As Estrelas Da Esperança
4 Capitulo 4 - Aquele que Atravessou as Brumas do Tempo
Irlanda, Dublin – 1486
Noite de inverno, a neve cai seguindo o vento lentamente, era uma casa pequena, porém havia uma chaminé para aquecer os poucos moradores que em breve diminuiriam, um homem cambaleando e pouco arrumado seguia tortuosamente pelo caminho com pequenas rochas que levava até a pequena residência, já passara muitas horas depois do toque de recolher, mas muitas luzes naquela casa ainda estavam acesas, na janela um vulto passa, o homem abre a porta e se depara com uma criança, ele tinha dez anos na época, mas era muito mais alto do que qualquer outra criança desta idade.
– Vamos, entra pai – diz o garoto segurando o homem que se segurava na porta enquanto tentava se apoiar no garoto – Você vai acabar se matando.
Apenas gemidos e palavras indecifráveis eram proferidas pelo homem, o casaco estava sujo, como se ele tivesse caído no chão, ainda se segurando no garoto o homem vai adentrando a casa, o garoto puxa seu pai e empurra a porta com o pé, o cheiro de bebida etílica era fortíssimo vindo do homem, ele estava ruborizado, pupilas dilatadas, apresentando sudorese intensa apesar do frio e apresentava dislalia também, enquanto carrega o homem até sua cama que fica no cômodo seguinte após um pequeno corredor, deixando o homem deitado, o garoto retira o casaco virando-o na cama, assim como as botas e cobre o senhor, deixando-o na cama coberto o menino vai até uma mesinha de cabeceira e apaga uma vela que la estava, em seguida segue para uma pequena cômoda de madeira escura e assopra a chama que trepida de uma vela que estava presa a um pequeno candelabro improvisado de ferros retorcidos deixando o quarto embebido pela escuridão, e sem dizer mais nada o garoto fecha a porta de madeira velha deixando uma pequena fresta por onde ele olha ande de seguir para um outro pequeno cômodo da residência, lá encontravam-se apenas uma cama com algumas cobertas escuras por cima do fino colchão e uma cômoda de ébano já desgastada pelo tempo e pelo uso, algumas farpas estavam soltas em algumas poucas pontas das gavetas que ali ficavam entre abertas com partes de roupas um pouco para fora delas, e algumas pilhas de livros que falavam sobre a região em que vivia, histórias e lendas locais, o garoto que por ali ia passando e apagando as velas, no escuro, retira as cobertas de parte da cama e pelo vidro da janelo levemente aberta o quarto é levemente clareado por um relâmpago e era possível para o menino ver que a neve já mais não caía, ele então deita-se e se cobre virando o rosto para seu lado direito, podendo ver sua porta e aos poucos vai caindo no sono até seus olhos finalmente se fecharem.
Com o estrondo de um Trovão que ali perto caíra, o menino assustado acorda, e percebe que a chama que ele antes conseguia ver trepidando rapidamente da sala de sua casa não mais estava acessa, e de repente um grande vento entra fazendo com que todas as portas e janelas que não estavam completamente fechadas tremessem, o rapaz então se levanta e bravamente vai em direção à origem daquele vento, quando se deparar com seu pai na frente da porta vestindo seus casacos e cachecóis sem nem ao mesmo se importar com a presença de seu filho, do lado de fora uma chuva caía rapidamente e alguns clarões ao fundo eram vistos.
– Pai, aonde o senhor vai¿! – pergunta o menino ainda com muito sono – Volte para a cama, o senhor não está... – porém fora interrompido
– Desculpe meu jovem mas não lhe conheço – o garoto então muda sua expressão levando a mão aos olhos — Perdoe o incômodo que lhe causei, agora partirei.
E como se não reconhecesse mais seu próprio filho o homem partira deixando-o lá de pé na sala ainda sem entender o que acabara de acontecer.
Dois anos depois de seu pai deixa-lo o garoto que era realmente muito alto para sua idade, conseguia se virar, tinha uma pequena horta onde colhia aquilo que havia plantado e daquilo mesmo ele vivia, por seu tamanho, ele era sempre hostilizado nas ruas de Dublin, sua cidade natal, mas por ter uma personalidade forte nunca deixava um insulto passar impune, por isso também se metia em várias encrencas pela cidade, tanto com crianças de sua idade quanto com homens mais velhos, o fazendo aprender o que chamavam de “manha das ruas” para se defender mas as coisas estavam difíceis e ele precisava arrumar um emprego para poder sobreviver, é então que ao andar pelas ruas da cidade boemia ele encontra um local que precisava de trabalhadores, o lugar chamava-se “Duke’s Pub” e diferente do nome era frequentado pelos piores clientes possíveis, todos homens mesquinhos que ia apenas se embebedar, e ficavam hostis e extremamente agressivos rapidamente, o garoto tinha que se virar, e por não parecer ter a idade que tinha conseguia também acalmar os clientes com sua presença ameaçadora, muitas vezes ela era obrigado a usar a força, coisa que com o tempo ele foi se acostumando, e com sua incrível força foi adquirindo um pouco de respeito pelas ruas da cidadezinha da Irlanda.
