As Fendas da Máscara
3 As Rachas da Máscara
Ainda faltava algum tempo para o amanhecer quando Naak abriu os olhos.
O castelo permanecia mergulhado num silêncio pesado, interrompido apenas pelo crepitar distante das tochas nos corredores de pedra. Durante alguns segundos ficou imóvel na cama, observando o tecto escuro dos seus aposentos enquanto sentia o peso estranho dentro do peito.
Ukho.
Mesmo em silêncio, ela conseguia senti-lo era como uma presença escondida atrás de uma porta entreaberta.
Naak levou lentamente a mão esquerda até ao símbolo gravado nas costas da mão direita. A marca parecia ligeiramente quente ao toque, como se tivesse vida própria. Desde o incidente da vila que evitava pensar demasiado no assunto, mas era impossível ignorar completamente aquilo que agora carregava dentro de si.
Soltou um suspiro discreto e levantou-se.
Desde criança que gostava de observar o nascer do sol. Era um hábito estranho para alguém como ela. No meio de guerras, sangue e campos de batalha, existia algo na luz do amanhecer que lhe trazia uma paz silenciosa, ainda que breve.
Vestiu roupa simples e saiu do quarto sem fazer barulho. Nos corredores do castelo estavam praticamente vazios àquela hora. A luz azulada das tochas desenhava sombras longas pelas paredes enquanto Naak caminhava até uma das varandas superiores.
Mas antes de chegar ao local, algo captou-lhe a atenção.
No pátio interior, numa zona mais resguardada entre colunas antigas, Akael encontrava-se sentado no chão de pedra.
A meditar.
Os olhos dele permaneciam fechados enquanto símbolos demoníacos ténues circulavam lentamente à volta do corpo como fumaça negra. Não existia descontrolo naquelas energias. Pelo contrário. Tudo nele transmitia disciplina, controlo absoluto.
Naak observou-o em silêncio durante alguns instantes, onde depois a baixou os olhos para a própria mão marcada.
A diferença entre ambos era quase insultuosa. Ele dominava os demónios. Ela era dominada por um.
Naak afastou-se sem fazer ruído e continuou até ao local onde o horizonte começava lentamente a ganhar tons dourados. Permaneceu ali até o sol nascer por completo, deixando o vento frio tocar-lhe o rosto enquanto tentava organizar os próprios pensamentos.
Mas a tranquilidade daquela manhã não durou muito.
Após a refeição, Naak dirigiu-se para o campo de treino do castelo. O local já se encontrava cheio de soldados, cavaleiros e aprendizes que treinavam desde cedo. O som de espadas a colidirem ecoava constantemente pelo recinto.
Quando ela entrou, vários olhares moveram-se imediatamente na sua direcção. Olhares pouco amigáveis, invejosos, receosos e ressentidos.
Mas Naak ignorou-os todos. Sempre o fizera.
A War Lord era respeitada em batalha, mas raramente querida. Muitos viam nela apenas uma arma da coroa. Outros odiavam-na pelas vitórias, pela fama ou pelo poder que possuía. Mas ela já não se importava.
Aprendera demasiado cedo que confiar nas pessoas normalmente terminava em traição. O passado tratara de lhe ensinar isso da pior forma.
Naak aproximou-se do campo de treinos e começou o treino sem perder tempo. A arma que escolhera para treinar girava nas mãos dela com uma precisão quase impossível de acompanhar pelos restantes soldados. Cada movimento era rápido, limpo e mortal.
O treino sempre fora uma forma de manter a mente silenciosa. Mas naquele dia algo parecia diferente.
Pouco a pouco vários soldados começaram a aproximar-se, até formarem um círculo à volta dela.
Naak parou imediatamente. Os olhos frios percorreram cada rosto.
— O que querem?
Um dos soldados deu um passo em frente. Era alto, musculado e claramente demasiado confiante.
— Sabes, do incidente da vila… — começou ele. — andam rumores circular que não foi algo aleatório.
Naak permaneceu imóvel, até tal, mas naquele instante sentiu algo estranho. O seu coração acelerou.
Ela franziu discretamente o sobrolho, porque aquilo não era normal.
Situações como aquela aconteciam constantemente. Acusações, provocações… onde nada daquilo a afectava há anos. Então porque não conseguia manter a calma, desta vez?
O soldado continuou:
— Encontraram marcas estranhas nos destroços. Madeira queimada de maneira incomum… sinais de magia poderosa.
Outro soldado sorriu de lado.
— Magia muito específica.
