Santuário

Rafael caminhava por entre as construções ainda em processo de reparo, algumas pessoas próximas o cumprimentavam afinal todos os discípulos da amazona de libra, assim como ela mesma, eram muito bem conhecidos por todo o Santuário e às vilas ao redor do santuário também, o cavaleiro apenas acenava com a cabeça, como se estivesse passando apenas para inspecionar as novas construções. Andando mais adiante, próximo à uma formação rochosa da montanha que compunha os doze templos zodiacais, que protegem os aposentos da deusa protetora da Terra, Rafael sentiu como se uma faísca passasse pelo seu corpo, mas só por um instante, era uma sensação familiar, então seus passos ficaram mais lentos e os olhos mais atentos, segundos depois sentiu um frio repentino, ao se mover notou que o frio estava apenas naquela pequena área, nada de particular ali, uma parede, que era da montanha, de um lado e do outro um campo aberto que dava à uma outra construção já quase terminada.

— Mas que estranho! – Exclamou o cavaleiro em voz alta parecendo confuso, passava os dedos entre seus cabelos escuros e descia pela barba curta, pensativo quando ouviu um balbuciar, era uma voz aparentemente feminina, ele olhava para todos os lados, nada em seu campo de visão chamava atenção, nem entre os escombros que ainda permaneciam por ali perto, nem entre as construções prontas, mesmo nas sombras que era mais difícil de se ver, ele não encontrara nada, quando uma pequena gota gélida toca sua nuca o fazendo saltar para frente, levando a mão ao pescoço como se procurasse saber algo que já sabia, era água e fazendo-o procurar por sua origem, ao olhar para cima, como em um pequeno precipício, envolta em gelo que se derretia, uma garota vestida como amazona. – Ei, você aí, está tudo bem?! – Gritou sem sucesso na resposta, percebendo, assim, que a garota não estava consciente ou pelo menos não podia responder, mais do que rapidamente o cavaleiro escalou aquela porção do monte para alcançar a garota, ao chegar no local escorregadio ele nota que sua máscara estava avariada, mas ainda inteira, apenas rachaduras, e que de fato era uma amazona, ele a reconheceu imediatamente. – Sarah! – Ela estava inconsciente e presa ao gelo, o dragão começou a quebrar todo o gelo que envolvia o esguio corpo da amazona, para retirá-la em segurança, a pegando em seus braços e em um salto, desceu e logo seguia o caminho com Sarah em seus braços.

Santuário – Subsolo

— Durante as guerras, o intuito não é apenas a vitória em campo de batalha, é necessária a aniquilação de seu oponente, parte disso é destruir as evidências de resistência, da história, dos ideais, a obliteração completa da nação quem está em guerra. – Todos olhavam atentamente ao homem que continuava seu monólogo. – A destruição de todo e qualquer registro que seus inimigos possuem, devem ser apagados de qualquer maneira, a fim de não deixar resquício algum daqueles que viveram, assim sua cultura será perdida, não é diferente no caso das Guerras Santas, por isso estes importantes registros são guardados em um local como esse, longe do foco inimigo, até porque aqui há informações acerca das batalhas antigas, como se procedeu e estamos aqui...

— Para encontrar um meio efetivo de combater Hades. – Disse Júlio com uma voz arrastada se debruçando sobre uma pilha de livros abertos e completando a frase de Artur. – Mas é muito chato isso aqui.

— O Grande Mestre está muito indisposto ainda, ele teve que usar muito de sua energia vital durante o último ataque, este serviço é um trabalho direto para o Mestre do Santuário, você está ciente disso, certo?

— Para você que passa dias meditando é fácil – Respondeu Lobo. – “A melhor maneira de conhecer seu inimigo, é no campo de batalha, conheça-o, analise-o, compreenda-o por inteiro e então, o destrua! ” – Meu mestre costumava dizer isso durante nossas incursões, que foi quando nós encontramos...

— Já chega. – Disse Artur. – Também me desagrada ficar preso aqui com vocês por tanto tempo e sem poder fazer nada visualmente efetivo, uma contribuição física ao santuário, mas isso também é muito importante. – Ele se senta e abre um dos livros. — O quão mais rápido terminarmos isso, mais rápido sairemos daqui.