Um tempo depois de se adequar ao estilo de vida boêmio da cidade com seu trabalho, o menino ao terminar o expediente segue para sua casa quando se depara com um denso nevoeiro pelo caminho, não se podia ver muita coisa, o sol começava a nascer, era possível ver os primeiros raios de sol passando por entre as frestas de uma casa com a outra, o lugar estava estranhamente silencioso, nem os animais eram ouvidos, a cidade antes banhada com o habitual cinza, agora estava ficando cada vez mais branco, entre as construções era possível ver algumas árvores mais jovens do que as que existiam nos bosques ali perto, enquanto ele caminhava pela longa rua feita de paralelepípedos a nevoe ia ficando cada vez mais densa até que em um momento o garoto se encontrava tão ao fundo na névoa que não se podia ver mais nada, mas ele pareceu não se abalar, já que conhecia o local melhor do que qualquer outro morador. E foi ai que as pedras que formavam o caminho foram acabando, e era possível sentir o grama e a terra macia no cão.
Este não é o caminho – Disse o garoto enquanto parava para tentar observar melhor o que estava ao seu redor – Não conheço caminho algum que seja assim em Dublin.
E estranhamente aquela densa neblina foi sumindo com o vento que ali passava, e por mais estranho que parecesse, era possível sentir um aroma diferente, de uma época diferente, o garoto curioso com o fenômeno que estava acontecendo ao seu redor resolve seguir em frente sem se importar com o que poderia acontecer consigo mesmo, é então que ele vê grandes árvores, que nunca tinha visto por aquela região, que ele conhecia muito bem, até que diferentes rochas aparentemente antigas e em formas completamente irregulares e sem padrão algum foram formando aos poucos um caminho como para uma cidade, assim como a névoa se transformara em uma fina neblina que também ia se dissolvendo enquanto ele ia percorrendo o que pensava ser um bosque, até que algumas construções foram aparecendo por entre a vegetação e a neblina, porém eram construções com uma arquitetura antiga, mas as construções estavam aparentemente incompletas, apenas algumas pequenas paredes estavam de pé, era possível ver os tijolos de um tempo diferente, até que o garoto se lembra do que ele costumava ler nos dias e noites turbulentas que ele tinha por ter que tomar conta da casa, de sua vida e de seu pai, que lhe preocupara muito antes de desaparecer por aquele dia tempestuosos, que agora não passavam de memórias nebulosas. Por entre as maiores árvores já podia ser visto grandes construções e o som do mar, então o menino vai andando mais rapidamente por entre a folhagem caída na terra e raízes expostas no chão rochoso, até que chega no que parece ser uma grande cidade abandonada, agora era possível ouvir sons de insetos e aves que ali perto estavam, o garoto para no que parecia ser uma pequena praça quando dois vultos aparecem por trás da criança.
Nossa, esse lugar parece ser – O garoto ia dizendo enquanto olhava para cima e ao redor deslumbrado pelo local quando é interrompido por uma simulação de tosse.
Que és vós jovem? – Questionou o homem ao lado de uma dama vestindo um robe vermelho e cabelos negros esvoaçantes – Ninguém visitou Avalon por séculos, como chegastes aqui?
Me desculpe senhor mas, nem eu mesmo sei como cheguei aqui em meus 12 anos de vida nunca tinha visto este local, eu apenas atravessei um denso nevoeiro – E com uma feição de cansaço continuou – E andei pelo que me pareceu horas, estou sedento e faminto.
– Ainda não disse que eres – Disse a mulher que se aproximava do garoto – Sou Morgana, a Sacerdotisa e este – disse apontando para o senhor ao lado e um pouco atrás dela – É Merlin, o Druida.
S-Sou, Geovanne – disse o garoto tonto pela fome, sede, e deslumbrado pela magnificência da cidade e da mulher que estava a sua frente – Prazer em conhece-los.
De supetão o garoto cai nos braços de Morgana, ela sorri para ele enquanto o mesmo fechava os olhos, ela acena para o druida ir auxiliá-la. Ao acordar o menino se encontrava em algum instalação antiga, numa cama de feno, com cobertas de pele de animal e com um aroma de ervas aquecidas.
Finalmente acordou jovem – Disse Morgana ao seu lado, enquanto lhe mostrava uma caneca de metal com algum liquido dentro – Beba, você se sentirá melhor – E levantou ao lábios com um leve sorriso — Assim que estiver melhor levante-se que Merlin e eu temos algo a te mostrar.
