As Fendas da Máscara
10 O Fragmento de uma Alma Perdida
Depois de ouvir toda a história de Akael, Naak permaneceu em silêncio durante alguns instantes. O seu olhar perdeu-se no vazio enquanto assimilava tudo aquilo que ele lhe tinha contado. Apesar da tristeza que a sua história transportava, sentia-se satisfeita por ele finalmente ter decidido partilhar uma parte tão importante do seu passado consigo.
Akael observou-a durante alguns segundos antes de voltar a falar.
— Daquela vez em que encontrámos aquele homem na floresta, eu soube logo o que ele trazia dentro dele.
Naak ergueu o olhar.
— Então porque não removeste logo o demónio?
Akael respondeu num tom sério e firme.
— Porque, se o fizesse, matava-te. E isso é algo que não queria fazer.
Naak baixou imediatamente o olhar, absorvendo o peso daquelas palavras. Akael permaneceu pensativo antes de continuar.
— De qualquer forma, o demónio que tens dentro de ti está mais forte do que da primeira vez que o enfrentei. Deve ter encontrado outra fonte de poder. À medida que se envelhece, o corpo e a força vão enfraquecendo.
— Queres dizer que, se descobrirmos essa fonte, podemos acabar com isto de vez?
— Em teoria, sim.
Naak levantou-se imediatamente.
— Perfeito. Então vamos partir o quanto antes.
Nesse instante, a porta da casa abriu-se e Izan e Leaf entraram no interior.
— Akael, temos de falar. — disse Izan, num tom sério.
Akael aproximou-se dele e aguardou.
— Os soldados da princesa Azenha andam à procura de uma rapariga. Ao que parece, foi levada pelo culto.
Naak virou-se de imediato para Akael.
— Uma rapariga… Será a minha irmã?
— É possível.
Naak ficou pensativa. Aquela possibilidade parecia cada vez mais próxima da realidade.
— Sabes aonde estão á procurar? — perguntou ela a Izan.
Izan dirigiu-se a uma mesa, abriu um mapa e apontou para norte.
— Lembram-se da estrada onde tiveram o encontro com aquela criatura?
— Sim. — responderam Naak e Akael.
— Virem à esquerda.
Naak começou logo a preparar-se.
— Não vamos ter tempo para ir falar com a Azenha, por isso iremos nós próprios ao local. Talvez encontremos alguma pista.
Pouco depois, ambos saíram da casa, montaram os cavalos e partiram a grande velocidade. Percorreram a estrada indicada e, quando chegaram ao local referido por Izan, diminuíram o ritmo e avançaram com extrema cautela.
Tudo parecia estranhamente silencioso. Até que Naak reparou numa pequena entrada, muito bem escondida, e reconheceu imediatamente o objecto que Izan utilizava como marcador.
— É aqui, Akael. Está aqui o tal objecto.
Desmontaram dos cavalos e avançaram lentamente.
Assim que se aproximaram da entrada, Akael reconheceu de imediato o cheiro intenso a incenso. O seu olhar tornou-se sério. Ele sabia exactamente o que aquilo significava. Invocações. Sacrifícios humanos. Rituais obscuros.
Tudo aquilo que uma mente perversa fosse capaz de imaginar.
À medida que avançavam, Naak voltou a encontrar várias jaulas espalhadas pelo local. No interior, várias pessoas permaneciam adormecidas, provavelmente sob o efeito de alguma droga. Isso permitia-lhes moverem-se discretamente.
O lugar era horrível. Sujo, degradado e sem quaisquer condições. Parecia mais um abrigo de animais selvagens do que um local habitado por seres humanos.
— É isto que significa ser um Warlock? — perguntou Naak, com um olhar sério.
Akael abanou a cabeça.
— Não. Isto é apenas o caminho fácil para obter poder. Mas, quando o fazes desta forma, acabas dominado por um demónio eventualmente. Ser um verdadeiro Warlock significa seres tu a dar as ordens. Seres tu quem controla o demónio e não o contrário.
— Percebo.