— Espere! – Disse Venício com um papiro aberto em suas mãos na altura do rosto. – Acho que encontrei algo, está numa língua arcaica mas ainda assim... – Ao colocar o papiro no chão e movendo outros próximos as letras e pequenos desenhos iam se montando, com uma folha envelhecida sobre outra, um maior desenho. – No inicio eu não estava entendendo direito, mas não são organismos separados, são um só, uma só força, rápido, preciso de todos os registros datados no mesmo período que estes aqui! – O cavaleiro aponta para uma marca em um dos papiros amarelados.

Jamir — Tibete

O som metálico ensurdecedor se repetia ritmicamente de dois em dois segundos, sempre, a cada batida, de todas as janelas do último andar da estranha torre sem portas, feixes luminosos atravessavam como relâmpagos e trovões em uma tempestade. Uma poeira densa e luminosa se levantava a cada estocada do martelo dourado, as duas ferramentas se chocavam sobre a superfície metálica, mas ao invés de rupturas, elas causavam o efeito inverso, as placas metálicas se uniam novamente, com uma batida, um grande amassado era restaurado completamente. O solhos do ferreiro brilhavam em um verde-água intenso, as ferramentas que ele utilizava transbordava poder, principalmente as douradas, as gotas de suor escorriam por entre as ondulações de seu rosto, pelos braços ao se movimentar, as roupas leves que usava estavam marcadas pela umidade e unia-se ao seu corpo, mas ele continuava incessantemente.

Um som abafado impede a sequência de marteladas, ao se virar, Vaskes se depara com o cavaleiro de urso caído e sangrando, rapidamente bandagens se enrolaram nos punhos cortados profundamente e se fechando sozinhas em suas pontas.

— Você está bem?! – Perguntou o cavaleiro de prata se aproximando e transparecendo certa dificuldade ao andar.

— Quantas vezes mais vai perguntar isso? – Respondeu Geovanne em um tom de deboche. – Já disse que não posso morrer assim, e não é simplesmente porque eu não quero, é porque é impossível que isso aconteça.

— Bom, já nos conhecemos há algum tempo agora, já deveria ter percebido que não vou parar de perguntar, então me responda direito. – Disse com um sorriso no rosto. – Agora vamos! – E um brilho intenso os tirou da torre tibetana, ali próximo, havia uma montanha gelada, seu pico estava coberto de neve, a mais branca e pura, o silêncio reinava naquele lugar, os dois caem sobre e neve fofa, Geovanne cai para trás e afunda em um maior monte de neve.

—Ah!! Droga, nunca vou me acostumar com isso! – Vaskes riu sobre o comentário, se recostou sobre uma das beiradas de pedra que estava exposta por entre a neve, que cai um pouco sobre sua cabeça, ele a sacode a cabeça rapidamente e arruma o cabelo desgrenhado.

— Aproveite por enquanto, logo voltaremos para continuar com o trabalho, logo os gêmeos voltaram com a última leva de armaduras, e eu ainda não consegui reparar a armadura de Popa, ela tinha sido esfarelada na batalha, mas ainda assim não deveria ser tão difícil trazer a armadura de volta à vida, eu fazia isso lá em... Asgard – A última palavra saiu como um sussurro na água, seu olhar foi para baixo e para a esquerda.

— Não se preocupe. – Disse o cavaleiro de Urso sorrido. – Sei que sente falta de todos eles, todos temos pessoas que gostamos, e em algum momento, as veremos novamente.

— Algumas, não mais...

—Err... É, mas... Vamos falar de outra coisa, como... Como por exemplo, como você consegue ficar trabalhando por tanto tempo usando essas técnicas estranhas que eu ainda não entendo direito como você faz e não se cansa como os outros?

— Hahaha É bem simples a explicação na verdade. – Grou pega por uma abertura uma caixa aparentemente muito antiga, retira a neve que a cobria abre e verifica seu interior, com uma face satisfeita fecha a caixa e se volta ao seu amigo. – Podemos dizer que eu sou híbrido, mestiço, mas as características dos lemurianos, que são esse povo que mora escondido nas montanhas, se manifestaram em mim acentuando esses poderes de forma que eu, hoje, sou o integrante dessa raça com o maior poder telecinético. – Ele fez uma pausa para pensar exatamente como continuaria a explicação. – Bom, com isso veio algumas outras coisas também, diferente de meu mestre, não possuo este extremo controle da cosmo-energia e meu corpo não tem a resistência e o poder que ele tem.

— Mas como você disse, é um hibrido, não há ninguém como você, não se pode comparar com mais ninguém!

— Mas nós... Eu... Eu deveria ser capaz de ser ao menos próximo à isso.