O coração de Naak bateu novamente com força, mais rápido, mais pesado.
— Onde querem chegar? — perguntou ela friamente.
O homem aproximou-se mais um passo.
— Eu não sei… mas talvez tu saibas.
Foi então que ouviu a voz. Calma. Suave. Quase sensual.
“Se queres eu posso tratar deles?”
Naak ficou imóvel. A voz ecoava directamente dentro da mente dela.
“Basta um instante…”
Ela percebeu imediatamente quem era. Ukho.
“Não.”
A resposta surgiu imediatamente nos pensamentos dela, mas o demónio apenas soltou uma pequena gargalhada baixa, onde então mostrou-lhe imagens.
Sangue. Os soldados mortos. Corpos queimados. Ela esmagando-lhes os ossos sem esforço. E o pior daquilo tudo… é que havia uma parte dela que queria aquilo.
Naak fechou imediatamente os olhos.
“Não fujas…”
Subitamente sentiu braços a envolverem-na por trás. O toque era quente. Íntimo. A respiração do demónio deslizou-lhe junto ao ouvido.
“Mais cedo ou mais tarde vais mostrar quem realmente és por baixo dessa máscara, que tanto utilizas.”
A mão dele deslizou lentamente pelo pescoço dela, descendo pelo peito até à cintura.
Naak sentiu o corpo inteiro gelar.
Foi então que alguém lhe tocou no braço, onde num reflexo foi instantâneo, ela agarrou o soldado e projectou-o violentamente contra o chão.
O som do osso a partir ecoou pelo campo. O grito do homem fez vários soldados recuarem imediatamente.
Naak ficou imóvel a olhar para ele.
O soldado segurava o braço partido enquanto gritava de dor. O silêncio instalou-se no campo de treinos.
Todos os olhares estavam agora presos nela. Naak deu um passo atrás, ficando confusa, com raiva e com medo.
Sem dizer uma única palavra virou costas e abandonou o campo rapidamente.
Só parou num jardim afastado do castelo onde raramente alguém aparecia. O local era silencioso, rodeado por árvores antigas e estátuas esquecidas pelo tempo.
Naak ficou parada junto ao lago central, observando o reflexo da água, onde o pensamento dela foi interrompido pela presença de Akael, onde aproximou-se calmamente.
— O soldado vai recuperar.
Naak nem sequer olhou para ele.
— A mim pouco me importa o estado dele. — Numa voz fria. — Aqui o que me incomoda é o facto eu ter perdido o controlo. — Virando-se finalmente para Akael. — Situações como aquela acontecem constantemente. Soldados invejosos… provocações que fazem… criação de rumores… Algo que já estou habituada, à muitos anos.
Ela apertou lentamente a mão marcada.
— Mas demônio quando marcou presença dele… eu reagi sem pensar.
Akael cruzou os braços, onde Naak encarou-o seriamente.
— Como posso dominar isto?
— Não é algo assim tão simples, de se fazer ou mesmo de se aprender.
O olhar dela endureceu.
— A mim não me interessa em saber esse tipo de respostas. Quero algo que me resolva o problema agora, não daqui alguns anos. — Num tom sério. — Eu preciso de uma solução o mais rápido possível. — Fazendo uma pausa. — E se tivesse sido a princesa a tocar-me em vez do soldado? O que achas teria acontecido?
O silêncio instalou-se por momentos entre ambos, onde Depois Akael respondeu calmamente:
— Eu percebo o que estás a dizer e aonde queres chegar, mas dominar demónios não é assim tão simples.
Ele aproximou-se ligeiramente.
— No teu caso… as coisas aconteceram, muito rapidamente, e nem sequer houve tempo para preparares-te.
Naak franziu o sobrolho.
— Eu compreendo, a tua frustração, porque infelizmente aqui os papéis inverteram-se. Normalmente é um Warlock quem controla o jogo, após vários anos em treino. — Os olhos dele fixaram-se nos dela. — Neste caso, aqui… é o demónio quem controla, como bem sabes.
Naak desviou lentamente o olhar para o chão. Os pensamentos começaram imediatamente a tornar-se mais pesados. Talvez devesse partir e afastar-se do Castelo, principalmente da princesa.
Porque se alguma coisa acontecesse a Azenha por causa dela… Naak nunca se perdoaria.
O momento foi interrompido por um guarda real que surgiu apressadamente no jardim.
— A princesa solicita a presença de ambos nos aposentos reais.
Nem Naak nem Akael responderam. Apenas seguiram o guarda em silêncio.
