As Estrelas Da Esperança

41 Capitulo 41 – O Alvorecer, A Sinfonia da Morte


Grécia – Santuário de Athena – 1486

O céu noturno brilhava intensamente, talvez ainda mais intensamente do que de costume, as estrelas pareciam mais próximas naquela noite. Um homem se aproxima do penhasco em lentos passos, mas antes que chegasse perto demais, ele para e olha para cima, a visão do céu durante à noite no Starhill era magnífica, uma visão digna dos deuses, visão que pouquíssimos puderam contemplar, o jovem retira seus óculos já vencidos pelo tempo, e deixa o vento bater levemente em seu rosto movendo suas madeixas numa dança silenciosa por alguns segundos.

– Então há mais uma... – Disse o jovem hesitante. – Mas...sob a sombra de uma constelação? Mesmo seu destino brilhando no cosmos tão intensamente...o que isso poderia significar?! – Suas palavras pairaram na imensidão solitária do destino, ele não sabia ao certo o que estava por vir, mas se fez, mais uma vez, um simples guia do destino.

Um Ano depois.

Um jovem chega caminhando vagarosamente com um manto cobrindo seu rosto, ao seu lado, uma garota igualmente jovem, sua pele era pálida, mas com um brilho de vida, suas vestes e a feição da garota diziam que a jornada tinha sido extensa e cansativa, mas ela era forte, mais forte do que o comum. O rapaz olha para ela e avança com um pouco mais de velocidade, ela o segue, e ao chegarem ao topo de uma pequena colina com algumas arvores pequenas comparadas às gigantescas do bosque em que eles estavam.

– Chegamos! – Exclama o rapaz retirando o pano que cobria sua cabeça e revelando um sorriso. – Este é nosso lar, Requim!

A garota continua andando em seus pequenos passos para frente, a grama um pouco alta acariciava as pequenas botas de couro negro, por um segundo ela para, respira fundo com os braços abertos, voltando-se para o jovem rapaz que a guiava.

– Eu adorei! – Exclamou a pequena garota em empolgação, deixando seus cabelos negros soltos à brisa que passava pela colina e um sorriso sincero e gentil. – É aqui que meu destino começará a mudar, não é Senhor Wes?!

O rapaz olha um pouco assustado com as palavras da pequena garota, ele sorri de volta e acena com a cabeça, sem entender muito bem o que ela quis dizer com aquilo.

Os meses passavam em tremenda calmaria durante seis anos, a garota apresentara grande capacidade de aprendizagem, em tudo que ela se empenhava, conseguia ser realmente muito boa, nas artes da batalha e nas artes acadêmicas também, aos dezessete anos ela já era um exemplo como guerreira, sua máscara cobria os olhos e a lateral esquerda do rosto, deixando seus lábios vermelhos e parte de sua pele pálida à mostra, muitos guerreiros caíram aos pés da exímia amazona, ela possuía dois tutores, a grande amazona Dourada protetora da sétima casa zodiacal e um misterioso homem que vestia a armadura de corvo, ela o chama pelo primeiro nome e sem nenhum receio, Ito, eles possuíam uma relação muito íntima, uma conexão que transcendia os cosmos, ele o ensinara as artes do combate dos cavaleiros de Athena, a essência do cosmos e toda a história por trás das Guerras Santas.

A garota aprendeu tudo muito rapidamente e logo dominava todas as práticas que lhe foram atribuídas, e fez mais, a garota possuía uma habilidade única, concedida apenas aos mais sábios, a habilidade de ler as estrelas, ela sempre o fazia, de forma inata desde pequena, conversava com as estrelas, sabia do destino daqueles nascidos sob a proteção das constelações e podia ver perfeitamente tudo que estava acontecendo com um simples olhar para cima no céu noturno, a garota sabia qual era seu destino ali, e temia por seus preciosos amigos, temia por um, acima de tudo, aquele que viveu na luz de sua constelação.

Santuário – 1495

A noite estava fria, o vento soprava com força, quatro pessoas se juntavam no pico da montanha nomeada Starhill, pela primeira vez tantas pessoas se reuniam ali, o jovem em vestes brancas e grandes detalhes vermelhos em sua túnica, com adornos mostrava sua importância no Santuário, não só como guerreiro, mas como o Mestre de lá, ao seu lado direito, aquela que ele considerava um dos principais eixos do sagrado solo de Athena, a garota de cabelos vermelhos se aproximava junto à suas duas aprendizes, uma garota vestindo uma máscara chega rapidamente com uma grande urna prateada nas costas, seu cabelo solto batia em seus ombros, e sem falar nada apenas abriu a urna mostrando a reluzente armadura prateada montada em seu object perfeitamente, e diferente das demais armaduras, havia algo único naquela armadura. Ainda mais reluzente do que a prata sob a luz da lua cheia, um liquido preenchia o vão no object.