Subitamente, uma voz distante ecoou pelo corredor.
— Naak…
Ela ficou imóvel.
— Esta voz…
O seu coração acelerou.
— Masayu?
Começou a procurá-la cuidadosamente até a encontrar dentro de uma jaula.
Masayu levantou lentamente a cabeça. O seu olhar estava vazio, sem qualquer brilho. Parecia estar sob o efeito de alguma substância. Naak reparou que a jaula estava trancada e começou a procurar a chave, mas rapidamente percebeu que estaria na posse de algum guarda.
— Temos de encontrar quem tem a chave. — informou Naak. — Existem demasiados produtos inflamáveis para utilizar fogo aqui.
Nesse momento, ouviram passos a aproximarem-se. Os dois esconderam-se atrás de uma mesa. Dois membros do culto entraram na sala.
— Esta noite será o dia pelo qual esperamos há tanto tempo.
— Sim. Ukho irá recuperar todo o seu poder depois de consumir aquela Sorcerer.
A mão de Naak fechou-se imediatamente num punho carregado de raiva. A tensão espalhou-se pelo ar e os dois membros do culto aperceberam-se logo da sua presença. Sem perderem mais tempo, Naak e Akael saíram do esconderijo.
Os dois cultistas não ofereceram qualquer resistência. Naak recuperou a chave da jaula e abriu-a.
— Vamos, temos de sair daqui. — Ajudando a sua irmã a sair da jaula.
Masayu deu alguns passos e, de repente, parou.
— Acham mesmo que vos vou deixar sair daqui assim?
A sua voz estava estranha, quase destruída. Naak franziu a testa.
— Masayu? O que estás a dizer?
Ela sorriu.
— Naak, minha querida irmã… eu tentei dar-te tudo, como lembranças, alguém que cuidasse de ti, liberdade… Mas nunca quiseste aceitaste.
— Do que estás a falar?
— Não te lembras? Do encontro na floresta? Dos sonhos que te dei? Da companhia que te fiz junto ao lago, quando ficaste com saudades do teu marido?
Naak ficou ainda mais confusa.
— Masayu… O que estás a querer dizer?
Ela baixou novamente a cabeça.
— Depois do que aconteceu contigo e com a Mawiza, eu nunca quis seguir as regras do pai. Se com vocês falhou o método dele, porque iria ser diferente comigo? Foi por isso que fugi e procurei o meu próprio caminho. E encontrei a resposta através de Ukho.
O nome do demónio fez Naak e Akael estremecerem. Sabiam perfeitamente que aquilo significava perigo.
— Masayu! Não o ouças! Ele só quer poder e fará tudo para o conseguir!
Masayu ergueu lentamente a cabeça.
— A única coisa que lhe pedi foi que cuidasse de ti, Naak. Eu não queria perder-te como perdi a Mawiza. E aquilo que Ukho me pediu em troca não foi nada de especial.
Naak aproximou-se.
— O que fizeste?
— Fui eu que criei este culto… e… que lhe dei poder.
Nesse instante, Ukho assumiu completamente o controlo do corpo de Masayu.
— Naak… A tua irmã é, sem dúvida, a alma mais bondosa que encontrei em todos estes anos.
— Ukho! Liberta-a! — Exigiu Akael.
Ukho soltou uma gargalhada.
— Libertá-la? Quando finalmente encontrei alguém com tanto poder? Não!!!
Akael preparou-se para atacar, mas não podia arriscar. O corpo que o demónio utilizava era o de Masayu.
— O que se passa, Akael? Porque não atacas?
Akael manteve-se em silêncio. Pouco depois, vários membros do culto surgiram e prenderam Naak e Akael separadamente. Ukho caminhou à volta deles.
— Desde que o meu irmão caiu nas tuas mãos, Akael, procuro uma forma de o recuperar.
— Sabes perfeitamente que, depois de um demónio ser dominado, é muito difícil voltar ao seu estado original. Cada vez que utilizo o seu poder, recordo-me daquilo que perdi. E isso torna-me mais forte. — Num tom sério.