Alguns minutos depois o jovem já se sentia revigorizado novamente, provavelmente por conta de algo que a mulher tivesse misturado na bebida. Ao se levantar reparou que o ambiente era iluminado apenas por luz de velas, algumas velas diferentes das que ele conhecia, mas a ansiedade o fizera não se importar muito com o local em que estava, e logo saiu da construção, encontrando Merlin e Morgana sentados à beira de uma grande fonte à frente do local onde ele se encontrava.
Os senhores gostariam de falar comigo? – Questionou o jovem.
Venha – acenou o Druida com a mão – Sente-se e observe
No céu um conjunto de estrelas brilhavam mais do que o comum, todas as estrelas brilhavam mais do que de costume, porém aquele grupo se destacava entre as outras.
Esta é a Ursa Maior – Disse Merlin enquanto apontava para a constelação – Há um tempo que ela vinha nos avisando sobre a chegada de um estranho de outra época, você criança, foi o único que conseguiu atravessar o tempo e chegar até nós, por isso tenho uma pergunta a fazer – o Menino olha atentamente para o senhor – Você gostaria de receber o conhecimento daqueles que estão perdidos na linha do tempo?
– É mais do que eu poderia desejar senhor! – Disse Geovanne – Eu aceito sua proposta!
Dali em diante o garoto recebeu instruções e os mais diversos ensinamentos que o druida e a sacerdotisa poderia passar para ele, lições de valor, ele passou por um treinamento cheio de privações e virtudes do tipo: trate o seu amigo como você mesmo, esqueça muitas vezes o "eu" e se lembre do "nós", pois em uma guerra você nunca estará sozinho, terá sempre alguém para te acompanhar. No mesmo treinamento ele aprende a adorar a terra e tudo que nela há, partes da virtude e crença céltica, ele estava vivenciando tudo e mais do que ele lera em seus livros antigos usando principalmente aquilo que ele se acostumara a utilizar ao passar do tempo, sua Força, que ia além do simples “sobre-humana”. Após dez anos deste treinamento, Geovanne se encontra no bosque a procura de algo para seus mestres, e se lembra do estranho pedido feito por eles:
“- Pupilo, é hora de você ir em uma jornada em busca de algo que será muito precioso para você – Dizia Merlin de olhos fechados enquanto Morgana os olhava – Você deve... – Quando é interrompido por Morgana
– Seguir seu coração, ainda és jovem e imaturo diante da imensidade do tempo e espaço – Dizia Morgana enquanto se aproximava do jovem — E há uma imensidade bem aqui – Agora tocando o esterno de Geovanne com a ponta do indicador – Siga-a e em breve você entenderá todo seu destino.”
Enquanto Geovanne estava preso em suas memórias uma densa névoa o cobre, até que ele volta a si e se depara com uma situação complicada, onde não podia ver nada, sem temer o que havia a frente ele continua andando até que ouve passos pesados ao seu redor, a quantidade de passos só ia aumentando, mas pareciam estar acompanhando ele e não seguindo-o, até que a névoa se dissipa parcialmente mostrando que estava cercado por Ursos Pardos, ao se ver nessa situação, o pupilo dos magos para e faz uma reverência à Terra, e uma estranha energia o cobre, fazendo com que o maior dos ursos se levantasse e saísse do local em que ele permanecera imóvel, revelando uma estanha caixa com um símbolo de urso, Geovanne se aproxima e vê um estranho mecanismo com um puxador na caixa, e ainda banhado em energia que treinara intensamente para utilizar com seus mestres, puxa o que parece alavancar partes da caixa que se abre e mostra uma figura de um Urso, que se desmonta e vai até seu corpo, se transformando em uma armadura que se encaixava perfeitamente em seu corpo, assim que ele vestiu a armadura os ursos foram desaparecendo um a um junto com a névoa, ele continuou andando e o ambiente parecia estar mais ameno, uma brisa quente acaricia seu rosto, e ele se depara em um local diferente de tudo o que ele conhecia.
Santuário – 1498
O mais novo cavaleiro, ainda não sabia o que tinha se tornado, mas continua andando por entre as construções, até que chega a uma escadaria, e é quando ele ouve:
– Quem é você cavaleiro? Nunca o vi aqui antes, apresente-se!
– Sou Geovanne... – Dizia enquanto tentava encontrar a dona da voz – Quem é você?
– Meu nome é Sarah – Dizia a mulher que mostrara apenas sua silhueta – Sabia que você viria urso que viaja no tempo.
A mulher salta de um pilar levemente lateralizado para perto do mais novo guerreiro revelando sua armadura e sua máscara.
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