco mais afastada, observando as árvores e os arbustos com um olhar paciente. A elfa se movia quase em silêncio, como se fizesse parte da própria floresta, e de vez em quando colhia algumas frutas silvestres que poderiam servir para o jantar simples daquela noite.
Fern, por sua vez, ocupava-se em armar as barracas no espaço escolhido. Seus dedos já estavam gelados, mas continuava focada no trabalho. Não queria demonstrar fraqueza diante dos companheiros, ao mesmo tempo que gostava de cuidar deles à sua maneira. Ainda mais com tantas preocupações em mente, tantas missões e afazeres…
O grupo se preparava para a longa jornada até Äußerst, onde aconteceria o Exame de Mago de Primeira Classe. A expectativa os acompanhava em cada passo. Quais provas encontrariam? Que pessoas conheceriam? Quais destinos seriam entrelaçados naquela cidade distante? E, talvez mais importante do que qualquer outra pergunta, ela própria e Frieren se tornariam Magas de Primeira Classe? Elas precisavam do título para serem bem-sucedida em aventuras futuras.
Ela pensava nisso tudo enquanto organizava as coisas de Frieren dentro da barraca, até que se deparou com algo que nunca havia visto antes: um livro de capa já desgastada, guardado com cuidado entre os pertences da mestra. Movida pela curiosidade, o abriu devagar. Logo nas primeiras páginas, entre as folhas amareladas, repousavam flores azuis secas.
Fern inclinou a cabeça, intrigada. Passou delicadamente os dedos pelas pétalas frágeis, tentando adivinhar de que espécie poderiam ser. Hortênsias? Lírios? Era difícil saber, mas havia algo nelas que transmitia um ar antigo, como se carregassem consigo memórias de décadas passadas.
Frieren voltou pouco depois, segurando um pequeno cesto improvisado com as frutas que havia encontrado, esperando que aquilo fosse o suficiente para os três. Ao ver Fern com o livro aberto e as flores à mostra, a elfa não demonstrou aborrecimento. Pelo contrário, um sorriso suave e gentil iluminou seu rosto, quase imperceptível, mas genuíno.
— São bonitas, não são? — disse, num tom tranquilo.
Fern ergueu os olhos para a mestra, hesitando um instante antes de perguntar:
— Que flores são essas, Frieren? Nunca as vi antes...
A elfa se aproximou, ajoelhando-se ao lado dela. Seus olhos verdes se suavizaram com a lembrança.
— São um presente de Himmel. Um dos companheiros com quem viajei há muito tempo... um grande guerreiro, e mais do que isso, um grande amigo.
Fern piscou, surpresa. Não era raro ouvir histórias sobre Himmel, mas sempre havia algo diferente no tom de voz da mestra quando o mencionava.
— Sabe... — murmurou a jovem, com cautela — dizem que Himmel era apaixonado por você.
Um silêncio leve pairou no ar. Frieren não se esquivou da afirmação, tampouco pareceu incomodada. Apenas assentiu, com uma serenidade que escondia algo mais profundo, o que surpreendia a jovem de longos cabelos roxos, que imaginou uma elfa incomodada com aqueles questionamentos.
— Eu sei, Fern. — A elfa pousou a mão sobre as flores, quase como um carinho. A timidez de um adolescente seria improvável para um elfo de séculos de idade, afinal. — Mas não foi algo que pude corresponder da mesma forma. Himmel foi extremamente importante para mim, assim como você é agora. Só que os elfos... nós somos lentos quando se trata de compreender o amor. Lentos demais.
Fern a observava em silêncio, tentando captar cada nuance da expressão da mestra.
— Ainda assim — continuou Frieren, com um pequeno suspiro — guardei todos os presentes que ele me deu. Estas flores, a joia... até hoje uso o anel que me presenteou. Carrego tudo comigo porque é difícil descrever o que sinto, mas... amo essas flores azuis da mesma forma que amava os cabelos azulados dele. Himmel era lindo, corajoso, e eu só gostaria que tivesse encontrado felicidade com alguma das muitas mulheres que o admiravam. Ele merecia.
— Você fala como alguém apaixonada — comentou Fern, com um leve sorriso.
A elfa não respondeu. Seus olhos perderam-se por um momento em algum ponto invisível, em uma memória distante que ninguém mais podia alcançar. Talvez fosse saudade ou um amor que se perdeu no tempo, como as flores secas no livro.
O silêncio foi quebrado pela volta de Stark, arrastando um feixe de galhos sobre os ombros.
— Aqui estão os malditos troncos — resmungou, largando-os no chão.
Fern levantou-se para ajudá-lo, e em poucos instantes as chamas da fogueira começaram a crepitar, lançando uma luz dourada que afastava as sombras da floresta.
Frieren, no entanto, permaneceu quieta, com o olhar fixo nas flores azuis até que se lembrou de guardá-las novamente dentro do livro, colocando de volta em suas coisas. Não era o fogo, nem o frio que a prendiam naquele instante, mas sim a lembrança de Himmel. Uma lembrança que carregaria por séculos, talvez para sempre. Porque algumas memórias, assim como aquelas flores, nunca perdem completamente sua cor.
O que Fern não percebeu? Frieren também guardava flores secas de tons roxos e vermelhos, iguais aos cabelos dela e de Stark. A elfa sempre veria seus amigos humanos morrendo em tão curto prazo e só as flores secas poderiam fazê-la lembrar dos seus cabelos...
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