As Estrelas Caem: o rei e o caçador
20 Grovandia
Podia sentir a dor se esvaindo, ouvia o clamor de milhares de almas a lamentar a perda a se dissipar. De repente, porém, apenas ouvia felizes vozes e o calor de sua amada.
De todas as vozes que lamentavam a morte do rei dos caídos, apenas duas delas conheciam realmente a causa de seu óbito, a pessoa responsável por tal ato e uma pessoa cuja alma pulsava entre a sobriedade e a insanidade incessantemente em sua mente. Cacieri, que mesmo tendo se tornado testemunho secreto da morte de Danael, concordara em se tornar conselheiro do rei Davi.
Acobertando o sofrimento do rei dos caídos com seus braços suaves e com o amor que deixava transparecer, finalmente estava ali, a rainha do submundo mostrando docemente o seu rosto por completo, e, em melancólica canção de auto-piedade, o rei deixara escapar uma gargalhada, afinal, já compreendera tudo. A rainha do submundo, sua amada Perséfone, é Artelas. A rainha que aparentava malevolência estará zelando por seu amado todo o tempo, afinal como uma “estella dominus”, a flecha que acertara em Davi, e o momento em que negara alimento ao rei fora, na realidade, mal interpretadas tentativas de alterar o futuro e proteger o rei dos caídos.
Danael se aprofunda em sua melancolia, afinal, a mesma mão que afagava seus cabelos e almejava consolá-lo, pertence à pessoa assassinada por ele dias depois de assumir sua maioridade.
Um soluço com pesar fora interrompido bruscamente por uma conhecida voz.
- Não está cogitando a possibilidade de derrota, está?
- Possibilidade. – A cabeça do rei se ergue com fraqueza. E com o rosto erguido quase por completo, o rei observa a imagem do senhor à sua frente, era o bêbado da taverna. – Era algo que eu não deveria ter ignorado, mas fora tarde demais. Estava eu tão certo de meu destino que pensei não haver possibilidade de estar equivocado.
- O destino se confirma no caminho que trilhamos para evitá-lo. Por exemplo, se eu não tivesse ficado com você, talvez nada disso tivesse ocorrido, ou talvez o que ocorrera fosse até mais cedo.
- Ficado? Então, é por sua causa que crescemos sozinhos? É você Zasalem?
- Se ficasse, poderia não ter alterado em nada, filho meu, e talvez até tivesse de matar os dois. Eu não poderia suportar a ideia de ver meus filhos entre si a lutar em uma guerra de sangue. Mas eu nunca deixei de te acompanhar e zelar por vocês, fosse em sua expedição à serra dragônica, na floresta do sul, ou em seu confronto com a quimera na aldeia.
- Mas é meu pai! – Danael a este ponto já perdera a calma por completo. — Devia ter ficado!
- Pois se ficasse não resolveria em nada filho, talvez até tivesse de matá-los.
- Não resolveria? Eu não teria sofrido em vão tudo o que sofri.
Zasalem mantém a calma:
- Não fora em vão, eu enviei Horace, mandei que Ronan Rolix cuidasse de vocês, e agora ainda há, no reinar de teu irmão no reino dos vivos, um capaz de encerrar tudo isso, mas não sem a ajuda de um rei.
- E esse quem seria?
- Cacieri, o caçador.
E Cacieri, que agora estava ao lado de Davi, continuava desempenhando seu papel como conselheiro do rei, nunca se esquecendo da adaga que lhe fora dada, afinal, já se passaram dois anos desde a morte do rei dos caídos.
Cacieri observava, passara meses ao lado de Davi, e apesar das torturas e a grande escravatura, nunca vira reinado tão promissor quanto aquele. Em seus primeiros meses de reinado havia liberado passagens às áreas rasas do grande continente, feito acordo com a Grovandia, reino localizado próximo ao profundo rio; mandara também selar o poço que unia os campos Elísios ao reino dos vivos.
Poucos meses depois, no fim de seu segundo ano de reinado, durante uma tempestade, ao observar o mesmo raio que o havia levado a morrer nas garras da quimera anteriormente, Davi ordena que alguns de seus soldados atravessem a muralha que dividia o leste do oeste grancontinental em procura da lamina e, como já tivera enfrentado tal criatura outrora, encarrega Cacieri de liderar essa trágica excursão.
Cacieri observa o céu noturno durante a viagem e lembra de suas origens, se recorda do porquê de estar ali.
Nos campos Elísios, o rei dos caídos ouve atentamente um canto doce e poderoso surgindo por entre os pomares aurosos ou de aurum. A voz cantava alegremente a canção do guerreiro quebrado com destreza de um menestrel. A voz estridente que ecoava pelos pomos era conhecida de Danael, fazia-o sentir um misto de conforto, medo e uma leve insanidade. Essa voz não era escutada por ele há muito tempo, afinal, quando esta voz se silenciou, ela se tornou a silenciosa canção do sofrimento.
Leonor estava entre os pomos a cantar, ela já havia se vingado. Já havia feito-o sofrer, testado ele. Não necessitava mais de fazê-lo sofrer.
Danael ergue mais um pouco sua cabeça e ali estavam, amigos, inimigos, súditos, soldados, poetas, caçadores, caídos, camponeses, heróis, mercenários e bandidos. Eles aguardavam o seu imperfeito rei, seu rei de escolhas humanas. O rei dos derrotados, mortos e vitoriosos, da bondade e tristeza.
Os súditos do rei dos caídos o aguardavam se reerguer finalmente de sua melancolia.
Zasalem, porém, já sabia que o poço havia sido vedado após a morte de seus filhos, e, com um olhar frio, Artelas compreende sua mensagem.
Danael se levanta e, com sua amada de guia, ele segue até a ponta do Tártaro.
Davi, durante a excussão de Cacieri que parte rumo ao leste, envia cartógrafos na mesma direção para manufaturar um mapa das áreas rasas e médias do leste continental. Porém, mesmo que não parecesse, seu plano possuía um significado aterrador, mais do que dominar o leste e rumar ao continente baixo. No entanto, antes ele precisaria dominar os reinos de Byron, Arkell, Winifreda e Charlton.
Ao atravessar os portões majestosos e mofados da grande muralha de granito que dividia os territórios selvagens e frios da região leste, mais uma vez Cacieri se recorda da visão de Martyn, o louco. E com o frio do novo território misturado às gotas molhadas do sereno do amanhecer, o faziam se sentir como na noite em que conhecera Davi e matara a quimera. Com tais lembranças em mente, ele se dirige aos seus homens e diz:
- O que enfrentaremos aqui não será nada que já tenham na sua vida enfrentado antes, e não estou falando sobre os bárbaros que são contra a anexação, estou falando de feras. Do caos, do frio e da fome.
Ditas essas palavras, eles atravessaram os portões, porém, ao se aprofundar as fronteiras, ambos os animais, contradizendo seus mestres, começaram a demonstrar resistência, e, vendo assim que não poderiam forçá-los, acabaram por deixando voltar de onde não deveriam ter saído.
Fale com o autor