As Fendas da Máscara

9 Entre Sombras e Promessas


POV Akael

Mas essa paz não durou muito tempo. Comecei a ter pesadelos durante a noite, sonhos tão vívidos que, por vezes, deixava de conseguir distinguir o que era real e o que era apenas uma ilusão criada pela minha mente. Cada vez que fechava os olhos, era como se fosse arrastado para um mundo diferente, mais sombrio, mais cruel, onde tudo parecia demasiado verdadeiro para ser mentira.

Numa dessas noites, quase cheguei a matar a Saya. No meio de um desses episódios, pensei que ela era um inimigo que me atacava, e reagi por instinto. Quando finalmente me apercebi do que tinha feito, afastei-me dela horrorizado, o mais rapidamente que consegui, como se o meu próprio corpo rejeitasse o que tinha acabado de acontecer.

— Saya… desculpa-me eu…

Saí do nosso quarto o mais depressa possível, quase em fuga, enquanto tentava recuperar o controlo de mim próprio. À entrada do corredor estava o Izan, que viu imediatamente a minha saída descontrolada e o estado em que eu me encontrava.

— O que se passou, Saya? — perguntou o Izan, preocupado, ao ver também o estado do quarto. — Eu ouvi objectos a partirem-se… — disse, reparando no pescoço de Saya. — Essa marca…

— Izan, não te preocupes. O Akael teve outra vez pesadelos durante o sono dele, foi um acidente. — Respondeu a Saya, tentando minimizar a situação.

— Hum… estou a ver. O poder dele tem começado a ficar descontrolado… — Murmurou ele, pensativo. — Vou pedir para alguém ver-te o pescoço.

— Obrigada, Izan…

Entrei no escritório sem olhar para trás, sentindo o peso do que quase tinha feito. Sentei-me e fiquei em silêncio, a tentar perceber como tinha chegado a um ponto em que já não conseguia distinguir o sonho da realidade. Nos meus pesadelos, via sempre a mesma coisa: dois demónios a dominar a vila, pessoas consumidas pelas chamas, gritos por todo o lado… e a Saya também lá estava, a ser engolida por esse mesmo destino. A melhor solução naquele momento era tentar acalmar-me, e foi então que comecei a meditar, deixando a minha mente lentamente estabilizar.

Passadas algumas horas, a Saya entrou no escritório com passos lentos. Olhou para mim, mas eu desviei o olhar imediatamente. Ainda sentia culpa pelo que tinha acontecido, por a ter magoado, mesmo que sem intenção.

— É melhor não te aproximares de mim, Saya — disse-lhe, num tom sério, virando-lhe as costas.

Sem que eu estivesse à espera, senti os braços dela a envolverem a minha cintura. A cabeça dela encostou-se às minhas costas.

— Não… eu não me vou afastar. Não agora que precisas de mim.

As palavras dela eram sinceras, mas ao mesmo tempo ingénuas. Ela não compreendia o perigo que eu representava naquele estado.

— Saya, eu não te quero perto de mim. Não neste estado. Tu não sabes o quão perigoso eu posso ser. Quando tenho estes sonhos, perco a noção do que é sonho e do que é realidade.

Ela apertou-me ainda mais.

— Eu não posso deixar-te sozinho… — disse ela, num tom baixo.

Na entrada da porta estava o Izan, que observava tudo. Pedi-lhe que a levasse dali, pela segurança dela.

Vários meses passaram. A Saya ficou muitas noites sozinha, preocupada, enquanto o Izan fazia companhia sempre que podia. Ainda assim, o olhar triste dela nunca desaparecia. Eu observava-a muitas vezes da janela do escritório, no jardim, acompanhada pelo Rufus. Mesmo ali, a tristeza não a abandonava. Por vezes, ela olhava para a janela onde eu estava, como se esperasse algo… algo que nunca acontecia. Esse período foi dos mais difíceis da minha vida, porque tive de lutar constantemente contra mim próprio para não colocar ninguém em perigo.

Numa noite, entrei no quarto e encontrei-a a dormir. Durante o sono, ela chamou por mim num tom baixo. Ao afastar-me, ela acordou e pediu-me para ficar, pelo menos uns minutos. Respirei fundo, fechei a porta e sentei-me ao lado dela na cama.

Ela tocou-me no rosto com uma delicadeza que me desarmou completamente. Não consegui esconder o que sentia. A Saya percebeu a minha reação e sentou-se melhor, ficando de frente para mim. Reparei então que ela não vestia pijama, apenas roupa íntima. A luz da lua fazia sobressair a sua presença de uma forma quase irreal. Ela aproximou-se e abraçou-me.

— Deixa-me partilhar um pouco do teu fardo, por favor.

— Saya… não é assim tão simples. — Afastei-a ligeiramente, levantando-me. — É melhor ires descansar. Eu vou voltar para o escritório.