– A água na armadura de Taça possui propriedades muito especificas e peculiares. – Disse a dama de cabelos vermelhos. – A capacidade de mostrar o futuro à quem olhar, mas desta vez, faremos algo diferente...

A pausa se estendeu pela entrada da moça em túnicas pretas esvoaçantes como seus cabelos de ébano, sua pele pálida toca a gélida armadura e o vento retira seu capuz negro, Requim se aproximava e olhou por um breve momento para o céu, e logo se voltou para o liquido no object de Taça, o reflexo das estrelas cintilantes no céu obscuro da noite refletia, e a garota concentrada olhava fixamente para o reflexo das estrelas sem que seu próprio reflexo aparecesse, por alguns segundos o silêncio tomou conta do ambiente, até mesmo o vento parou de soprar, o cosmos da garota brilhou então com tamanha intensidade que todos ao redor deram um passo para trás instintivamente, o cosmos da garota estava embebido em ternura e mansidão, mas mesmo era grandioso e amedrontador, o liquido estava estático como Requim, algumas gotas se desprendem do rosto pálido tocando o chão, seus olhos vidrados expeliam sangue, lágrimas de sangue.

– Requim!!! – A voz rompera todo o silêncio fúnebre. – Requim...volte!

A amazona dourada se aproximou a abraçou a garota, mas seus olhos ficaram presos no reflexo por mais alguns segundos, logo a guerreira soltou suas mãos da grande taça prateada diminuindo aos poucos a intensidade de sua cosmo energia e seu choro logo encontrou o ombro de sua amiga e mestra, eles todos ali ficaram por algum tempo.

– Eu vi... eu vi... – Disse Requim se acalmando. – Hades, a guerra...Mortes... – Então ela olhou para sua mestra, apertou os olhos e prosseguiu. – Meus amigos...

– Perdoe-nos Requim. – Disse Wes se aproximando. – Já esperávamos algo assim, por isso precisei de seu poder emprestado, és a única com habilidades suficientes para isso, e precisa nos dizer exatamente o que viu, para que possamos...

– Vamos acabar com essa guerra – Exclamou a garota mudando sua feição. – Não quero ver acontecer estes horrores, nem que custe minha vida, eu terminarei com essa guerra.

Casa de Libra — 1497

O local estava inesperadamente vazio, o som de passos ecoava, apenas um homem estava lá, sentado no chão encostado em uma das branquíssimas pilastras de sustentação do antigo, porém em perfeito estado, templo. Ele se volta e encontra uma jovem caminhando em sua direção, logo a reconheceu por suas características únicas.

– Requim... O que fazes aqui?

– É...é...h-hoje... – Suspirou enquanto três lagrimas escaparam pelo pequeno vão de sua máscara. – Por favor... não...

– Não chores – Ito a interrompeu levando a mão ao rosto da garota enxugando suas lágrimas, esse é o destino de um cavaleiro, mesmo que apenas a morte o aguarde, jamais desistiremos. – E um sorriso gentil findou sua frase. – Jamais chore novamente, ainda mais você, que sabes que uma parte de mim, sempre ficará com você, agora, somos irmãos, e eu nunca lhe deixarei.

Ele então deixou o livro no chão com apenas uma fita presa entre as duas últimas páginas e saiu do templo descendo as escadas.

Salão do Grande Mestre

Um jovem trajando uma armadura dourada retira seu elmo e caminha pelo imenso tapete vermelho que recobria o chão do vasto salão, ao se aproximar da entidade que repousava no leito do Mestre ele se ajoelha e abaixa a cabeça como se aguardasse algo, e ali ficou por poucos segundos.

– Tenho uma missão para você, cavaleiro. – Disso o rapaz em um tom firme. – Será capaz de aceitar tal peso?

– Sem dúvidas Mestre, tenha certeza de que cumprirei o mais rápido possível.

– Justamente por isso lhe escolhi. – Houve uma breve pausa. – Recebi informações de que Hades já está se preparando para a próxima Guerra Santa, seria imprudente de nossa parte apenas permitir que tudo aconteça da maneira que ele quer. Temos a localização próxima de onde ele reside, por isso mandarei você e os cavaleiros de prata que temos no Santuário para averiguarem as redondezas e descobrirem o paradeiro do receptáculo de Hades, não avancem em uma ofensiva sem que tenham certeza da vitória, apenas as informações que adquirirem serão de grande ajuda. Você a pessoa com maior capacidade furtiva que temos no Santuário, um dos cavaleiros mais velozes, posso confiar esta missão à você?