Ukho sorriu.
— O meu irmão, Valloch, confesso que foi imprudente, naquela altura. Mas há uma coisa que torna os humanos vulneráveis… sentimentos, emoções. São tão fáceis de manipular.
Akael percebeu imediatamente o que ele pretendia. Naak falou antes que ele respondesse.
— E vocês também têm uma fraqueza. Se destruirmos a fonte do vosso poder, ficam igualmente vulneráveis.
Naak libertou-se das cordas utilizando o seu gelo e avançou imediatamente. No entanto, Ukho trocou de lugar com Masayu. Naak reconheceu imediatamente o olhar da irmã e hesitou. Foi suficiente. Ukho atacou-a e agarrou-a por trás.
— Então, Akael? Não vais salvar a mulher por quem tens sentimentos? Ou vais deixá-la sacrificar-se, tal como aconteceu da outra vez?
Akael manteve-se calmo.
— Não. Estou apenas à espera da oportunidade certa para acabar contigo.
Naak aproveitou a distracção e deu uma cotovelada forte no abdómen de Ukho. Ele largou-a. Akael libertou-se e posicionou-se ao seu lado. O seu olhar tornou-se frio.
A batalha começou. Naak avançou primeiro, tentando afastar Ukho deles. Mas, mais uma vez, ele utilizou Masayu para a manipular emocionalmente. E conseguiu.
Num instante, Ukho atingiu Naak na cintura. Akael correu imediatamente para junto dela.
— Não te preocupes… isto não é nada.
Mas Akael percebeu imediatamente a dor que ela escondia. Tentou protegê-la o mais possível. Naak segurou-lhe o braço.
— Akael… liberta a minha irmã. Ela não merece isto.
— Tens a certeza? Podemos tentar encontrar outra solução.
— Não!!! Este é o melhor caminho. Aquela pessoa já não é a minha irmã. É apenas um fragmento daquilo que ela foi.
Akael fechou os olhos durante alguns segundos.
— Está bem. Assim farei.
Naak observou-o afastar-se. Pela primeira vez, viu o verdadeiro poder de Akael no seu esplendor. Ukho voltou a utilizar a voz de Masayu.
— Ajuda-me…
Mas Akael não hesitou. Atacou. Naak ouviu a voz da irmã a pedir socorro e, apesar da enorme dor que sentia, obrigou-se a ignorá-la.
Por fim, Akael desferiu o golpe fatal. Masayu sorriu. Finalmente estava livre.
Sem a sua principal fonte de poder, Ukho enfraqueceu rapidamente. Foi então que Akael fez exactamente aquilo que tinha feito ao seu irmão. Dominou Ukho e submeteu-o à sua vontade. Pouco antes de perder os sentidos, Naak sentiu Akael aproximar-se e pegá-la ao colo.
— Vamos embora.
Quando acordou, encontrava-se na casa dos Necromancers. Leaf tratava da sua ferida.
— Bem-vinda de volta.
— Leaf…
— Não te mexas muito. Estou quase a terminar.
— Obrigada.
— Não tens de agradecer.
Naak olhou em redor.
— Se procuras o Akael, ele está lá fora a falar com Izan.
Minutos depois, a porta abriu-se. Izan e Akael entraram. Leaf aproximou-se de Izan.
— Já terminei os tratamentos.
— Nós vamos ausentar-nos durante um bocado. Sintam-se à vontade.
Assim que saíram, Akael aproximou-se de Naak e colocou a mão na sua testa.
— Conta-me o que aconteceu.
Akael sentou-se ao seu lado.
— Depois de Ukho te ter ferido, eu libertei o meu poder a cem por cento. E, como me pediste, terminei a longa jornada de Masayu.
Naak suspirou.
— Foi o melhor. A Masayu que encontrámos já não era a minha irmã.
Akael assentiu.
— E, no final, consegui dominar Ukho. Ele nunca mais irá manipular ninguém.
— Obrigada, Akael.