— NÃO! — Disse ela, começando a soluçar. — Eu não aceito isto!

— Saya… eu não te quero magoar.

— Eu… eu… — Fez uma pausa, a voz a falhar. — Eu amo-te, Akael…

Essas palavras apanharam-me completamente desprevenido.

— Eu não consigo esconder mais estes sentimentos… tu não sabes o quanto isto me está a corroer por dentro. — Disse ela, tapando o rosto com as mãos.

Naquele momento, aproximei-me e abracei-a com força.

— Saya… desculpa-me.

Ela também me envolveu nos braços.

— Akael… fica comigo. Não me afastes, por favor.

Afastei-me ligeiramente e, pela primeira vez, vi um sorriso genuíno no rosto dela. Um sorriso cheio de emoção. Os nossos olhares encontraram-se, e lentamente aproximei-me. Senti os lábios dela nos meus, e o beijo tornou-se mais intenso, mais profundo. O coração dela acelerava. Ela guiou a minha mão ao longo do corpo dela, sem hesitação.

— Tens a certeza, Saya?

— Sim, Akael… eu quero sentir-te de verdade.

Essa noite foi a nossa primeira vez juntos de forma íntima. Pela primeira vez, ela mostrou-se por completo, sem reservas. Quando tudo terminou, adormecemos abraçados.

Quando acordei, ela olhava para mim em silêncio. Passei a mão pelo pescoço dela, onde ainda se viam marcas.

— Não te preocupes… daqui a alguns dias desaparecem. — Disse ela, com um pequeno sorriso.

A Saya segurou a minha mão com as duas dela. Gostava de ter ficado naquele momento para sempre, mas a realidade chamava-nos de volta. Ao pequeno-almoço, comemos em silêncio confortável.

— Vou estar no jardim, hoje vou ensinar o Rufus um novo truque. — Disse ela.

— Está bem. Eu vou ficar no escritório.

Após comermos cada um de nós foi para cada local, onde algumas horas depois desde que comemos. Ouvi alguém a dirigir-se a passo rápido, até ao meu escritório

— Akael! Temos problemas! Um grupo de bandidos invadiu os jardins!

— Os jardins?! Mas é onde está a Saya!

Saí a correr sem pensar. No jardim, vi três homens a intimidá-la. O Rufus estava a protegê-la. Num movimento rápido, um dos homens agarrou a Saya pelo braço. O Rufus atacou sem hesitar, tentando defendê-la, mas acabou ferido.

— RUFUS! NÃO! — Gritou a Saya, vendo-o cair depois de ser atingido.

As lágrimas escorreram pelo rosto dela. A minha raiva explodiu. Não houve tempo para hesitar. Os bandidos não tiveram qualquer hipótese de reagir.

— Saya, estás bem? — perguntei, aproximando-me.

— Sim… o Rufus protegeu-me… mas ele… — Caindo mais lágrimas do rosto dela.

Não havia nada que pudesse fazer pelo Rufus. Apenas a abracei. Fizemos um pequeno memorial ali mesmo.

— Ele foi um bom parceiro… espero que esteja num lugar melhor.

Ela limpou as lágrimas.

— Eu vou para o quarto…

A acompanhei. Ela deitou-se, perdida em pensamentos. Antes de sair, dei-lhe um beijo na testa. No escritório, abri um mapa. O Izan entrou.

— Este ataque não foi aleatório. Preciso de saber mais, Izan.

— Eles vieram por aqui. Eles lembram-te do grupo anterior? São os mesmos. — Mostrou-me um pedaço de papel com um símbolo. — Conheces isto?

Olhei o símbolo melhor, eu já tinha visto algures era-me familiar.

— Este símbolo… é do meu Mestre.

Vários dias se seguiram, onde tive a reunir toda a informação que consegui-a, mas numa manhã, ouvimos um grito vindo do quarto. Corremos. O que vi foi algo que nunca esquecerei: o meu Mestre tinha capturado a Saya.

— Mestre… o que está a fazer?!

— Oh Akael… finalmente — Voltando-se — Isto é o que tu esperavas á espera.

— Do que está a falar?

— Do poder absoluto. Ele está aqui… — Voltando-se para Saya. — nela.

Ouvi o meu Mestre a fazer um encantamento e um portal abriu-se e de á saiu dois demónios: Ukho e Valloch.

— Fizeste um bom trabalho. — Diz Valloch ao meu Mestre. — Esta humana será a chave.

A luta tinha começado. Eu e o Izan atacámos, mas fomos facilmente dominados. O Izan foi afastado com brutalidade.

— Tu rapaz, sem este poder, não és nada — riu Valloch. — És apenas mais um.