O cavaleiro de ouro se levanta, coloca novamente seu elmo e se vira. – Considere a missão completa por Matheus de Escorpião. – E saiu do salão com um sorriso levemente sádico no rosto.

Mais tarde, o sol mal se posicionava no céu e a comitiva estava pronta no pátio do Santuário, cerca de quinze cavaleiros de prata e um cavaleiro de ouro, todos vestindo suas respectivas armaduras, uma aspirante a amazona se despedia de seu conjugue, ainda jovens demais, a mestra de seu querido pupilo e logo após de seu amado, todos estavam prontos para partir, logo um cavaleiro em vestes douradas desce as escadas próximas do pátio, as características da armadura eram únicas, o protetor da primeira casa zodiacal se aproximava.

– Conheço o local que deverão ir, em uma de minhas viagens pude passar por lá, terras perigosas, mas não possuo poder suficiente para levar todos vocês de uma vez, por isso lhes mandarei o mais próximo que conseguir.

Sem que o cavaleiro de Áries pudesse ouvir uma resposta, em sua próxima expiração todos os cavaleiros já haviam sumido, ele bate uma mão na outra como se limpasse algo, o clarão de sua técnica durara pouquíssimo tempo, centésimos de segundo. Os que ali estavam se despedindo puderam ficar apenas estupefatos, não só com a rapidez, mas com o poder do cavaleiro.

– Feito! – Disse ele com um pequeno sorriso no rosto e se virando. – Essa coisa me dá uma dor de cabeça...preciso ir relaxar agora! – E acenou de costas para os demais que estavam na praça enquanto voltava para o primeiro templo.

Alemanha

Os cavaleiros apareceram em uma floresta densa, todos intactos, e um pouco confusos, logo sentiram que não estavam nem se quer perto da Grécia, o cavaleiro de ouro logo tomou a frente, se abaixou e investigou um pouco o local.

– Certamente estamos na Alemanha, já é perto o suficiente.

Ele se levanta e com um único gesto todos se juntam e seguem correndo na mesma direção, eles precisavam cumprir sua missão. Logo os cavaleiros já tinham passado por diversos vilarejos, mas nenhum habitado, porém foram todos deixados como se ainda houvessem moradores há pouco tempo, isso só fazia com que o cavaleiro dourado ficasse mais irritado, de nada adiantaria se ele não pudesse usar suas habilidades, e conforme iam passando, o silêncio ia apenas aumentando, logo nem mesmo o som dos animais se ouvia. Em pouco tempo o sol já ia abaixando, os cavaleiros fizeram uma pequena pausa para comer, conversar e descansar um pouco, já estavam cansados de procurarem por pistas que estavam sendo apagadas conforme eles as alcançavam. A floresta conforme os cavaleiros iam passando, ia se modificando, de repente ela não parecia mais tão densa, o cavaleiro de ouro reconheceu uma trilha escondida, e por lá prosseguiram por cerca de uma hora até saírem da floresta, encontrando um desfiladeiro, eles estavam sob o desfiladeiro, na parte mais profunda, e ao longe olhando mais para cima, no céu do crepúsculo podia ser visto partes de uma grande construção.

– Será que era isso que Wes mencionou?! – O cavaleiro de ouro falou para si mesmo e um silencio se prolongou por mais um segundo enquanto eles caminhavam saindo da floresta.

– Quem é Wes? – Perguntou uma voz jovem e imatura.

Os cavaleiros espantados direcionam o olhar para o mesmo lugar, na sua frente uma criança de cabelos avermelhados e olhos oblíquos e profundos, com uma feição indecifrável estava à frente dos guerreiros de Athena, e apareceu ali sem que nem mesmo um percebe sua presença.

– Quem é você?! – Questionou Linyker se aproximando.

– Que rude de sua parte – Respondeu a criança sem esboçar nenhum sentimento, nem em seu rosto e nem em sua fala, logo ele deixa cair de seus braços um pássaro desfalecido – Wes também quer brincar comigo?! Não posso brincar com ele...tudo que quer brincar comigo acaba...assim.

– M-mas...o que signific... – Casty começara sua frase mas fora interrompida por seus próprios pensamentos, seus temores estavam prestes a ser confirmados.

– Nenhum deles brincaram direito comigo. – Continuou a criança. – Espero que vocês cavaleiros possam me divertir, pelo menos um pouco. – E com isso um imenso cosmo simplesmente subjugou os cavaleiros em um segundo.

– Hades! – Sinalizou o cavaleiro de Lótus.