Ela tentou sentar-se. Akael sentou-se ao seu lado e percebeu a tristeza presente no seu olhar. Com delicadeza, pegou-lhe na mão e beijou-a.
Naak sorriu.
Nesse dia, após Izan e Leaf voltarem, ouviram a cavalaria aproximar-se da casa. Izan foi à janela e reconheceu o símbolo, era a princesa Azenha. Ela foi recebida por todos, onde mostra preocupação por Naak e Akael.
— Eles estão bem, princesa. — informou Leaf.
— Obrigada pela vossa ajuda. Irei recompensar-vos.
Depois aproximou-se de Naak.
— Conta-me tudo o que aconteceu.
Naak relatou toda a história. Azenha ouviu em silêncio.
— Tenho pena da tua irmã. Parecia ser uma boa rapariga.
— E era. Mas aquilo já não era ela. Era apenas um fragmento do que foi.
Azenha assentiu.
— Os meus soldados estão a eliminar o que resta do culto. Sem liderança, eles não sobreviver muito tempo.
Fez uma pausa.
— Gostaria que regressassem ao castelo assim que possível.
— Amanhã estaremos de volta.
Azenha sorriu.
— Fico à espera. Agora tenho de ir. Fiquem bem.
A noite passou tranquilamente. Naak adormeceu rapidamente devido ao cansaço. Akael dormiu num sofá ao seu lado. Na manhã seguinte, ajudou-a a levantar-se. Ela ainda caminhava devagar, mas já conseguia deslocar-se. Quando chegaram aos cavalos, Akael insistiu em levá-la consigo. Prendeu o cavalo dela ao seu.
— Obrigada, Izan. Obrigada, Leaf.
— Sempre que precisares, saberás onde nos encontrar, velho amigo. — Respondeu Izan, sorrindo.
Leaf reparou num pequeno sorriso no rosto de Izan e sorriu também.
Durante o regresso ao castelo, muitas pessoas ficaram surpreendidas ao vê-los regressar. Akael ajudou Naak a atravessar o pátio real. Mesmo com dificuldades, ela mantinha uma postura firme. Quando chegaram aos aposentos da princesa Azenha, foram recebidos calorosamente.
— Naak, pedi que construíssem uma pequena sepultura em memória das tuas irmãs.
Naak ficou emocionada.
— Posso vê-la?
— Claro.
Acompanhada por Azenha, aproximou-se do local. Foi então que viu uma figura familiar.
— Pai?
O homem virou-se e sorriu.
— Naak, minha filha.
Ela abraçou-o com força. Depois o pai de Naak aproximou-se da sepultura.
— Cometi tantos erros. Tantas coisas podiam ter sido diferentes.
O Naak aproximou-se.
— A culpa não foi tua. Na altura fizeste o melhor que sabias fazer.
O pai de Naak suspirou.
— Talvez. Mas as tuas irmãs pagaram um preço demasiado alto.
Naak colocou uma flor junto da sepultura de Masayu. O pai de Naak observou Akael.
Por um instante, Naak perdeu ligeiramente o equilíbrio. Akael amparou-a de imediato. O sorriso que ela lhe dirigiu foi suficiente para que o pai compreendesse tudo. Com satisfação, olhou para Akael.
— Toma bem conta dela.
Akael assentiu.
— Assim farei.
— Vou retirar-me. Se quiseres falar comigo, estarei nos meus aposentos. Partirei dentro de alguns dias.
— Pai… achas que podemos jantar todos juntos?
— Claro que sim.
Azenha sorriu.
— Eu também vou retirar-me. Vemo-nos ao jantar.
Quando ficaram sozinhos, Akael e Naak olharam-se profundamente. Sem dizerem uma única palavra, Akael envolveu-a nos seus braços. Naak aproximou-se lentamente.
Os seus lábios encontraram-se num beijo profundo, calmo e sincero. Naquele instante, não existia pressa. Ambos sabiam que o futuro ainda lhes reservava inúmeros desafios. Mas também sabiam de uma coisa, que à partir daquele momento, enfrentariam tudo juntos.
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