— Claro que não, você é diferente dele, diferente daquele cara com nome estranho lá de Asgard, diferente de mim, não tem que ser como ninguém a não ser a si mesmo. Achei que já tivesse resolvido isso desde quando ficou para lutar na casa de Virgem, você me contou o que aconteceu lá, não exatamente por esses pensamentos que Sascha não o deixou passar?!

— Sim, mais ou menos isso. Mas, apesar da patente, eu não sou um cavaleiro tão bom quanto os outros...

— Porque você se importa a se igualar a eles, e não é assim que funciona, tem que aprimorar o que você tem de melhor, nós somos um todo e não unidades separadas, o que você não puder fazer, eu farei, as suas falhas eu suprirei, assim como você já faz comigo, se você tem esse poder estranho mais forte, deixe-o cada vez melhor!

—Hump – Um sorriso se abre em seu rosto, ele se move e ambos desaparecem novamente. – Tive uma ideia então, cavaleiro de Urso, não foi só por sua habilidade estranha de sangrar e não morrer que Elys o mandou junto comigo e agora vejo isso. – O vento soprou forte e os seguiu com a luz de volta para a frente da torre próxima à um precipício altíssimo. – Espero que já esteja recuperado, Urso.

Alemanha

O ambiente estava quase que em completa escuridão, nenhum som poderia ser ouvido, nenhum animal vivo estava por perto, certamente por isso sabia que estava no caminho certo. Os poucos e pequenos feixes de luz, que conseguiam atravessar a folhagem verde escura das velhas árvores retorcidas que cresciam naquela região, batiam na superfície metálica e era refletida da mesma cor que a armadura, dourada.

O cavaleiro trajando a completa armadura de ouro a qual em seu tórax pareciam se fechar o que se assemelhava muito à asas douradas e com uma capa branca em suas costas balançando com o vento macabro que conseguia soprar por entre as deformidades da flora local. O tilintar metálico de seus passos abafados no solo infértil e corrompido não era o suficiente para chamar muita atenção, mas Sascha estava preocupado, então fechou seus olhos e usou um pouco de sua energia para se concentrar nos demais sentidos, afinal a escuridão só piorava a situação de quem tivesse o infortúnio de ter que passar por ali, ainda assim nenhum odor ou ruído poderiam ser notados, por isso continuou em frente por mais alguns, vários, metros sem mudar sua rota. Algumas horas já haviam se passado desde quando adentrara aquela floresta, para uma pessoa comum, atravessá-la em linha reta andando não levaria mais do que uma hora e meia, afinal a floresta circundava um local coberto por uma densa neblina gélida, isso tudo começava a ficar mais e mais estranho, quando risadas em eco começaram a ser ouvidas, pareciam estar distantes, logo Sascha se voltara para onde achava que elas vinham e prontamente, e passadas largas e rápidas, se dirigiu em direção às vozes. Poucos minutos depois o cavaleiro dourado chega em uma parte onde a neblina cobria quase tudo, algumas formações metálicas circulares enegrecidas como o desenho de cipós com folhas em ferro puro e retorcido, saltavam para fora da neblina, algo estava próximo, os sons pararam por um instante, seus passos não faziam mais som algum, o tempo parecia não correr mais, a escuridão fora da floresta chamava sua atenção, afinal deveria ser o começo da tarde ainda, mas o sol não aparecia.

— Revele-se! – Ordenou com uma voz firme e feição séria. – Sou um cavaleiro de Athena, ordeno que se revele imediatamente.

Uma comprida e alta risada dispersara-se por entre a névoa que parecia ficar cada vez mais densa, certamente mais de uma voz.

— Athena não tem jurisdição aqui, cavaleiro, e muito em breve, não terá jurisdição em local algum.

— Mas você não estará presente neste momento histórico.

— Afinal, morrerás aqui.

Um acorde em um tom grave dispersa parte da neblina revelando três espectros em suas armaduras negras brilhantes. – Aqui, e agora! – A voz vinha de trás, foi apenas o tempo do cavaleiro de Virgem se virar para ver o quarto espectro se aproximando com muita velocidade, seus sentidos não foram capazes de detectar nenhum deles, nem mesmo os cosmos sombrios que agora queimavam em fúria, uma imensa dor cobria seu corpo, mal podia mover-se, uma cefaleia intensa o impedia de pensar adequadamente, apesar de tudo parecer acontecer muito devagar o cavaleiro não conseguia corresponder.

— “Droga” – Pensou.