– Sim... Hades... – Sussurrou para sim mesmo o cavaleiro dourado. – Espero que você me divirta! – E com seu cosmos dourado queimando protegeu os cavaleiros ao seu redor, sua força crescia mais e mais, sua ira aparecia em seu rosto, uma face jovem e nefasta marcava o cavaleiro de Escorpião. – Não sejam enganados, Hades ainda não tomou o poder, seu receptáculo ainda é muito jovem, esta é nossa chance cavaleiros, ataquem!

Com a ordem dada os demais cavaleiros queimando seus cosmos prosseguiram para o abate, a presa apesar de possuir um forte cosmos ainda era muito imaturo, um corpo muito frágil, seria fácil acabar com a guerra antes mesmo dela começar, e esta seria a oportunidade perfeita. Todos prepararam seus golpes, o alvo era fácil, e estava indefeso, com um salto todos se aproximaram de uma vez, o Escorpião daria dali mesmo o ataque final, a agulha vermelha saía da ponta de seu dedo direto na direção do coração do pequeno garoto.

– Scarlath Needle, Antares!!!

O brilho vermelho tocou o peito da criança, um som abafado tirou a atenção e o sorriso quase diabólico do rosto do jovem cavaleiro dourado, seus companheiros caíram um após o outro no chão, a carne apodrecia rapidamente, agora o pequeno pássaro eram apenas ossos, o cheiro pútrido começava a ser exalado dos corpos, um feixe de luz vermelha fez a atenção do dourado ser voltada para si mesmo, sua técnica tinha sido jogada de volta, a dor dilacerante percorria por todo seu corpo, ele estava sem ação, como uma simples criança poderia ter feito algo sem que ele percebesse, estava frustrado e irado ao mesmo tempo. Ele então percebeu, à cerca de três metros de distância do receptáculo, o solo, a grama, tudo sem vida e então uma risada em uníssono atravessou sua mente, mal sentiu a mão que lhe tocou o peito da armadura, um brilho arroxeado tomou conta de cada fresta que a floresta disponibilizava entre suas raízes e cipós, folhas, galhões e troncos, parte da floresta fora destruída e o corpo do cavaleiro de ouro lançado a centenas de metros em um segundo, o peito da armadura destruído, e sua consciência ia se esvaindo aos poucos, ele não acreditava no que viu com seus próprios olhos, o sangue de seus amigos corria em suas mãos, sua ordem os matara, ele mais do que ninguém, tinha sido ingênuo demais.

– Tolos, não me divertiram nem um pouco. – O garoto chutou o elmo de um dos cavaleiros enquanto uma garota se aproximava.

– Já não disse para não vir tão longe?! – Exclamou a garota de longe – Vamos para casa!

– Sim Pandora! – Respondeu o menino sorrindo.

Castelo de Heinstein – Atualmente

O pano negro sai de seus olhos e Pandora pode se virar, Requim eram que estava a abraçando, ela estava magnífica em seu vestido, as duas estavam belíssimas, a irmã a puxou pela mão a levando para o grande salão onde diversos instrumentos se encontravam, em seu centro um pequeno palco com um Piano maior do que de costume, uma grande harpa e três assentos dourados, sendo um deles localizado ao lado da harpa.

– Bem-vinda Irmã – Disse Requim – Fico feliz em ver que está tudo bem com você! – Uma breve pausa e o olhar da garota foi à madeixa vermelha de sua gêmea. – O que houve com seu cabelo?

– Ah...isso?! – Pandora estava tão impressionada como sua irmã, pela primeira vez tinha percebido a mudança.

– Não é importante, nosso irmão nos aguarda, ele disse que era uma surpresa para todos nós!

Ao chegarem mais perto, em suas vestes negras e leves, o garoto se aproximava com um sorriso no rosto, ele se aproximou e abraçou as duas juntas.

– Fico feliz em vê-la irmã! – Pegou as duas pelas mãos, seu toque era suave e macio, morno e amável. – Venham! – As levou para o pequeno palco no centro do imenso salão subterrâneo, as soltou abriu os braços — Sei que ambas gostam muito de música, e sabem tocar como ninguém, então fiz isso para vocês! Venham, compus algo especial para este momento. – Ele colocou as partituras no piano e ao lado da harpa, levou Pandora à harpa e a deixou acomodada no assento macio, logo puxo Requim pelo braço e a acomodou sentada a frente do piano, logo se sentou ao lado e estalou os dedos e um cosmos preencheu todo o lugar, Thanatos e Hypnos se posicionarem com a flauta e a Lira deles, esqueletos se desprenderam das paredes e cada um tomou um instrumento se alinhando perfeitamente, as ossadas vivas se voltaram para o garoto, ele sorriu para Requim com ternura.

– Quero que ouçam, que o mundo ouça minha música... o Réquiem Final! – A primeira nota do piano daria início à sinfonia do último descanso.