Quando chegaram aos aposentos da princesa, Azenha já os aguardava. Assim que os viu entrar, pousou os documentos que tinha nas mãos.
— Tive conhecimento do que aconteceu no campo de treino.
Naak permaneceu em silêncio.
— O soldado vai recuperar completamente, em pouco tempo. — continuou Azenha.
A Sorcerer limitou-se a ouvir. A princesa suspirou levemente antes de prosseguir.
— Mas não vos chamei aqui apenas por isso.
Ela caminhou até à mesa central onde vários mapas estavam espalhados.
— Recebemos novas informações sobre o culto.
Akael ergueu ligeiramente o olhar.
— Encontraram alguma localização?
— Talvez. Aqui neste local. — Azenha apontou para uma região montanhosa a oeste. — Um dos nossos espiões desapareceu após enviar informações sobre actividades estranhas nesta zona.
Naak observava o mapa em silêncio.
— Eu quero que investiguem.
— Muito bem, alguma previsão de quanto tempo de viagem é até esse local? — perguntou Akael.
— Cerca de uma semana até ao vosso destino.
Nenhum dos dois protestou, contudo Naak sentia-se demasiado cansada para discutir qualquer coisa.
— Azenha, posso retirar-me? — perguntou ela subitamente. — Não me sinto bem.
Azenha observou-a durante alguns segundos antes de assentir.
— Claro que sim, por favor vai descansar.
Naak saiu imediatamente da sala, deixando Akael sozinho com a princesa.
No quarto, a Sorcerer permaneceu vários minutos diante do espelho. Pensativa.
O reflexo dela parecia estranho naquele dia, mais cansado, mais humano.
Então viu algo atrás dela. Sentado na cadeira perto da janela encontrava-se um vulto de aparência humana, com cabelos curtos prateados, de olhos dourados, com um sorriso calmo.
Ukho.
Naak virou-se imediatamente, mas ele já estava diante dela. Os braços dele envolveram-na lentamente. O corpo de Naak ficou preso entre eles. O demónio sem demora aproximou os lábios do ouvido dela.
— A muralha que construíste à tua volta está tão cheia de rachas…
A voz era baixa. Sedutora.
— E eu conseguiria quebrar essa rachas tão facilmente, se quisesse.
Num movimento brusco, Naak libertou-se e recuou. Mas quando voltou a olhar… Ele já não estava lá.
O resto do dia foi passado em silêncio, onde Naak ocupou-se a ler livros antigos apenas para manter a mente distraída até o cansaço finalmente vencer.
Quando se deitou, o sono chegou rapidamente. Mas foi uma brisa suave que despertou-a algum tempo depois.
Naak abriu os olhos, já não estava no quarto, mas numa pradaria vasta iluminada pelo sol.
Ela reconheceu imediatamente aquele lugar. Era um lugar no seu passado, da sua infância. Onde uma voz surgiu ao longe.
— Naak!
Ela virou-se abruptamente. E viu Mawiza.
A sua irmã mais velha aproximava-se com o mesmo sorriso acolhedor de antigamente antes de a abraçar sem hesitação.
Naak ficou imóvel. Porque sabia perfeitamente que Mawiza estava morta. Tinha sido executada por um crime que não cometera.
A Sorcerer observou-a em silêncio.
— Tenho alguma coisa no rosto? — perguntou Mawiza sorrindo.
— Não…
Mas Naak sabia exactamente o que aquilo era. Um sonho ou algo pior, mas mesmo assim começou a caminhar atrás da irmã.
Ao longe viu Masayu ainda criança a preparar um piquenique na relva, como fazia sempre.
Durante alguns minutos limitou-se apenas a observar aquela memória. O último momento feliz antes de tudo mudar.
Antes da morte de Mawiza. Antes de o pai a ter ensinado a Naak a esconder as emoções por detrás de uma máscara.
O olhar dela suavizou lentamente e deixou a máscara cair. A voz de Mawiza chamou-a novamente, mas um pouco mais à frente.
Naak começou a aproximar-se, mas algo no ar mudou e ela parou. Virou-se ligeiramente.
E nesse instante algo puxou-a violentamente para trás. A pradaria desapareceu e deu lugar ao precipício atrás do castelo. O vento agitava-lhe violentamente os cabelos. Naak olhou em volta confusa.
Então sentiu uma respiração junto ao pescoço, onde virou-se rapidamente. Akael segurava-a firmemente nos braços. Os olhos deles encontraram-se. E pela primeira vez o Akael viu o verdadeiro rosto de Naak. Sem máscara, sem frieza.