Eu ataquei-os novamente onde desta vez pouco ou nada fiz, onde eles não gostaram, do meu atrevimento, onde desta vez eles mostraram a sua força em mim, onde pediram a vários demônios de baixo rank para prenderem-me e agredirem-me, com alguma violencia

— AKEAL!!! — Gritou Saya. — Por favor, não façam mal a ele.

— Ponham-no, ele em pé, depressa. — Ordenou Valloch aos demônios de baixo rank.

Eu não consegui mexer-me.

— Observa, bem. — Aproximando-se de Saya.

Saya gritou. Valloch arrancou-lhe algo do peito. Uma luz brilhante ficou na mão dele.

— Não!!!! Deixa ela em paz!!!

— Vês isto? É uma alma humana… Pelo que vejo o teu Mestre nunca te disse o que era preciso para dominar demônios como nós, pois não? Mas eu explico. — Valloch aproxima-se do meu ouvido. — Precisas de uma alma humana. — Olhando para a mão dele. — É tudo o que precisas para nos dominar.

— Akael… — a voz dela era fraca.

Eu estava preso, impotente. Mas o Izan voltou a intervir, o que criou uma abertura, onde consegui libertá-la por momentos e abracei-a.

— Akael…. — Mostrando um ligeiro sorriso.

— Vai ficar tudo bem.

Numa fração de segundo vejo Saya num rápido movimento a meter-se à minha frente, onde sinto o sangue dela no meu rosto.

— Saya!!

Ela caiu nos meus braços e Izan consegue manter quieto o Ukho.

— Akael… não… fiques… triste… — Tocando com a mão ensanguentada no meu rosto.

A mão dela escorregou. E ficou tudo em silêncio. A minha mente quebrou. A raiva tomou conta de mim. Pousei ela no chão onde abaixei o olhar. O Valloch ainda disse qualquer coisa mas não consegui perceber o que era, porque no momento em que olhei para ele, dominá-lo era a minha prioridade. Avancei com toda a minha força, onde parecia ter despertado uma parte de mim que eu mal sabia que existia dentro de mim.

O Valloch caiu sob o meu controlo depois de uma batalha feroz, onde depois iria para o Ukho, mas a voz fraca de Saya, distraiu-me e fez com que ele tivesse oportunidade de fugir, juntamente com o mestre e membros.

— Nós voltaremos a encontrar-nos Akael.

Nada disse porque fui a correr para Saya.

— Saya… estás ouvir-me?

Izan aproximou-se de mim e pousou a mão dele no meu ombros.

— Akael….

— Não!!! — Afastando a mão dele. — Eu ouvi a voz dela, ainda à hipótese.

Mas já era tarde de mais.

— Akael, — Num tom serio. — o que ouviste, não foi a voz dela. Lamento.

Cai na realidade nesse momento. Ela tinha morrido, por causa de mim, por causa do meu poder. Izan chamou a funerária onde levei ao colo o corpo dela até eles, onde eles trataram de todo.

Fiquei sentado durante dias no meu escritório sem reação. Izan tinha ausentado-se para recolher informação e estaria de volta dentro de alguns. Sem dar conta a porta abriu-se de lá Izan entra.

— Eu consegui saber algumas coisas, que talvez te interessem. Há rumores de um culto novo… e o teu Mestre estava envolvido.

— Hum…

— Outra coisa, tenho alguns pontos de partida para fazer investigações. — Deixando as pistas em cima da mesa de Akael.

— Hum… — Sem mostrar muito interesse.

— Akael… — Izan aproximando-se de mim. — Eu sei o que é perder a pessoa mais importante da tua vida. Faz querer desistir de tudo, eu sei disso, mas isso não é a solução.

Olhei para ele.

— Se escolheres esse caminho, eles ganharam. Vais querer dar-lhes essa satisfação?

— Não. Não vou. — Levantando.

— Saya não iria querer ver-te a escolher esse caminho. Aliás ela até queria saber o porquê disto tudo.

— Tens razão, obrigada Izan.

— Eu não vou poder acompanhar-te nesta jornada, este caminho, já sai fora do meu culto. — Dando-me um sorriso. — Contudo eu estive também a pensar em ser vendedor de itens exóticos. Se me faço entender.

— Eu vou, saber o fundo disto, com a tua informação que me deste.

— Eu já vi onde irei ter a minha casa para vender itens, Akael. Toma isto, se precisares de alguma coisa para ajudar na tua aventura, não desistes.

Naquela tarde fui até à campa dela.

— Saya, eu vou acabar com isto. Prometo-te. É ajudarei quem poder. Obrigada por tudo.

Por um instante… pensei ter ouvido a sua voz. Mas talvez tenha sido apenas o vento. Passei a responsabilidade ao responsável uma da vila uma vez que iria partir. Os anos passaram e o destino quis pôr algum motivo cruzar os nossos caminhos naquele dia.