— Estás segura agora. — disse ele calmamente.
Naak tentou responder friamente, mas naquele momento não conseguiu. Apenas baixou lentamente a cabeça enquanto agarrava o braço dele com força, onde começou a soluçar baixinho.
Akael não disse nada. Apenas a puxou mais contra o peito, esperando pacientemente. Depois de algum tempo, Naak levantou finalmente o olhar.
— Pouca gente conhece… o meu verdadeiro eu.
Akael observou-a em silêncio.
— A culpa não é tua.
Ela mostrou surpresa imediata, onde Akael continuou:
— Todos os humanos quando nascem, eles bons, por natureza. O que os muda são as experiências… as pessoas… os acontecimentos que eles têm.
Os olhos dele suavizaram-se ligeiramente.
— Onde no fim… apenas nos adaptamos ao mundo para sobreviver.
Naak sabia que ele dizia a verdade. Baixou ligeiramente o olhar.
— Tenho saudades daquele tempo, sabes… — Com uma voz baixa, frágil. — É errado sentir saudades daquele tempo?
— Não. — Akael respondeu imediatamente. — As lembranças apenas nos fazem recordar de quem somos realmente.
Naak sorriu, com um sorriso verdadeiro, onde Akael percebeu imediatamente que era a primeira vez que o via.
Mais tarde Akael, acompanhou Naak até ao quarto dela, onde Naak sentou-se na cama enquanto Akael permanecia perto da porta.
— Devias esquecer o que aconteceu hoje.
O Akael percebeu imediatamente o receio escondido por detrás daquela frase.
— Não precisas preocupar-te, com isso. Eu não procuro problemas.
Ela assentiu lentamente.
— Obrigada.
Subitamente ouviram passos rápidos no corredor. A porta do quarto abriu-se de imediato. Azenha entrou no quarto claramente preocupada e abraçou Naak sem hesitar. Akael percebeu imediatamente que estava a mais e dirigiu-se para a saída.
— Akael, fica, por favor. — pediu a princesa.
Ele acabou por permanecer. Azenha afastou-se ligeiramente da Naak.
— Conta-me o que aconteceu.
Naak respirou fundo. E começou a contar tudo. Desde da pradaria, das suas irmãs, do precipício, e voltando-se para Akael ao terminar.
— Foste tu quem a salvou? — Perguntou Azenha.
Ele assentiu.
— Sim. Eu vi-a a caminhar em direcção ao precipício… onde vi algo atrás dela.
Naak franziu o sobrolho.
— Algo? Como assim?
— Um vulto.
O Akael cruzou lentamente os braços.
— Os demónios gostam de explorar memórias profundas, dos humanos, para testar até onde um humano consegue ir.
Naak levantou-se abruptamente.
— Então foi ele Ukho?
— Sim.
Ela baixou novamente a cabeça em silêncio. O momento foi interrompido por um guarda real que entrou rapidamente no quarto.
— Alteza, a corte, aguarda a sua presença.
Azenha suspirou irritada, porque queria estar com a amiga. Antes de sair, segurou suavemente a mão de Naak.
— Assim que puder falarei novamente contigo.
Quando a princesa saiu, o quarto mergulhou num silêncio estranho. Akael foi o primeiro a quebrá-lo, após alguns minutos.
— Vou retirar-me.
Dirigiu-se para a porta, mas antes que pudesse abrir, a mão de Naak pousou sobre a dele. Onde ela demorou alguns segundos até conseguir falar.
— Podes… ficar?
O Akael virou-se lentamente para ela. Os olhos semicerrados de Naak evitavam os dele.
— Tenho receio de voltar a sonhar.
Houve um pequeno silêncio, onde depois Akael respondeu calmamente:
— Eu fico contigo, não te preocupes.
O sofá do quarto era suficientemente grande para ele se instalar confortavelmente. Não demorou muito até adormecer profundamente. Naak antes de se deitar, permaneceu alguns minutos a observá-lo. A respiração de Akael era calma, regular.
Os olhos dela observaram com mais atenção onde percorreu lentamente cada traço do rosto dele, reparando nas pequenas cicatrizes espalhadas pela pele. Ficou curiosamente a imaginar que histórias existiriam por detrás de cada uma delas.
Talvez um dia tivesse o privilégio de as ouvir, onde um pequeno sorriso surgiu-lhe nos lábios.
Depois deitou-se. E, pela primeira vez desde já alguns anos, dormiu tranquilamente sem sonhos até ao amanhecer.
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